Ronan – Capítulo 88 – Volta ao Lar


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Dois dias se passaram desde o encontro com o Zeppeli. Recordar o momento que soube da morte do Leonel abalou-a mais do que previra. Ordenar que o nome do irmão de Dario fosse talhado na pedra não foi uma tarefa das mais complicadas, mesmo assim, sentia-se orgulhosa e acima de tudo, feliz consigo mesma.

Deitada em sua espaçosa cama branca, Nathalia repassava os momentos compartilhados com “ele” em sua mente. Em não tão raras ocasiões o seu rosto enrubescia. Onde eu estava com a cabeça? Perguntava-se com frequência. Lembrou-se de terem se abraçado e chorado como crianças. O rosto então enrubesceu mais uma vez, ela tampou-o com um travesseiro e abafou um gritinho envergonhado.

O ecoar do galope de incontáveis feras invadiram o quarto de Nathalia. Intrigada, levantou-se num salto para espiar da janela aberta o que acontecia fora do segundo andar da mansão.

A pouco mais de meio quilômetro da entrada da residência, uma comitiva se aproximava em uma marcha ritmada. Logo foi possível distinguir alguns comandos berrados por sargentos e comandantes. Um detalhe incomodava a garota, de quem pertencia este séquito? Na frente, rodeado por uma dúzia de cavaleiros, cavalgava uma figura envolta por um manto vermelho com acabamento dourado. Nathalia deduziu tratar-se do líder da expedição, mas não recordou nenhum nobre das redondezas que vestisse tais cores.

Agora faltava pouco para eles alcançarem a mansão por onde ela os espiava do segundo andar. Mas pouco antes de alcançarem o portão da frente, uma ordem foi vociferada, e eles pararam. Nathalia abaixou a cabeça e extravasou a tensão com um demorado suspiro. Devia tratar-se de alguma maluquice dos vizinhos da esquerda.

O familiar ranger do portão arrepiou os pequeninos pelos no braço da garota. Torceu para que fosse apenas um criado saindo, mas a figura envolta pelo manto vermelho e dourado adentrou junto do que parecia uma guarda pessoal.

— Mãe? — Nathalia deixou escapar ao vê-la sair pela porta da frente da residência.

A figura em vermelho jogou o capuz para trás.

— Pai?

Ela testemunhou os dois se abraçarem. Magnus acariciou o longo cabelo castanho claro da esposa. Júlia Leonhart deu um passo para trás e segurou as mãos do marido. Do quarto não dava para ouvir a conversa entre eles. Seria a primeira vez que veriam um ao outro após o fatídico evento que o tornou Arquimago, sem aviso prévio à família. Com as mãos na madeira da janela, Nathalia sentiu as pernas tremerem. Deitou-se na cama e deixou o tempo passar, cada minuto carregou o peso de uma hora.

Ao longe o sol estava se pondo até a porta do quarto abrir e a noção de tempo da garota, contrair. Não era uma figura misteriosa coberta por um manto vermelho, aquele era o seu pai.

— Precisamos conversar — ele anunciou fechando a porta.

Magnus caminhou até à mesinha do lado oposto à cama, ele puxou a cadeira e sentou-se de frente à filha, que não mais deitava na cama, mas sentava nela com as mãos juntas, numa oração inexistente.

— Por quê? — ela começou.

— Não tive escolha…

— Não teve mesmo?

— Quando me dei conta… Alexandre já tinha planejado a sucessão com o consentimento do Conselho dos Grão-Mestres. Não há recusa para um chamado desses. — Tentou aproximar-se de Nathalia.

Mas ela o esbofeteou no rosto.

— Você não gosta que seu pai seja o manipulador mais importante do mundo?

— Eu detesto! — Ela virou o rosto para o lado e fechou os olhos por um instante.

Magnus então se levantou com brasas no olhar.

— Você é muito mal acostumada. Precisa viver no mundo real um pouco para ver como as coisas funcionam. Quem sabe assim você possa demonstrar um pouco de gratidão, mas vamos, cuspa sua angústia para fora, me diga o que lhe aflige.

— Esse seu título me da raiva. Todo mundo me olha atravessado, me chama de filha do Arquimago, sem contar quando falam de mim pelas costas.

— Desde quando você se importa com a opinião de meros colegas?

— Me importo desde o dia que feri uma amiga, conjurei com sangue, machuquei o pai da Anna e fui sequestrada por seus queridos renegados opositores. — Nathalia levou as mãos ao rosto para conter a frustração uivando dentro de si.

— Você sempre quis ser uma manipuladora, tanto que não falava em outra coisa quando pequena. Nasceu na linhagem primordial dos conjuradores do Império. Você precisa entender que tudo isso cobra um preço, por isso devemos ter responsabilidade acima de tudo.

— É por isso que está banindo tudo que é manipulação?

— Então essa birra toda é por isso — Magnus constatou sacudindo a cabeça na horizontal, fazendo tremular os fios de cabelo tão semelhantes aos da garota em sua frente.

— Seu traidor! — ela rugiu.

Uma mão foi levantada e descida com relativa piedade.

O rosto de Nathalia ardeu com a pífia dor infligida, preferia ser atingida por uma bola de fogo do que ser repreendida pelo pai.

— Nunca mais fale uma coisa dessas — não soou irritado, mas categórico.

Nathalia tentou reprimir suas frustrações, roçou os dedos na vermelhidão em seu rosto e sentiu uma gota umedecer o dedo anelar. Espremeu os olhos em raiva e um soluço contido escapou.

— Quando você vai embora?

— Daqui a duas semanas.

— Não faz mal, posso aguentar três dias.

— Por quê? Do que você está falando?

— Da atividade de fim de ano.

— Onde você acha que vai?

— Rioalto.

— Perto da fronteira? A filha do Arquimago? Mas nem pensar!

Nathalia tremeu, bufou e irrompeu em frenesi.

— Eu vou sim. Você não manda em mim. Pouco me interessa esse seu título idiota, seu monstro de duas caras!

A mão de Magnus subiu mais uma vez, mas agora para descer com força.

O braço esquerdo de Nathalia foi erguido. Pouco antes do tapa atingi-la, chamas involuntárias envolveram toda extensão do seu antebraço, onde uma fina camada de conjuração defensiva a protegeu de si mesma.

Os olhos do Arquimago foram arregalados. Com o instinto adquirido na guerra, um escudo transparente se projetou ao redor do braço e mão, mantendo a conjuração da filha numa distância segura.

Magnus segurou aquele braço chamejante. Os olhos da filha ardiam em terror.

— É por isso mesmo que essa porcaria deve ser proibida. Você pretendia me matar por acaso?

— De-desculpa — Estava apavorada — Não era o que…

— Não faz mal querida — suspirou e a abraçou.

O casaco que vestia conteve as lágrimas da filha, que murmurou desesperada:

— Eu tenho medo… — soluçou. — Eu nem sempre consigo controlar…

A partir dali o pai parou para ouvir a filha chorar e desabafar os sobre seus problemas. Quando ela terminou, Nathalia voltou a sentar na cama enquanto Magnus permanecia em pé, perto da janela.

— Você realmente me odeia? — ele perguntou, com o olhar voltado para as dezenas de cavaleiros lá fora.

— Não te odeio. Não você, mas essa história de Arquimago…

— Entendo…

— Pai?

— O que foi querida?

Nathalia respirou fundo e reuniu toda a coragem para revelar aquilo.

— E-eu… eu, é… — Respirou fundo mais uma vez, e desabafou: — Estou namorando um Zeppeli.

Magnus estacou imóvel com um olhar arregalado, tentou assimilar uma coisa daquelas.

— Isso não é como aquela vez que você acusou seu colega, é? Não está dizendo isso só para me irritar? Agora que a gente finalmente se acertou…

— Mas é a verdade, eu gosto dele, e não me importo se você…

— Está bem, está bem, mas você poderia ter esperado um pouco antes me falar uma coisa dessas… — Sorriu. — É muita coisa para o papai absorver em um dia só.


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Autor: Raphael Fiamoncini


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