O Mago de Água Japonesa

Tradução: Soll

Revisão: Mon


Volume 1

Capítulo 6: Vinte anos Depois e um Náufrago

 

  “Ryo, eu quero falar com você sobre uma coisa", disse Abel, abordando o assunto depois que terminaram de comer a carne grelhada e de cuidar da arrumação básica.

"Hm? O que é?"

"Eu quero ir até a praia onde eu apareci, para verificar uma coisa. Se importa de me mostrar o caminho?"

"Não, de forma alguma. Então, devemos sair agora?"

Ryo vestia seu traje habitual: tanga, sandálias e as duas facas. Ele não tinha usado muito sua lança de bambu e faca ultimamente. A única razão pela qual ele sequer a fez, em primeiro lugar, foi a sensação de segurança que ela lhe dava quando a usava para combate à distância. Usar Murasame em seus treinos diários com o Dullahan e, depois, em seu encontro final corpo a corpo com o falcão assassino de um olho, o ensinou a dominar a lâmina especial ao ponto de ele não precisar mais da garantia da distância da lança. Ele de fato havia ficado mais forte.

No entanto, essa não era a forma como Abel via a situação.

"Ryo. Você disse que é um mago da água, certo?"

"Sim, está correto."

"Então, cadê seu cajado mágico? Por que não está levando ele com você?"

"Bem..."

Nas Províncias Centrais, o último lugar onde Abel estivera, era um princípio básico para magos possuírem cajados, pois eles desempenhavam um papel vital em suas vidas — ao atuarem como condutores de magia, os cajados auxiliavam seus usuários a controlarem a ativação e a eficácia de sua magia. Sem cajados, os magos precisavam de dez vezes mais energia mágica para ativar seus feitiços e, mesmo assim, produziriam resultados apenas um décimo tão eficazes. Em outras palavras, Abel francamente achava que Ryo era inútil sem um cajado.

"Ah, bem... eu não tenho um", disse Ryo, que nunca havia usado um cajado, varinha ou coisa do tipo...

Abel se arrependeu profundamente de ter perguntado ao ouvir aquela resposta.
Estraguei tudo de novo... Viver na pobreza é difícil de várias formas, então é possível que ele tenha perdido o cajado em algum momento e isso não teria sido uma prioridade. Como pude insultar meu salvador assim? Que pergunta idiota... Ah, espera aí. Acho que me lembro de ouvir rumores sobre "Magos do Inferno" ou algo assim, que conseguem usar magia com uma capacidade monstruosa mesmo sem cajados... Certo, talvez um cajado não seja o suprassumo que eu penso que é.

Apesar dos vários pensamentos que se agitavam em sua mente, Abel teve o cuidado de ser mais circunspecto quando falou novamente.

"Ah, sim, claro. Nem todo mundo tem um. Já que eu sou um espadachim, desde que eu tenha esta espada, ficarei bem", disse Abel, batendo na arma em suas costas. "Se acontecer alguma coisa, eu assumo a liderança e luto. Você pode ficar para trás, Ryo."

"De jeito nenhum. Eu não posso simplesmente deixar você carregar o fardo sozinho..."

"Por favor, me deixe fazer isso por você. Não me sinto bem em ser salvo sem retribuir o favor. Digamos que é uma questão de honra para mim", disse Abel, aproximando muito seu rosto do de Ryo.

"Oh, bem... se você insiste. Obrigado. Vou contar com você quando a hora chegar."

Era a melhor resposta que Ryo conseguia dar.

Os cadáveres não estavam mais na praia. Nem sequer cinco horas haviam se passado desde que Ryo carregou Abel de volta para sua casa, mas os corpos dos dois contrabandistas haviam sumido. É claro, Ryo não havia feito nada com eles. Muito provavelmente, algo do mar havia feito o serviço.

"Os outros dois estavam certamente mortos", disse Ryo, impassível. "Talvez carniceiros tenham devorado seus corpos? Ou monstros marinhos os arrastaram para as profundezas."

"Eu teria acabado como eles se você não me tivesse encontrado, Ryo", disse Abel, com gotas de suor frio escorrendo por suas costas.

"A Senhora Sorte realmente o favoreceu, hmm, Abel?", perguntou Ryo, sorrindo alegremente.

"É... acho que sim. Vou pensar dessa forma. Além disso, você não precisa falar tão formalmente comigo. Isso me deixa desconfortável, considerando que você é meu salvador e tal."

"É o correto, já que você é mais velho que eu... Mas se você diz, certo."

"Obrigado por me aturar. Eu prefiro deixar as coisas casuais, já que é assim que meus amigos e eu somos um com o outro."

"Amigos, hmm...", disse Ryo, refletindo sobre a ideia.

Eu pedi ao Falso Michael para me colocar em um local isolado porque achei que queria ficar sozinho. Mas... ter amigos parece bom. Sinto um pouco de inveja agora. Quero dizer, vinte anos é muito tempo para se passar completamente sozinho.

Atrás dele, Abel estava procurando por algo.

Eu sabia, pensou Abel. Não sobrou nada. Ou afundou no fundo do oceano. Pode estar até mesmo dentro do estômago do kraken. Não há muito que eu possa fazer sobre isso agora. Vou descobrir depois que me reunir com os outros novamente.

"Não encontrei o que procurava", disse Abel. "Obrigado mesmo assim, Ryo."

"Que pena. E agora então?"

"Para começar, quero voltar para meus amigos. Se eu conseguir chegar à cidade de Lune, devo poder enviar uma mensagem para eles de lá..."

"Lamento, mas não sei onde fica", respondeu Ryo, balançando a cabeça. "Acho que provavelmente é bem ao norte daqui, embora... o que significa que você terá que viajar bem longe. Nem sequer há pessoas nestas bandas, muito menos cidades."

"É mesmo... Acho que vou ter que me preparar para qualquer coisa então." Abel ficou em silêncio enquanto ponderava as coisas. Depois de um momento, ele olhou de volta para Ryo. "Ei, Ryo. Por que você não vem comigo?"

O convite de Abel foi uma completa surpresa para Ryo. Navegar sozinho por esta floresta era definitivamente um desafio. Seria difícil até para Abel fazer a jornada solo, apesar de sua habilidade com a espada. Pausas só tornariam a jornada mais difícil. Se os dois fossem juntos, um poderia dormir enquanto o outro ficava de vigia. Se ele fosse sozinho, não conseguiria dormir o suficiente porque sempre teria que estar em guarda. Quanto mais tempo ele ficasse acordado e cauteloso com o entorno, mais cansado ficaria. E o cansaço eventualmente levava a erros. Era um fato inescapável da vida para todos, novatos e especialistas igualmente.

É por isso que, na Terra moderna, a menor unidade militar é a célula de dois homens.

Apesar disso, até agora, Ryo não tinha imaginado jamais deixar a Floresta de Rondo. Ele construiu um arrozal ao redor da casa, cavou um sistema de esgoto e calçou os caminhos que costumava usar com paralelepípedos. Ele até cultivou uma enorme variedade de frutas dentro da barreira. Embora vegetais estranhamente faltassem em sua dieta, ele ainda assim não tinha queixas de sua vida aqui. Ele realmente não tinha, mas... quando Abel pediu para ele vir junto, ele não podia negar que uma pequena parte dele estava inclinada a concordar imediatamente.

Eu não tenho queixas. Também não estou infeliz. Mas... bem, eu meio que — de certa forma — quero ver como é uma cidade neste mundo de espada e magia. Só um pouquinho. Realmente sinto que seria um desperdício jogar fora esta vida tranquila que levei tanto tempo para construir para mim mesmo...

A falta de reação de Ryo deixou Abel um pouco em pânico.

"Desculpe por isso. Deveria ter preparado o terreno, né? Que tal você ir comigo até Lune? Eu realmente apreciaria sua companhia. Pense nisso como ser meu guia. Espera, não. Pense nisso como um emprego! Sim, um emprego. Eu vou te pagar para vir comigo. Vou até te ajudar se você pensar em tentar a vida na cidade quando chegarmos lá. Eu realmente não tenho a menor ideia de como chegar a Lune daqui. Então, o que você diz...?"

Depois de soltar tudo isso, Abel baixou a cabeça e esperou em silêncio.

Ah, certo. Eu não preciso deixar a Floresta de Rondo para sempre. Posso simplesmente voltar depois de ver um pouco do mundo. Não é como se eu envelhecesse mesmo... Tenho quase certeza de que a barreira do Falso Michael vai se manter enquanto eu estiver fora também.

Ryo não tinha base lógica para sua avaliação da barreira, apenas uma tremenda fé no Falso Michael.

"Sim, está bem", disse Ryo. "Preciso cuidar de algumas coisas primeiro, então o mais cedo que podemos partir é amanhã. Se isso estiver bom para você, aceito o emprego."

"Aaaah, você é um salva-vidas, Ryo!"

Abel agarrou a mão de Ryo com ambas as suas e a apertou feliz. Para ele, Ryo representava um raio de esperança. Ele havia sobrevivido até agora apenas graças ao fato de Ryo tê-lo encontrado e carregado de volta para sua casa.

Ryo podia não saber onde ficava a cidade de Lune, mas ele parecia bastante certo de que era "bem ao norte". Isso significava que ele devia saber o suficiente sobre a região para fazer um palpite fundamentado. Além disso, seria muito difícil para Abel partir por conta própria, considerando que ele nem sabia quão longe esta floresta se estendia.

Ele pode não ser ótimo em combate, já que é um mago sem cajado, então eu simplesmente cuido dessa parte. Vai ser bom só ter alguém para revezar a vigia à noite. Ah, isso me lembra... Vou comprar um cajado e roupas para ele quando chegarmos à primeira cidade da jornada. Acho que ele não ficará insultado se eu fizer isso. Pensando bem, eles podem nem deixá-lo entrar na cidade vestido daquele jeito...

Evidentemente, Abel estava sob a impressão equivocada de que a pobreza era a razão pela qual Ryo não tinha um cajado e vestia apenas uma tanga... Bem, pelo menos ele não estava errado sobre Ryo não ter um tostão.

Quanto ao próprio homem, sendo Ryo como era, ele decidiu cuidar de algumas coisas em preparação para deixar sua casa desacompanhada por um período indefinido de tempo. Ele não precisava fazer nada na casa em si, pois ela e suas funções, como a barreira e o silo, haviam sido cuidadosamente projetadas pelo Falso Michael. Ele sabia que elas continuariam funcionando perfeitamente mesmo se ele não estivesse lá.

O arrozal era uma perda, no entanto. Ele teria que reconstruí-lo quando voltasse, então congelou parte do arroz não descascado. Poderia comê-lo ou cultivá-lo após seu retorno.

O mesmo valia para as frutas crescendo em seu quintal. Tudo o que ele podia fazer era rezar para que algumas delas sobrevivessem a qualquer chuva.

Basicamente, quase tudo o que ele deixasse para trás ficaria bem, de uma forma ou de outra. O problema era o que levar consigo. A coisa típica do isekai seria algum tipo de inventário ilimitado ou subespaço mágico para armazenar coisas... mas ele não tinha nada parecido, o que significava que precisava escolher cuidadosamente o que levar.

Primeiro, ele decidiu trazer sal e pimenta-do-reino. Colocou os temperos em uma pequena bolsa de cordão que havia sido curtida com pele de cobra-pipa. Suspensa na cintura, não seria um grande estorvo. Além disso, ele não precisava de muito de nenhum dos dois, mas a comida ficava sem graça sem eles, então eram absolutamente essenciais nesta jornada.

Ele também jogou ervas para feridas em sua forma original na bolsa, assim como uma pederneira. Ele deveria ser capaz de criar uma faísca usando a faca que o Falso Michael lhe fornecera.

Ele podia fazer água por conta própria.

Espera, isso realmente vai ser o suficiente? Não levou muito tempo, hein?

Se você não precisasse de roupas extras como Ryo, acabava que você podia viajar com muito pouca coisa.

A única coisa que resta é me despedir...

Depois que terminaram de jantar, Ryo disse a Abel que sairia um pouco.

"A esta hora?", perguntou Abel, desconfiado.

"Vou. Este é o único horário em que podemos nos encontrar, então preciso avisá-lo que ficarei ausente por algum tempo. Por favor, espere aqui enquanto estou fora, Abel."

"Sim, claro."

Ele disse que ninguém mora por aqui, pensou Abel... Então, para quem exatamente ele está contando sobre sua jornada? Talvez o espírito de alguém que ele amou muito? Só porque ele está sozinho agora não significa que sempre foi assim. De qualquer forma, não é algo em que eu deva me intrometer.

Ryo ficou de pé na margem do lago situado no centro dos vastos pântanos ao norte. À medida que a lua se aproximava do zênite no céu noturno, o Dullahan apareceu, como de costume, montado em seu cavalo decapitado. Nesse ponto, a rotina normal deles seria Ryo assumir uma postura de luta com Murasame. Ele sinalizaria para o Dullahan fazer o mesmo e então eles cruzariam espadas.

Hoje foi diferente. Ryo se aproximou de seu mestre sem remover Murasame de sua cintura.

"Tenho algo para te contar hoje", disse Ryo.

"Vou deixar a Floresta de Rondo amanhã e não voltarei por algum tempo, então a sessão de hoje será a última por um tempo."

Ele não sabia se o Dullahan entendia suas palavras. Na verdade, ele nem sabia o que era um Rei das Fadas, para começo de conversa. Mesmo que ele não entendesse, o Dullahan o havia treinado na arte da espada há muito tempo, então Ryo sentiu que era o mínimo tentar expressar sua gratidão.

"Obrigado por tudo. Sinceramente, do fundo do meu coração. É só por sua causa que consegui sobreviver até agora."

Talvez Ryo tenha imaginado, mas o Dullahan parecia um pouco triste agora. Claro, ele não podia ler as expressões do Rei das Fadas por causa da falta de cabeça e rosto. No entanto, ele sentiu uma tristeza envolvendo seu professor.

"Não quero que seja como nossos combates de treino habituais. Quero que você venha para cima de mim com tudo o que tem esta noite", disse Ryo, criando a lâmina de Murasame.

Em resposta, o Dullahan desembainhou sua espada e assumiu sua postura. Então, a luta de espadas deles começou.

Durou duas horas sem cessar. A pontuação foi de dois contra três, a favor do Dullahan. Embora Ryo tivesse conseguido marcar aqueles dois golpes fatais... ele perdeu quando seu mestre finalmente desferiu seu terceiro golpe.

Outra derrota não fazia muita diferença para Ryo, já que ele nunca havia vencido mesmo, então ele se levantou para se despedir. Mesmo se sentindo instável, ele conseguiu.

"Muito obrigado", disse Ryo, curvando profundamente a cabeça.

O Dullahan se aproximou dele e lhe deu algo.

Mon: Oi Ryooo! 🫦👊 Feliz Natal~~ akakaka Gente é meme pelo amor de Deus!! | Sol: Olha a baixaria na minha Novel….

 


"O que é isso... Uma túnica e uma capa? Para mim?"

Ele pegou as roupas e as vestiu. Serviam nele perfeitamente, como se tivessem sido feitas especificamente para ele. A túnica era branca, mas lindamente bordada e fácil de se movimentar. A capa, que parecia ter sido feita como um conjunto com a túnica, adquiria um tom azul pálido quando colocada sobre ela. Sem mencionar o lindo gradiente azul no forro!

Ryo imediatamente se apaixonou pelas roupas.

"Muito obrigado! Vou estimá-las."

Ele se curvou profundamente mais uma vez. Quando Ryo se endireitou, sentiu que conseguia perceber a satisfação de seu mestre. Logo depois, o Dullahan montou em seu cavalo decapitado e desapareceu como de costume.

 

 

Traduzido por Moonlight Valley

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