Volume 1
Capítulo 47: O ECO DE MÁRMORE
Milan encarava as coisas com um toque de indiferença e descrença em seu rosto pálido.
Nos últimos tempos, ele vinha temperando e reformulando uma persona mais contida, assim para evitar tanta leitura de outros sobre ele. Evitar que as pessoas se aproximassem, também.
Porque as pessoas tendiam a trair em prol de seus benefícios. E ele pretendia viver de modo que nunca precisasse de ninguém. Nunca.
Mesmo assim, era inegável evitar que uma feição de choque surgisse em seu rosto moreno, pálido e de olhos cinzentos — antes atribulados, hoje opacos como algo vazio.
O salão não respirava. Ainda assim, Milan teve a estranha impressão de que estava sendo observado.
E isso era verdade… em partes.
Afinal, as figuras que lhe causavam um misto de repulsa e transtorno o olhavam com feições tão conhecidas. Suas feições.
Cópias quase idênticas às dele. Quase.
As estátuas alinhavam-se em círculos imperfeitos, algumas quebradas à altura do pescoço, outras mutiladas nos braços — todas ele. Versões suas, congeladas em instantes distintos: o jovem hesitante, o guerreiro ferido, o rosto endurecido pela raiva, o olhar vazio depois da perda. Mármore branco, rachado, cruzado por veios dourados que cintilavam à luz morta que descia do teto invisível em tonéis de névoa gélida e bruxuleante.
No centro, o silêncio era mais denso.
Pois ali…
…Ali havia algo digno de arrepios.
Havia uma estátua como as outras, exceto que possuía todas as suas partes. E era de um mármore diferente. Mais conciso. Mais duro. Mais sobrenatural.
Milan encarou-a por longos segundos que duraram no máximo duas dúzias de batimentos cardíacos.
Então, o mármore se moveu.
A estátua diante dele rachou do peito até o queixo. As fissuras se abriram como olhos, e delas escorreu uma luz pálida. A figura desprendeu-se da base com suavidade antinatural, os pés tocando o chão sem ruído.
Era Milan, claro.
Uma cópia perfeita de si mesmo.
Na verdade, eles eram iguais, sim. Na verdade, o eco de mármore era a visão perfeita de Milan, exceto…
Exceto que não era. Havia algo substancial aqui, que negava a perfeita congruência física entre eles. Algo que dizia que eram idênticos, mas que, no fundo, não eram.
E não eram, de fato, pois essa coisa, diferente de suas partes, não apresentava qualquer fratura em sua pele alabastro.
Era exatamente igual. O nariz levemente afilado, os olhos curvando-se num sorriso mesmo que sua boca estivesse numa linha horizontal. Os cabelos ondulados caindo para os lados em leves ondas…
Mas… essa substância que o fazia diferente, era realmente algo a se notar. Pois como Mil bem soube, ela possuía o que ele achava que deveria possuir.
Postura perfeita. Ombros alinhados. Respiração estável. Nenhuma cicatriz visível. Nenhuma dúvida nos olhos de pedra branca. Os veios dourados pulsavam sob a superfície lisa, como se o próprio mármore tivesse sangue.
O Eco o fitava com olhos brancos atravessados por veios dourados — todo seu corpo, na verdade, era cruzado por essas estranhas linhas.
Mas esta parte, isto é, este Eco era diferente porque parecia quase…
Um frio mortalmente gélido se apossou da espinha de Milan. A criatura sorriu. Depois inclinou a cabeça.
— Você demorou — disse o Eco, com a mesma voz, limpa demais.
Milan puxou a arma por reflexo. Não respondeu.
Avançou, em vez disso. Mas o que estava fazendo? Um segundo estava parado, encarando a coisa, até que…
Até que… ela falou! E isso provocou uma cadeia de sensações ruins e alarmantes em Milan. Ele se arrepiou dos pés à cabeça. Ele sentia que algo ruim viria disso… e estava sozinho ali. E não esperaria para ver o que aconteceria.
Foi tudo num piscar de olhos, mais rápido do que uma sinapse entregaria um único resquício de pensamento. Milan não podia vacilar, não podia perder o foco.
Ignorando se conseguia ou não convocar sua vontade e usar a Aura, Milan voou como uma flecha na direção do Eco, que sequer reagiu.
O primeiro golpe foi rápido, preciso — do jeito que Cildin o ensinara. Não havia motivo para tentar enganar o inimigo, sua postura era aberta e dava todos os indícios para um ataque frontal. E Milan não queria perder tempo, seu senso alertando… não, gritando! Para que ele acabasse com isso logo.
A lâmina atingiu o peito do Eco e abriu uma fenda profunda. Por um instante, Milan sentiu alívio.
Pronto, estava a salvo. Havia acabado com esse perigo…
Não havia…?
Então a rachadura se fechou. Não só isso: os veios dourados se alastraram, corrigindo a imperfeição, tornando o peito ainda mais simétrico do que antes.
Suor frio pingou da testa de Milan, e seu aperto sobre Espectro tremeu. Isso…
Na frente dele, o Eco se regenerou, sem mostrar qualquer pingo de arrefecimento.
E ele… sorriu. Mais do que era capaz.
Havia um brilho ensandecido em seus olhos brancos e indiferentes de qualquer coisa que representasse a vida. Havia loucura. Desejo. Anseio.
Erguendo um punho idêntico, o Eco não ficou parado.
Ele socou fortemente no peito de Milan, que foi arremessado longe, sentindo a força da criatura superar a sua e muito.
Ele bolou sobre si diversas vezes até conseguir parar o deslize, rolando sobre o ombro e tentando enfiar os dedos em fendas entre os paralelepípedos. Milan se ergueu sobre os joelhos, cuspindo sangue e suco gástrico. Sua mente girou, e ele viu estrelas.
Ar faltou em seus pulmões.
“Como… como esse desgraçado é tão forte?”
Milan conseguiu se apoiar num joelho, erguendo o rosto para cima.
A figura vinha lentamente em sua direção, andando como se estivesse em um desfile. A névoa se afastava aos seus passos; se fosse um ser vivo, Milan juraria que ela fazia de tudo para evitar ser tocada por ele.
Ele sorria sombriamente, cada vez mais se aproximando. Uma tensão tomou conta dele quando ele engasgou e cuspiu mais um punhado de sangue.
— É simples — disse o Eco, como se lesse seus pensamentos. — Eu sou… melhor. Mais… perfeito.
O Eco se inclinou para frente, e foi como se um trovão retumbasse na câmara, pronto para destruir tudo e a todos. Ele diminuiu o espaço entre si e Milan, deixando pegadas fundas no chão de paralelepípedos.
Sua figura era tão rápida que parecia quase um… espectro.
Sorrindo consigo mesmo, Milan só teve tempo de erguer sua lâmina a tempo de aguentar um soco da criatura.
“Tão… forte…”
O soco enviou uma onda pelo corpo de Milan, que sentiu seus membros pequenos ficarem dormentes. Entrementes, a onda percorreu todo o corpo dele, indo em direção dos pés, causando fissuras no chão de pedra.
A névoa ficou espessa em um ponto distante quando uma série de socos quase não eram defendidas por Milan, que estava surpreso por conseguir aparar cada um a tempo…
A tempo de ser morto.
Mas ele sabia, pois o rosto da criatura indicava, que isso não era nada mais do que passatempo para ela. Um sorriso mórbido emergia dele, ficando cada vez maior a cada investida e a cada desvio de Milan.
Ele se movia com uma constância e qualidade que não achava que possuía, notando seus instintos de batalha ficando mais e mais afiados. Ele aparava quantos golpes conseguia. Mas alguns passavam por sua defesa, destruindo mais e mais suas bases.
E sim, de fato, Milan estava sobrevivendo, bem como Eliriah disse, e isso o causava certa ânsia.
Não uma ânsia boa.
Ele queria vomitar.
E refletindo… quanto a Aura estaria sendo útil aqui?
Muito, no mínimo.
Entrementes, aparando e lutando para desviar, Milan chegou num nível de concentração exímio, sendo apenas um com sua mente.
Ele lutava para tentar escapar, e sempre que conseguia um respiro, mais golpes o sondavam.
Chutes, socos, rasteiras e cotoveladas. Joelhadas e cabeçadas… tudo ao seu alcance, o Eco usava. E seu sorriso se alargava mais.
Milan arregalou os olhos quando a batalha entrou num frenesi autêntico, a risada do Eco retumbando.
Ele acertou um soco ascendente, que fez Milan tropeçar para trás. Sem perder tempo, ele usou o mesmo braço para agarrar a gola de Milan, trazendo-o num aperto mortal.
Milan conseguiu se desvencilhar após alguns golpes com a mão e Espectro.
Mas o sujeito era forte demais… e imprudente demais, se servisse de algo.
Não era como se Milan não conseguisse causar dano. A lâmina de Milan zunia no ar, puxando a pele macia do Eco. Mas os veios dourados estavam à toda, remendando e costurando a cada rasgo. A criatura se curava num nível tão extremamente rápido, que os golpes já não surtiam efeito.
Era como se ele não tivesse qualquer controle sobre a batalha, também; mas isso era amplamente resolvido com o alto aprendizado do Eco, evoluindo num nível estrondoso. Ele compensava com força e rapidez; Milan, em leitura.
De fato, o que o separava de ter a cabeça pendendo era sua leitura na batalha. Milan conseguia ter a mente fria neste momento, sabendo o que fazer e como fazer…, mas não possuía o principal: atributo.
De nada valia se ele pudesse identificar o momento em que viria e como viria os golpes do Eco. Pois este a cada vez mais conseguiu remediar seus erros passados. E a cada vez mais ganhava velocidade.
Ele errava e usava isso para melhorar, chegando a um nível quase… perfeito.
E conforme isso acontecia, o Eco ia indicando o que o próprio Milan fazia de errado. Ajeitando uma postura aqui e punindo um jogo de pés errado ali.
Milan lutava para sequer infligir dano — à esta altura já não conseguia mais; o sujeito havia regulado suas aberturas e não permitia ser rasgado.
Enquanto o Eco conseguia curar a si mesmo, Milan estava com um olho inchado e três costelas quebradas.
Os socos da criatura eram simplesmente animais.
E a única pergunta que pairava em Milan era… Como ele estava conseguindo sobreviver?
Milan e o Eco trocaram golpes por quase cinco segundos. O garoto conseguiu enganar a criatura e ascendeu com um golpe mortal e suficientemente próximo. A coisa previu isso e um toque de tédio surgiu em sua tez de mármore.
Ele franziu o cenho e bloqueou a espada, arrancando-a das mãos de Milan e seguindo um fluxo de chutes desde a base do joelho até o peito de Milan.
O Eco terminou sua saraivada com um chute circular, arremessando Milan em direção às estátuas.
Mil voou longe, se sentindo nu de repente, agora que fora afastado de sua fiel companheira.
O jovem se chocou contra as estátuas, gemendo alto e cuspindo mais sangue. Ele devastou quase quatro fileiras e duas sessões de estátuas, levantando um pó antigo e primal.
Seu corpo era resistente, devido ao despertar do quinto gene. Mas essa criatura parecia ignorar isso, causando uma série de danos mortais em Milan. Ele tinha certeza de que qualquer pessoa comum teria virado pasta de amendoim com o primeiro soco.
Ou não…
Milan gemeu sob os entulhos, sentindo uma onda de vertigem. Ele se inclinou, vomitando mais sangue.
Sentindo sua cabeça quente, ergueu a mão e tocou a testa, sentindo uma fenda se projetando na raiz do couro cabeludo. Logo, sangue quente escorreu pelo seu olho — mas era sobre o olho inchado, que já estava cego devido à um golpe no supercílio.
“Hah… Quanto… sangue…”
Sorrindo febrilmente, Milan observou a poeira se assentar.
Lá, a duas dúzias de estátuas destruídas, caminhava em sua direção o Eco, sorrindo loucamente. Nada que Milan fizera lhe causou estrago.
E agora…
A névoa se afastava com sua aproximação.
Ele parou à uma distância moderada de Milan, e sorriu. Isso era algo que nunca saía de seu rosto.
— Gostou? Foi apenas o aquecimento. Vamos de verdade, agora.
No seu braço direito, os veios dourados ondulavam e fluíam como um rio transbordando para a palma da sua mão. Lentamente, Milan observou, palidamente e com um ricto incrédulo, algo tomar forma.
E esse algo…
Era uma cópia idêntica de Espectro, zunindo em tom alabastro e veios dourados.
Um sorriso cruel se afundou no rosto da criatura.
“Eu tô ferrado…”
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