AVN – Capítulo 32 – Operação sem deuses no distrito (A giant tree)!


Era noite. Ruas e becos se interligavam como num labirinto, onde uma sombra ofegante descia em velocidade – sem rumo –, tentando escapar de algo …


Um dia passado de tocaia, o grupo guilt, composto por De-K, Bohn e Stephan se separava no meio das ruas lotadas da Giant Tree. Comerciantes gritando e telas luminescentes ofuscadas pelo dia. Eletrônicos eram vistos e barracas de comida degustadas. De-K seguia o alvo, de pseudônimo J-Down, pelo parque all trees. Lá, estudantes superiores faziam piqueniques, jogavam jogos, cantarolavam músicas. Observando, era percebível que esses mesmos jovens também compravam THC – quantidade consciente –, com sorrisos no rosto enquanto escondiam em suas cestas e mochilas. A juventude pulsava no brilho solar, cuja escondia as marcas de desespero e do vazio, dos seus olhos de fulgência explícita e as olheiras escusas. Para De-K, não interessava. Venda ilegal de THC dava apenas uma pequena multa, como dizia a lei nº 1729 de 658 após a grande queda, e os estudantes não eram nada e talvez nunca seriam algo. O verdadeiro fato era que tinha coisas estranhas acontecendo. Então ele observava, pra confirmar. Seu transmissor ressoava, parecendo haver uma voz na sua mente dizendo.

— ei Dee, se aproxima deles só para confirmar.— Estava sentado num café qualquer, Stephan, com um Eye-Change de última geração se conectando às informações oculares das lentes complementares postas em De-K. Dali, ele sabia de tudo que acontecia, cada paranoia, cada detalhe impercebível. — Depois degola eles. Esses amadores foderão com todo nosso plano se ficar seguindo o alvo assim!

Pela confusão de bicicletas, violões e cestas de piqueniques, eram dois homens, mais de um e oitenta cada, trajados de ternos caros e com óculos escuros intimidantes, os cujo dito. De músculos pulsantes passavam o dia perseguindo J-Down, e De-K se sentia obrigado a observar e perseguir. Não que tivesse ordens pra proteger, porém, como um caçador, sabia o que deveria fazer quando um vizinho tentasse brincar com sua comida.

— melhor esperar a inteligência comandar. — Era assim que pensava. Mesmo que ainda tivesse princípios, não seria na luz do dia que agiria e nem mesmo com tantas testemunhas. Os prédios ao redor tinham vista de tudo, onipresentes, sobrando apenas a finalíssima ordem.

— Dois perseguidores desconhecidos atrás de J-Down. Comprometimento eminente do objetivo. — Bohn, que escutava no carro a conversa de Estephan com De-K, relatava num arquivo pra Sofia. — vou pedir uma requisição pra atuar. Todos de acordo?

— De acordo? — Respondiam, reintegrando ao cenário, como estranhos. O café quente numa mesa, e o sentar num banco qualquer, observando. A tarde descia!

J-Down retornava ao centro no entardecer, voltando pelas avenidas de ar denso, onde massas colidiam na mesma constante divergência. Ia a uma boate chamada Los Andes, conhecida como a maior da cidade. Ela era comandada pelo artista pop de neon music chamado Galahad, antigo amigo de Jay. Fontes diziam que os dois eram sócio de longa data, com J-D sendo o único distribuidor daquela casa noturna.

Por lá, os dois perseguidores seguiam também, indigentemente, como se quisessem ser reconhecidos ou percebidos. Estava na cara que eram policiais, diriam os jovens esperando nas filas banhadas de luzes; na cara que eram perigo, todos transeuntes nas calçadas pensariam. De-K, que via todo plano ruir, apenas tomava pequenas providências, tentando fazer de tudo para que J-Down não percebesse seus perseguidores. Mas não adiantaria.

Já era noite quando, no beco ao lado de Los Andes, J-Down fugia. Numa conversa grampeada, ele informava prum anônimo:

— dois sacos de carne tão me seguindo. Isso desde manhã. Detetives não são, tenho certeza. — Naquele momento, J-Down já descia ofegante pelo brilho do apaixonante misturado à harmonia, criando o inexato frio, com tons de uma prosperidade doente. Se encontrava com Estephan e Bonh no veículo, fugindo dos trânsitos embalsamados de discórdia.

— amigo, é o cartel de Sampa. Semana passada tinha alguns desses vigiando meus homens. — Uma voz camuflada por drive responderia.

— que merda. Mas tipo, dá proteção aí. Meu pai tá viajando e a segurança fica uma merda quando ele sai. — A dúvida pairava no ascender de um cigarro. Fumaça exalando no pensar; não restavam dúvidas …

— tranquilo, vem pra dirty roots. Pro esconderijo. Mas não vou escoltar não. Se Sampa ficar sabendo que tô te acobertando, eles vão ter motivo pra invadir aqui. Isso ia foder a porra toda, então vem pelo caminho que ensinei. Esses imbecis vão te perder de vista em dois tempos. — Era Urich Uzi, de certeza, a relação entre os dois já havia sido traçada a pela equipe de inteligência, não sendo a droga de um drive que retiraria toda lógica de tudo.

Na sala do esconderijo em Redneon, a equipe de inteligência suspiraria, se reorganizando, com K liderando a parte de TI e Sofia a parte de comunicação. Os dedos teclando e os fios conectados nos cérebros recobertos de alumínio. A imagem macabra retornava, onde K dizia:

— ele é esperto por ter mantido tantos contatos com os Kalashinikovs. Essa descrição do Urich também é. Adiantar uma guerra é idiotice, ele precisa se preparar mais, conhecer o inimigo. Além do mais, colocar J-Down em Dirty Roots é bom. Essa merda de favela é quase um labirinto, ele facilmente pode fugir e nem mesmo perceberíamos. A inexistência de câmeras de segurança também fode tudo e nossos drones não vão poder voar baixo o suficiente pra serem usados eficientemente. Sorte que estamos nos preparando a semanas, e podemos localizá-lo por satélite, então só quem se fode nessa merda são aqueles dois retardados. Por isso, quero que sejam inteligentes. Não quero um tiroteio, minimizar as baixas é essencial, todo mundo de acordo?

— De acordo! — Os três perseguidores confirmavam, com o carro parando perto de um armazém na rodovia ionizada número quatro. Antes da interseção, eles pegariam as escadarias a pé, com os computadores de pulso e de mão apitando a localização do indivíduo, indicando-o a poucos metros donde estavam. Sofia continuava:

— outro detalhe: quero que matem esses desgraçados … — Sua voz era calma, observando o movimento do ponto no telão do círculo holográfico, tentando decifrar onde ia Jay. — vamos deixar Sampa confusa, pensar que os Kalashinikovs mataram seus capangas. Isso deve foder as relações e gerar conflito, o que é melhor pra nós. Aprendi que é em conflitos onde os chefões aparecem, tudo que mais poderíamos querer nesse momento.

A escadaria se ramificava para diversas ruas, becos e vielas diferentes, numa subida em zigue-zague pela colina iluminada por postes de luzes incandescentes, onde, correndo naquela escuridão recém-chegada de Dirty Roots, a equipe de Bohn, De-K e Stephan se dividia. De-K, armado com suas próteses biônicas de modelo Solid Grapple – que o permitia dá apertos de uma tonelada e meia, além de socos de quase duas toneladas –, ia pelas telhas das casas e muretas. Bohn cortava caminho entre as vielas e os becos escuros, armado com uma pistola de pistão magnético silencioso, de curto alcance, correndo sem chamar atenção dos homens Kalashinikov que protegiam certos locais estratégicos. Apenas Stephan ia pelo caminho direto, exposto nas escadas, descendo e subindo colinas, conseguindo enxergar na escuridão a localização dos dois indivíduos, se reportando de tempo em tempo para as figuras que se dissolviam na escuridão dos cortiços. O objetivo dos três era conseguir encurralar o grupo e executar sua missão com a menor quantidade de riscos.

Porém a missão não se desenvolvia, com J-Down sabendo driblar ambos perseguidores com destreza. A inteligência de No-heroes então precisava agir, reconhecendo nos movimentos de Jay, seu caminho. Sofia dizia:

— ele está indo pro esconderijo de Urich Uzi, o que é problemático, mesmo que já saibamos. Então devemos deixar a estratégia de lado e fazer uma abordagem direta. Dispostos?

— Dispostos! — As vozes estavam calmas, sussurrando naquela situação, onde observavam e escutavam na escuridão os passos e ruídos que pareciam os levar algum lugar.

Stephan, que se mantinha na escadaria, colocava os óculos de transmissão visual Bluetooth. O computador de braço fazia upload em tempo real dos dados mandando em conexão direta para uma das torres de célula que redirecionaria para um host de fachada na Gateway 0, onde um bot faria downloads sem levantar suspeitas. As imagens, que poderiam ser configuradas de diversos modos e retransmitidas, eram essenciais na caçada, já que permitia Stephan e a equipe de inteligência ter ampla visão sobre tudo que acontecia, mesmo na escuridão do labirinto que era Dirty Roots.

Ao mesmo tempo, curiosamente, três cidadãos encontrariam uma mensagem na GW 0. Alertas, eles avisariam:

— Sofia … — Seus olhos, atentos, hesitavam, dizendo numa mensagem consecutiva. — temo que é melhor deixar a operação de lado. Jó e I.O capturaram uma informação importante. Olha só essa merda aqui, André está sendo ameaçado pelo cartel de Sampa. Parece que tem certa lei transitando na megatorre 5 pedindo a alocação de máquinas de guerra ao redor das periferias, agindo de acordo a programação de uma nova I.A chamada de Veritas. Ela é um projeto antigo, projetado pela empresa privada Blue Security. O diferencial dela é que consegue traçar personalidades, usar dados da rede, satélites, formação de caráter, conferir arrecadação e orçamento, imposto de renda … ela usa uma gama extensa de informação ao combate ao crime, parece até uma espécie de supercidadão sem alma. Dificultaria bastante a vida de um pessoal mal envolvido, não concorda?

Stephan, ouvindo, não se importava completamente, apenas correndo atrás dos meliantes como antes ordenado. Quem realmente parecia afetada com a situação era Sofia, que tinha os olhos brilhando enquanto dirigia sua face para K.

A verdade era que toda aquela operação por atrás de J-Down, nada mais era que parte de um plano maior, que buscava o engravatado André Touloise, cabeça chefe do grupo de conservação moral da Giant Tree.

K não sabia disso, estando atordoada, enquanto redirecionava sua visão para os dados, escutando:

— Stephan, volte para o carro. Quero que pegue certas coisas … — Olhos iluminados bailavam em direção a Jó; — Ei vocês, mandem um e-mail anônimo para o partido de André. Escreva: La vérité doit être protégée. O autor deverá ser São Dinis e coloque a imagem da Giant Tree em anexo. Não deixe localização, então faça o envio camuflado do servidor 3. De-K, Bohn, esperem na quinta esquina perto da escadaria leste e aguardem as ordens de K.

De-K e Bohn rapidamente se aproximaram da esquina, desviando dos caminhos que projetavam em suas mentes. Lá, iluminados por postes tortos e luzes oblíquas vermelhas, eles interceptavam J-Down. Movimentos simples num jovem desesperado o faziam desmaiar, capturando-o e o escondendo numa caçamba de lixo qualquer – num beco escuro qualquer. Stephan chegava, após vinte minutos no silêncio, jogando dois cartuchos. Primeiramente ele havia retornado ao carro para pegar o equipamento, retornando com uma mochila com duas metralhadoras Rapid Fire de modelo clássico – com suporte 7,62 –, além de ter pego um chip de transparência, que camuflava rastreamentos por satélite.

Com Sofia que se ausentava, K era obrigada dizer:

— matem esses dois filhos da puta. Lembrem-se: três tiros, apenas munição 7,62. Os Kalashinikov tem certo tesão em armas vintages, então essa é a marca. Vai deixar essa merda mais realística. — Enviando dados sobre trânsito e caminhos sem blitz para seguir, K continuava. — Stephan, vai no quinto beco perto da segunda escadaria do leste, leve o corpo de J-Down o mais rápido possível. Além do mais, seja discreto. Entre no carro, levante os vidros, desapareça. Mesma coisa para os assassinos: matem e desapareçam. Fim das ordens.

Vendo a majestade luminosa da cidade nas trevas da noite marciana, Stephan descia Dirty Roots, carregando Jay nas costas. Também desciam, por outro caminho, Bohn e De-K, perseguindo os capangas até próximo de uma fábrica de polímeros. Seis tiros certeiros ecoariam quando o carro roncaria para longe, pegando a saída para Farintoche, subdistrito D.

Para Sofia, desaparecida, uma confirmação chegava, que a fazia se preparar para segunda fase do ato.

Um, que sequer deveria ser mencionada, no entanto, regojizava …



Fontes
Cores