Volume 1

Capítulo 4: Francisco

 

Estamos no lugar indicado por ele: um casarão luxuoso em um bairro nobre na cidade. Já é tarde da noite e a única coisa que consigo pensar é na desculpa que vou dar para o monitor quando voltar ao campus.

O que eu tô fazendo aqui, meu Deus?!, repito de novo e de novo como se fosse me responder.

Ao entrar, sou bem recebido por uma reca de empregados — eles não podem ver Sashi. Eles indicam o quarto onde um senhor está acamado, ligado à alguns aparelhos e bombas de soro.

— Calebe... — A voz dele sai fraca demais. — Entre.

Sashi vem logo atrás e vou até a cama dele. Bem magrinho e pálido, com muitas rugas e marcas de expressão profundas. Está de pijama listrado e é perceptível sua dificuldade pra respirar. Dá até pena.

— Você é o... Charles?

— Aqui... você pode me chamar de Francisco.

— Certo. Francisco. Por que o senhor me chamou até aqui?

Ele tosse pouco antes de responder. Sua situação atual me passa certa agonia e tento ao máximo não focar em seus olhos calejados. Um desconforto azedo me rasga a garganta quando engulo em seco.

— Sou um representante... de uma organização que... lida com esses pesadelos. — Ele faz outra pausa pra tossir. — Uma organização que age... longe... dos olhos da sociedade.

— Organização? Tipo uma agência de espiões? — A comparação é imediata.

— O nome é... Mandala. — Bem sugestivo, eu diria...

— Tá, mas ainda não respondeu minha pergunta, Francsico. Por que me chamou até aqui? Por que não conversa comigo através do seu persona?

— Não... eu. Queria te... pedir... pessoalmente. Você... vendo... como realmente... sou.

— E o que seria?

— Quero que... se junte... a nós.

Não. — Rápido, curto e grosso.

O velho treme sobre a cama, tão pálido que consigo ver suas veias debaixo da pele. Sashi me fuzila com os olhos, a sobrancelha fina erguida sob as mechas perfeitamente pretas.

— Não?

— Não? — Sashi repete.

— Não.

— Mas... por que... não?

— Porque não. Absolutamente não — digo, determinado.

— Você entende... a importância... desse pedido? — pergunta o velho, parecendo surpreso.

— Na verdade, não tô nem aí.

— Você... viu. Pesadelos são... monstros da pior espécie. Eles... eles são tudo que os humanos... temem...

— Pode parar! Já entendi tudo. Todo esse cenário está se encaminhando para algo e eu já sei o que é — interrompo-o, abanando a mão. — Isso é algum tipo de chamado para a aventura. Li isso em um grimório de escrita na net. As coisas estão feias para o lado de vocês e precisam de alguém para salvar suas bundas, não é?

O rosto do velho Francisco paralisa.

Já o de Sashi é o próprio conceito de descrença estampado. Charl... digo, Francisco, é pego pela minha virada inesperada.

Aponto para mim com o polegar e declaro: — Eu quero apenas respostas! Simples, não é? Porque definitivamente não quero me envolver nesse rolo de vocês, nem vai ser eu que vai salvar vocês de tudo o que tá acontecendo, seja lá o que for! Como tive minha vida normal virada de cabeça pra baixo por causa de vocês e quase fui morto por uma dessas aberrações, acho que mereço uma explicação, não é?

O velho infla as bochechas e solta uma risada acidentada entre tosses e soluços.

— Você... é interessante... mesmo, garoto. Pois bem. Creio que o mínimo que posso... fazer para convencê-lo da importante... missão que tem é lhe... responder suas perguntas. Foi o que... combinamos.

— Foi mais rápido do que imaginei — sussurra Sashi, de sobrancelhas arqueadas.

— Pode começar falando sobre esses tais pesadelos. O que são essas coisas?

— Tecnicamente... — Francisco se ajeita na cabeceira da cama espaçosa. — Pesadelos... são manifestações de sentimentos negativos dos... humanos como o medo, a raiva, o ressentimento... e muitas outras coisas. Representam o que temos de pior; as mazelas... emocionais e mentais que o mundo nos causa diariamente.

A história que ele contou sobre o cara do hospital me vem na memória. O episódio da menina que lia o livro de dramaturgia e caiu no sono também.

— Então — continua ele. — Esses monstros... são nocivos para a psique humana, incitando pessoas a cometerem... atrocidades consigo mesmas e com os outros, mas não apenas isso. Dependendo... do quão denso seja o Campo Lúdico em que atuem, eles podem criar distorções e efeitos sutis no mundo real, já que... ambos são espelhos um do outro.

— Campo...?

Campo Lúdico. Um... espaço separado... do mundo dos sonhos onde os pesadelos podem... se manifestar e interagir com o mundo real de forma... limitada. — Ele faz uma pausa, pegando o copo de água na mesinha ao lado ao passo que recupera o fôlego. — Imagine... que a terra onde pisamos seja o... mundo real e o oceano, o mundo dos... sonhos. É óbvio que... toda a terra que deslocarmos para os mares, será engolida por eles e... se tornarão parte do oceano. — Ele balança o copo e continua: — Agora imagine que retiramos com um copo uma pequena parte do oceano o deixamos na praia. A água permanecerá lá, em terra firme, desde que esteja dentro do copo. Entende o que quero dizer?

— Acho que entendi... Entendi foi nada!

Francisco suspira. Ouço a risadinha sutil de Sashi atrás de mim, denunciando sua diversão com minha lerdeza.

— O que quis dizer... com esse exemplo foi que, assim como podemos separar uma parcela do oceano... e aloca-lo em terra firme através de um copo, pode-se... fazer a mesma coisa... com o Mundo dos Sonhos. Esse é o conceito de Campo Lúdico.

— Ah, agora acho que entendi. Então todas as vezes que vi essas bizarrices eu estava olhando diretamente para um pedaço do Mundo dos Sonhos, não é? — Quando pensei que estava entendendo tudo, outra interrogação pisca na minha cabeça. — Mas então, se consigo ver a Sashi o tempo todo, significa que eu estou em um Campo Lúdico agora?

O velho pestanejou.

— O fato... de você conseguir ver sua... persona... significa que também pode ver os Campos Lúdicos e... os pesadelos contidos neles. Imagino que também sinta... diretamente os efeitos. Isso tem a ver com... o seu dom. — Ele outra pausa, tossindo como um cachorro velho. — Esse... mesmo dom... permite que mantenha... um Campo Lúdico... ativo à sua volta, a nível pessoal.

— Então sou um tipo de médium, é isso?

— Em... poucas palavras... sim — confirma Francisco, voltando a se deitar. — Por gentileza, agora preciso... descansar. Estou... muito... exausto.

Sua voz agora saia ofegante e abafada. Acaba meu tempo ali e não consegui saber tudo o que queria saber. Que saco!

— Ah, certo. Então eu já vou indo. Melhoras para você, eu acho.

— Calebe — chamou.

— Hum?

— Há uma última coisa... que eu gostaria de lhe avisar...

 

*****  *****

 

Acordo — ou será que já estava acordado? — e rolo na cama, alguns dos raios da manhã penetrando no quarto pelas frestas das cortinas.

Dessa vez não precisou nem de eu ser perseguido por uma bruxa louca e assassina para me manter acordado. Só a conversa que tive com Char... Francisco, foi o suficiente para me manter em claro a noite toda.

— Huaaaah!! — Me espreguiço, sentado na cama. Não vejo Sashi em nenhum lugar em uma primeira vista.

Será que o tiozinho tava errado sobre meus poderes?

— Sashi? Sashi, você tá por aqui?

— Huaaaaah!! Bom dia, Calebe! — A voz preguiçosa dela sai debaixo da cama.

— Santo Cristo, que susto! Você tava debaixo da minha cama?

— Eu achei que... seria melhor se eu ficasse mais próximo de você para te proteger melhor, então...

— Não precisa mais ficar debaixo da minha cama como se fosse o bicho papão!

— Bicho papão? Aaaah! Já ouvi falar dele! É um dos mais famosos do Mundo dos Sonhos. Ele é quase uma celebridade!

Eu não sei como reagir diante dessa sucessão de surpresas, então só imito a cara de paisagem do Bernardo, uma espécie de resposta padrão para tudo.

Enquanto Sashi se alonga, minha atenção se fixa nela, lembrando do aviso dado por Francisco:

 

— Há uma última coisa... que eu gostaria de lhe avisar...

— ...?

Pessoas com dons oníricos estão ligados por algo maior e sempre estarão fadados a se encontrar. Tome cuidado.

 

O que aquele velho mala quis dizer com isso? Tem alguma coisa a ver com o meu poder? Com Sashi? Eu penso nisso como um psicopata enquanto finjo prestar atenção na aula de Leitura e Produção de Texto.

Pessoas com dons oníricos sempre estarão fadados a se encontrar... como assim, tio?

Se aqueles com dons se encontram por alguma força maior, esse seria o motivo de ultimamente eu não ter mais um segundo de paz na minha vida? E se eu tenho um dom de verdade, como é esse dom? Desde quando eu tenho esse poder? Como eu consegui?

Perguntas, perguntas, perguntas... Que droga, velho!

— Então... alguém saberia responder? Calebe?

A professora aponta para mim e só aí eu lembro que ainda estou em uma aula. Merda! Parece que esse roteiro só gira para me fazer passar vergonha!

— Eh... eu... eu não sei não, professora — admito.

A professora Marta torce os lábios e procura sua próxima vítima. Sashi, ao meu lado, faz o que ela sabe fazer de melhor — ou a segunda coisa que ela sabe fazer de melhor —: rir da minha cara.

Bernardo lança aquele olhar de “passou a madrugada se masturbando de novo?” e eu o respondo com um sutil e já armado dedo do meio. Nesse meio tempo, alguém, do outro lado da sala, levanta a mão.

— Gostaria de responder?

— Nós, como agentes, criamos uma responsabilidade no meio social por meio de situações interlocutivas, usando palavras e criando consciência onde assumimos papeis nessa relação com aquele que recebe a mensagem.

Os olhos da professora Marta brilham em êxtase. Eu ouvi e pensei que fosse a mulher do Toogle falando.

— Muito bem, Lindalva! Ótima resposta!

— Por favor, professora, pode me chamar apenas de Linda. — Ela estufa o peito com um ar de superioridade.

Eu olho para ela e percebo que o rapaz que está uma cadeira atrás me encara fixamente — não aguentava mais ser encarado pelas pessoas — como um gato que esperava para dar o bote em um pombo.

Quando a tal Lindalva terminou de se exibir, também olha para mim de canto de olho, talvez adivinhando que eu fazia o mesmo. Isso é bem bizarro para dizer o mínimo. Fora isso, a aula seguiu tranquilamente e me esforço para prestar atenção e não passar outra vergonha desnecessária.

A hora do almoço chega e Bernardo vai ao restaurante universitário com grande expectativa, me deixando para trás com o calado Enrico, um figurão calado que Bernardo conheceu e passou a andar com a gente porque pediu para copiar as anotações do caderno dele.

A opção do dia é filé de frango grelhado, o preferido de Bernardo, e picadinho de carne. O restaurante está relativamente lotado e barulhento, mas está tudo normal até agora, o que é um alívio para mim.

Fico guardando a mesa enquanto Bernardo e Enrico vão buscar seus pratos, aproveitando para me distrair com a televisão aberta no jornal do meio-dia.

Nessa quinta-feira, mais duas pessoas foram encontradas mortas em suas casas, sob circunstâncias misteriosas. Já são um total de quatro casos similares e a polícia já instaurou inquérito para apurar a causa das mortes. Não há indícios de marcas ou suspeitos ainda...

Hunf! Assistir essas merdas durante o almoço... é a cara da mamãe. A mente começa a flutuar.

Como será que a mamãe tá? Sozinha em casa... agora que eu saí... será que... ela tá com algum namorado negão, gostosão e bem dotado?!

PAAAM!

Tomo um susto quando duas pessoas sentam na mesa, largando os pratos em cima da mesa como eu largo minha mochila no pé da cama.

A princípio, eu pensei que era Bernardo e Enrico e já estava esperando algum comentário ou piadinha cretina do tipo “Nossa, Calebe, já está com a cabeça em Saturno, ou seria Plutão?” ou “Tira a mão do pau, caaara! Estamos no meio do restaurante!”.

Mas para a minha surpresa, é Lindalva e aquele outro cara, me encarando como um maníaco, que sentam.

— Olá. Podemos nos sentar aqui?

— Aah... então, tô esperando uns amigos aí e...

— Sua opinião não importa mesmo, então vamos sentar de qualquer jeito, sim?

Travo no seco. Por que raios me pediram pra sentar, então?!

— Você é o Calebe, não é? — Lindalva pergunta.

— Sou.

— Creio que você já saiba quem eu sou. Esse ao meu lado é meu irmão gêmeo, Beni — ele acena para mim. Sem saber o que fazer, eu o imito.

Sorria e acene, sorria e acene.

Olhando melhor, percebo que de fato eram gêmeos — e bem bonitos, por sinal. Lindalva é uma menina alta, de ombros largos e magra na medida certa. Ela está usando uma jaqueta vermelha xadrez cobrindo uma regata preta que se emoldura perfeitamente ao seu corpo.

Ela é bonita em todos os aspectos — ou quase todos. Ela peca mortalmente nos peitos pequenos, quase inexistentes.

Seu irmão, Beni, tem o mesmo rosto oval que sua irmã e o mesmo tom de pele, além dos cabelos pretos com pontas loiras. Um retrato idêntico um do outro, tirando a barba rala em seu queixo.

Mas a pergunta que não quer calar: O que eles querem de mim?

— Mandei bem na aula hoje, não mandei? — Lindalva pergunta como se quisesse que eu a aplaudisse.

Uso minha tática infalível de fingir demência e faço de conta que estou prestando atenção na televisão, nas pessoas, na Sashi olhando os carros passarem na rua e se impressionando com eles... enfim, em qualquer coisa para não falar com aqueles dois.

Hoje eu não estava me sentindo à vontade para socializar.

— Mas me diga uma coisa, Calebe... — Ela une as duas mãos sobre a mesa e estreita os olhos. — Você também tem poderes relacionados com sonhos?

Minha mente dá um tilt por um momento que quase tive que me dar um murro para voltar a raciocinar.

— Hã... como?

— Não se faça de idiota, apesar de que não precisa de esforço nenhum pra isso. — Disso eu não podia discordar. — Nós sabemos o que você é...

— E o que eu seria exatamente pra vocês? — Eu só tenho que enrolar a conversa o máximo de tempo até o Bernardo e o Enrico voltarem.

— Nós vimos quando você deixou o campus ontem e foi até o hospital — diz o Beni em um tom acusatório.

— Pera aí... vocês tão me stalkeando, é isso mesmo que eu ouvi?

— Não estamos te stalkeando, só te seguimos até o hospital.

Eu não sei se rio ou se choro ao ver a Linda com aquela cara de quem tinha acabado de falar algo inteligente, de nariz empinado. Pelo visto, não precisa ser loira para soltar comentários desse tipo.

Apenas a mecha basta.

— É a mesma coisa, raios!

— Caham! A questão é que podemos sentir as ações do Mundo dos Sonhos e seus desdobramentos. Sentimos uma perturbação vindo do hospital e, quando fomos verificar, você já estava lá. Muita coincidência, não?

— É sério... não sei do que vocês estão falando. Acho que estão falando com a pessoa errada.

Espero que minha transpiração exagerada não seja confundida com nervosismo.

Os dois se entreolham como se tramassem algo. Eu não gosto nem um pouco do rumo que aquela conversa está tomando e não sei por quanto tempo a minha encenação vai funcionar.

E mais uma vez, a voz do senhorzinho da organização fala dentro da minha cabeça, como a porra de um DVD arranhado:

 


“As pessoas com dons oníricos sempre estarão fadadas a se encontrar...”


 

— Olha, acho que vocês estão muito loucos, tanto que estão vendo coisas. Sabe ontem eu fui ver um familiar que está muito mal das pernas e não pra fazer sei-lá-o-que que vocês acham que fui fazer. Mas e aí, vocês bebem? Usam drogas? Sabe... aqueles cigarrinhos que tão vendendo agora, sabe? Eu ouvi que estão muito populares no centro agora que...

Beni perde a paciência e bate na mesa, me agarrando pela gola da camisa ao se levantar do banco de uma vez. Boa parte das pessoas almoçando lá naquele momento e até as que estão na fila param para ver o que está acontecendo.

— Qual foi, ô zé ruela? Tá tirando uma com a nossa cara? Responde o que a gente perguntou, ou...

E então, Bernardo aparece, como em um passe de mágica, entre as pessoas passando no meio do refeitório com Enrico logo ao lado, tocando o ombro de Beni com uma mão e segurando seu prato com a outra.

Sashi assiste a tudo com a cara de alguém que assiste um filme de drama adolescente. Uma mistura de riso com ânsias de vômito, talvez.

— Já deu do showzinho, né? — Bernardo diz com a voz baixa. — Vocês tão no nosso canto. Dá pra sair, ô Papaléguas, ou só vai com ajuda?

Beni bufa e então me solta, se levantando. Lindalva segue a deixa do irmão e se levanta também. Pelo menos o corpo avantajado dele servia pra algo além de entupir os elevadores.

— Que se foda! — Ele tira a mão de Bernardo de cima do ombro com truculência. — A gente já tinha acabado mesmo. — A comida inteira no prato discorda. — Vem irmã! Vamo puxar o carro daqui.

Os dois saem do restaurante como se nada tivesse acontecido. Bizarro.

— Quem eram as torres gêmeas mesmo, Calebe? — Enrico pergunta com o olho caído dele oscilando entre os dois.

— Sei lá... dois doido aí.

— É... você tem um dom de atrair gente doida de todo lugar, né papangu?

— A começar por você, estrupício.

— HAHAHAHA! Nem vem com essa!

Eu deixo o Enrico de sacrifício na mesa para ouvir as besteiras do Bernardo, enquanto pego meu almoço, pensativo... Como eles sabem dos meus poderes? Será que eles também podiam ver personas e pesadelos como eu?

Como se eu já não tivesse coisa demais pra pensar, né porcaria?!



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