Volume 1

Capítulo 21: Papo na Cozinha

Papo na Cozinha

Ainda faltavam mais de 30 dias para a reunião de Natal com a presença todos os 33, mas as ações de André e Jonas tinham desencadeado uma série de problemas para Felipe, André além de se recusar a obedecer as ordens da Aliança Internacional, ainda matou 6 soldados. E Jonas matou um sargento, mesmo que tenha sido para proteger André, ainda foi uma ação exagerada.

Desde então Felipe estava mais ocupado do que o costume, por mais de uma semana buscando formas de evitar um conflito maior, já que as lideranças da AI exigiam as devidas explicações do ocorrido. Por sorte, Glover estava na hora do massacre e acabou ajudando Felipe, em parte as ações de Glover a favor dos heróis foi por uma questão de princípios. Mas no fundo ele tinha medo de que lhe acontecesse o mesmo que com os outros.

Com a ajuda de Glover, Felipe conseguiu contornar o problema, pelo menos provisoriamente. Diferente do Outro Mundo, onde tudo se resolvia com violência simplesmente, nesse mundo uma palavra errada poderia ser o estopim de uma crise, e mesmo que por um momento ele pudesse ficar calmo, sabia que a Aliança encontraria uma forma de retaliar futuramente.

Não era a primeira vez que Felipe se encontrava nesse tipo de situação, que por acaso era recorrente no Outro Mundo, mas nenhuma das vezes fora para a proteção de André, muito pelo contrário, geralmente André era o motivo das preocupações de Felipe.

Felipe suspirou ao lembrar de como cada um agia por conta própria no Outro Mundo, os heróis de outrora não passaram de adolescentes com poderes brigando por motivos fúteis, buscando glória e esquecendo o fundamental para um herói, a honra. Se junto com o conhecimento ele tivesse adquirido a sabedoria necessária, salvar o Outro Mundo teria sido mais fácil do que piscar os olhos, infelizmente lhe faltava experiência na época.

Mas agora era diferente, Felipe estava pronto, dessa vez ele iria liderar os heróis em direção à vitória, mas faltava o ponto principal, unir todos os 33 em prol de um único objetivo, ponto esse que nem mesmo na “batalha final”, quatro anos e meio atrás eles tinham conseguido. O verdadeiro trabalho de Felipe só estava começando.

Como ainda havia tempo até o próximo movimento, Felipe achou melhor relaxar um pouco junto aos demais. Ele merecia um descanso também.

. . .

André estava na cozinha devorando o pote de biscoitos junto com Lídia, Zita estava com eles, mas comia um sanduiche natural, estavam calados pensando no que fazer, ou melhor, esperando que Felipe dissesse o que deveria ser feito.

Lucas entrou apressado indo em direção a André, parecia animado.

— É sério que você atacou os soldados da Aliança Internacional? — Perguntou Lucas.

André, que estava com a boca cheia de biscoitos, apenas confirmou com a cabeça.

— E você matou todos eles? — Lucas parecia de alguma forma feliz com a notícia.

— Não! — Disse Jonas enquanto entrava — Eu que matei o sargento…

Lucas expressou uma mistura de surpresa e felicidade, por mais que alguns dos presentes soubessem o motivo, André parecia por fora do assunto, mas preferiu manter a descrição.

— Obrigado Jonas! — Disse Lucas sorrindo.

Jonas não respondeu, apenas acenou com a cabeça. Desde que se viu obrigado a salvar a vida de André, ele não estava com seu humor normal, e apesar de ser meio calado as vezes agora estava em silêncio quase total.

A cara emburrada de Jonas, assim como a constante expressão azeda que André contrastava com o sorriso de Lucas, ao passo em que as duas garotas não se importavam com a conversa deles, preferindo falar sobre assuntos triviais do cotidiano.

Felipe entrou na cozinha com seu sorriso habitual e um par de olheiras, passando o olhar por cada um notou que Jonas não estava no seu humor normal. Como um dos heróis, Jonas tinha visto muitas mortes no Outro Mundo, não faria sentido ele estar assim por ter matado uma única pessoa.

— Você está bem? — Perguntou Felipe — Parece chateado.

— Como eu posso estar bem? — Reclamou Jonas.

Jonas bufou, andou em direção à porta, respirou fundo, e virando-se para os demais, começou um discurso atípico:

— Eu servi ao Rei Flek por 12 anos enquanto ele era apenas o príncipe herdeiro, com a promessa de que ele promoveria a paz quando fosse coroado. — A expressão de Jonas ia ficando cada vez pior a cada palavra — Eu cometi as mais diversas ações erradas em nome do Reino de Prata com a desculpa de que os fins justificam os meios, carreguei a culpa de muita coisa enquanto tentava me convencer todas as noites que foi tudo por um bem maior. Mas agora descubro que agora que ele subiu ao trono, Flek usou a sua influência política que eu ajudei a construir, para destronar os outros reinos do Oeste, a única forma que vejo de me redimir com as pessoas daquele mundo é desfazer os meus erros do passado, e uma forma de fazer isso é voltando lá…

Felipe sorriu por uma fração de segundo, agradecendo aos deuses por um dos heróis estar encaminhando os pensamentos em paralelo aos seus planos. André, assim como os demais, ouvia em silêncio, ao final do discurso de Jonas, ele perguntou:

— Então por que matou o tal sargento? Tenho certeza de que não foi por mim.

Jonas nem ao menos olhou para André, dando apenas uma resposta mecânica como se tivesse ensaiado.

— Aquilo foi pessoal, ele ameaçou a minha família, e também as dos outros, chegou e por uma arma na cabeça de minha irmãzinha e insinuar que puxaria o gatilho se eu não o obedecesse… Eu já cometi muitos erros no Outro Mundo, não queria continuar a repeti-los no meu mundo… Então decidi que na primeira oportunidade eu o mataria. Eu fiz o que precisava ser feito.

— Ele mereceu morrer — Confirmou Lucas — Ele ameaçou a mim também, dizendo que acabaria com a minha família, e com todos a quem eu amo…

André baixou a cabeça, lembrando que já tinha ameaçado a vida de alguns deles também, mas usar a família para coagir alguém a servir aos seus interesses eram muito baixo, isso ele jamais faria.

— Todos temos família, seja nesse ou no Outro Mundo… — Felipe completou — além do mais sempre respondemos de forma dura a quem ameaça nossas famílias. Mas por favor, na próxima vez usem a razão, nesse mundo uma morte pesa muito mais do que no Outro.

— Não sou bom com argumentos… — André desviou o olhar — Até uns dias atrás eu estava em um mundo repleto de violência e pessoas loucas, não me culpem.

— Acho melhor ele não sair daqui enquanto não aprender a controlar os instintos selvagens… — Murmurou Lídia para Zita.

Zita não respondeu, apenas sorriu, ela conhecia melhor do que ninguém os instintos selvagens de André.

— Por falar nisso, Lucas… Como está o Hugo? — Perguntou André com uma expressão mais suave do que a usual, tentando mudar o assunto.

Lucas sorriu envergonhado, e respondeu.

— Ele está bem, trabalha no escritório de Berlim, então ficamos até perto…

Aproveitando que conseguiu se desvencilhar das acusações momentaneamente, a expressão de André voltou a ficar séria, e ele perguntou.

— Estamos indo bem, temos um plano de retorno e tudo mais… Mas como acharemos o Cavaleiro de Prata para evitar a guerra no Outro Mundo?

Zita que estava em silêncio até o momento se manifestou.

— Se ele souber que você está aqui, com toda certeza dará as caras!

— Ele te odeia muito. — Completou Felipe.

— Muita gente me odeia, e nem por isso “deram as caras”… — Retrucou André.

— Então você precisa sair daqui e baixar a guarda, só assim ele vai agir! — Sugeriu Jonas — É o que eu faria se quisesse te matar.

— Jonas, você vai nos ajudar? — Perguntou Felipe.

— Não… Eu tenho meus próprios planos.

Jonas não disse mais nada, apenas saiu da sala.

Os outros cinco ficaram em silêncio por alguns minutos, cada um deles estava afogado em pensamentos, relembrando o passado ou planejando o futuro.

Aos poucos cada um foi saindo para um lado diferente e se despedindo com poucas palavras, ficando apenas André e Zita.

— Não acha que o clima tem ficado meio pesado? — perguntou Zita.

— Não sei, desde que posso me lembrar, nunca tivemos uma conversa leve ou com final feliz… Pelo menos só fui ferido uma vez até agora. — André tocou o punho enfaixado sobre a cicatriz no ombro.

Zita ficou mais alguns segundos em silêncio olhando para André, seu cabelo desgrenhado, seus olhos cansados que encaravam o vazio, seus lábios ressecados, seu queixo com uma barba por fazer, seu pescoço com uma cicatriz de queimadura… Cicatriz causada por ela mesma.

Uma lágrima desceu pelo rosto da ruiva enquanto ele se prendia aos remorsos do passado. André se virou e vendo os olhos de Zita em meio à lágrimas entendeu imediatamente o que se passava na mente dela, ele se aproximou e a prendeu em um abraço, beijando sua testa.

— Não fique assim meu amor, vai ficar tudo bem… Dessa vez estamos do mesmo lado…



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