Ronan – Capítulo 95 – Aguarasa– Parte II



Dario não protestou e deixou-se levar pela entusiasmada Anna. Antes de alcançarem o primeiro degrau da varanda da estalagem, meia-dúzia de homens irromperam da porta de entrada, acompanhados por Ronan. Todos vestiam camisetas simples de lã em tonalidades marrom, acompanhadas por calças de linho. O mais alto do bando perguntou:

— Onde está aquele rapaz?

Ronan apontou para Dario.

— É esse ai, mas por…

Antes que pudesse terminar os seis avançaram sobre o amigo. Dario arrancou em disparada, deixando uma reduzida cortina de poeira para trás. Ronan correu atrás dele, assim como Anna, que o questionou assim que o alcançou.

— O que foi isso Ronan? — Não pôde olhar para ele, precisava se focar na perseguição.

— Eles me perguntaram quem estava comigo, eu disse o nome do Dario e eles se interessaram por algum motivo — justificou fazendo a curva para esquerda.

— Seu idiota! — ela praguejou esbaforida.

Os corpos avantajados dos perseguidores impediram que enxergassem o amigo. Os brutamontes vociferavam ofensas como: “feiticeiro desgraçado”, “você vai pagar pelo que fez” entre outros xingamentos muito piores. A perseguição alcançou o limite do vilarejo, uma longa e sinuosa descida os levaria até a margem do rio contornando o vilarejo. Anna já ofegava a plenos pulmões. Apesar de uma ótima conjuradora, seu físico não era treinado para situações como essa. Ronan se concentrou, projetou uma esfera de ar na palma da mão direita, erguida para alvejar os alvos, mas os dedos de Anna entrelaçaram aos seus, cancelando a conjuração.

— Você perdeu a noção? — ofegou. — Quer ser julgado pela Ordem dos Magos por conjuração indevida? — O ritmo dela foi desacelerando, Ronan foi reduzindo até que ambos corressem numa marcha pouco acelerada, ficando para trás. — Eu não aguento mais Ronan. Ajude o Dario como puder, mas não faça uma besteira como esteve preste a fazer. — Ronan assentiu e disparou retornando à perseguição. — Boa sorte, seu imbecil! — Anna xingou-o uma ultima vez, sem ar, mas com um meio sorriso no rosto.

Os agressores ganharam distância, atingindo a metade da distância até a ponte erguida sobre o rio que circundava o vilarejo. Ronan precisava alcançá-los mais do que tudo e, principalmente, descobrir o motivo por trás da perseguição. Apertou o passo, a bainha da espada sacudiu com o movimento, mas ela agora de nada o serviria. As pernas arderam, mas Ronan apertou o passo ainda mais, levando seus esforços ao limite. Conseguiu alcançar o grupo, estava a menos de dez metros, ainda era impossível tentar argumentar.

Quando se deu conta, já havia atravessado a ponte e estava para entrar em uma trilha que seguia em paralelo à estrada principal. O caminho tornou-se esguio, as árvores ao redor deram espaço às rochas, negando-lhes a alternativa de fugir pelos cantos. Os perseguidores não praguejavam mais, pareciam focados somente em correr, assim como Ronan. A trilha alargou e se abriu para um espaço circular, rodeado por paredões de pedras cinzentas. Os seis moradores formaram um semicírculo a cinco metros do garoto, que os encarava impassível. Ronan contornou a turba e pôs se entre eles e o amigo.

— O que você é do maldito? O filho dele? — um brutamonte de dois metros dirigiu a pergunta para Dario, cuspindo em sua direção ao terminar.

Tamanha foi à habilidade do criador, que a saliva disparou com a velocidade e precisão de uma flecha. Dario levantou o braço e uma força invisível arremessou a cusparada contra o paredão de pedra.

— Bruxo filho da puta! — praguejou uma figura esguia.

Os seis se aproximaram com ódio no olhar.

Assustado, Ronan recuou, permitindo que os agressores cercassem seu amigo contra o paredão.

— Parem já com isso, ele não fez nada — tentou argumentar.

— Isso é entre nós e ele. Agora fica ai quietinho, moleque, ou vai sobrar pra você. — respondeu um deles, com a voz esganiçada.

Um ruído metálico e agudo chamou a atenção de todos ali perto.

— Para trás — Ronan ordenou empunhando a espada.

Facas, adagas e outros instrumentos semelhantes foram sacados pelos agressores.

— Ninguém vai brigar aqui. — A voz de Dario soou confiante demais, atraindo toda atenção para ele. — Ronan. Você lembra quando me pediu se eu sabia outra manipulação? — Dario segurava uma rocha cinzenta na mão direita, a pedra se assemelhava as saliências do paredão rochoso que os cercava. Sem esforço algum, ela explodiu, levantando uma cortina de poeira esbranquiçada aos arredores. Ronan tateou as cegas com a visão turva e tossiu ao inalar o ar contaminado. Pelas tossidas e xingamentos que ouvia serem proferidos, deduziu que os brutamontes deveriam estar sofrendo de maneira semelhante.

— Vamos embora, esse pivete é maluco que nem o pai dele!

Não conseguiu divisar a voz de quem falava, mas ouviu com um sorriso no rosto o som de passos se distanciando em meio à névoa. Uma breve rajada de ar lançou a fumaça para cima, onde aos poucos foi se dissipando.

Apesar de ainda sofrer os efeitos da conjuração, Ronan sentiu uma admiração pelo amigo e uma inveja irritante do seu potencial natural. Coçou os olhos e contemplou as paredes rochosas. Dario surgiu em sua visão periférica. Quando Ronan focou a visão nele, sentiu como se um cavalo o atropelasse. Algo invisível o atingiu no peito, levando-o ao chão.

— Traidor desgraçado! Qual é o seu problema? Achei que fosse meu amigo.

Confiante, Ronan levantou-se em um salto. Seus dedos coçaram o cabo da espada.

— De novo ameaçando desembainhá-la? — Dario apontou para a arma. — Nathalia ficaria decepcionada com você. Tenho certeza que ela pediria que devolvesse.

A simples menção daquele nome abateu Ronan em melancolia. Um chiado agudo perdurou o desembainhar do presente da namorada do amigo em sua frente.

— Traidor… — Ronan estendeu a lâmina. —… eu? — O encarou em desafio.

— Você que me entregou àqueles desgraçados. Você sabia que meu sobrenome traria problemas por aqui. Ou vai dizer que acreditou nas boas intenções de um bando desconhecido?

— E você… — tentou desabafar, mas não conseguiu. Imagens daquela cena maldita repassaram em sua mente mais uma vez, arranhando a sua sanidade. — Você… como pôde? — uma lágrima desenhou um diminuto córrego em seu rosto.

Mas a raiva de Dario era tão forte quando a sua. Poderosa a ponto de ignorar os lamentos do amigo.

— Ronan… você me entregou. Ao menos peça desculpas. Eu te perdoo por me deixar cair no chão, mas isso… isso eu não tenho como ignorar, eu preciso saber o motivo…

Dario percebeu que ele lutava consigo mesmo em uma disputa com as palavras trancadas em sua garganta. Ele espremeu os olhos, mais gotas umedeceram a areia do chão. Dario contemplou o sofrimento do amigo, impotente, sem saber o que fazer.

O plano tinha funcionado, a tristeza inicial e arrebatadora fora controlada, o amigo abaixou a guarda no momento no certo. Com a espada mirando o chão, Ronan a levantou com um movimento brusco, manipulando uma torrente de ar forte o bastante para arremessar um turbilhão de areia contra o oponente.

Dario cobriu os olhos com o braço. Amaldiçoou Ronan em sua mente. Confiou em seu poder. Concentrou-se. Levantou o braço. Acumulou energia na mão. Abriu os olhos, viu seu amigo parado em pé e disparou uma rajada concentrada contra ele. A espada de Ronan brilhou e a conjuração foi barrada por algo transparente, levantando apenas a poeira ao redor dele.

Os olhos do espadachim se arregalaram em incredulidade.

— Você quis me matar?

Um vento não conjurado adentrou no circulo rochoso, sacudindo as roupas dos que ali se encaravam.

— Eu só queria te impedir de fazer mais alguma besteira.

Ronan encarou o chão.

— Alguma besteira, como trair um amigo?

— Pare de chamar disso! — rugiu enfurecido. — E afinal, do que você está falando?

A cabeça de Ronan foi se levantando, seus olhos vidrados apareceram e seu rosto revelou um ódio ímpar, capaz de fazer Dario estremecer, e o temer.

— Você sabia que eu gostava dela – admitiu ignorando a correnteza dos rios de lágrimas que emanavam seu lamento. — Sabia desde o primeiro dia, ou vai dizer que não desconfiava?

Dario se aproximou tomando cuidado em cada passo.

— De quem você está falando?

— Eu preciso mesmo dizer? De quem mais senão…

— Nathalia — Dario completou com pesar na voz. — Eu não sabia…

A espada caiu no chão.

— É claro que não sabia. Você é um tapado, mas eu sou um idiota.

Dario continuou se aproximando. Tomando a mesma cautela ele ajuntou a espada largada no chão. Ronan se entregou à tristeza, chorava com as duas mãos no rosto. O constrangimento sentido por Dario nunca fora tão grande. Tinha vontade de apenas fugir e largar o rapaz ali, sozinho, mas não poderia deixá-lo, algo o impedia. Após analisar o florete por um minuto completo, voltou o olhar para a entrada de onde vieram.

Alguém os espiava por trás das rochas da entrada. Ao ser descoberto, a figura caminhou devagarinho em sua direção, e Dario foi de encontro a ela.

— Vocês dois são malucos de verdade.

— Não é uma boa hora, Anna — disse Dario olhando por detrás do ombro.

— Mas por quê?

Não sabia se deveria falar a verdade, mas sentia que podia confiar nela.

— Pode guardar um segredo?

Ela apenas acenou com um sorriso.

— Ele… — Tentou encontrar as palavras certas. — Ele gosta… — Hesitou coçando ao coçar a nuca.

— Da Nat?

E ele acenou em afirmação.

— Acho melhor eu não me envolver né? Vou deixá-lo em suas mãos, Dario. — Anna girou nos calcanhares e caminhou de volta de onde veio.

Ele fez o mesmo, mas na direção do amigo sentado com as pernas cruzadas e o rosto enterrado nas mãos. Mas tinha de fazer alguma coisa, não podia simplesmente deixá-lo ai, desamparado. Por isso ficou de frente a ele, agachou e reuniu a coragem para dizer:

— Aqui… — estendeu o florete.

Ronan retirou uma mão do rosto e num movimento preciso puxou a espada das mãos de Dario, repousou-a ao seu lado, no chão. Não soluçava mais. Apenas arfava as mágoas remanescentes dentro de si. Dario então se sentou, cruzou as pernas e ficou de frente a ele.

— Você deveria ter me falado… — disse olhando para o céu.

— Por quê? — Permaneceu com o rosto enterrado nas mãos.

— Para que nada disso tivesse acontecido.

Ronan revelou a face por completo. Ainda sentado, pegou a espada que largou ao seu lado. Os olhos de Dario se arregalaram, mas não ousou reagir. A espada voltou à bainha presa ao cinto do seu dono. Aliviado, exalou a tensão num suspiro enquanto Ronan se remexeu para dizer:

— Desculpe… — sua voz saiu baixa, soturna.

— Você me entregou de propósito?

Ele o encarou com um olhar firme.

— É claro que não. — E enxugou os olhos pela última vez.

— Escute — disse exalando as dúvidas pra fora. — Eu não sabia. Você precisa acreditar em…

— Eu sei — Ronan o interrompeu. — No fundo sei que…

— Mesmo que eu soubesse do que você sentia, eu não faria nada diferente. — Ronan permaneceu calado. — Você não pode guardar tudo para si. Você precisa demonstrar o que sente. Ninguém carrega uma bola de cristal para saber o que se passa em sua cabeça.

As palavras entraram como fogo na mente de Ronan, consumindo toda pena de si mesmo e atiçando ainda mais o sentimento revanchista que vinha alimentando pelo amigo.

— Dario… — A raiva transpareceu em sua fala. — Você me traiu e nem vai se desculpar?

— Eu não te traí. E não fale mais besteiras como essa.

— Mas…

— Mas nada. O pior é te ver ai choramingando enquanto ignora alguém que se importa com você. — Um sorriso surgiu na face de Dario, espantando a seriedade mórbida de antes. — Esqueça a Nathalia, ela é problema. Você tem alguém ainda melhor te esperando. — Levantou-se e esticou o braço na direção dele.

Ronan contemplou os grãos de areia por um instante. Sabia que teria muito que conversar com ele, mas antes de qualquer coisa, era hora de pôr as coisas nos seus devidos lugares. Lançou o braço para cima, o choque do contato das mãos produziu uma batida abafada. E num impulso Ronan levantou com a ajuda do amigo.

— Você falava da…

— Dela mesma — Dario se antecipou.

— Mas eu não gosto dela.

— Você também não gosta da Nat, não de verdade. O que sente é apenas atração. Afinal, vocês pouco se falaram, mas com a Anna… ai tem algo especial. Vai por mim, gostar e sentir atração são coisas bem diferentes, meu jovem amigo.

— Eu sou mais velho que você.

— Não fuja do assunto meu caro aprendiz.

— Eu não sou seu… — Dario o fuzilou com o olhar. Ronan decidiu deixar a correção para trás. — Talvez tenha razão…

— Eu tenho certeza. A Nat me contou sobre aquela vez na biblioteca.

Ronan se esforçou para entender sobre o que ele falava. A lembrança do último dia estudando ao lado de Anna voltou à mente. Aquela cena foi gravada com precisão em sua memória, mas fora guardada em qualquer lugar. A lembrança deles sentados lado a lado, com os corpos juntos, virando as páginas em movimentos simultâneos fizeram suas bochechas corarem, mais uma vez.

Dario sorriu com a situação.

— Viu como eu estava certo?

— Tá, tá, tanto faz. Não quero mais falar sobre isso, não com você.

— Como quiser.

O caminho de volta foi percorrido em silêncio. Eles passaram pelos corredores rochosos. Entraram de volta na trilha e pararam no ápice da ponte em arco. Parados sobre as tábuas negras eles puderam ver as construções do vilarejo, escuras como os troncos dos eucaliptos do bosque ao redor. Pela posição do sol e projeção das sombras, já devia passar do meio-dia. Incerto quanto à situação do amigo, Ronan perguntou:

— Você quer mesmo voltar à estalagem?

— Tem alguma sugestão melhor?

— Tem sim. Você pode passar a noite no acampamento. Aposto que não há vagas na estalagem para metade do pessoal que veio conosco.

— Não tem jeito né.

— Não se quiser evitar problemas.

— Acho que já causamos demais por hoje.

No alto do pequeno morro meio quilômetro longe, o vilarejo de Aguarasa foi contemplado pelo olhar de Ronan enquanto, sem dizer nada, Dario caminhou para o outro lado e seguiu o fluxo do rio que contornava o vilarejo.

— Aonde você vai? — quis saber.

Olhando por trás do ombro, Dario respondeu:

— Para o acampamento, é que eu não quero passar perto dessa porcaria de lugar.

— Entendi. Nos veremos mais tarde então, vou chamar a… — Mas envergonhou-se ao pensar em dizer, então optou por outro termo — Vou chamá-la para vir comigo te visitar…

Dario girou nas pontas dos pés, com um sorriso ambíguo no rosto.

— Não precisa ter pressa quanto a isso. Primeiro faça o que tem de ser feito, depois se preocupe comigo, Ronan…


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Autor: Raphael Fiamoncini



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