AVN – Capítulo 50 – Um pouco de mim [apenas de mim]!



Andavam por um beco, estava escuro. Trajados de ternos, com coldres escondidos por de dentro do casaco. Um broche brilhante em seus peitos. Estavam vestidos como as assassinas idealistas, conhecidas por lidar com assuntos de alta complexidade política. Uma antiga instituição que findava o poder de Um. Marius Orfan que havia consolidado, não como se importasse. Estavam vestidos assim por um motivo qualquer, apenas para interpretar um papel; fingindo nas luzes serem quem nunca poderiam ser.

Você não quer me contar mesmo? — Redneon estava delirante naquela noite. Muitas pessoas nas ruas, poucas nos becos. Havia visto drogados, putas, bêbados, e mesmo assim ainda não sabia de nada.

Se eu te contar, não haverá surpresa. — Dizia, e mesmo assim não falava nada. Encarava as latas de lixo, as mesmas pessoas já citadas, como se houvesse algo além daquilo a ser observado.

Alguma questão com a plastic tree? — Se lembrava. Os homens de ternos e aparatos biônicos acoplados aos seus corpos. Únicos contrabandistas e mercenários do subdistrito F até aquele momento.

Você está um pouco atrasado. — Continuava, apontando pra uma entrada. — Sabe, a plastic tree sempre foi um peixinho. Não tem influência, não sai do subdistrito F. Ficam por aqui, mantendo uma hegemonia, lucrando do pouco que podem. — Não te importava, sabia. Aquelas questões entre gangues e todo resto é o quê? Nada mais que ninharias. — Eles vão perder tudo com os Kalashinikov por aqui! — Entraria, vendo homens armados com fuzis baratos, vestidos com trapos e fumando. Tinha aquele cheiro de armazém, com um gostinho de nicotina e fuligem. Os caixotes eram ruidosamente postos, no taque de madeira incessante. As luzes incandescentes fazia tudo ter um ar automático, mesmo no analógico, em que os corpos ficavam repletos de farpas. Continuava: — Não deve saber, mas na Giant Tree houve uma quantidade incrível de problemas. Um político, chamado André Touloise conseguiu trazer a verdade sobre nossos pecados e muitos estão precisando se refugiar longe da luz. Redneon é a perfeita escuridão do mundo, e é aqui onde veremos o palco sendo montado pra nossa estrela chamada Um. Não está excitado?

Encarava os batimentos aumentando na solidão, onde percebia que havia algo um tanto maníaco em todo ambiente. Os homens pareciam cansados, as caixas, um tanto desgastadas, e as luzes como se estivessem por serem queimadas.

Acho que estamos prestes a morrer. — Pareciam despercebidos enquanto andavam, o que lhe causava um pouco de raiva, pois era como se não existissem de nenhum modo, como se não valessem sua identidade. Precisava encarar, mas descobrir poderia fazer um pouco de mal também, pois não era de descaso que sua existência passava, e sim uma terrível aflição de medo. Quem teria coragem de encará-los? Não importa, subiriam uma escada ruidosa, feita de aço e virando aos escritórios daquele armazém abandonado. Via alguns guardas armados segurando uma porta enquanto um pequeno homem calvo saía.

Então vocês realmente vieram?

Ele estava vestido de um blazer preto e uma camisa roxa por dentro, além de ter no pescoço uma vistosa corrente d’ouro. Também tinha brincos, piercing e uma estranha tatuagem no rosto. Qualquer um o reconheceria de longe.

Mítia, querido, achou que estávamos brincando, por algum acaso? — Ele paralisava num sorriso, como se ameaçado. — Nós mantemos nossas palavras até o fim, não duvide nunca; é uma das nossas especialidades.

De pessoas tão compromissadas acho que nunca deveria ofendê-los! — Dava uma gargalhada amistosa, acompanhado de Anne. Dois Meia era incapaz de compor um sorriso sequer. — Mas acho que já era óbvio. Veja só, gosto da presença de vocês, principalmente desse garoto, mas tenho uma dúvida, vocês não eram “as assassinas” por um motivo de gênero? — Um breve silêncio.

Ele é o às de Um. — Ela parecia não querer dizer isso. — Mas também é uma exceção. Está aqui por treinamento, mas também não como se realmente precisasse disso. — Ele colocava seus olhos diretamente nos dele e estendia sua mão para apertar.

É um prazer senhor! — Ficava atordoado, assim como Anne. — Posso está vestido como tal, mas não sou efetivamente uma assassina. — Sabia o que acontecia e podia estrangular Anne por isso. Uma piada dela talvez, de muito mal gosto; de que importasse? — Ou seja, posso não saber muito bem como me portar no papel delas, mas reconheço como me portar em frente de um homem de negócios.

Apenas um sorriso antecederia a gargalhada. Anne ficava sem reação enquanto o olhava ali, com os mesmos olhos fixados e seu sorriso discreto, sem torpor.

Esse garoto tem personalidade. — Dizia. — Se eu tivesse um desses, também carregaria pra todo lado. — Dois Meia não tinha palavras. O encarava.Tenho apenas o inútil do Igor … Mas melhor parar de enrolar. Temos assuntos importantes aqui. Alias, me chamo Mítia Karamazov, caro …?

Míchkin Zero, mas pode me chamar como quiser …

Mítia teria um sorriso de curiosidade, mas Anne pouco se importava, num ar um decepcionado. Não como ela soubesse do porquê.

Vamos entrando na sala ao lado, minha cara Anne? — Dizia que sim. — E meu novo amigo Míchkin. — Os dois seguranças abriam uma outra porta. — Tenho um homem comigo que sabe bastante, mas qual me diz quase nada. É uma merda, sabe, to de mãos atadas. Então cabe a vocês me dizer o que fazer. Fico rendido a vossas genialidades, no fim …

Um quarto sujo, mal arejado, sem janelas ou entrada de ar. Apenas paredes bejes manchadas de cinza manchados de negro manchados de oliva. Um homem estava no meio, sentado, com um saco na cabeça, vestido um terno negro, da camisa branca suja de sangue, da gola ao peito. Estava sem sapatos e seus dedos se viam tortos, duns de tons avermelhados, outros negros. Sua parte biônica desmontada, com o circuito de encaixe neural exposto; duma agulha elétrica estando numa mesinha de alumínio no canto da sala, junto com outros instrumentos cirúrgicos e de artesanato. Havia um odor absurdamente pútrido e um calor sufocante.

Quem é esse? — Anne perguntaria e no mesmo instante um dos seguranças retirava o saco. Ninguém reconheceria, vendo aquela face inchada, das maçãs roxas, o queixo de aparência deslocada e os olhos como se não conseguissem ver nada. Tinha sangue, feridas negras e pus em alguns cortes.

Não sei … Mítia acendia um cigarro. Alexei, me ajuda aqui …

Um dos homens qual segurava a porta iria até a cadeira, dando um soco no queixo já deslocado, gritando, babando, fosse o que fosse, dizendo>

Diz seu número, filho da puta!

Teria silêncio, óbvio, já que o desconhecido queria morrer; parecia. Tentava mexer seu maxilar e desistia. Estava lá sem querer estar, mesmo assim não tinha desejo de sair. O verdadeiro vazio, poderiam falar. No entanto, ainda teria um desejo estranho, como se pudesse, de algum modo, se aproximar.

Deixa eu ajudar … — Realocaria aquele maxilar, com o mínimo cuidado possível, a fazê-lo sentir dor. Observavam, com certa curiosidade. — Diz seu nome. — Olhava diretamente naqueles olhos, enquanto retirava o sangue acumulado dum dos inchaços. — Eu sei que você quer morrer, mas não podemos deixá-lo ir tão facilmente, pelo menos não até que tenhamos o que queremos, entende? Então vamos ao início. Qual seu nome. — A figura o observava atentamente, parecia querer cuspir em sua cara, mas tinha algo nos seus olhos que parecia travá-lo. — Que foi, me reconhece? — Todos ficavam atônitos. — Me diz seus números. — Olhava para o chão, compreendendo.

Dois Meia … — Sussurrava, sem forças. Estava tão próximo da morte que não podia compor muito. — Você é o Dois Meia … — A voz enevoada dizia mais do que tudo.

E você é o Oito Nove. — Se lembrava daquela sala de aula, das pessoas, as mesmas caras. Um pouco amargo, pensava: não havia nostalgia em nada que remetesse aquele lugar, nem mesmo a poesia. — Oito Nove, quanto tempo … — Mesmo assim tinha um sorriso. — E parece que se lembra de mim. Na verdade, não te conheço tão bem. Nossos tempos de escola não permitiu … éramos de mundos diferentes, há de se concordar. — Todos da sala se entreolhavam enquanto observavam. — Mas bem, sei de algumas coisas importantes sobre você. Por exemplo, agora você está retendo informação importante, e segundo, parece ter um total desprezo pela sua existência. Agora, vamos recapitular os fatos: você quer morrer, mas não podemos deixar pois sabe de coisas que desejamos. A linha em comum entre nossos interesses é sua morte, mas a divergências de motivação nos impede de executar esse consenso. — Oito Nove tinha lágrimas em seus olhos, enquanto se contorcia na cadeira. Observava. — Poderia ameaçar sua mãe … — Arregalaria. — Mas seria maldade demais. — Se aliviava. — Poderia te cortar e machucar mais um pouco. — Falava. — Mas não daria em nada. — Tinha quase tudo fugindo de seus lábios. — Vamos ao caso, para criar uma reviravolta espetacular. — Todos foram levados para onde queria. — Primeiro, nós vamos te soltar … — Que absurdo. — Depois você nos contará tudo que queremos saber. — Ririam. — Agora, vou tirar essas amarras. — Fazia, era estranho, ninguém parecia querer pará-lo, mas também achavam graça de quando estava completamente desamarrado; de vê-lo tentar tão futilmente se levantar e perceber quão escravo era do próprio corpo. — Agora que está solto me conta. Juro, não vamos te fazer nenhum mal. — Já entediam tudo. — O que você esconde? — Poderia falar.

Eu já contei … — Dois Meia olharia para Mítia, que te olharia de volta.

É verdade, mas falta algo. Parando pra pensar, falta muito. — Um dos seus guardas te davam uma pequena lista. — Você é um tenente e sabe de bastante coisa, mas tudo que nos deu foi o nome de alguns dos seus capangas e comandantes. Queremos tudo, o nome de seus bancos, dos sócios, os engravatados comprados, sistemas de segurança hackeados, o Endereço particular hosteado, e o nome da família de quem encabeçou essa merda. Se me der pelo menos um desses itens, faço o favor de apenas te matar, se me der 6 itens te dou vaga de camarada, mais de dez, já fica como tenente. Pensa: gosta da proposta?

Dois Meia olharia. Tinha uma pequena fagulha naqueles olhos obstruídos. Sentia, poderia está na pior, mas queria viver. O azar de estar lá até que poderia fazer uma luz vir para o fim do túnel. Que engraçado. Estava errado sobre ele querer morrer, mas não conseguia entender do porquê?

Acho que terminamos aqui. — Anne olharia irredutivelmente para a saída. — Mais rápido que eu esperava, mas nem tanto. Diz que ele não se saiu bem, caro Mítia?

Melhor impossível! — Diria. — Acho que devo por um extra pelo nome dele!

Riam. Numa fala rápida, dizia algo amistoso e se despediam daquela sala. Iam para de volta do beco, indo para as ruas principais. Anne dizia que queria comprar pra ele uma bebida, mas não sabia se poderia ser verdade. Ela estava agindo estranho e não poderia sequer dizer quais eram suas intenções, seguindo-a primeiro por tédio e depois por curiosidade. Vê-la em Redneon, numa daquelas noites qualquer, onde apenas o sopro leve e sincero das brisas noturnas embebedadas de névoa e neon, poderiam te levar à qualquer lugar. Sabia, quando se aproximavam da Bright Park, sentindo o cheiro dos churrasquinhos fritando em pequenas tendas, dos doces embalados em amostra, os revendedores de bijuteria, os vendedores de Marketing multinível. Sentia o que chamavam de capitalismo: um milhão de coisas e praticamente nada. O mesmo revendido por um milhão de marcas, sustentando os pobres e oprimidos; que engraçado.

Pensei que você arregaria. — Pegava um banco num bar de rua. — Vou te dizer, sabia que você conhecia ele, por isso quis te testar. — Um bartender chegava, e perguntava o que queriam. Um chá de coca, uma caneca de cerveja, pediam. — Mas não imaginei que seria tão frio. Por que isso?

A resposta estava na ponta da sua língua.

Ele era melhor que eu pouco tempo atrás. — Bebia um gole. — Vê ele naquela situação, ao contrário do que você pensa, me causou um prazer terrível.

Ela entendia. Tomava seu chá de coca, encarava um letreiro distante, e mantinha o silêncio. Poderia desejar que ele falasse algo, mas sentia que era melhor assim. Suspiraria, sem realmente olhá-lo.

Você é uma pessoa horrível … — Terminasse. — Um dos meus talvez … — Num só gole terminasse. — Mas também pode ser uma mentira, sabe … acho que só está entediado. — Pedia outro chá. — Veio para cá, pensando que haveria alguma coisa … deveria saber que já viu muito pra continuar pensando assim. Eu e você, nós fomos engolidos. — Bebia outro gole. — Até o fim da vida, lutaremos contra esse tédio, buscando sempre mais e mais conflitos!

Que devesse responder, porém observava: ela tinha toda razão, que fosse; a mais absoluta razão que o completasse.



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