Volume 6
Capítulo 1: Eliminando Um Por Um
Osaka Bay City — um projeto de planejamento urbano descartado no meio do caminho. Normalmente uma cidade fantasma, sem uma alma sequer à vista, seu símbolo de ruína — o Bay Dome — estava agora lotado com uma multidão incontável, todos ali para assistir ao Festival de Batalha das Sete Estrelas, o festival dos cavaleiros aprendizes do Japão.
“Foi você quem quis algo assim, um quatro contra um! Dê-nos um bom show, Princesa Carmesin!”
“É hora da Akatsuki nos mostrar do que é capaz também!”
“Não perca para eles, Mikoto-chan!”
O sinal de início para a quarta partida do bloco B — a luta com a regra sem precedentes de quatro contra um — já havia soado. A empolgação com essa irregularidade rapidamente levou a multidão ao delírio.
Mas esse sentimento limitava-se às arquibancadas. No centro daquele turbilhão de excitação, dentro do ringue, o coração de Tatara Yui ardia com uma emoção diferente.
Essa emoção era a fúria.
Como ela ousa me subestimar… Essa vadia!
Naturalmente, essa raiva era direcionada a Stella. Fora ela quem sugerira o quatro contra um. Em outras palavras, ela acreditava que poderia se colocar em desvantagem numérica e ainda assim ser capaz de derrotá-los. Deixando de lado a oponente original de Stella, Tsuruya Mikoto, que de qualquer forma teria desejado essa situação, aquele era um desenvolvimento favorável para eles. Estavam ali para dominar o SFestival de Batalha das Sete Estrelas. Mas para Yui, que fora forçada a subir ao palco, aquilo não poderia ser mais irritante — ser olhada de cima daquela maneira era insuportável.
Vou fazer você se arrepender de se achar tão superior...!
“Ei, Hiraga. Isso é uma partida oficial. Vão registrar como um acidente mesmo se eu matar minha oponente, não é?”
“Heh heh heh. Sim, é claro. Nosso cliente entenderá — afinal, Tsukikage também é um cavaleiro.”
“Hehehe. Então não vou pegar leve com ela!”
Tendo obtido o consentimento de Hiraga, que atuava como o supervisor da partida, ela exibiu um sorriso cheio de presas.
“Nada de se segurar desta vez! Coma até se fartar, Sweeping Centipede!”
Enquanto sorria, ela puxou o cabo de partida de seu Device em forma de motosserra, Sweeping Centipede.
As lâminas em formato de membros ganharam vida com um som que lembrava os gritos agudos e ensurdecedores dos que agonizam. Erguendo sua arma lamuriosa, Yui sulcou o ringue enquanto avançava em direção a Stella.
“—Yui Tatara, da Academia Akatsuki, está na ofensiva, um ataque forte e sem qualquer hesitação! Por outro lado, Stella Vermillion está... o quê—!?”
De repente, o comentarista ficou sem fala. O motivo estava nas mãos de Stella.
“Stella ainda não materializou seu Device! Qual é o significado disso!?”
Da mesma forma, um clamor percorreu as arquibancadas.
“Que diabos você está fazendo!? Saque sua lâmina!”
“Ei, o sinal de início já não soou? Será que ela não entende japonês?”
“Não, foi em inglês. Mas então, por que ela não sacou?”
Eles não entendiam por que Stella não havia empunhado sua arma para enfrentar a oponente. Mas, mesmo com essa dúvida pairando no ar, a batalha seguia a todo vapor. Com o corpo rente ao chão e os longos cabelos pretos rastejando atrás dela como uma serpente, Yui aproximou-se de Stella e, com um grito de—
“Morra!”
— mirou um golpe brutal na cabeça indefesa de Stella com a Sweeping Centipede.
Era um movimento amplo demais, um ataque direto demais — quase nenhum problema para Stella, que possuía um atletismo muito além do normal. Com um leve balanço para trás, ela se esquivou da serra que gritava.
“Gyaaaa!”
Mas Yui parecia imperturbável com a esquiva, empregando sua força em uma série de swings imprudentes. Sua técnica era desajeitada, uma esgrima que lembrava crianças brincando de samurai. No entanto, sua arma, a motosserra, fazia toda a diferença. Como uma lâmina movida por magia, não exigia técnica — até mesmo o mero toque daquela serra fatiava e estilhaçava o piso do ringue enquanto avançava contra Stella.
“Tatara está abrindo mão da defesa para uma ofensiva incrível! Empunhando sua Sweeping Centipede com vigor, ela ataca e ataca sem parar!”
Por mais bruta que fosse a esgrima, seria difícil escapar continuamente de tantos ataques. Stella precisava revidar com sua espada. Mas, apesar disso, ela ainda não havia convocado a Lævateinn.
“Tatara está com força total aqui! Ela persegue Stella, não lhe dando espaço para respirar! Que ataque prodigioso, é quase como um tornado! Sua técnica é bastante bruta e, por isso, há muitas brechas a serem exploradas... mas Stella continua de mãos vazias!”
“Uau! O tempo de reação ali foi muito arriscado!”
“A Tatara está começando a entender os movimentos dela aos poucos?”
“É assustador só de olhar! Depressa, saque logo sua espada!”
Sua oponente havia partido para o ataque total desde o sinal inicial e, ainda assim, Stella persistia em não sacar sua lâmina — suas ações enchiam o estádio com vozes de confusão. — O que diabos ela poderia estar pensando? — eles se perguntavam. Mas suas dúvidas seriam respondidas pelo homem no assento de analista — o ex-participante da Liga A do KOK, Muroto.
“Ela provavelmente está medindo o tempo de ataque da oponente.”
“Medindo... o tempo de ataque?”
“Na terceira partida do bloco B desta manhã, Tatara enfrentou Niidome, da Rentei. O golpe de machado dele foi repelido por uma força invisível, e ela aproveitou o enorme recuo para cortá-lo e assim derrotá-lo. Sua habilidade é definitivamente a reflexão de força — um poder de combate incrivelmente potente. Alguém poderia deixar uma brecha enorme e acabar se autodestruindo se simplesmente atacasse de forma imprudente... e, dado o poder ofensivo de Stella, não bastará apenas chamar isso de uma brecha.”
Afinal, a Noble Art de Tatara Yui, Total Reflect, era uma habilidade que crescia em proporção direta ao poder da força ofensiva de seu oponente. Se a força excepcional de Stella fosse refletida, não seria estranho ver seus braços estilhaçados.
“Em todo caso, é preciso contornar o processo de reflexão para derrotar Reflectors como Tatara Yui. Sendo assim, a estratégia de Stella, de observar o tempo de sua oponente enquanto não materializa seu Device nem permite que a adversária leia seus próprios ataques, é a correta.”
“Em outras palavras, ela pretende esconder suas cartas até o último momento, antes de derrotar Tatara com um único golpe, antes que ela possa usar sua habilidade. Essa é a estratégia de Stella, estou certo?”
“É assim que eu vejo, sim.”
Sentado nas arquibancadas, o amigo de Stella, Arisuin, recordou um certo evento ao ouvir as palavras de Muroto.
“De alguma forma, ela me lembra o Ikki naquela época. Você se lembra, Shizuku?”
“Eu nunca esqueço nada sobre o Onii-sama. Você se refere à vez em que lutamos contra a Rebellion no shopping, não é?”
Aquilo fora antes das partidas de seleção da escola. Enquanto os quatro estavam no shopping, foram atacados por um grupo de saqueadores da Rebellion. O líder deles era um homem chamado Bischof, que possuía uma habilidade muito semelhante à de Yui.
“Naquela época, a Stella estava bem ao lado do Onii-sama — ela com certeza se lembra da estratégia dele por tê-la presenciado.”
Naquela ocasião, Ikki executara um corte que excedia a percepção de movimento de Bischof enquanto ocultava sua lâmina, rompendo assim sua reflexão. Evitar a reflexão usando um ataque de altíssima velocidade, que superasse a velocidade de reação do Reflector, era uma maneira eficaz — e, de fato, a forma correta — de lidar com um oponente desse tipo.
“No entanto, há um problema se a Stella quiser imitar o Ikki.”
“E qual seria esse problema?”
Perguntou a cavaleira de vestes brancas, Yakushi Kiriko, que permanecera com eles após assistirem juntos à partida entre Ikki e Moroboshi.
“Velocidade. Com certeza, a de Stella-chan é uma espada gigante que ostenta um poder destrutivo incomparável, mas sua rapidez está longe de se igualar ao Raikou (Thunderclap) de Ikki. Além disso, como a arma tem o comprimento da altura de um ser humano, o movimento do golpe precisa ser mais amplo. Eu me pergunto se ela realmente consegue produzir uma velocidade que rivalize com a do Raikou.”
Não, mesmo que ela fosse de fato capaz de tal feito, conseguiria ela realmente enganar a famosa assassina da Rebellion, a Unturning...? Tendo ele próprio feito parte da Rebellion sob o codinome Black Hand, Arisuin estava inquieto. E sua inquietação não tardaria a piorar, pois, enquanto perseguia Stella empunhando sua motosserra, Yui soltou uma risadinha.
Essa mulher idiota...!
Ela desprezava a futilidade e a tolice de sua oponente.
Bem, é claro que alguém não teria tempo de ativar sua habilidade se fosse derrotado antes de conseguir reconhecer o que está acontecendo. Essa é a linha de raciocínio correta, mas—
—Não ouse me colocar no mesmo saco que aquele moleque do Bischof. Eu fui criada em um clã de matadores que serviu à Rebellion por gerações — assassinos profissionais e comprovados!
Ela era diferente de Bischof, que havia seguido caminhos tortuosos apenas para seu próprio prazer. Yui fora criada para ser uma assassina. Não havia nada de bom ou mau nisso. O treinamento fora feroz: para treiná-la a ser capaz de usar o Total Reflect a qualquer momento e em qualquer lugar, seu próprio pai tentava matá-la constantemente desde os seus três anos de idade. Aqueles dias sem dormir, onde uma bala poderia voar em sua direção a qualquer instante, duraram dez anos, deixando-a com olheiras quase impossíveis de remover... e também com um foco e uma percepção de movimento suficientes para perceber cada bala em uma chuva de disparos. Assim, tiros, explosões, cortes e até mesmo as habilidades que os Blazers usavam — ela podia refletir qualquer ameaça, caçando seu alvo passo a passo, inexoravelmente, até que ele fosse eliminado.
Foi esse estilo de luta que lhe rendeu o apelido de Unturning. Seus olhos eram tais que ela fora capaz de perceber claramente a demonstração da esgrima de Edelweiss feita por Ikki. Portanto, era impossível enganar a Unturning. Independentemente de como alguém tentasse esconder sua agressividade, esperando por uma oportunidade para atacar — esse momento jamais chegaria.
E, de qualquer forma, não tenho motivo nenhum para dar corda a uma oponente que está sem opções!
“Rinna! Pegue ela!”
Yui rugiu com a voz rouca, chamando por uma jovem montada em um leão negro que havia conseguido rastejar por trás de Stella enquanto ela se ocupava em desviar dos golpes selvagens de Yui — a Beast Tamer Rinna Kazamatsuri.
“Não presuma que pode me dar ordens! Não preciso das suas palavras!”
Rinna rebateu, mas, apesar disso, agiu conforme Tatara desejava. Quando usava a coleira de subordinação, o Device de Kazamatsuri, seu leão, tornava-se capaz de utilizar uma Noble Art — neste caso, a manipulação do conceito de paralisação.
“Amedronte-se! King's Pressure!”
“Guuooohhhhh—!”
“Tch...!”
Uma explosão sônica atingiu Stella pelas costas, vinda diretamente de seu ponto cego. Com sua atenção atraída por Yui, ela não conseguiu evitar o golpe. Das mandíbulas escancaradas do leão, jorrou uma torrente de som que a atingiu em cheio, privando-a de toda a mobilidade.

“Ah! Isso é mau! Stella foi pega pela Noble Art da Beast Tamer, King's Pressure, a mesma que roubou de Komashiro, da Academia Bunkyoku, a capacidade de se mover na primeira rodada! Não há como Tatara deixar passar essa oportunidade crítica!”
“Vou acabar com você antes que sequer saque sua arma! Apenas continue acuada aí e morra!”
As lâminas da serra gritaram enquanto descreviam um arco horizontal em direção a Stella, incapaz de se mover devido ao King's Pressure, e atingiram em cheio sua cintura indefesa.
“Raaaahh!”
Com um golpe poderoso, Yui arremessou Stella para longe.
Então—
“King's Charge!”
— outro ataque veio como garantia. Era a investida de um leão fortalecido magicamente, uma fera que já possuía massa e força muito superiores às de um homem. Como tal, era de se esperar que Stella, pesando apenas o mesmo que uma garota normal, fosse jogada para trás com facilidade, quicando como uma bola de borracha para fora do ringue.
A força do impacto a lançou contra a parede de concreto logo abaixo das arquibancadas e, com um estrondo e uma nuvem de gesso, uma parte da alvenaria desmoronou sobre ela.
◆
“Um golpe certeiro! Tatara e Kazamatsuri com um combo limpo! Stella foi arremessada para fora do ringue — um dano terrível, terrível!”
“Uau... isso foi horrível!”
“...Ela morreu?”
As arquibancadas ficaram em silêncio ao testemunharem algo que, de certa forma, era mais grotesco do que um banho de sangue: um ser humano sendo disparado como uma bala.
Nesse estranho silêncio, o sistema de som iniciou a contagem regressiva. Se ela não conseguisse retornar ao ringue em dez segundos, seria considerada derrotada por ring-out.
“O corpo de Stella não pode ser distinguido, enterrado sob aquela pilha de poeira e escombros. Mas aquela parede deveria ser capaz de suportar um impacto direto de um canhão de tanque — o fato de estar quebrada diz muito sobre a gravidade do dano que ela deve ter sofrido. Será que ela conseguirá voltar ao ringue em dez segundos!?”
“Ei, ei, recomponha-se!”
“Eu estava todo empolgado para ver como seria a famosa Princesa Carmesim...”
“Um quatro contra um foi imprudência demais, afinal de contas! Ela foi atingida por trás tão facilmente!”
“Dá para ouvir o desapontamento nas arquibancadas! Não tem como evitar — quem poderia esperar que a Princesa Carmesim, uma das grandes favoritas para vencer tudo, estaria em tal perigo de derrota tão facilmente?”
Muroto balançou a cabeça diante dessas palavras.
“Não. De qualquer forma, isso não era inesperado. Pelo contrário, era algo natural.”
“O-o que quer dizer, Muroto-pro?”
“Estou dizendo que lutar sozinho contra múltiplos oponentes é difícil assim. Se formos pelos números, é um quatro contra um, mas se fatorarmos a diferença na quantidade de ataques, os tipos de táticas que podem surgir da mistura de habilidades e processos de pensamento, a diferença na força de batalha não segue apenas os números. Poderia ser cinco ou dez vezes maior que isso. A Princesa Carmesim pode realmente ser considerada um talento de um em um milhão, mas, apesar disso, essa desvantagem não é leve — o fato de ela ter sido atingida por trás tão facilmente é a prova. Além disso, este campo também é um problema.”
“Este campo, o senhor diz?”
“Sim. Como podem ver, o ringue do Festival de Batalha das Sete Estrelas é um círculo plano sem qualquer cobertura. Não há onde se esconder, nem onde ocultar os movimentos. Este ambiente favorece muito quem detém a vantagem numérica. O abismo de poder aumenta ainda mais quando se leva isso em conta.”
“Então, este resultado era esperado, quer dizer.”
Muroto assentiu levemente.
“É bom ter confiança, mas enfrentar quatro pessoas de uma vez é imprudência, pura e simples. Vermillion é uma brilhante Rank A, mas seus oponentes estão longe de serem fáceis.”
A Princesa Carmesim havia subestimado os terrores de uma batalha contra números. Shizuku fez uma expressão amarga enquanto ouvia a análise de Muroto de seu lugar nas arquibancadas.
“O que diabos aquela garota está fazendo!?”
“Shizuku...”
“Eu sou uma idiota — quando ela pediu com tanta confiança por aquela partida de quatro contra um, eu realmente esperava que ela tivesse ficado mais forte em seu treinamento com Saikyou-sensei. Ter confiança é uma coisa, mas ser descuidada a esse ponto não faz sentido!”
“De fato, ser pega de surpresa tão facilmente ali foi um descuido enorme.”
“Realmente...!”
Ela não pôde evitar dar vazão à raiva que borbulhava. Mas, de onde ela estava, essa raiva era normal. A namorada de seu irmão, Stella, havia tomado aquele lugar único no coração dele que Shizuku desejava... então ela simplesmente partiu sem aviso para algum lugar, deixando-o extremamente preocupado. Isso era difícil de perdoar, não importava o quê. E somando-se a isso, quem havia inventado as regras suicidas de quatro contra um que levaram a este resultado fora ninguém menos que ela mesma. Isso tornava tudo ainda mais difícil.
Mesmo tendo feito aquela promessa de encontrar seu irmão nas finais... mesmo com seu irmão tendo lutado por esse objetivo, superando um inimigo formidável...
“Se ela perder aqui... se ela trair a promessa que fez com o Onii-sama neste lugar,” Shizuku falou com veneno, suas pequenas mãos tremendo. “Eu mesma vou descer até aquele ringue e arrancar a vida dela com minhas próprias mãos!”
Kurono sorriu sem jeito ao lado delas, percebendo a seriedade na voz da garota.
Eu preferia que você não dissesse isso na minha frente — eu ainda sou uma professora, sabe?
Bem, ela sabia o quanto Shizuku amava seu irmão, Ikki, e por isso conseguia entender sua raiva diante do desempenho decepcionante da namorada dele. Se ela estivesse apenas falando da boca para fora, movida pela fúria, Kurono não a culparia.
“Mas você não deveria culpar a Vermillion demais.”
“...Por quê? Ela está se tornando o motivo de piada de todos ali embaixo.”
“Bem, se você tiver que culpar alguém por isso, teria que ser a mestre dela.”
“A mestre dela?”
A culpa por ter pedido um quatro contra um, mas não conseguir lidar com as desvantagens da batalha e ser pateticamente derrotada, não era de Stella, mas sim de Saikyou? Incapaz de compreender o raciocínio de Kurono, Shizuku refletiu por um momento.
“Você está dizendo que os métodos de ensino da Saikyou-sensei foram medíocres?”
Em resposta, Kurono exibiu um sorriso irônico — ou melhor, era o sorriso de quem sabia de algo, como se estivesse esperando que algo interessante acontecesse.
“Eu imagino que isso estava fadado a acontecer se ela tivesse conseguido passar até mesmo seus hábitos desleixados. Veja bem, aquele combo não atingiu a Vermillion porque ela foi descuidada, mas sim porque ela achou cansativo demais esquivar.”
“Eh?”
Naquele instante, aconteceu. Com um estrondo que ressoou por todo o estádio, um enorme pedaço de entulho que poderia pesar uma tonelada foi lançado para o céu, saindo de onde estava sobre Stella.
“O quê—!?”
Ao ouvir aquele som, os olhos de Shizuku voltaram para o ringue.
Naturalmente, quem o havia repelido fora Stella, que estivera enterrada ali embaixo. Tendo varrido os escombros sobre si com um soco direto para o alto usando seu punho direito, ela saltou levemente de volta para o ringue — bem a tempo da contagem de oito... e, sem um único arranhão sequer, fosse da investida ou do corte em seu estômago, ela casualmente limpou a poeira restante de seu uniforme.
E murmurou, como se tivesse compreendido algo.
“...Hmm. Então é só isso que vocês têm, hein?”
[Almeranto: Que isso… Tá de hack? Só falta ela perguntar se quer com ou sem Susano’o.]
◆
“—O-O quê!? Tendo recebido golpes diretos tanto do King's Charge quanto da Sweeping Centipede, Stella foi arremessada para fora do ringue! Na contagem de oito, ela retornou calmamente ao ringue — e, e... além de seu uniforme estar rasgado em vários lugares, ela não tem um único arranhão! O que diabos é isso!?”
Seu estado ileso deixou tanto o comentarista quanto o público em polvorosa. Mas Yui, que a havia atacado, já sabia qual era o motivo. Antes, quando seu golpe horizontal varreu o estômago de Stella, ela não sentiu a lâmina rasgar a carne em momento algum. As lâminas rotativas da Sweeping Centipede haviam fatiado o uniforme, mas falharam em penetrar a pele.
Por quê? O motivo era o poder mágico. Mais cedo, na batalha entre o Worst One e o Rei das Sete Estrelas, Moroboshi Yuudai havia se envolvido em uma armadura feita de seu próprio poder mágico para usar como barreira contra impactos. A eficácia de tais barreiras dependia da quantidade de poder mágico que seu usuário possuía. E o poder mágico da Princesa Carmesin, Stella Vermillion, podia ser considerado um dos melhores em todo o mundo; portanto, a barreira que ela erguia subconscientemente ao seu redor estava longe de ser comum, forte o suficiente para permitir que ela recebesse golpes potentes de Yui e Rinna de frente e, ainda assim, anulasse todo o dano que deveria ter sofrido.
Stella havia percebido isso e, por conta própria, parou de se esquivar conscientemente. Ela não sentia necessidade. Essa verdade feriu profundamente o orgulho de Yui.
“Sua desgraçada... o quanto você me subestimou para ficar brincando desse jeito...?”
Stella respondeu sem qualquer tom de desculpa.
“Não faça essa cara assustadora. Isso era inevitável. Afinal, minha oponente até ontem era a cavaleira mais forte da região Pan-Pacífica.”
Sendo honesta, Stella não era do tipo que humilhava intencionalmente seus oponentes. Eles estavam simplesmente em planos diferentes. Afinal, quem treinou Stella durante toda aquela semana foi uma das pessoas mais fortes do mundo, a Demon Princess, uma usuária de gravidade que ostentava um poder ofensivo tão ultrajante que podia puxar um meteorito de além da atmosfera a duas vezes a velocidade de escape. Assim, não importava o quanto tentasse, ela não conseguia sentir nenhum senso de perigo contra aquela oponente e, por não sentir perigo, tornava-se cansativo desviar de cada um dos ataques.
Quando Kurono disse que a culpa era de Saikyou, era a isso que ela se referia. No entanto, esse era apenas um dos motivos. Stella tinha outra razão importante para não resistir e permitir que Yui a atingisse.
“Além disso, eu queria confirmar algo antes de partir para a ofensiva.”
“Confirmar algo?”
“Sim. Eu queria ver em que nível de cavaleiros vocês estão.”
Ela não poderia pular essa etapa. Afinal—
“Se eu liberasse minha força total sem pensar, todos vocês poderiam morrer.”
“Tch...!”
Sim. Stella entendia. Ela compreendia a extensão de sua força. Se usada contra humanos, sua habilidade era nada menos que uma brutalidade gratuita, ao ponto de reduzir uma vida humana a cinzas com facilidade. Por isso, ela precisava estar ciente de contra quem lutava a todo momento, tomando cuidado para não queimá-los até a morte, mesmo que fossem inimigos odiados que feriram seus amigos.
“A Akatsuki nos deve uma vingança, e eu não descansarei até consegui-la. Não pretendo matar vocês.”
Ela não se sentia exatamente em paz com isso, mas acima de tudo—
“Mas... isso é porque não vejo valor em fazer isso por vocês. Vocês demonstrariam indiscriminadamente sua intenção de matar a qualquer um, mas existe apenas uma pessoa neste mundo que eu valorizaria enfrentar como uma cavaleira, um único oponente contra quem eu daria tudo de mim.”
Havia apenas um homem tão especial, capaz de inspirar tal sentimento e paixão em Stella a ponto de fazê-la abandonar a nobreza e combatê-lo com toda a sua força.
“É por isso que busquei certificar-me da força de vocês, ter certeza do seu nível — para que eu possa saber até onde devo ir para quebrá-los sem matá-los.”
A essa altura, ela já havia captado a essência da situação. Se ela se colocasse na "terceira marcha", provavelmente conseguiria lidar com eles. Mantendo isso em mente, ela finalmente materializou seu Device, Lævateinn.
“Vou atacar daqui em diante.”
Em um instante, uma onda de calor ondulou ao redor dela, distorcendo o próprio ar. Era uma presença avassaladora, como se o sol do verão tivesse se aproximado da terra — a presença de uma cavaleira nada comum.
Mas Yui não estava intimidada.
“Interessante. ...Venha para cima então, se você tem coragem!”
Com um rugido, ela se impulsionou do solo com toda a sua força e atacou Stella pela terceira vez, sem se importar com o fato de que seu ataque anterior não causara dano algum. Será que seu sangue havia esquentado demais, fazendo-a esquecer esse fato? Não. Ela era bem treinada. Nascida uma matadora. Aprendera a manter a cabeça fria em meio a emoções intensas. Certamente ficou surpresa por seu golpe certeiro não ter causado dano, mas o mundo dos Blazers era cheio daqueles que desafiavam a lógica comum. Encontrar um Blazer que não pudesse ser ferido por ataques diretos não era raro. Afinal, ela própria pertencia a essa categoria.
Havia maneiras de contornar isso. Ela já entendia como.
Minha lâmina não consegue, mas a sua é uma história diferente, não é!?
Nesse caso, ela só precisava refletir o ataque. Sua arrogância, seu golpe, o poder mágico incomum que alimentava aquele ataque — tudo. Mesmo alguém como a Princesa Carmesim não sairia ilesa após ter sua força total refletida de volta contra si mesma. Seus braços certamente ficariam inutilizáveis, e uma vez ferida a esse ponto, Yui poderia lidar com ela à vontade.
Para que isso acontecesse, ela precisava permitir que Stella atacasse primeiro. Portanto, Yui avançou reta como uma flecha, atraindo aquele ataque de força total.
“Então, vou aproveitar.”
Em resposta ao seu esquema, Stella a encontrou diretamente, avançando para diminuir a distância entre elas com a Lævateinn empunhada em sua mão direita, enquanto mirava um golpe diagonal descendente no ombro de Yui.
Essa reação foi exatamente como Yui pensara. Se esse golpe fosse repelido pelo Total Reflect, Stella provaria do próprio veneno. Mas, bem no momento em que ela estava prestes a ativar o Total Reflect—
Ah—?
— ela sentiu algo estranho. Seus anos de experiência como matadora a avisaram de que algo estava errado.
Já que a Sweeping Centipede não podia causar dano, Yui pretendia usar o Total Reflect para compensar. Isso deveria ser óbvio. Então por que Stella ainda empunhava sua espada para cortar, como uma tola?
Era uma armadilha — essa era a única razão possível. Ao ouvir com atenção, o som da lâmina assobiando no ar estava suave demais. Aquele golpe tinha velocidade, mas não havia força por trás dele. E, desde o início, a arma de Stella era uma espada longa. Empunhá-la com apenas uma mão já era, por si só, estranho.
Nenhum dano será causado mesmo se eu refletir isso; vai apenas me empurrar para trás, no máximo. O lado direito é apenas uma finta. O golpe real vem da esquerda—!
Com olhar atento e mente rápida, Yui percebeu tudo com precisão: que, sob a sombra da lâmina descendente, um punho armado aguardava. Stella provavelmente tinha este plano em mente: quando Yui usasse o Total Reflect naquela lâmina que descia, isso empurraria seu lado direito para trás e, simultaneamente, seu flanco esquerdo seria projetado para frente, enviando seu punho esquerdo contra o lado de Yui em velocidades além de sua capacidade de reação. Era um plano que levava até mesmo suas habilidades e seus efeitos em consideração.
E é um bom plano, mas isso não significa droga nenhuma se eu já saquei o truque!
O jogo virou a partir do momento em que ela percebeu a armadilha. O caçador agora era a caça.
Para esse fim, Yui seguiu o roteiro de Stella à risca. No instante em que suas lâminas se encontraram, ela projetou sua barreira de reflexão a partir do corpo, distorcendo o vetor do golpe de Stella e repelindo-a. E, naquele mesmo momento, Stella moveu-se exatamente como Yui antecipara. Usando a abertura criada pela reflexão de sua lâmina, ela desencadeou seu ataque surpresa, seu ás escondido: um soco no fígado.
Sua oponente, atraída por aquela abertura, havia colocado toda a sua força naquele soco. Aproveitando o momento, Yui reativou o Total Reflect. Aquele era um golpe que havia tomado emprestado tanto a força de Stella quanto a força rotacional que ela redirecionara da reflexão inicial em seu lado direito para dar mais potência ao seu ataque da esquerda. Disso, certamente, seu punho, talvez até todo o seu braço, seria estilhaçado. Tendo se comprometido com a abertura, Stella não podia retrair o punho também.
Tendo visto tudo, com sua oponente dançando na palma de sua mão, os lábios de Yui se curvaram para cima em uma diversão sombria.
Crack
Com o som de carne e osso se quebrando—
“Gah... hak—!”
O punho esquerdo de Stella — aquele punho que deveria ter sido refletido — enterrou-se profundamente no flanco de Yui.
“E uma já foi.”
◆
O corpo de Tatara, tendo recebido o golpe poderoso de Stella em seu flanco, dobrou-se ao meio pela cintura e, com um jato de saliva e sangue, desabou sobre o chão do ringue.
[Almeranto: Ela virou um L ou impressão minha?]
“Um acerto direto com um soco potente no fígado! Tatara cai de cara no ringue. Ela não está se movendo! Não está se levantando! Ela está nocauteada! Com apenas um único golpe, Vermillion derrubou sua oponente!”
“Uau! Esse som foi super assustador!”
“Ela está dobrada naquele ângulo bizarro de noventa graus... que tipo de força braçal a Vermillion tem?”
“As arquibancadas também estão abaladas pelo poder do punho de Vermillion! Mas, do meu ponto de vista, Tatara aparentemente percebeu o estratagema dela e ativou o Total Reflect naquele punho esquerdo oculto... então, como Vermillion conseguiu evitar o Total Reflect?”
Quem respondeu foi Muroto.
“Ela não fez nada desse tipo.”
“Eh!?”
“Olhe para a mão esquerda dela.”
Ao ver a mão esquerda de Stella por sugestão de Muroto, o comentarista não pôde evitar um grito.
“Is-isso...! Isso é horrível! A mão esquerda de Stella está toda dilacerada, quase como se tivesse sido retorcida por um saca-rolhas! Mas, então isso significa que...”
“Sim. A Princesa Carmesim não evitou o Total Reflect. Como Tatara previra, o Total Reflect de fato estilhaçou sua mão esquerda — ela certamente acertou em cheio ali... exceto por um detalhe. Ela não esperava que a Princesa Carmesim fosse prosseguir e atingi-la com aquele braço estilhaçado, sem qualquer consideração pelo ferimento!”
Seres humanos são extremamente propensos a baixar a guarda quando veem que tudo está correndo conforme o planejado. Yui não foi exceção à regra. Quando viu que havia quebrado a mão de Stella como planejado, ela sorriu. Aquele sorriso tornou-se sua ruína. Stella estava visando exatamente aquele momento. Girando sobre os pés, ela concentrou toda a força daquele punho — junto com o poder do Total Reflect — naquele golpe.
Não havia nada de belo naquele movimento. Foi um avanço através da força bruta. Mas, mesmo com o braço destruído a tal ponto, Stella ainda deixou Yui inconsciente com um único ataque. E foi usando um golpe no corpo, com o qual normalmente é difícil nocautear uma pessoa.
Ela é louca...!
Parada e testemunhando tudo aquilo no mesmo ringue, a estudante do terceiro ano da Academia Hagun, a Icy Scorn Mikoto Tsuruya, estava abalada.
Ela é forte demais...!
As técnicas de Yui, suas táticas... todas foram subjugadas por aquela força física de nível estratégico. E isso sem mencionar sua vontade, inabalável diante da lesão que ela mesma receberia.
Um corpo forte, uma mente forte e a astúcia para usá-los bem. Ela era simplesmente uma joia.
Eu nem sequer me comparo a ela....
Mas ela precisava vencer. O Festival era um torneio de eliminação — nem uma única derrota poderia ser tolerada. Nem mesmo se, como se brincasse com ela, o destino tivesse enviado a pior oponente possível para sua partida da primeira rodada. Foi por isso que ela tomou emprestada a força da Akatsuki sem qualquer vergonha e, agora que já tinha ido tão longe, a derrota era uma noção ainda mais inaceitável. Seu orgulho não permitiria que ela aceitasse esse resultado, não importa o quê.
Além disso, se eu conseguir passar por aqui, poderei dominar todo o Bloco B...!
Foi com essa confiança que ela incentivou seu coração vacilante.
“Não se preocupe. Nós venceremos.”
Uma afirmação morna, quase sem entusiasmo, foi proferida atrás dela. O dono daquela voz era o homem sinistro, vestido como um pierrô — o Jester da Academia Akatsuki, Reisen Hiraga.
“...Você quer dizer que tem algum tipo de plano contra um monstro que nem se fere após receber um golpe direto de um Device?”
O tom dela era ríspido; a aura de desconfiança que ele exalava o tornava bastante desagradável. Mas ele não pareceu se importar, soltando, em vez disso, uma risada gutural.
“Haha. Embora seja de fato surpreendente que um acerto direto da Sweeping Centipede da Yui tenha falhado em realizar qualquer coisa... no fim, aquilo foi apenas o efeito do próprio poder mágico. A Princesa Carmesim não é uma Blazer focada em defesa e, por isso, quebrar sua barreira de magia é simples. Meu próprio trunfo deve ser capaz de nos garantir a vitória em um único golpe.”
“Bem, certamente teria sido útil se você o tivesse usado antes.”
Reisen balançou a cabeça.
“Embora eu tivesse gostado muito de fazê-lo, é lamentável que esta Noble Art exija algum tempo.”
“Então você não pode usá-la.”
“Hah. Sinto-me envergonhado. No entanto, se pudermos resistir até lá, asseguro-lhe que meu trunfo a esmagará com facilidade. Portanto, se não for incômodo, poderia me ganhar um pouco de tempo até que eu tenha completado as preparações para minha técnica? Nós da Akatsuki nos livraríamos da incômoda Princesa Carmesim, enquanto você passaria por esta primeira rodada infernal — é para nosso benefício mútuo que nos ajudemos agora, como pessoas do mesmo time, não é?”
Mikoto respondeu com silêncio e um franzir de sobrancelhas descontente. Era a voz dele. Havia desprezo em cada palavra que ele dizia, como se estivesse zombando do mundo e de tudo nele. Isso a enojava; apenas ouvi-lo a irritava profundamente.
Mas, por outro lado, ele tinha razão. No momento, estavam lutando do mesmo lado. A cooperação seria o curso de ação eficiente. Além disso—
Eu não tenho meios de vencer a Stella, mas esse cara diz que tem.
Apenas por esse motivo, ela não tinha razão para recusá-lo.
“Entendo. Mas — não posso garantir que isso vá correr bem.”
“Quanta timidez.”
“Se eu tivesse confiança, não teria precisado contar com a cooperação de gente suspeita como você e sua laia.”
Dito isso, ela colocou a palma da mão esquerda sobre o olho direito e a deslizou para revelar um monóculo — o Device da Icy Scorn Mikoto Tsuruya.
“Terminaram a conversinha em segredo?”
Mikoto assumiu uma postura e, além da borda de seu monóculo, estava o olhar nivelado da cavaleira de olhos carmesim, seus cabelos vermelhos deixando rastros de chamas.
“Você esperou por nós de propósito?”
“Sim. Eu me atrasei desde o início e depois — embora tenha sido com o acordo de vocês — fiz com que aceitassem meu desejo de desabafar minha raiva. Sinto muito por isso... então serei mais gentil com você.”
“Isso é atencioso da sua parte. Eu me pergunto se você poderia, atenciosamente, ceder esta partida?”
“Hahaha. Eu gosto da sua cara de pau, Tsuruya-san, mas isso é impossível. Afinal, esta luta é muito importante para mim.”
“É mesmo? Não tem jeito então.”
“Sim. Receio que o serviço de cortesia termine aqui. Estou indo agora. Se quiser desistir, quanto antes melhor. Eu não vou recuar minha lâmina depois de golpeá-la!”
Com isso, Stella deu o impulso inicial e avançou em direção a Mikoto.
“Tch—!”
Aquela personificação da violência, que derrubara Yui sem pensar em seu braço destruído, estava agora se aproximando com aquela espada gigante em sua mão boa. Vindo para destruí-la. Nada de bom resultaria em receber aquele golpe. Ele provavelmente faria com que todas as dores que ela sentira até agora parecessem meras cócegas. Ela poderia até morrer. O medo que perfurou o coração de Tsuruya poderia paralisar sua mente.
Mas, mesmo assim, ela era uma das oito melhores do ranking nacional do ano anterior. Ela era parte da elite do Japão. Ela não recuaria nem demonstraria medo. A magia que ela liberou de seu monóculo — uma visão rara entre os Devices — era uma que podia reduzir instantaneamente a temperatura de uma área selecionada em sua visão ao zero absoluto.
“Satin Ice!”
Uma luz ofuscante, envolta em uma mortalha gélida e cortante, disparou do monóculo. A especialidade dessa magia era o fato de seu efeito ser ativado instantaneamente ao focar em um alvo. Em outras palavras, essa magia viajava no que era, efetivamente, a velocidade da luz. Em uma fração de segundo, a temperatura ao redor de Stella despencou abaixo do ponto de congelamento, chegando até o zero absoluto. Mesmo o nitrogênio líquido, bem conhecido por ser capaz de congelar objetos instantaneamente, atingia apenas cerca de -200°C. Nenhum humano poderia permanecer ileso ao ser exposto a temperaturas ainda mais baixas que essa. Isso os congelaria até a medula — com o coração parando muito antes disso. Não importava os termos em que se falasse sobre ela — velocidade de ativação, alcance ou poder de parada — era uma habilidade de primeira classe. Com ela, Mikoto poderia bater de frente com qualquer um dos poderosos no Festival de Batalha das Sete Estrelas.
Isso era verdade. Apenas uma pessoa—
“Empress Dress.”
— a usuária de fogo mais forte do mundo, era a exceção. Transformando a totalidade da atmosfera completamente congelada em vapor sob um calor extremo, ela fez com que tudo se dissipasse diante das vestes de chamas revoltas que a envolviam.
“Como eu pensei, é assim que as coisas seriam, hein.”
Na verdade, Mikoto sabia que terminaria dessa forma. Satin Ice era, em sua forma mais simples, a manipulação de temperatura. Os usuários de fogo, por outro lado, podiam aumentar as temperaturas, tornando difícil para essa técnica vencê-los. Se essas duas habilidades colidissem, a diferença entre a vitória e a derrota residiria na capacidade mágica de cada indivíduo. Nisso, a Princesa Carmesim Stella Vermillion era inigualável e, como tal, Mikoto não teve chance desde o início.
Mas ela conseguiu atrasá-la, apenas por um momento.
E isso é mais do que suficiente para cumprir meu papel!
“Despedaça meus inimigos, Sphinx!”
“Gooohhhh!”
Tendo esperado nas laterais, longe de Stella, Rinna agora aproveitou a pausa momentânea nos movimentos dela e atacou com o King's Pressure.
Sim. Um momento era o suficiente. Se ela apenas parasse Stella por um instante, Rinna poderia desferir um golpe limpo com o King's Pressure, tornando-a imóvel. O leão saltou em perseguição imediata, visando a cabeça dela. Mais cedo, seu golpe não causara dano — aquilo deve ter sido um golpe e tanto em seu orgulho como o Rei das Feras, pois, mesmo sem as ordens de Rinna, ele abriu bem a boca, preparando-se para esmagar a cabeça de Stella entre suas mandíbulas colossais. Mesmo Stella não poderia sair ilesa ao ser estraçalhada por um leão tão grande quanto um elefante e fortalecido por magia como aquele. Se desse certo, isso decidiria a batalha.
Mas, mesmo enquanto essa fraca expectativa florescia dentro de Mikoto—
“Gaaaooohhh!!!”
— Stella soltou um rugido repentino que abalou a terra, direcionado ao leão negro que a Beast Tamer comandava.
O leão parou abruptamente bem no momento em que estava prestes a atacá-la. Como se ele próprio estivesse sob o efeito do King's Pressure.
“S-Sphinx!? O que há de errado!?” Rinna repreendeu a fera diante de sua desobediência repentina. “Por que você parou!?”
Mas, ainda assim, o leão não se moveu. Por quê? A resposta era simples. Animais selvagens conviviam muito mais de perto com a morte do que os humanos. O forte devorava o fraco. Era assim que aquele leão vivera muito antes de Rinna domesticá-lo. Por isso, ele entendia, não podia evitar reconhecer a visão que pairava atrás daquela jovem mulher.
Aquela visão era a de um imenso dragão alado.

A garota de cabelos carmesim diante dele era, de longe, um predador superior. Não havia como intimidá-la, pois como poderia um mero felino amedrontar um dragão?
Assim, ao encontrar um predador cujas capacidades superavam em muito as suas, os animais selvagens escolheriam fazer apenas uma coisa: fugir.
“Meeeooowww—!”
“Eh!? Eek—!”
“Santo Deus! O que é isso!? O leão que deveria ser controlado pela coleira de subordinação da Beast Tamer, tendo sido derrotado pela intimidação de Stella, fugiu literalmente com o rabo entre as pernas, deixando sua mestra na mão! E, neste exato momento, Vermillion ataca a indefesa Kazamatsuri!”
Mais uma vez, Stella brandiu sua espada apenas com a mão direita enquanto colocava todo o seu peso em um golpe diagonal. Era um movimento amplo que dependia apenas do ímpeto, mas, tendo sido derrubada de cima do leão, Rinna caíra de costas. Não havia como ela esquivar. A mesma mão pesada de Stella que derrubara Yui com um único golpe caiu sobre Rinna, atingindo não apenas ela, mas também colapsando uma parte do próprio ringue.
Era, sem dúvida, um golpe mortal. Mas Stella não esperou para ver o resultado. O motivo disso foi uma voz que ecoou de dentro da nuvem de poeira levantada por aquele impacto explosivo.
“Nem em meus sonhos, Princesa Carmesim, pensei que durante estes jogos de salão eu seria forçada a me apoiar em minha mão direita favorita e, assim, trazer à tona minha cavaleira manchada pelo pecado e marcada pela queda — aquela cuja forma foi abençoada por poderes sombrios: as Artes de Selamento do Rei Amaldiçoado!”
“Minha senhora quer dizer: ‘Obrigada, Charlotte, você me salvou!’. Não, não, minha senhora, não precisa me agradecer. Sou sua empregada pessoal e também sua espada e escudo.”
Enquanto o vento levava a poeira embora, a visão de todos no ringue tornou-se clara. A lâmina de Stella falhara em alcançar Rinna. Com o chão sob seus pés quebrado e rachado, a empregada de avental, Charlotte Cordé, estava parada entre Stella e sua mestra...
...tendo parado a Lævateinn com apenas um único dedo indicador.
◆
“—O-O quê!? Isso é mau! Uma Blazer vinda das arquibancadas interveio, vindo em auxílio de Kazamatsuri!”
“Aquela não é a empregada que está sempre com ela?”
“É falta! Árbitro, pare a luta!”
A entrada súbita da estoica empregada deixou todo o domo em polvorosa. Assim que o árbitro interrompesse a partida, eles aguardariam o julgamento do comitê organizador. Esse era o procedimento, mas—
“O-O que está acontecendo aqui?” O comentarista gritou desacreditado. “O árbitro não parou a partida!”
Mas havia um motivo para isso, é claro.
“Naturalmente. Nenhuma regra foi quebrada, afinal.”
“Muroto-pro, como assim?”
“Olhe para o pescoço daquela garota.”
Assim que ele disse isso, as câmeras do domo deram um zoom no pescoço de Charlotte e, conforme a imagem era transmitida nos monitores gigantes, todos entenderam o que Muroto quis dizer.
“Is-Isso é... de fato a mesma coleira de subordinação que o leão da Beast Tamer usava! Então isso significa que...!”
“Sim. E, assim como aquele leão, aquela garota se tornou o Device da Beast Tamer, a Blazer que controla os outros. Como tal, não havia razão para interromper o combate.”
“Bem, o papel de árbitro é ocupado por Cavaleiros-Magos experientes. Eles raramente deixam passar algo assim.”
Em primeiro lugar, Blazers eram capazes de detectar a magia ambiente ao redor de um objeto. A magia de Rinna permeava Charlotte, uma não-Blazer, exatamente como permeava o leão. Por isso, mesmo sem precisar olhar para a coleira, Stella sabia que ela era uma das peças de xadrez da Beast Tamer.
“Entendo... eu imaginei que você não fosse uma empregada comum, mas pensar que você era o verdadeiro Device da Rinna, o ás dela, hein.”
“Eu sou Charlotte Cordé. Estarei sob seus cuidados de agora em diante.”
Afastando a Lævateinn para trás com o dedo indicador, ela segurou as bordas de sua saia e fez uma reverência, cheia de elegância e graça. Mas, em vez de retribuir a saudação—
“Poupe-me das cortesias, se não se importa!”
— Stella brandiu a Lævateinn, atacando Charlotte mais uma vez.
“Floresça, Ichirin Junka!”
Com um tinido metálico e áspero, ela parou a lâmina novamente com a mão aberta. Ela seria feita de aço? Não, aquilo era um ato de magia. Aquela era a habilidade que Charlotte podia liberar graças ao Device da Beast Tamer Rinna Kazamatsuri, a coleira de subordinação, que podia transformar animais e não-Blazers em Blazers.
Stella percebeu isso nos dois golpes que trocaram.
“Tch... é como bater em aço. Parece que você bloqueou com as mãos nuas, mas se olharmos de perto, há um espaço de um milímetro entre sua pele e a lâmina. Então a habilidade que você é capaz de usar sob a influência da Rinna é a projeção de uma barreira defensiva.”
“Muito observadora de sua parte.”
Charlotte a elogiou sinceramente por ter acertado em cheio. Ao mesmo tempo, o espaço entre a lâmina e sua mão brilhou com um tom rosa-pêssego, formando um escudo em formato de flor.
“Você tem bons olhos, Princesa Carmesim, para ter sido capaz de desvendar minha habilidade após apenas duas trocas comigo. No entanto, você estava errada sobre uma coisa.”
“E o que seria?”
“Minha Ichirin Junka não é uma habilidade especializada em defesa.”
Então, repelindo a lâmina que havia aparado usando a Ichirin Junka—
“Espada de Flores — Ryuuzetsuran!”
Uma barreira em forma de lâmina formou-se em suas duas mãos, e ela lançou aquele corte em direção a Stella.
“Tch!”
Com a postura quebrada após ter sua lâmina repelida, aquele não era um ataque que Stella pudesse evitar normalmente. Porém, em um lampejo de inspiração, ela não tentou corrigir o equilíbrio; em vez disso, inclinou-se ainda mais para trás em um mortal, esquivando-se do corte de Charlotte.
Contudo, ela não escapou completamente. A lâmina atingiu seu rosto superficialmente — a pele que havia resistido à motosserra Sweeping Centipede sem uma única marca. E a investida de Charlotte não parou por ali. Como um cão de caça em frenesi, ela perseguiu Stella, que respondeu com um movimento horizontal de sua espada, pretendendo contra-atacá-la.
Agora, Charlotte poderia fazer duas coisas em resposta: parar seu avanço para desviar da lâmina, ou parar e usar a Ichirin Junka para bloqueá-la. De qualquer forma, ela teria que parar — e isso era o suficiente para Stella. No entanto, a resposta de Charlotte foi, literalmente, um nível acima. Ela alçou voo. Não foi um salto; em vez disso, a Ichirin Junka floresceu sob seus calcanhares enquanto ela subia pelo ar. Agora, diretamente acima de Stella, as pétalas daquela flor envolveram sua perna direita e, com um giro elegante, ela mirou um chute de machado diretamente na cabeça de Stella. Tendo errado seu corte horizontal, o braço direito e a lâmina de Stella estavam em uma posição de sobre-extensão, não lhe restando tempo para erguê-los e defender a cabeça. Não vendo outra escolha, ela espremeu toda a força que pôde no ombro de seu braço esquerdo quebrado, usando a parte superior do braço — um pouco menos danificada — para absorver o impacto do chute.
Mas esse golpe foi ainda mais brutal que os anteriores, quebrando facilmente os ossos de seu braço superior.
“Kuh!”
“Agora você entende? Desta forma, a resistência impenetrável que não cedeu um centímetro ao seu golpe torna-se uma lâmina delgada, e um martelo que golpeia com mais força que qualquer aço.”
Charlotte disse isso enquanto o rosto de Stella se contorcia pela agonia de ter seus ossos partidos. Era por isso que ela era tanto a espada quanto o escudo de Rinna. Mas Stella não era o tipo de mulher que seria domada por um ou dois ossos quebrados.
“Empress Dress!”
Embora aquele tivesse sido um golpe poderoso, Charlotte cometera um erro crasso. Usar manobras de combate corpo a corpo contra Stella que envolvessem contato físico era quase suicida. Convocando as vestes ígneas ao seu redor, ela elevou a potência ao máximo. As chamas subiram pelo seu antebraço e passaram para a perna de Charlotte, e então o corpo inteiro da empregada estava em chamas. As chamas de Stella também eram mágicas, e não diminuiriam a menos que ela as dissipasse, ou que ela mesma fosse dissipada da vida.
Assim, era um erro decisivo para um oponente permitir-se ser incendiado pelas mãos dela. E, no entanto—
...Não está funcionando!?
— essa lógica caiu por terra diante de Charlotte. Apesar de estar envolta nas chamas rugintes, sua máscara estoica não se quebrou. Sua barreira não apenas a protegia de impactos, mas era também sua égide poderosa contra o calor e a eletricidade. Envolvendo todo o seu corpo como estava, ela barrava completamente as temperaturas extremas da Empress Dress.
“Ah. Adicionalmente—”
Desprezando o contra-ataque de Stella, Charlotte continuou sua própria investida. Usando o braço esquerdo de Stella como plataforma, ela se lançou no ar.
“Eu também sou a arma dela.”
A Ichirin Junka materializou-se em dezenas de lâminas longas e elegantes que ela segurou entre os dedos em formato de leque antes de arremessá-las contra Stella.
Ela está usando a barreira como Shurikens...!
Stella já havia experimentado a afiação daquela barreira em primeira mão. Seria problemático se fosse atingida por elas.
“Yaaaaah!”
Julgando dessa forma, ela balançou a Lævateinn com toda a sua força, rechaçando a chuva de shurikens com a força de um estrondo sônico, criando um vendaval como se fosse um leque gigante.
Que braço de espada aterrorizante. Aquele golpe foi uma visão imponente. Mas então algo aconteceu que estava fora das expectativas de Stella.
Cerca de dez daquelas lâminas, enviadas voando para todos os lados, agora estavam cruzando o ar em direção às arquibancadas.
◆
“—U, uwaaaa! Isso é ruim! Tiros perdidos vindo para cá!”
“Todo mundo, corram!”
Muitos se levantaram de seus assentos ao verem os projéteis vindo em sua direção. Era uma reação natural; afinal, nenhum dos espectadores que não possuísse magia poderia resistir à Ichirin Junka, que fora capaz de ferir até mesmo alguém protegida por uma magia tão poderosa quanto a de Stella.
“Por favor, não saiam de seus lugares.”
Uma voz autoritária ecoou, detendo aqueles que haviam se levantado.
“Vocês estarão em maior perigo se se moverem.”
O Festival de Batalha das Sete Estrelas era um evento que exibia magos modernos empunhando poderes sobrenaturais. Já havia medidas em vigor para garantir a segurança da multidão e eliminar riscos. Havia cavaleiros magos poderosos aguardando estrategicamente por todas as arquibancadas para derrubar tais disparos perdidos. E a pessoa designada para aguardar na área prestes a ser bombardeada pela Ichirin Junka era a World Clock Shinguuji Kurono, a Diretora da Academia Hagun e uma Cavaleira-Maga Rank A.
Materializando a pistola prateada Ennoia, ela nivelou o cano em direção às dez lâminas que se aproximavam.
“Clock Draw.”
Um único disparo ecoou. Sim, apenas um — mas foi o suficiente para garantir que nem uma única lâmina alcançasse as arquibancadas, sendo todas derrubadas em pleno ar.
“Eh!? O que foi aquilo?”
“É o seu movimento marca registrada, o Clock Draw. Parando o tempo por um instante, ela usa esse intervalo para atingir seu alvo com uma chuva de balas! Olhem para os pés dela!”
“Uwa, é sério! Olhem para aquela montanha de cápsulas!”
“Incrível!”
A técnica brilhante de Kurono foi recebida com aplausos das arquibancadas e, em meio ao bater de palmas—
“Como esperado da cavaleira que originalmente ocupava o terceiro lugar na Liga KOK, hein.”
Era uma voz gentil, e uma que Kurono reconheceu assim que ouviu. Virando a cabeça, ela pôs os olhos em um jovem de cabelos negros que se aproximava enquanto também aplaudia. Era o Worst One, Kurogane Ikki.
“Suas habilidades não enferrujaram nada desde os seus dias de serviço ativo.”
“Ha. Não houve motivo para ficarem cegas, só isso. Isso faz parte do nosso trabalho como professores, afinal.”
Com sua resposta, os amigos de Ikki também perceberam seu retorno.
“Ikki!”
“O-Onii-sama! Como estão seus ferimentos?”
“Estou bem agora, Shizuku. O médico na enfermaria usou magia para tratar minhas feridas agora pouco.”
“Você não usou uma Cápsula, mas pediu para pessoas te curarem com magia?” Kiriko contraiu os lábios, como se estivesse fazendo bico. “Você poderia ter apenas pedido, e eu teria feito isso por você.”
Ikki coçou a cabeça, sem jeito.
“Bem, você ainda tem uma partida mais tarde, Yakushi-san. Eu não poderia pedir um favor desses.”
Por mais que ela se considerasse uma médica antes de ser uma cavaleira, ia contra toda a lógica comum um cavaleiro usar magia deliberadamente para fins pessoais antes de uma partida.
“Mas Onii-sama, você não usou o Ittou Shura durante sua luta? Não dói só de ficar de pé?”
“Bem, não posso dizer que não seja difícil, mas estou mais preocupado com esta partida. Eu me sentiria pior apenas ficando deitado lá.”
Dizendo isso, ele se posicionou ao lado de Kurono antes de olhar para o ringue. Para a partida em que sua amada, que prometera encontrá-lo nas finais, estava lutando. Sentir que ele precisava assistir era normal. Entendendo os sentimentos de seu irmão, Shizuku conteve suas palavras de preocupação com a saúde dele e não o pressionou.
“A propósito, Kurogane, o que você acha da luta até agora?”
“Bem, até agora tudo parece estar correndo como o esperado. A Icy Scorn sempre teve elementos opostos aos de Stella e não era páreo em termos de magia. E embora Reflectors sejam de fato o pesadelo de tipos focados em poder como a Stella, ela não é o tipo de cavaleira que seria contida por apenas uma técnica. No entanto...”
Enquanto respondia, seus olhos se voltaram para a extremidade do ringue, onde o Jester Reisen Hiraga permanecia assustadoramente imóvel, mantendo distância de Stella.
“Parece que as coisas podem ficar complicadas a partir daqui — aquele homem está emanando uma aura sinistra. Eu não diria que sei o que ele está fazendo, mas sinto uma quantidade bizarra de foco. O melhor seria derrubá-lo antes que ele termine o que quer que esteja preparando.”
Todos os presentes concordariam com Ikki. Eles podiam sentir a aura estranha de Reisen. Mas não era só isso. De sua visão privilegiada, era possível ver todos os movimentos dos combatentes. Estava claro como o dia que, incluindo Mikoto Tsuruya, todos no campo da Akatsuki estavam se movendo para defendê-lo. Ele era o ás deles, sem dúvida alguma. Nesse caso, o melhor seria cortar o mal pela raiz o mais rápido possível. Esse era o consenso silencioso de todos, e certamente passava pela cabeça de Stella também.
“No entanto, isso parece que será difícil.”
“O que quer dizer com isso, Diretora?”
Kurono apontou em resposta à pergunta de Arisuin.
“Olhe.”
Lá, na borda das arquibancadas, havia um objeto cintilante cravado profundamente no concreto.
Era uma das lâminas da Ichirin Junka que ela havia derrubado usando o Clock Draw.
“Eu a derrubei em um lugar onde não há ninguém, mas veja. Não há um único arranhão nela — isso é uma resistência antinatural. Eu nunca conheci um usuário de barreira tão bom assim, nem mesmo na Liga A da KOK Pode ser da Vermillion que estamos falando, mas romper isso apenas com a mão direita será difícil... na verdade, aquela empregada pode até ser capaz de bloquear o ataque mais forte da Vermillion: o Karsalitio Salamandra.”
A inquietação de Kurono estava, infelizmente, certíssima.
◆
“Vermillion ataca repetidamente, mas sem sucesso! Ela é incapaz de romper a defesa assustadoramente formidável do trunfo da Beast Tamer Rinna Kazamatsuri, Charlotte Cordé! Na verdade, os contra-ataques de Cordé estão minando sua ofensiva pouco a pouco!”
“Se o braço esquerdo dela estivesse utilizável, ela provavelmente conseguiria enfrentar essa barreira, mas não pode usá-lo para segurar sua espada agora. A Princesa Carmesim está em uma situação difícil.”
Exatamente como o comentarista e o analista haviam dito, os ataques de Stella até agora falharam em abrir uma brecha na guarda da Ichirin Junka. Por outro lado, os contra-ataques consistentes de Charlotte a estavam desgastando. Qualquer um podia ver que a partida não estava indo bem para ela. Os ombros de Stella caíram enquanto ela suspirava.
“Ora, ora... você realmente é ultrajante de tão resistente. Todos aqueles cortes não serviram de nada. Parece que, como esperado, nada resultará de usar apenas uma mão.”
Ações improdutivas sugavam o espírito tanto quanto, ou até mais que o corpo, e um espírito exausto carecia de força. Ao ouvir o tom fraco de Stella, Charlotte sentiu certeza de que a batalha estava em suas mãos. Mais um pouco. Só mais um pouco e aquela cavaleira cairia. Não havia necessidade de esperar até que a Noble Art do Jester estivesse pronta.
“Certamente. Proteger minha senhora é a razão da minha existência — a razão de eu ser tanto espada quanto escudo. Sua espada não a alcançará, Princesa Carmesim. Enquanto eu estiver aqui, enquanto eu respirar, você não chamuscará um fio de cabelo da cabeça dela.”
“Quanta lealdade. Eu não desgosto disso.”
Charlotte não respondeu ao elogio de Stella. Mesmo que não tivesse dito nada, Charlotte entendia que sua lealdade era um sentimento que não perderia para nada no mundo. Ela jurara viver por aquela jovem adorável, Rinna Kazamatsuri, desde o dia em que Rinna a resgatara daquele lixão. Ela daria tudo, do topo da cabeça à sola dos pés, por Rinna. E ela dera tudo de si. Jamais saindo do lado da garota, ela varria todo o perigo para longe dela. Se ela desejasse um gato, ela seria esse gato. Se ela desejasse um cão, ela seria esse cão. Tendo feito tudo isso, ela ficara frustrada ao extremo quando a jovem mestre começara a manter Sphinx como animal de estimação, tanto que teve vontade de ensopá-lo para o jantar.
Mas então, a jovem mestre me disse: “Você deveria ser apenas um ser humano. Eu ficaria bastante preocupada se minha mão direita fosse um gato, então, por favor, pare de comer comida de gato de quatro patas.”
Dizendo isso, ela devolvera a Charlotte as roupas que ela havia descartado para se tornar um gato.
Ahh, minha senhora, minha senhora! Como a senhorita é gentil!
Pensar que Rinna a valorizava tanto — ela, que tinha uma origem tão baixa que não era melhor que um cão ou um gato. Era por isso que ela dava tudo de si, para retribuir às expectativas dela. Sua lealdade era firme como uma rocha — não perderia. Ela não perderia.
Essa era sua crença. Esse era seu orgulho.
“No entanto... sinto muito, mas é impossível para você.”
Disse a cavaleira de cabelos vermelhos diante dela. Era quase como se ela estivesse sentindo piedade.
“O que você quer dizer com impossível?”
“Você não será capaz de proteger sua mestra.”
Charlotte riu de Stella.
“Ora, isso é estranho. Você diz tais coisas e, no entanto, estava impotente contra minha Ichirin Junka. Você mesma admitiu que não havia nada que pudesse fazer, não admitiu? Falar com tanta audácia agora, sem qualquer fundamento, não pode ser chamado de nada além de impróprio, não?”
“Nossa, você parece ter esquecido de algo importante, senhorita empregada. Eu disse que não podia fazer nada... com apenas uma mão, isto é.”
Naquele instante, a Empress Dress que a envolvia subitamente começou a exibir um comportamento estranho, concentrando suas chamas em torno de um único ponto — seu braço esquerdo, que havia sido quebrado e imobilizado pelo Total Reflect de Yui.
O que ela está fazendo?
Charlotte não conseguia compreender o significado por trás das ações de Stella.
Mas logo, algo ainda mais distante de sua compreensão ocorreria. De alguma forma, naquele calor abrasador, aquele braço que deveria estar estilhaçado começou a se mover!
“O quê—!”
O braço retorcido recuperou sua forma reta; os dedos esmagados formaram um punho e depois o abriram. E de novo. E de novo.
As chamas então se dissiparam, e Stella segurou a Lævateinn com sua mão esquerda antes quebrada. Uma espada gigante como aquela, que sempre fora destinada a ser empunhada com as duas mãos, estava agora sendo usada dessa forma. Isso não deveria ser possível com um braço partido. O fato de ela conseguir significava que havia curado aquele braço.
E, no entanto, uma usuária de fogo como Stella não podia usar magia de cura. Então como—? Algo passou pela mente de Charlotte, algo imprudente, incoerente. Sua voz soou quase sofrida.
“Poderia... poderia ser que você usou suas chamas para derreter e soldar seus ossos quebrados de volta no lugar...!?”
Stella não respondeu. Ela apenas sorriu em triunfo. Aquele sorriso dizia tudo. Era exatamente isso — ela havia derretido o cálcio em seus ossos quebrados e os unido novamente. E agora, com ambas as mãos restauradas, nada mais a detinha.
[Almeranto: Isso é absurdo… mas nessa obra o absurdo vira balela.]
“Perfurem os céus, ó fogos do purgatório—”
Segurando sua espada no alto, ela ativou sua Noble Art mais poderosa. Um pilar de fogo carmesim irrompeu da Lævateinn, queimando o céu; sua chama incomparável tornou-se azul à medida que ficava cada vez mais quente, até finalmente perder toda a coloração — tornando-se luz. Uma lâmina de luz de cinquenta metros de comprimento, com a qual incineraria impiedosamente tudo em seu caminho.
“Então, o que você vai fazer, senhorita empregada? Meu Karsalitio Salamandra está prestes a cortar sua mestra atrás de você. Você não é uma representante — eu não a perseguirei se você fugir, sabia?”
“Tch!”
A pressão que as palavras de Stella exalavam pesava fortemente sobre as costas de Charlotte. Ela sabia. Aquele era seu aviso final. Se ela não se retirasse, a Princesa Carmesim desceria aquela lâmina sagrada de luz, forjada por seu direito de nascimento de magia antinatural, sobre ela sem hesitação.
Ela era impotente diante de algo daquela ordem. Mas—
“Tolice!”
Ela não recuou. Postando-se à frente de Rinna para protegê-la, ela declarou sua resolução.
“Eu já disse. Você não vai tocá-la!”
“Muito bem!”
Como dois pistoleiros do Velho Oeste ao meio-dia, elas se moveram como uma só.
“Karsalitio Salamandra!”
“Floresça brilhante — Senben Junka!”
Seus golpes se encontraram — e uma tempestade furiosa de luz nasceu, como se fosse varrer tudo no Domo em seu rastro.
Stella lançou sua lâmina de luz e calor para fatiar Charlotte e Rinna atrás dela ao meio. Charlotte respondeu, despejando todo o seu poder mágico em um escudo inexpugnável que superava a Ichirin Junka em três ordens de magnitude para proteger sua mestra.
Seus golpes se encontraram—
— e uma tempestade furiosa de luz nasceu, como se fosse varrer tudo no Domo em seu rastro.
◆
“Haaaaaa!”
“Aaaaaaahhh!”
“O escudo de Cordé, que resistiu aos ataques repetidos de Vermillion até agora, agora enfrenta a fúria desenfreada da Noble Art mais forte de Vermillion no centro do ringue! Essas magias ferozes sopram descontroladamente pelo Domo, o poder de sua mana transbordante é evidente! A lança mais afiada e o escudo mais duro batalham furiosamente, nenhum cedendo um centímetro... a vitória ainda está em aberto!”
E, no entanto, não existia tal igualdade entre lança e escudo na vida real. Uma lança que perfurasse tudo não poderia coexistir com um escudo que bloqueasse tudo. Um deveria triunfar. E como se para provar esse ponto, a força por trás daquela aura de luz começou a destruir aquele equilíbrio delicado.
É... pesado... tão quente...
Quem estava sendo empurrada para trás era Charlotte. A Senben Junka de mil pétalas estava começando a murchar e perder pétalas sob a pressão implacável do Karsalitio Salamandra. E conforme o escudo começava a falhar, também falhava sua capacidade de bloquear o calor emitido por aquela Noble Art. Com borbulhos nauseantes, o chão começou a derreter e ferver. Pele e cabelo começaram a escurecer e carbonizar. Apesar do fato de seu escudo estar resistindo à lâmina em si, a energia que ela emitia tinha esse tipo de poder.
Que força ultrajante.
A este ritmo...
Seu escudo seria rompido. Charlotte gritou, em um esforço final para proteger sua mestra.
“Minha Senhora! Recue!”
Mas—
“Eu recuso.”
Sua mestra, a Beast Tamer Rinna Kazamatsuri, envolveu a cintura dela com os braços por trás, encostando-se em suas costas.
“M-Minha Senhora, o que a senhorita está fazendo!?”
A expressão normalmente controlada de Charlotte deu lugar à angústia diante das ações incompreensíveis de sua mestra. Rinna, por outro lado, apenas deu um sorriso confiante.
“Eu disse ‘Eu recuso’. Minha leal serva, não há necessidade de fugir. Pois aquele que está diante de mim é Charlotte Cordé, minha serva mais capaz, minha mão direita da noite mais profunda, que jurou fidelidade a mim. Você não cairá — estou errada?”
E ela a segurou ainda mais forte. Através do contato, Charlotte pôde sentir aquele calor, aquela confiança absoluta.
“...Sim, minha soberana!”
De sua alma, ela derramou mais poder. Com um som lamurioso, o brilho retornou à desmoronante Senben Junka. Pétalas que haviam murchado sob a luz abrasadora ergueram-se fortes novamente, bloqueando mais uma vez o calor. E com isso, finalmente, apesar de seu estado deplorável, a Senben Junka de Charlotte repeliu a Noble Art da Princesa Carmesim.
“E... a Senben Junka triunfa! Ela consegue resistir por um triz à espada mais forte da Cavaleira Rank A Stella Vermillion, o Karsalitio Salamandra!”
“Ugh...”
Com o suor escorrendo pelo rosto, Charlotte caiu de joelhos, as mãos mal a sustentando. Seu cabelo estava crespo e frito. Seus ombros doíam e sua respiração vinha em arquejos irregulares. Ela estava no seu limite. Mas, mesmo assim—
Eu... consegui proteger—
Sim — ela havia defendido com sucesso sua mestra do impacto total do trunfo de Stella Vermillion. Sentir o calor e os batimentos cardíacos de sua mestra atrás dela trouxe um sorriso aos seus lábios. Ela havia cumprido os desejos de sua senhora. Não poderia haver alegria maior do que aquela. Era algo indescritível, aquele senso de realização, aquela euforia.
Mas isso se transformaria na mais negra desesperança em um instante.
“Karsalitio Salamandra.”
“Não... pode ser...”
Charlotte viu.
A cavaleira de cabelos de chama produziu uma segunda lâmina de luz, nem um pouco inferior à primeira em poder esmagador, sem perder o fôlego, antes de golpeá-la para baixo.
Ela pode lançar ataques consecutivos de tal poder... tão rápido!?
“É por isso que eu disse que é impossível para você.”
Sinceramente, Stella sentira desde o início que seria difícil quebrar a defesa de Charlotte em um único golpe. Mas o que isso importava? Se um golpe não era suficiente, então ela simplesmente atacaria com dois, três golpes, um após o outro. A Princesa Carmesim tinha, afinal, reserva suficiente para lançar doze ataques consecutivos do Karsalitio Salamandra.
Por outro lado, Charlotte não conseguia espremer nem mais uma gota de mana.
“Charlotte!”
“Minha... Senhora—”
Incapaz de resistir, ela foi devorada por uma aura de fogo de dragão.
◆
“—É... é um acerto direto! Tendo esgotado todas as suas forças para defender um único golpe do Karsalitio Salamandra, Cordé foi naturalmente incapaz de fazer qualquer coisa contra ataques consecutivos do mesmo! Junto com a Beast Tamer, ela desaba impotente!”
“Não acho que elas se levantarão novamente. Mesmo que o fizessem, as duas não teriam condições de lutar, para começar — foi necessário tudo o que tinham apenas para bloquear aquele primeiro golpe.”
“E essa foi a segunda.”
Tendo estilhaçado o escudo mais forte de Charlotte com facilidade, Stella agora voltava sua atenção para Icy Scorn e o Jester enquanto a contagem regressiva terminava. O escudo que ficava entre eles e a investida de Stella não existia mais. Não havia para onde fugir. Uma vez que o Jester, que ainda mantinha aquela aura sinistra ao seu redor, fosse derrotado, esta partida estaria terminada.
“Parece que você não conseguiu terminar a tempo.”
Stella falou suavemente, e o Jester Reisen Hiraga respondeu com um sorriso que quase rachava seu rosto de orelha a orelha.
“Não? A senhorita Cordé fez um trabalho exemplar. Graças a ela, meus preparativos foram todos concluídos.”
Então aconteceu. Uma sombra foi projetada sobre toda a extensão do Domo.
“Eh? O céu escureceu de repente?”
“Tá brincando! Eu não trouxe guarda-chuva... espera, o que é aquilo!?”
Um após o outro, as pessoas começaram a exclamar enquanto olhavam para o céu escurecido. Isso era inevitável, pois as sombras que haviam obscurecido os céus não foram projetadas por nuvens, mas por escombros que agora caíam do alto, despencando no ringue um a um como se fossem atraídos por alguma força inominável.
“O-o que é isso!? De repente, prédios, carros e até trens estão começando a cair no ringue! Foram trazidos por um tornado!?”
Não. De fato, a quantidade e o conteúdo dos escombros eram semelhantes aos de um tornado que tivesse varrido uma cidade, mas se fosse um fenômeno natural, tal ocorrência antinatural — como não ter um único pedaço de entulho caindo nas arquibancadas, mas sim todos se reunindo no ringue — não teria acontecido.
Aquilo era obra humana. Especificamente, o trabalho do Pierrô que ria zombeteiramente do caos semeado por todo o Domo — o trabalho de ninguém menos que Reisen Hiraga. Estendendo seus fios para além dos terrenos do Domo, ele havia recolhido detritos ao longo da costa, carros sucateados e até trens não tripulados, trazendo-os para dentro do ringue.
Com que propósito? Isso ficaria claro em breve.
“O-O quê!? A montanha de escombros que caiu dos céus está agora se fundindo! Essa forma... é um humano!? Está tomando forma humana! A massa de entulho está se combinando como se atraída por um ímã e formando a figura de um humano gigante!”
Aquilo é...!
Ikki e Stella, de seus respectivos lugares nas arquibancadas e no ringue, reconheceram aquilo. Eles já tinham visto antes, naquele dia chuvoso em Okutama!
Aquela Noble Art que usava fios para juntar objetos inanimados em um gigantesco fantoche de cordas—
“Deus Ex Machina. Heh, é como um robô gigante. Legal, não é?”
Totalmente formado, o fantoche de escombros erguia-se a cinquenta metros de altura — este era o trunfo do Jester Reisen Hiraga.
◆
Encarando o gigante de escombros que havia surgido no ringue, Stella estalou a língua.
“Como eu imaginava. Eu já suspeitava há algum tempo... era você lá no acampamento de treinamento.”
“Hahaha, você cuidou muito bem dos meus bonecos naquela ocasião.”
A voz de Hiraga ressoou de algum lugar dentro do gigante de pedra. Em algum momento durante a formação dos escombros, ele havia entrado ali. De fato, aquele boneco controlado por dentro era exatamente como um mecha.
“A Raikiri me deu um trabalho danado naquela vez, mas o Deus Ex Machina é definitivamente diferente daqueles montes de lama. Nem mesmo a Princesa Carmesim seria capaz de resistir a um único golpe com tamanha massa por trás dele!”
Assim, o trunfo de Reisen, agora totalmente formado, iniciou seu ataque contra Stella. Empunhando em seu braço esquerdo — uma combinação retorcida de concreto e tubos de aço — oito vagões de trem amarrados para formar um chicote, ele o descarregou sobre a cavaleira carmesim no ringue. O poder daquele golpe era tal que não se limitava a esmagar um único ser humano; ele despedaçou o próprio ringue e sacudiu o Domo até seus alicerces.
“Forte demais! O ringue foi estilhaçado pelo chicote de trens do Deus Ex Machina! Um quarto dele foi completamente varrido, levantando uma nuvem de poeira impressionante! Será que a Vermillion está bem?!”
Ela não poderia estar. Sendo feitos de aço inoxidável, os vagões eram um pouco mais leves — mas, ainda assim, pesavam toneladas. Uma única chicotada daquelas reduziria um humano a pedaços irreconhecíveis. No entanto...
“Certamente, eu estaria acabada se isso me atingisse. Mas esse chicote do seu boneco é lento. Não vai me acertar de jeito nenhum!”
Naquele instante, um raio de luz vermelha perfurou a cortina de fumaça e poeira — ninguém menos que Stella Vermillion, a cavaleira trajada em chamas. Ela havia escapado do chicote de trens com facilidade e, aproveitando a nuvem de poeira criada pelo impacto, saltou com um grande impulso sobre o braço direito do Deus Ex Machina, correndo em direção ao ombro em um único fôlego. Com um só golpe, ela decepou a cabeça da criatura, um amálgama de um chassi de caminhão pesado e diversos detritos ao redor.
Arrancada de sua base, a cabeça despencou no chão, provocando um barulho metálico ensurdecedor enquanto se estilhaçava como vidro — caminhão, semáforos, cilindros de gás propano vazios e tudo o mais. Stella pousou em meio aos escombros que jaziam pateticamente espalhados.
“Este é o boneco que você passou tanto tempo tentando criar enquanto eu lutava contra aquela empregada, mas vou mandá-lo de volta para o ferro-velho em apenas um minuto.”
Stella declarou com um sorriso confiante. Aquela era a sua vitória.
“Haha, hahaha!”
Reisen riu com escárnio.
“O que é tão engraçado?”
“Não, não é nada. Eu apenas acho que você está terrivelmente enganada. O Deus Ex Machina estava pronto muito antes de você começar a lutar com a Cordé-san. O que eu levei mais tempo preparando foi outro boneco.”
Naquele exato momento, Stella, que estava convicta de sua vitória, sentiu uma pressão enviar um calafrio por sua espinha. Seria a pressão do mestre de marionetes dentro do Deus Ex Machina? Não. Era diferente. Essa pressão vinha de trás, não da sua frente.
O que é esse sentimento...?
Ela não sabia dizer, mas de uma coisa tinha certeza.
Perigo!
Seguindo seu instinto, ela saltou do chão com todas as suas forças, impulsionando-se para frente sem qualquer preparação, no exato momento em que o local onde estivera anteriormente congelava por completo.
“Este poder é...!”
Havia apenas uma pessoa ali capaz de fazer toda a umidade do ar congelar, criando aquela flor de gelo desabrochando.
“O Satin Ice da Icy Scorn... tsc!”
Lá, na direção de onde Stella sentira aquele calafrio, estava a estoica e imóvel Mikoto Tsuruya. E seus olhos de morte brilhavam com uma chama de magia branco-esverdeada, diferente de tudo o que Stella já vira nela anteriormente.
◆
A luz nos olhos de Mikoto instantaneamente se transformou em magia. Seguindo sua linha de visão, pilares de gelo semelhantes a espadas irromperam do chão, cruzando o espaço entre ela e Stella, como se pretendessem congelar tudo pelo caminho.
“Mais uma vez, Tsuruya parte para a ofensiva, lançando ataque após ataque com o Satin Ice contra Vermillion, que, por sua vez, está se mantendo fora do campo de visão de Tsuruya! A mobilidade da Princesa Carmesim também é de primeira classe! No entanto, por que ela está se esquivando tão desesperadamente? O Satin Ice foi presa fácil para o Empress Dress anteriormente!”
“Não é... o mesmo de antes. A técnica em si está várias vezes mais forte. Veja, até onde eu sei, a Icy Scorn só é capaz de congelar um espaço esférico de cerca de 3 metros de diâmetro no ponto focal de sua visão. Mas, agora, ela está congelando tudo o que vê. O poder de sua Noble Art está em um nível totalmente novo. Que ela estivesse escondendo tal trunfo na manga... é chocante. Uma Noble Art como esta pode ser capaz de congelar até as chamas da Princesa Carmesim!”
Enquanto Muroto falava, a oportunidade que Mikoto esperava surgiu. Stella vinha se esquivando com passos velozes, mas era difícil continuar desviando de uma Noble Art que poderia atingir a velocidade da luz. Quanto mais ela se esquivava desesperadamente, mais sua percepção situacional diminuía, até que se viu cercada de ambos os lados pelas paredes de gelo criadas pelo Satin Ice.
“Oh, céus! Stella foi acuada em um beco sem saída enquanto falamos! Será que acabou?!”
Travando a mira em Stella, privada de qualquer rota de fuga, a luz do Zero Absoluto explodiu.
Mas Stella não era do tipo que caía sem lutar.
“Haaaa!”
Envolvendo a Lævateinn com seu Empress Dress, ela criou uma lâmina de fogo que golpeou o olhar de Hades para o lado.
“E-Ela o repelio com sua espada! Como esperado, a Princesa Carmesim não cairá tão facilmente!”
“Ainda assim, olhem para o seu Device—!”
“Hein...?”
Ao olharem para a Lævateinn seguindo a deixa de Muroto, o comentarista e a plateia ficaram paralisados em silêncio.
“I-Isso...! O que é isso? O Device de Vermillion, a Lævateinn... está congelado!”
“Ei, ei, agora, vocês estão falando sério?!”
Exclamações de espanto preencheram as arquibancadas do Domo. O Device de um usuário de fogo poderia ser comparado ao núcleo de um sol, e congelar algo de temperaturas tão singularmente altas era algo totalmente fora do comum. A própria Stella estava bastante abalada com essa reviravolta.
Você deve estar brincando...
Cercando a lâmina com chamas imediatamente, ela tentou descongelá-la—
“Não... não está funcionando! O gelo não derreteu nem um pouco, apesar de suportar o fogo de Stella! Que poder!”
Minhas chamas serem incapazes de derretê-lo...!
Mesmo sentindo um suor frio escorrer, ela lançou um olhar afiado para a deusa da morte à sua frente.
“Você é uma pessoa inesperadamente terrível, Tsuruya-san, por ter escondido tal poder.”
Seu tom sarcástico disfarçava um elogio genuíno, mas Mikoto não reagiu. Mikoto não precisava dos elogios de um inimigo... ou assim Stella pensou a princípio. Ao observar sua expressão, Stella sentiu que algo estava errado. Ela achou que Mikoto exibiria um sorriso confiante por ter superado sua oponente desprevenida com seu poder... mas ela não o fez. Não havia luz em seus olhos. Nenhuma força sustentando seu corpo. Uma aura doentia a rodeava.
Era como se... sim, ela parecia um boneco...
“O que eu levei mais tempo preparando foi outro boneco.”
Ela percebeu uma possibilidade aterrorizante.
“Hiraga, você não pode ter—!”
“Heh heh heh. Sim, eu fiz.”
E ela estava certa. Quando Reisen Hiraga falara de "outro boneco" anteriormente, ele se referia a Mikoto Tsuruya, que estivera ao seu lado o tempo todo. Enquanto Stella estava ocupada com Charlotte, e sem o conhecimento da própria Mikoto, o Device de Reisen, Black Widow, havia entrado por seu ouvido, infiltrando-se em seu cérebro e sistema nervoso — tomando o controle de seu corpo e usando-a como sua marionete.
Este era o verdadeiro trunfo do Jester Reisen Hiraga.
“Marionette. Esta técnica dificilmente poderia ser chamada de sofisticada, mas, por esse mesmo motivo, ela também é poderosa.”
Sob o efeito da Marionette, alguém não se tornava apenas um lamentável boneco vivo. Ao invadir diretamente o cérebro e assumir o controle dos sinais elétricos que ele enviava, Reisen podia facilmente remover certas travas — como o instinto humano de autoproteção — e, assim, forçar a vinda do verdadeiro limite da habilidade daquela pessoa. Essa era a razão para o imenso aumento de poder que Mikoto havia ganhado.
[Almeranto: É tipo um Ittou Shura.]
“Mas, lamentavelmente, os humanos não conseguem suportar o próprio poder total.”
Reisen disse isso suavemente e, como se em resposta, sangue começou a minar dos olhos de Mikoto.
“Tsuruya-san...!”
“Se você continuar com essa luta inútil, ora, os olhos dela podem simplesmente explodir. Bem, neste ponto ela ainda poderia ser curada facilmente, mas meus fios penetram profundamente em seu cérebro. Ela era uma completa estranha, sem nada a ver com a rivalidade entre nós e você... uma garota tão bonita. Com uma vida tão longa pela frente. Você não acha que seria uma pena para ela viver como um vegetal pelo resto de seus dias?”
“Você está me ameaçando?”
“Exatamente.”
“Seus aliados, pelo menos, colocaram o orgulho em jogo para me enfrentar de forma justa. Você não pretende fazer o mesmo, não é?”
“Não, nem um pouco.”
“...Tsc...!”
Stella mordeu o lábio com força. Ela sabia agora. Esse homem, Reisen Hiraga, era diferente de Yui e dos outros. Ele era a maldade pura.
Stella era da realeza. Ela sabia que a moralidade era algo frágil e maleável. Se visto de um ângulo diferente, o objetivo da Rebellion de criar uma utopia para Blazers poderia ser interpretado como "bom". A definição de "mal" e de "pessoas más" também se resumia apenas a isso.
Mas este Pierrô era diferente. Deleitar-se na dor dos outros, extrair diversão de seu sofrimento — ele era verdadeiramente mau. Absolutamente mau.
“Eu acredito que você está enganada. Não estamos aqui em nome da glória. A vitória é tudo o que desejamos. É um assassino de segunda categoria aquele que barganha sobre os meios. Um profissional cumpre suas ordens. Portanto, eu não vacilo. Eu não hesito. Eu não demonstro piedade. E agora que você entende isso suficientemente, Princesa Carmesim… O que. Você. Fará?”
Seus sussurros não conseguiam esconder sua alegria sombria, e o próprio som deles acendeu um fogo no ventre de Stella que poderia explodir a qualquer momento. Mas não importava o que ela fizesse... não havia outra escolha.
“Vira-lata vulgar.”
Ela cuspiu o insulto e, sem pensar duas vezes, descartou a Lævateinn. A arma caiu no chão do ringue com um estrépito metálico—
“Hyaaaaa!”
—exatamente no momento em que o chicote do Deus Ex Machina atingiu Stella em cheio.
◆
Tudo conforme o planejado.
Enquanto o chicote de trens do Deus Ex Machina descarregava golpe após golpe sobre Stella — que, tendo descartado sua espada, permanecia imóvel no ringue —, o Jester em seu interior, Reisen Hiraga, tinha a certeza da vitória. Na verdade, seria mais preciso dizer que ele estava certo de seu triunfo desde o momento em que a partida começara. Quando ela sugeriu aquela penalidade imprudente, atraindo os membros da Akatsuki para o ringue, ele percebeu imediatamente que a intenção dela era se vingar pelo ataque anterior à Academia Hagun.
Enfrentando conscientemente uma batalha difícil pelo bem de seus amigos feridos. Hehe, que belo. Esse coração bondoso dela é digno de respeito.
Aquele espírito orgulhoso e alma gentil eram—
—Tão fáceis de controlar.
Curiosamente, ele podia manipulá-la como quisesse sem o uso de seus fios. Apenas palavras foram necessárias. Uma pessoa tão bondosa, certamente, jamais sacrificaria uma inocente como Mikoto Tsuruya para atingir seus próprios fins. Usando Mikoto como refém, ele faria Stella abandonar sua espada e perder a vontade de lutar — este era o cenário escrito em sua mente desde o início. E Stella havia caído em sua armadilha.
“O chicote de trens do Deus Ex Machina atinge o chão repetidamente! Será que a Vermillion está bem? A nuvem de poeira que se levanta está tornando difícil ver a situação no ringue! De forma igualmente inexplicável, Vermillion soltou sua espada pouco antes de Hiraga começar o ataque! O que exatamente ela pretende fazer, abandonando sua arma dessa maneira?!”
“Seja o que for que ela pretenda, esta situação é perigosa.”
Os juízes ao redor do ringue pareciam sentir o mesmo — eles buscavam uma abertura para interromper a luta. Vendo as circunstâncias, Reisen desferiu mais um golpe e parou. Ele sentira a sensação do trem atingindo a carne através das cordas que percorriam cada fresta do gigante de escombros. Ela não poderia estar se esquivando como antes. Portanto, aquilo era o suficiente. Ele não pretendia matá-la, de qualquer forma. Se os juízes vissem Stella colapsada e estirada no chão do ringue, certamente encerrariam o combate.
Assim ele pensou e, com a interrupção de seus ataques, a nuvem de poeira começou a se dissipar.
“A poeira baixa... o que aconteceu com a Vermillion—?!”
O comentarista parecia se perguntar se ela estava bem, mas interrompeu a fala bruscamente — e, no instante seguinte, cada espectador estava de boca aberta, em choque; o mundo parou enquanto todos esqueciam de respirar.
Por quê? Seria pela quantidade copiosa de sangue fluindo de uma cratera cavada no ringue? Não. Era por causa daquela que estava sobre a poça de sangue: embora o líquido escorresse em filetes por sua cabeça, Stella não se curvara. Ela estava de pé, ereta como uma estátua, enquanto encarava o Deus Ex Machina.
“Inacreditável! Vermillion! Ela não evita nem se defende, mas recebe aquele massacre sem sair do lugar! Sua resistência está em um nível totalmente novo!”
Os golpes haviam estilhaçado o ringue e revirado o solo abaixo, mas a resistência de Stella era tal que ela sequer vacilou. Até mesmo Reisen se viu embasbacado.
“Você é estupidamente resistente. Mas esta partida já foi decidida, então por que não se deita silenciosamente?”
Sua voz soava um pouco entediada. Stella inclinou a cabeça para o lado.
“Decidida? Do que você está falando?”
“O que você está dizendo? Você não largou sua espada?”
Sim. A partida fora decidida ali mesmo. Stella não poderia fazer nada com Mikoto sendo usada como refém. Esse era o cenário.
Mas essa era apenas a conclusão a que Reisen chegara após avaliar Stella Vermillion como uma cavaleira. Um pouco de tempo se passou antes que Stella parecesse balançar a cabeça em compreensão—
“Seu idi~ota.”
Seu rosto manchado de sangue se contorceu em um sorriso, zombando dele do fundo do coração. O fato de ela ter descartado sua lâmina não fora uma demonstração de rendição diante das ameaças de Reisen com Mikoto.
“Eu soltei minha espada, minha alma como cavaleira, apenas porque não desejava cortar um cão como você com ela. A espada de um cavaleiro é destinada a uma batalha honrosa — minha alma jamais me perdoaria se eu a usasse em um homem como você. Eu não queria usar esta técnica, já que ela requer o apoio de outras pessoas. Mas vou mostrá-la a você como um agrado especial.”
Enquanto ela falava, todos viram — incluindo o próprio Reisen. Algo que, até aquele momento, apenas um animal perceptivo seria capaz de enxergar: a imagem daquele dragão carmesim de chamas, agigantando-se sobre o gigante de escombros. Como uma manifestação da aura de domínio que Stella exalava, ele não existia de fato. Mas para que o acúmulo da magia de Stella exalasse uma pressão tamanha a ponto de materializar tal visão, a técnica não poderia ser algo comum.
“Já que a Tsuruya-san e os outros estão aqui, usarei apenas o dorso da minha espada. Então vá em paz — e direto para o inferno!”
Stella respirou fundo, e Reisen sentiu seu pulso acelerar bruscamente. Seus instintos moldados no submundo o alertaram do perigo — se ela tivesse permissão para terminar o que estava fazendo agora, as coisas ficariam feias. Ele os seguiu sem hesitação.
“Marionette!”
Através dos fios da Black Widow que ele havia enterrado no cérebro de Mikoto, ele deu a ordem para usar o Satin Ice. O comando foi executado prontamente e, assim controlados, os olhos da Icy Scorn congelaram Stella em um bloco sólido.
Mas o pulsar do dragão não cessou. Dentro daquele caixão congelado, olhos carmesins brilharam com fúria. O dragão rugiu.
“Bahamut Howl!”
Então, a cor fugiu do mundo. Não, estava além da capacidade humana perceber cores dentro daquele redemoinho de luz e chamas. Surgindo de Stella em todas as direções e em lugar nenhum ao mesmo tempo, a energia engoliu o Deus Ex Machina, a marionete Mikoto e, por fim, todo o ringue, parando a poucos centímetros da plateia conforme uma parede invisível detinha seu avanço, antes de subir aos céus em um pilar de glória.
Vinte segundos se passaram — e quando a luz ardente, tão brilhante que era impossível de encarar, desapareceu, não restava nada. O próprio ringue havia derretido, sua grama transformada em cinzas, o solo atingido e enegrecido como as terras devastadas de uma era primordial.
No epicentro, o Deus Ex Machina parecia em péssimo estado: seu corpo de lama e concreto havia quase todo se desfeito em poças derretidas, restando apenas um esqueleto carbonizado de metal, que desabou no chão, chacoalhando sem vida ao cair.
◆
Reisen notou a superficialidade de seu raciocínio com amargura enquanto caía junto aos escombros carbonizados.
“Ora, ora. Isso foi um fracasso, hein?”
Aquele grito de guerra, aquele poder de antes havia envolvido todo o ringue. Se ela o tivesse usado desde o início, a partida teria terminado ali mesmo. Em outras palavras, se assim desejasse, ela tinha a habilidade de encerrar o combate de forma unilateral. Ela não o fez, no entanto, e havia uma única razão para isso: o Bahamut Howl era poderoso demais. Sua área de efeito não se limitava ao ringue de cem metros de largura. Tinha o poder de consumir todo o Bay Dome e até mesmo a cidade fantasma ao redor. Tal coisa não deveria ser usada nem mesmo em forma fantasma, já que a forma fantasma era inofensiva apenas para humanos, mas o calor incontrolável daquela técnica teria destruído completamente os arredores.
Para utilizá-la, ela precisava do mencionado "apoio" a fim de manter seu poder dentro do ringue. De fato, esta era uma técnica que, desde a sua concepção, exigia a ajuda de terceiros. Usá-la em uma batalha que se orgulhava do honroso combate um contra um não era o seu estilo. Por isso, ela não havia recorrido a isso, escolhendo continuar lutando sem depender do auxílio de outros.
Mas o próprio Reisen havia afrontado esse estilo, cruzando a linha ao usar a Marionette para ameaçá-la. No momento em que isso aconteceu, esta partida deixou de ser uma luta aos olhos de Stella: tornou-se o extermínio de uma praga.
Libertá-la das limitações de um duelo… eu definitivamente não deveria ter feito isso.
Ele compreendia muito bem o motivo de sua derrota.
Nesse instante, uma sombra pairou sobre ele. Ele olhou para cima. Stella o observava do alto, seu rosto recortado contra o céu limpo de verão, com as nuvens tendo sido quase todas varridas pela tempestade. Seus olhos estavam cheios de desprezo, como se ela estivesse vendo algum tipo de lixo.
Ele sabia bem o porquê. Ao ver o corpo dele, ela deve ter sentido nojo. Pois aquele corpo dele que colapsara no chão não era o de um ser humano. Era um boneco robótico feito de metal e madeira.
Sim. A pessoa chamada de Pierrô, Reisen Hiraga, nunca existiu. Ele não passava de um fantoche controlado pelo mais habilidoso Jester da Rebellion. Um homem como aquele, que podia casualmente fazer reféns em uma arena pública, jamais participaria de uma luta justa, muito menos apareceria pessoalmente no local.
Stella parecia ter percebido isso de certa forma também. Seus olhos não carregavam nenhum traço de surpresa, apenas uma certa frieza distante.
“Parece que você não é uma oponente que dançaria na palma da minha mão. Esta é a sua vitór—”
Enquanto ele estava prestes a proferir alguns elogios superficiais, Stella esmagou seu rosto enegrecido sob os pés, sem hesitação. Ela não tinha nada a dizer a ele, nem estava interessada em ouvir nada vindo dele; e assim, ela o destruiu como se fosse uma lata vazia. Ele era uma presença insignificante assim aos olhos dela.
Com isso, restava apenas uma pessoa de pé no ringue. A quarta partida do Bloco B, que havia começado com a penalidade sugerida por Stella, estava agora encerrada.
[Almeranto: Que luta fantástica. Stella, apelona como sempre, derrotou 4 pessoas sozinha.]
◆
“O que... o que deveríamos chamar disso?! Logo quando pensávamos que Stella, tendo descartado sua lâmina, estava recebendo uma surra e sendo acuada contra a parede, a luz que ela liberou literalmente incinerou tudo no ringue, deixando nada além dela mesma de pé! Até o árbitro perdeu a consciência ao ser pego no meio de tudo aquilo! Pensar que ela escondia tal trunfo!”
“Eu não diria que ela o escondia, mas sim que ela não queria usá-lo.”
“O que o senhor quer dizer com isso?”
“Observando essa técnica, o Bahamut Howl, ela é meramente a liberação total do poder mágico no teto máximo de sua saída instantânea. Para o benefício dos não-Blazers na plateia, foi algo semelhante a dar um grito a plenos pulmões — daí o tempo de execução baixo e impossível de interromper, e seu alto poder. No entanto, quanto mais é assim, menos fácil de controlar se torna. A prova disso é que os árbitros foram pegos na explosão e, se não fosse pela barreira que os Cavaleiros-Magos posicionados nas arquibancadas ergueram ao redor do ringue, o público e até mesmo todo o Bay Dome poderiam ter sido varridos. É uma técnica extremamente perigosa. É senso comum entre os cavaleiros que tais técnicas, que podem afetar espectadores, devam ter seu uso restrito. Afinal, elas vão contra a essência de um cavaleiro — a de que aqueles com poder devem proteger aqueles que não o possuem.”
“Então ela a usou porque foi encurralada?”
“Não... isso provavelmente também está errado.”
Balançando a cabeça, Muroto fixou o olhar na figura da vitoriosa dentro daquela paisagem carbonizada e enegrecida com algo próximo ao temor — pois ele fora capaz de discernir a verdadeira razão por trás do uso do Bahamut Howl por Stella.
“Aquilo foi provavelmente apenas um tiro de teste.”
“Um teste? O que ela estaria testando?”
“A força daqueles que organizam este festival — em outras palavras, ela estava verificando se este festival entraria ou não em colapso caso ela exercesse seu poder total. ...Realmente, que jovem ultrajante. Isso deve ser inédito, testar o comitê organizador dessa maneira.”
Esta era, de fato, a verdade. Poupar as próprias forças por preocupação com os arredores e com o oponente era um hábito que só poderia vir de alguém que nascera com uma força avassaladora como Stella. Tendo percebido isso, Nene Saikyou, a Demon Princess, havia lhe deixado este conselho: que, apenas uma vez, ela deveria tentar descartar essa preocupação em um estágio inicial do festival.
“A Kuu-chan também está neste festival. As defesas dela não são tão fracas a ponto de criancinhas precisarem se preocupar ou se conter.”
E exatamente como Nene havia dito, mesmo o Bahamut Howl, a liberação momentânea do poder total de Stella, fora incapaz de ferir minimamente qualquer pessoa nas arquibancadas. No momento em que ela o usou, vários Blazers agiram para tecer camada após camada de barreiras defensivas. Seus movimentos velozes a fizeram perceber que sua preocupação era desnecessária. Eles eram experientes o suficiente para lidar com um pouco de imprudência sem problemas — como esperado dos cavaleiros do Japão, que se gabavam de estar no topo da Liga.
Mas uma coisa foi inesperada.
“Pensar que você seria o primeiro a se mover, Ouma.”
Entre aquelas defesas em camadas, a mais rápida havia sido a parede de vento que o Gale Sword Emperor, Ouma, conjurou para lançar o Bahamut Howl para o alto. Quais seriam as intenções dele? Embora ela não pudesse dizer que as compreendia, elas não a deixaram de bom humor. Seria porque ele a ajudou? Seria porque ele fora capaz de selar perfeitamente a habilidade dela? Talvez fossem ambos. Assim, Stella apenas lançou a Ouma, que a observava do ponto mais alto das arquibancadas, um único olhar—
Bem, seja o que tiver que ser, será.
—antes de se virar e abandonar o ringue em ruínas lentamente, seu cabelo carmesim ondulando como uma chama atrás de si.
◆
“Bom trabalho. Como esperado do Cavaleiro Rank-A do nosso país, ser capaz de resistir àquele nível de poder — foi verdadeiramente esplêndido. Sinto-me muito tranquilizado por ter um jovem como você por perto.”
Dentro da sala VIP no ponto mais alto em um canto das arquibancadas, Bakuga Tsukikage, o diretor da Academia Akatsuki, aplaudiu o jovem vestido com roupas casuais de estilo japonês ao seu lado. Seus aplausos, é claro, eram em resposta a Ouma ter defendido o público das chamas de Stella.
“Mas, como participante, você deveria conservar suas forças. Mesmo que você não tivesse agido, a Shinguuji-kun teria dado conta do recado.”
Ouma sequer se virou para encará-lo ao responder.
“Hipóteses são irritantes. Dificilmente seria interessante se ela voltasse a poupar forças por estar presa a preocupações inúteis.”
Seus olhos afiados como navalhas estavam fixos apenas na cavaleira carmesim abaixo e, por coincidência, seus olhares se cruzaram quando Stella olhou para cima. Um olhar como uma lâmina afiada, transbordando intenção assassina. Apesar de sua amarga derrota para ele anteriormente, os olhos dela não demonstram medo — em vez disso, o próprio espírito de confiança e força brilhava em seu interior.
Ao ver aquilo, Ouma sorriu apesar de si mesmo.
“Como meu coração canta.”
A aura dela estava diferente de antes. Ela deve ter passado aquela semana da forma mais produtiva possível...
...Para me superar.
Isso era bom. A Princesa Carmesim precisava almejar tais alturas. O talento dela jamais floresceria se ela meramente se testasse contra oponentes de calibre tão baixo quanto o Worst One. Derrotá-la não significaria nada se ela mirasse tão baixo. Esse não era o desfecho que Ouma desejava.
Olhe para mim. Mire em mim. Isso é, afinal, também pelo seu próprio bem...
Assim, embora Mikoto Tsuruya tivesse sido auxiliada por três membros da Akatsuki devido à sugestão de Stella de uma partida de quatro contra um no quarto confronto do Bloco B, Stella os derrotou de uma só vez. Tendo sido pego pela onda de seu poder esmagador, o árbitro perdera a consciência e, por isso, fora incapaz de anunciar o vencedor. Mas, olhando para a forma imponente de Stella pisando sozinha sobre a terra calcinada enquanto seguia para o portão, todos os presentes entenderam e acreditaram que a vencedora, aquela que dominara o Bloco B, era a Princesa Carmesim. Isso era natural, pois ela havia enfrentado todos os membros do Bloco B, exceto ela mesma, e derrotado a todos. Ela havia vencido apenas sua batalha da primeira rodada, mas, na verdade, essa vitória equivalia a ela chegar ao topo do Bloco B.
Essa crença se tornaria verdade em pouco tempo. Yui Tatara, a quem Stella deveria enfrentar na segunda partida da segunda rodada, foi declarada clinicamente inapta para participar. Entre os participantes da primeira partida, Rinna Kazamatsuri declarou sua intenção de renunciar, enquanto a notícia da desqualificação de Reisen Hiraga por não ter comparecido pessoalmente foi oficializada.
Assim, a Princesa Carmesim Stella Vermillion tornou-se a primeira pessoa a alcançar as semifinais do Festival de Batalha das Sete Estrelas, chegando lá com apenas uma única batalha.
— Almeranto: Olá a todos os leitores presentes, vim avisar que daqui pra frente, a frequência de postagens de novos capítulos vão cair pois eu estarei começando meu primeiro ano na faculdade, então vou ter menos tempo livre para fazer novos capítulos para vocês, mas na medida do possível, estarei produzindo, só que mais lentamente.

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