Ronan – Capítulo 94 – Aguarasa – Parte I


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A bifurcação da estrada sinalizou que a companhia havia atingido a metade da jornada.

Não houve aviso prévio, das 24 carruagens e carroças que partiram da capital, as oito que lideravam a expedição seguiram reto, rumo ao norte, para Alvovale e suas redondezas.

Minutos depois da cisão, quando a carruagem de Ronan, Dario e Anna fez a curva à direita, eles viram os desgarrados subirem uma elevação, já distantes no horizonte.

De agora em diante eles seguiriam para o leste, em direção à Alvovale. Para sorte do melancólico Ronan, não houve oportunidade para se despedirem de Reiner e seus capachos.

Dario foi o único curioso o bastante para acompanhar o partir da outra comitiva. Após minutos de contemplação ele virou-se para os amigos.

— Pessoal… — anunciou. — Nenhum soldado da infantaria seguiu norte.

Um lampejo de preocupação fez Ronan tremer um instante.

— E a cavalaria?

— Uma dúzia, talvez um pouco mais.

— Bizarro…

Anna parecia não se importar tanto com o assunto, então permaneceu quieta, observando a paisagem que aos poucos foi se alterando. As largas planícies verdes e floridas deram espaço à elevações, paredes rochosas e declives. Nos limites de cada acidente geográfico parecia sempre haver um rio ou lago de proporções variadas para lhes acompanhar.

Dores nas nádegas castigaram os três estudantes após três dias de viagens. Desde então, cada breve parada serviu de oportunidade para eles se exercitarem.

Bem cedo, na manhã do quarto dia de viagem, os oficiais os informaram que iriam parar para descansar num vilarejo a poucos quilômetros de onde estavam.

Dario foi capaz de discernir uma conversa entre cavaleiros e a informação obtida foi repassada aos colegas.

— Aguarasa? — Ronan repetiu o nome do destino.

— É o que eu ouvi. Vocês conhecem?

— Assim, do nada, não — revelou Anna. — Mas por algum motivo, esse nome não me é estranho.

A resposta ambígua dada por Anna confundiu a mente de Dario, que se perdeu mais ainda com a seguinte fala de Ronan:

— Pois é… eu também não conheço, mas parece que eu já li ou ouvi esse nome em algum lugar.

Ao menos o humor de Ronan apresentava sinais de melhora.

O balanço tremido da carruagem lutando contra os buracos da estrada foi reduzindo aos poucos, até parar. Cavaleiros montados em cavalos surgiam e desapareciam nas janelas do transporte, desmontando logo depois. Pouco antes dos três pensarem em se levantar para conferir o que aconteceu, o cocheiro abriu a porta da carruagem e anunciou aliviado:

— Chegamos criançada. Descansaremos aqui até amanhã.

Saindo pela porta esquerda e se utilizando dos degraus da carruagem, Anna foi a primeira a sentir o alivio do sangue voltando a circular livremente em seu corpo.

Ronan saiu em seguida, ignorou os degraus auxiliares e saltou para fora. Não querendo ficar de fora, Dario seguiu o exemplo e também saltou para fora da carruagem, porém, quando seu pé direito raspou na areia, escorregou.

Ronan virou-se pouco antes de testemunhar o corpo do amigo em queda livre, os milésimos duraram segundos, precisava ajudá-lo, avançou para aparar a queda.

Mas uma cena repassou em sua mente.

As mãos na cintura da garota do cabelo dourado, que o segurava pelo casaco, na altura do peito. O entreolhar apaixonado de dois amigos que aproximaram os rostos, primeiro num contato entre narizes e depois entre lábios. Aquela cena que o fez ruir por dentro, aflorando uma raiva reprimida.

Revivendo a lembrança maldita, Ronan o deixou cair de boca no chão. Anna disparou, levou areia consigo a cada passo até o braço esticado de Ronan pará-la.

— Tudo bem Dario? — ela perguntou preocupadíssima.

Antes de responder, ele se levantou, revelando os cortes em sua testa e bochecha esquerda. A combinação do sangue proveniente das feridas somada à terra seca que as abrira produziu uma massa pastosa, capaz de fazer Anna desviar o olhar e grunhir:

— Que nojo… — Ela recuperou a postura e desafiou Ronan com o olhar. — Abaixe esse braço, eu preciso ajudá-lo.

Ronan a obedeceu, mas não se arrependeu do que fez.

Anna rapidamente tirou da mochila o estojo de primeiro socorros, mas antes de aplicar o curativo, ela limpou a massa pastosa e avermelhada no rosto do rapaz, que lançou uma observação pertinente ao amigo:

— Por pouco não é Ronan? Por um segundo eu achei que você conseguiria me segurar… — Chiou quando Anna passou no ferimento um algodão encharcado em alguma substância que desconhecia.

Feliz que Dario não percebeu sua intenção, Ronan respondeu:

— Pois é… é o azar do destino, não é mesmo?

Mas foi Anna quem se manifestou:

— Destino coisa nenhuma, você poderia sim ter segurado esse cabeça de vento.

Maldição! Praguejou Ronan. Precisava se justificar de alguma fora, e rápido.

— É claro que não…

— Eu vi tudo. Você foi ajudar, mas parou por algum motivo. E você anda muito esquisito, Ronan, tá escrito na sua cara que algo te incomoda, e é bom que ponha para fora… senão…

— Senão o que? — Ronan a desafiou roçando a ponta dos dedos no cabo da espada.

— Chega! — Dario rugiu, seguido por um gemido de dor. — Eu não me importo com isso.

— Mas ele…

— Mas ele é meu amigo… Ele não faria isso de sacanagem. — Tirou os olhos dela para encará-lo. — Mas a Anna está certa em dizer que você anda com uma cara estranha nesses últimos dias, mas somos amigos e você precisa falar a verdade pra gente.

Abaixo de si, os grãos de areia e as esparsas folhas do gramado serviram de refugio ao olhar de Ronan, que refletiu as palavras do amigo.

— Ronan — a seriedade na voz dele chamou-lhe atenção. — Nunca ameace desembainhar essa espada contra os seus amigos. Ela foi um presente da Nat pra você, não faça com que ela se arrependa. — E levantou-se com a ajuda de Anna.

Ronan afastou os dedos do cabo da espada. Refletiu as palavras ditas pelo amigo. Cogitou desabafar a verdade, mas o orgulho dentro de si freou o instinto. Tirou o olhar do chão, respirou fundo, caminhou até perto dos dois e anunciou:

— Vamos indo. — E partiu, caminhando solitário atrás de três guardas indo em direção ao pátio do vilarejo.

Dario e Anna acompanharam com os olhos a viagem de Ronan, ele entrou no vilarejo pela entrada oeste, um caminho de terra delimitado pelas casas e suas paredes de eucalipto escuro, por onde Ronan desapareceu ao contornar uma curva.

— Obrigado pela ajuda — Dario agradeceu sacudindo a areia em sua roupa.

— Não tem problema. Fico feliz em saber que você não endoidou como aquele lá — ela disse sinalizando para o lugar onde Ronan foi visto pela última vez.

Com as roupas livres de areia, Dario respondeu:

— Ainda não entendo o porquê disso tudo.

— E quem entende?

— Eu é que não. — ele sacudiu a cabeça. — Vamos?

Anna concordou com um aceno e eles caminharam pela estradinha. Dario chutou as pedrinhas a sua frente. Um vento gelado atingiu Anna, fazendo-a estremecer e bater os dentes. Dario sentiu que deveria oferecer o casaco a ela, mas hesitou.

Nenhum dos dois disse mais nada. Um manto de constrangimento envolveu cada um. Agora apenas o canto longínquo dos pássaros e o ruído das pedras chutadas por Dario entravam em seus ouvidos, até Anna se arriscar em territórios desconhecidos.

— Estranho né?

— O quê?

— Nós dois…

— Você acha?

Ela o encarou com um sorriso.

— É claro que é. A única vez que me lembro de conversamos a sós foi quando você estava no hospital, todo arrebentando por sinal.

— Não é todo dia que se é alvejado por cristais feitos de sangue.

Anna deixou uma risada escapar.

— Me perdoe, eu não deveria estar rindo sobre isso. — Tentou denotar seriedade na voz, mas um sorriso se formou em seu rosto.

— Tudo bem. Aquilo já passou. Pelo menos sua amiga também saiu prejudicada.

— Tá vendo só? De alguma forma alguém sempre entra na conversa, nós não temos uma história só entre nós dois.

— É claro que temos… — As bochechas de Dario coraram, ele tomou coragem, e desabafou: — Paixões Proibidas.

— Quê? — Anna gritou, indignada.

— Estou falando do livro! O livro que você me deu quando eu estava no hospital — justificou-se desesperado.

— Ah tá… perdão. Achei que era outra coisa — desculpou-se brincando com o cabelo. — Mas você gostou mesmo?

Dario engoliu o orgulho, precisava compartilhar uma verdade guardada a sete chaves:

— Achei uma obra prima. Pena que o Ronan estragou o final pra mim. Desde então eu soube que a protagonista iria terminar com o camponês.

— Aquele desgraçado. Ele vai pagar pelos seus crimes, e como! — Anna amaldiçoou Ronan rangendo os dentes. — Voltando ao livro. Eu queria tanto que ela terminasse com o rico cavaleiro.

— Seria muito clichê — anunciou praticando sua soberba.

— Não mais clichê do que ela descobrir que seu amor vivia na porta ao lado desde o início.

Dario levou a mão ao queixo e lançou uma reflexão:

— Pensando bem, acho que qualquer final seria clichê.

— Sabe o que não seria clichê?

— O quê?

— O cavaleiro e o camponês se casarem e a mulher ficar chupando o dedo.

Dario explodiu em risadas que contagiaram Anna, mas não pela ideia que teve para o final do livro, ela ria da risada maluca dele.

Um trio de soldados trajados em branco e vermelho encararam os estudantes ao passarem em um passo acelerado.

Dario e Anna nem deram atenção e continuaram rindo à vontade, sem se intimidar com os olhares incriminadores dos soldados e moradores. As risadas só vieram a cessar quando os dois avistaram a estalagem. Uma larga construção erguida no limite leste de um grande pátio. O aspecto limpo da madeira de eucalipto negro era uma característica das construções ao redor.

— Foi aqui. — A face feliz de Dario foi tomada por uma tristeza.

— O quê? — ela perguntou curiosa.

— Foi nesse vilarejo que o Feiticeiro Carmesim foi derrotado. — Deu um passo pra trás. — Não é uma boa ideia eu entrar nessa estalagem. A última coisa que eles esperam é um Zeppeli.

Anna se pôs em sua frente, o puxou pelo braço e disse enquanto o encarava:

— Aposto que eles nem sabem que o feiticeiro foi um Zeppeli. Agora chega de birra e vamos entrar.


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Autor: Raphael Fiamoncini


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