Volume 1 – Arco 1
Capitulo 9: Um Herói Improvável Surge Entre os Gritos das Ruas em Chamas!
Deitado na cama, com a boca aberta e os braços e pernas formando um X, Dante dormia profundamente.
Seu torso estava coberto por lençóis verdes, e vestia apenas um calção vermelho. Roncava como uma caixa de som, e a baba descia da boca como um rio que transborda.
O celular vermelho de Dante começou a vibrar; parecia ter vida própria. Um barulho ensurdecedor de guitarra, no estilo metal, explodiu pelo quarto.
Dante se levantou da cama num pulo, arrancando o lençol de cima de si. Olhou para um lado e para o outro, completamente desnorteado, e conferiu se ainda estava na casa do seu herói, Esvanescer. Por um instante, quase o viu ali, tomando café, sentado numa cadeira branca.
Desapontado, caminhou até o celular sobre a cômoda marrom e desativou o alarme ao deslizar o dedo pela tela.
Esticou os braços para cima e abriu a boca ao máximo, alongando-se. Em seguida, foi até a janela fumê, iluminada por um tom azulado. Ao abri-la, reparou que o dia já havia nascido.
— Que bom que hoje é sábado… — murmurou o ruivo para si mesmo. — Vou me arrumar para encontrar aquele homem esquisito.
Dante tomou banho, vestiu uma camiseta vermelha com a letra “E” de Esvanescer estampada na frente e um short jeans. Seus pés estavam calçados com chinelos verdes, mostrando que o ruivo não ligava se suas roupas combinavam ou não.
Sentado à mesa, uma montanha de cuscuz amarelo e radiante estava à espera de Dante. A manteiga deslizava lentamente sobre o cuscuz, mostrando que ainda estava quentinho.
Nana, toda descabelada, vestida com uma camisola rosa e um avental azul, colocou uma xícara vermelha de 120 ml sobre a mesa. Na xícara, também havia a letra “E” estampada.
Quando Dante derramou o café da garrafa azul na xícara, uma luz vermelha se formou ao redor da letra, lembrando uma aura. Aquela era a xícara preferida de Dante.
Depois que tomou o café, o ruivo limpou a boca com a mão e caminhou até a porta:
— Vou dar uma volta, gente!
Nana, com um tom de voz quase militar de tão sério, disse:
— Juízo, garoto!
Dante abriu a porta e saiu para a rua. Ao fechá-la, meteu a mão direita no bolso direito, tirando o papel que o homem do espetinho havia lhe entregado.
Abrindo o papel, apertou os olhos, tentando tirar alguma informação daqueles rabiscos.
— Minha nossa, aquele velho não sabe nem escrever! Eu acho que funciona assim!
Dante observou sua rua, que seguia no sentido horizontal. No entanto, em frente à sua casa, havia outra rua de casas no sentido vertical.
Ele atravessou a calçada e seguiu pela rua vertical, ainda olhando para o papel. Após passar por cinco ruas, dobrou à direita e seguiu reto, agora na horizontal.
— Ainda bem que é nove horas da manhã e o sol não está muito forte! Se não, eu não faria algo tão infantil! Parece até que estou caçando um tesouro.
Chegando ao final daquela rua, subiu por outra, no sentido vertical. Seguiu olhando para os dois lados, observando casas grandes, feitas de tijolos e pintadas todas de branco.
— Se ele mora nessa rua, deve ser alguém cheio da grana!
Ele olhou para frente, com os olhos radiantes, esperando ver uma construção linda como as outras daquela rua. Mas, de longe, avistou uma cadeira de balanço amarela, posicionada de frente para um templo chinês aparentemente abandonado, com as madeiras podres e várias rachaduras nas paredes.
O homem do espetinho estava sentado na cadeira de balanço, abanando-se com um leque verde, com o chapéu de palha caído sobre o rosto.
Dante ficou parado, como se estivesse paralisado. A situação daquele lugar o fez dar um passo para trás, pensando em esquecer que havia passado por aquela rua. Mas, ao se lembrar de que o velho havia parado uma kombi desgovernada com apenas uma mão, sem sair do lugar, ganhou coragem e deu um passo à frente.
Suas pernas pareciam ter vida própria e pesavam os passos na direção do homem, mas sua mente soava como uma sirene, lembrando que aquele sujeito era alguém importante.
Quando Dante chegou a menos de um metro de distância, uma voz tranquila o surpreendeu:
— Que bom que você veio, garoto! Eu já estava pegando no sono!
Ye tirou o chapéu que cobria o rosto e o colocou corretamente na cabeça. Levantou-se da cadeira e continuou se abanando com o leque.
— Acredito que você tenha ficado desapontado com o estado do meu dojo! Acontece que meu antigo trabalho consumia quase todo o meu tempo, e por isso não tive como cuidar dele!
Com um olhar apertado de suspeita, Dante cruzou os braços:
— Então, do nada, você resolveu cuidar desse mausoléu? Isso é muito suspeito!
Uma veia quase saltou da testa de Ye. Ele fechou o leque com força e, apontando para Dante, falou em voz alta:
— Ora, garoto, quer aprender a usar o Nitro ou não?
Com a testa franzida e uma expressão enjoada de reprovação, o olhar do ruivo parecia julgar até a alma do homem do espetinho.
— Eu já estou aqui, né? Vamos ver como é esse seu treinamento.
Abrindo o leque novamente e cobrindo parcialmente os lábios, Ye estendeu a palma da outra mão na direção do ruivo:
— Calma aí, bonitão! Preciso te avisar uma coisa. Ontem, quando fiz aquela demonstração pra você, usei uma habilidade de desaparecer para formar aura. Porém, eu esqueci a minha churrasqueira e as minhas carnes. E como fiz a demonstração pra você, agora você me deve uma churrasqueira nova e dez quilos de carne.
Dante abriu a boca, encarando o homem com raiva, e retrucou:
— Se faz de doido, é? Eu não tenho dinheiro nem pra comprar um biscoito e tenho que te dar uma churrasqueira nova? Faz uma fogueira com os restos dessa ruína! E a carne você enfia na sua língua!
— Você é bem atrevido, pivete! Desse jeito, eu não posso ser seu mestre!
Ye deu as costas para Dante. O ruivo sentiu um peso no coração, como se sua vida dependesse daquela decisão.
Ele pisou forte no chão, socou o ar, xingou o velho por todos os nomes possíveis em pensamento e, depois de alguns minutos, falou:
— Muito bem, seu velho trapaceiro! Eu faço tudo que você quiser, menos te dar uma churrasqueira nova, porque eu não tenho dinheiro!
Ye abriu um sorriso de orelha a orelha e, virando-se para o ruivo, apontou o leque para ele:
— Muito bem. Sendo assim, eu quero que você consiga mais duas pessoas para treinar com você!
Dante sentiu a cabeça queimar; uma veia quase saltou de sua testa.
— Como eu vou arranjar essas duas pessoas? Eu nem tenho muitos amigos!
— Então, se você não tem muitos amigos, isso facilita o seu trabalho!
Ye pegou a cadeira de balanço e caminhou em direção à porta do templo, arrastando-a pelo chão, produzindo um rangido desagradável.
— Pense bem… talvez você já saiba quem deve chamar!
Ye abriu a porta de madeira, que rangeu de forma assustadora, arrepiando Dante.
Ao fechá-la, o homem do espetinho deixou o ruivo parado, com o olhar distante, como se tivesse mergulhado na própria mente. E, naquele momento, apenas uma pessoa surgia em sua memória.
Batendo os punhos, com um olhar determinado, Dante tomou uma decisão:
— Vou ter que sequestrar um marciano covarde!
Caminhando no sentido oposto do dojo de Ye, o ruivo maquinava estratégias para convencer o amigo de Marte.
Em uma delas, levava Dingo até o metrô e, agarrando um dos pés dele, ameaçava jogá-lo nos trilhos caso não aceitasse treinar.
Balançou a cabeça, tentando afastar aquele pensamento, e voltou a refletir.
Na segunda ideia, ele pegava um saco de lixo no chão, esvaziava-o, colocava o saco vazio no bolso e caminhava até a casa do amigo. Batia à porta.
Quando Dingo abria, Dante fazia a proposta de sair. Dingo, com um sorriso de orelha a orelha, aceitava. Então, Dante passava o antebraço sobre o ombro dele, conduzia-o até um beco, tirava o saco do bolso, colocava Dingo dentro e caminhava sorrindo de volta ao dojo do velho.
Mais uma vez, o ruivo balançou a cabeça, tentando afastar o pensamento, e falou para si mesmo:
— Não vai dar certo… Vou ter que sujar minhas mãos de lixo!
Dante caminhava sem perceber o tempo passar. Tudo ao redor parecia paralisado, como se estivesse imerso nas profundezas da água. Atravessava a pista como alguém incapaz de enxergar a morte vindo em quatro ou duas rodas.
Suas pernas se moviam em piloto automático, guiando o corpo pelas ruas. As pessoas o encaravam, apavoradas.
Uma mulher loira, de óculos e vestido verde, com os olhos esbugalhados, comentou com duas mulheres ao seu lado. Uma tinha rosto de lagarto, andava sobre duas pernas e vestia um vestido rosa. A outra tinha cabeça de porco, também andava sobre duas pernas e usava um vestido azul.
— Meu Deus… será que aquele menino está bem?
A mulher de rosto de lagarto respondeu, olhando para Dante:
— Não sei dizer. Pra mim, ele enlouqueceu!
A porca virou o rosto e falou com tom arrogante:
— Não tenho tempo pra perder com humanos e suas esquisitices! Vamos, meninas!
As duas se afastaram, ignorando Dante, e seguiram em sentido oposto.
O ruivo permanecia em silêncio, mas sua mente era um emaranhado de ecos:
Como convencer Dingo? Como se tornar mais forte? Será que esse velho é confiável? Qual a diferença entre dispersar e controlar?
Era um verdadeiro labirinto de pensamentos.
Um grito carregado de ódio fez Dante levantar a cabeça, despertando de seus pensamentos. À frente, uma multidão bloqueava a rua, gritando com fúria:
— Morte aos marcianos! Morte aos marcianos!
Parecia um coro das trevas, com vozes possuídas de crueldade. Até o ambiente parecia sombrio.
Dante sentiu um aperto no peito e, usando os braços, forçou passagem pela multidão. Quando conseguiu romper o bloqueio, a visão o deixou paralisado por um instante.
Dingo estava sentado no chão, todo machucado, segurando sua irmãzinha verde, de vestido rosa, que chorava desesperadamente. Ao redor deles, havia várias pedras, muitas sujas de sangue.
Os olhos de Dante se arregalaram; as escleróticas ficaram vermelhas. Seus punhos se cerraram com tanta força que quase rasgaram a pele. A testa se franziu, e veias saltaram.
Sentindo queimar por dentro, como se chamas quisessem irromper de seu corpo, o ruivo, por um instante, sentiu-se como um vilão.
Uma velha obesa, de cabelos vermelhos, óculos púrpura, camiseta vermelha com babados e saia preta, apontava o dedo indicador em direção a Dingo e sua irmã:
— Não há espaço para vocês neste planeta!
Dingo, ferido na cabeça, respondeu asperamente:
— Isso porque você ocupa todo o espaço, sua gorda! Deixe eu e minha irmã em paz!
A mulher franziu a testa e rangeu os dentes, ficando com o rosto vermelho de raiva:
— Viram? Esse inseto ainda é atrevido!
Dante, com expressão séria e olhar ardente, caminhou até um latão de lixo e o virou no chão.
Ao perceber o amigo, Dingo arregalou os olhos, prevendo algo ruim:
— Dante… o que você vai fazer com esse latão de lixo?
Arrastando o latão pelo chão, Dante caminhou em direção à mulher. Ela o encarou com temor:
— O que pensa em fazer, seu marginal…?
Sem responder, Dante colocou o latão sobre a mulher, que começou a se debater. Em seguida, o ruivo desferiu um chute violento, fazendo o latão rolar quarteirão abaixo. Faíscas chegaram a saltar enquanto rolava em alta velocidade, tão rápido quanto um carro desgovernado.
Em outro quarteirão, um casal de velhinhos caminhava pela calçada de mãos dadas, um casal apaixonado. O senhor usava chapéu, camisa social bege, calça marrom e alpercatas pretas; a senhora, gordinha, usava óculos e um vestido rosa com estampa de flores.
De repente, o latão de lixo passou pela pista em alta velocidade, como um vulto. O deslocamento de ar soprou sobre os velhinhos e quase fez o chapéu do senhor voar.
O velhinho segurou o chapéu, com os olhos arregalados de medo:
— Meu bom Jesus, o que foi isso?
A velhinha, balançando a cabeça, segurou novamente o braço do marido:
— Esses jovens estão apressados demais hoje em dia!
De volta ao local onde Dante estava, toda a multidão ficou boquiaberta, sem conseguir acreditar no que havia acabado de ver.
O ruivo cruzou os braços e falou em voz firme:
— Quem é o próximo que vai sair rolando?
As palavras pesaram como uma ameaça para a multidão. Mas, para a irmãzinha de Dingo, que o observava pelas costas, aquela foi a primeira visão de um herói.
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