Volume V – Arco 15
Capítulo 158: APÊNDICE.V (A Fenda)
O clarão do raio que caia cegou a visão do menino por um instante até que tudo escureceu. Preso dentro de seu próprio corpo, Yanaho não conseguia mais puxar ar e seu coração dentro do peito parou de bater. De repente, o som do trovão se tornou um silêncio, seus olhos se abriram.
Erguendo-se do chão às pressas ele checou suas feridas, estava vestido com o uniforme padrão de mirim, sem machucados no corpo, porém não havia mais Cidadela. Ao seu redor tudo era branco, exceto por uma imensa cortina vermelha que se estendia sem fim para cima e para os lados, naquela sala infinita sem paredes ou chão.
— Onde estou? Quem me trouxe aqui? — ficou de pé — Aquela luta, Suzaki, foi um sonho?
Aproximando-se da cortina, ele deslizou a mão pelo tecido. Parecia concreto o bastante. Até achar uma fresta entre as duas metades. Ao abri-la, uma luz forte o cegou. Rapidamente ele fechou a abertura concluindo ao tempo que encarava o topo do véu infinito:
— Não… aquilo tudo foi real.
Ele respirava fundo enquanto se lembrava do que havia ocorrido como se fosse uma memória antiga, encarando as palmas de sua mão notava que não havia nenhuma cicatriz como antes. Seu delírio só foi abalado quando uma voz chamou por ele pelas costas:
— Você cresceu, Yana.
Subitamente ele se virou encontrando uma mulher mais velha mas sem rugas. Um pouco mais baixa que o garoto, tendo os mesmos olhos vermelhos e cabelos longos castanhos que também se assemelhavam com o do mirim.
— Quem é você? — perguntou ainda próximo do tecido.
— Vai fingir que não me conhece?
— Já nos vimos antes? — coçou a cabeça — espera, por que me chamou daquele jeito?
— Deixa para lá. Sabe, é difícil culpá-lo, afinal nós nunca nos vimos — levou o dedo ao queixo — mas vejamos, só tem um jeito de eu ter te chamado daquele jeito, e é o mesmo motivo de seu nome ser Yanaho.
— Isso não é algo que eu falo pra qualquer um e — desarmou o corpo, arregalando os olhos — espera, você…
— Como se você pudesse esconder alguma coisa de mim, me contou tudo até agora — deu uma risada.
Yanaho não tentava mais manter distância, caminhava vagarosamente até a mulher ao tempo que ela prosseguia:
— Mas isso você não precisou me contar, a história de um casal com um filho a caminho. A mãe muito ansiosa e teimosa sem saber se seria menino ou menina escolheu…
— Yana — ele a abraçou subitamente — Mãe?
— Seu pai te contou isso, né — retribuiu o gesto — eu estou aqui meu filho.
Ele ficou naquele abraço por pelo menos mais um minuto, segurando a mulher mais forte a cada instante, deixando escapar lágrimas:
— Eu sempre quis te conhecer, porque eu precisava te dizer… obrigado, obrigado por me permitir viver.
— Está tudo bem meu amor, não precisa agradecer — pegou em seu rosto, limpando suas lágrimas — eu que preciso me desculpar por ter ficado fora todo esse tempo.
— É só por sua causa que estou aqui, não se desculpe — afastou o abraço — isso me lembra que nunca achei que fosse te encontrar. Como isso é possível?
— Eu também sempre quis te conhecer, segui seus passos esse tempo todo — ergueu os braços ao redor — este lugar nos trouxe para cá e, quer saber, você está aqui comigo. É isso que importa.
— Só que você morreu — desviou o olhar para o vazio branco ao redor — Isso significa que eu também…
— Fica calmo, uma coisa de cada vez — puxou o rosto do filho de volta para ela — Por que a gente não aproveita enquanto ainda temos tempo? Todo esse tempo longe, acho que te devo uma satisfação do por que fiz o que fiz. Daí você aproveita e me conta como tem sido sua vida, o que acha? — sorria empolgada.
— E-eu nem sei por onde começar… — limpou uma lágrima que escorria do rosto — Desculpa.
— Tá tudo bem — beijava seu rosto — A gente vai começar do começo.

Os assistentes vestiram suas máscaras para o procedimento. Cada um segurava um membro do cadáver, sendo o quinto responsável por segurar sua cabeça. Honda já havia aberto caminho pelo coração através da costela. Na medida em que examinava o corpo, ele espiava os olhares de seus subordinados. Alguns seguravam os braços com nojo, outros pareciam ter a cabeça dispersa, o tempo todo encarando as janelas.
— Algum problema, senhores? — questionou Honda.
— O Shiro está aqui e não em Novo Caminho — respondeu aquele que segurava o braço direito — Algo deu errado, não foi?
— Talvez — respondeu Honda, cuja mão dentro de Yanaho parou de se mexer — Ele ainda tem energia residual, isso é bom. Vocês das pernas, cheguem perto. O da cabeça, mantenha o cérebro ativo.
— Os reforços que mandamos para as tempestades na Cidadela não deram notícia — o assistente da perna direito comentou, enquanto enfiava a mão dentro do mirim — energia residual posso encontrar até mesmo em uma planta.
— Estamos sob ataque, não é? — o da perna esquerda hesitou em ajudar — Por que estamos cuidando desse aqui? Eu sei que você já salvou um monte de gente, mas até eu que não sou especialista sei que…
— Ele tem razão! — o assistente da cabeça dizia — Esse cara tá morto há quase uma hora. O que estamos fazendo aqui?
— Eu que preciso saber. Vocês só precisam obedecer. Encontraram a energia? — a dupla acenou com a cabeça — Ótimo, transfiram ela para o pulmões depois para o resto do corpo. Precisamos preparar os receptores para o que vêm por aí.
Quando a dupla das pernas enfiou as mãos no peito de Yanaho, suas auras piscaram. Imichi, que estava na janela assistindo, deu um pequeno sobressalto. Assim que eles encontraram a energia, removeram as mãos de dentro, passando a transferir aquela descarga para a superfície da pele.
— Relaxem pessoal— disse Honda, apertando as luvas — Estou apenas testando uma hipótese.
Sua mão foi mais fundo. Seus dedos entrelaçaram-se com o coração de Yanaho. A partir daí a aura do médico cresceu, iluminando a sala ao ponto de refletir pela fresta da cortina diretamente no rosto de Imichi.
— Vamos lá, garoto. Dê-me um sinal.
Em outro plano, Yanaho vagava com sua mãe pelo vácuo infinito. Apesar de estar a minutos caminhando, eles não estavam mais distantes da cortina do que quando começaram.
— Alguns tempo depois, soube que estava grávida.
— E como seus pais reagiram?
— Como? — ela parou na frente de Yanaho — Eles piraram.
Os dois riram. Ela continuou:
— Yoroho não tinha ninguém para reclamar dele. Até que Kenichi ficou feliz por nós, sabia?
— Tio Kenichi? Duvido — afastou a ideia com as mãos.
— Ele pode não saber demonstrar, mas ele se importa. Comigo foi a mesma coisa, ele só não queria que as coisas dessem errado.
— Então isso explica o por que ele sempre foi ranzinza — abaixou a cabeça — acabou dando tudo erra…
— Ei — levantou o rosto do filho pelo queixo, interrompendo — você está aqui, não está? Então essa história ainda não acabou.
— Meus avós… eu nunca os conheci, eles lutaram tanto contra você e o meu pai juntos?
— Seu pai tinha medo do julgamento dos outros, mas fizemos de tudo para unir todo mundo. Nossos planos eram perfeitos demais para qualquer um insistir em lutar contra, no final minha família inteira aceitou, mesmo emburrados — fazia uma careta.
— Então estava tudo certo — sorria Yanaho, porém mudava a expressão — exceto por mim. Eu estraguei tudo, antes mesmo de nascer.
— Você não estragou nada — balançou seus ombros — disse que não conheceu seus avós, imagino que não perdoaram a minha morte, né?
— Não, pior. Viram toda região taxar meu pai de aproveitador, e não fizeram nada, não desmentiram nada!
— Se eu tenho um arrependimento disso tudo, foi ter deixado Yoroho e você sozinhos nisso tudo — levou a mão a testa — no final, eu que estraguei tudo.
— Não é verdade. Estamos aqui, e é isso que importa, né? — pegava na mão da mãe — você nunca desistiu de mim.
Os dois se abraçaram uma vez mais, porém dessa vez a mãe afastou o garoto mudando sua expressão, Yanaho reparou na mudança de postura:
— Eu nunca vou desistir de você, meu filho. Porém as vezes fico pensando, no que resultou a minha escolha, tudo o que vocês tiveram que passar.
— Meu pai e eu honramos isso, eu luto dia após dia pra fazer minha vida valer a pena. Para justificar tudo o que tiveram que passar, não posso ser qualquer um — apontou para si mesmo.
— É sobre isso mesmo que estou falando.
Em um piscar de olhos, o corpo de Yanaho mudou. Seu uniforme de mirim foi desmanchado em troca da sua roupa de camponês. Na medida em que sua altura regredia, seu cabelo cresceu. O jovem mirim havia retrocedido no tempo, assumindo o corpo da sua infância.
— Conte-me, meu filho. Como a vida tem te tratado.

Do outro lado, Honda desferiu a terceira descarga de energia no coração do garoto. Pela primeira vez, o coração do mirim bateu. A máscara escondeu a expressão do médico que misturava alívio com horror diante do milagre que acabara de performar. Seus subordinados ficaram ainda mais incrédulos:
— Como isso é possível?
— Acabamos por aqui?
— Estamos longe de acabar — alertou Honda, ainda com as mãos cheias do coração Yanaho — Mas eu preciso de tempo para recarregar. Façam o seu trabalho de recuperar os canais de energia pelo corpo enquanto ainda consigo sustentar o pulso dele.
— Alguma coisa está errada, chefe — disse o assistente responsável pela cabeça de Yanaho — O cérebro está reagindo diferente à energia. É como se a estivesse… rejeitando.
— Já vi casos como esse, indica falta de vontade de viver — Honda dizia, apagando sua aura — Já está difícil reanimá-lo, com isso fica ainda mais impossível.
— O coração dele está fraco ainda — um dos assistentes respondeu — Se a gente fizer o trabalho direito, ele acorda.
— Seria esse o caso se não fosse pela recusa:Iro precisa de praticidade, e praticidade depende da vontade — Honda parou por um instante.
— Nós notamos descargas elétricas em todo seu corpo, chefe — disse o segundo assistente do corpo — a parada cárdica certamente com um raio.
— Não sabemos nem se conseguimos reanimá-lo, e mesmo assim está relutante — Honda encarou o rosto desfigurado e sem vida do mirim — Você quer morrer? Ou apenas desistiu da luta?
— E agora?
— Um de vocês — se dirigiu aos dois assistentes do corpo — chamem mais três enfermeiros. Precisamos manter o batimento cardíaco e se possível acelerá-lo, e torcer para o paciente acordar.
Imichi via mais ajudantes sendo chamados com pesar. Seus pés o levavam de um extremo ao outro da janela, alternando sua visão entre a cirurgia e as mãos unidas em oração próximas do queixo. Quando os três reforços entraram no campo de batalha cirúrgico, a mesa toda estava rodeada deles. O Shiro havia perdido a visão do paciente, exceto pelo seu braço desfalecido na beirada da mesa.

Yanaho e sua mãe estavam sentados de frente um para o outro. Ela olhava fixamente para o garoto cabisbaixo, que mexia nos próprios pés descalços, cujas feridas eram cobertas pela sujeira da terra.
— Quer saber, acho que nem você podia esperar que minha infância fosse tão ruim. Em pouco tempo fomos condenados por toda região pelos boatos que correram. Cresci sem amigos, preso dentro do cômodo de um fazendeiro que meu pai conseguiu em troca de ter que trabalhar sem descanso todo esse tempo.
— Seus avós tinham uma influência enorme por toda a região Sul, é verdade — ela guiou as mãos do garoto para fora dos pés — sinto muito meu filho.
— Meus dias eram ver meu pai trabalhando pela janela. Fraco, subserviente, acovardado. Não foi por isso que você morreu. Seria muito injusto — levantou seu olhar determinado — Por isso eu decidi fazer minha vida valer a pena!
A mãe sorriu ao notar a empolgação do garoto, de repente botas vestiram seus pés. Por sua vez, Aurora tirou de suas vestes uma espada de madeira que ofereceu ao filho:
— Seu pai sempre foi bom com presentes.
— É, só que isso aqui me deu muitos problemas — se levantou com o objeto em mãos — meu pai e tio Kenichi perceberam essa raiva em mim, tinham medo de eu me tornar algum delinquente. Eu tinha que viver como um cidadão independente da injustiça, até a ascensão como o pôr do sol. Se todos nós somos iguais, eu podia fazer alguma coisa. Tudo que eu precisava era de uma chance.
Após as palavras, o leve brinquedo de madeira com ponta arredondada, se tornou uma longa lâmina afiada que pesava nas mãos do garoto. O pequeno Yanaho tombou, porém sua mãe estava lá para corrigir a sua postura.
— Você escolheu o caminho militar como seu tio?
— Diria que esse caminho me escolheu. Por minha causa, meu pai acabou em um campo de batalha — uma ferida surgiu na palma de sua mão — O Senshi que me prendeu acabou morto, tentando proteger a minha vila. Meu pai na cama, minha vila destruída, contas a pagar, era tudo muito… grande. Eu tinha que fazer alguma coisa, entende? Precisava lutar para que isso nunca acontecesse de novo.
Yanaho balançava sua espada no ar, admirando-a como se fosse a primeira vez. Ele estava crescido, cabelo cortado, vestindo uma capa vermelha. Sua mãe o rodeava, tomando a capa nas mãos:
— Ficou bem em você, o cabelo e tudo mais. Só que eu tenho uma pergunta: se você se tornou um mirim, como ficou o seu pai?
— Mãe, eu juro que não queria… — apertava seus punhos.
— A parte de contas a pagar?
— O confronto que feriu o meu pai, deixou ele doente — O rapaz acenou a cabeça timidamente — Não podia mais trabalhar. Seríamos despejados, se eu não conseguisse dinheiro.
— Está tudo bem — pegou nos ombros do garoto interrompendo — continue.
— Para falar a verdade, pensava em voltar todos os dias, só que isso seria desistir. Eu não podia. Ele precisava disso, não, eu precisava disso também. As coisas pareciam estar no lugar pela primeira vez.
— Você realmente é meu filho — se colocou ao lado do filho, os dois virados para a cortina infinita ao lado — nós fomos até o fim por acreditar que no final valeria a pena.
De repente, areia surgiu nas mãos de Yanaho. Uma ferida se abriu no seu estômago, sujando seu uniforme de sangue. Aurora segurou seu filho enfraquecido, enquanto ele continuava sua história:
— Eu pensei que tinha encontrado a resposta: Usar armas para salvar, não matar. Mas encontrei pessoas que me fizeram questionar isso. Quando meus inimigos perguntaram o por que armas são forjadas, eu não sabia responder.
— No passado parecia tão simples — Aurora repousava Yanaho no chão — De onde veio essa dúvida?
— Encontrei o homem que mandou queimar minha vila. Queria sentir pena dele depois de vê-lo tentando salvar o reino dele do mesmo mal, só que também tinha ódio por ele estar se matando por isso. Vi a mesma coisa nesses inimigos, sem arrependimentos, apenas autodestruição. Eu não podia deixar acontecer de novo — correntes entrelaçaram suas mãos — por isso eu poupei a vida deles. Depois disso eu não sabia mais de nada.
— Seu coração é bondoso como o do seu pai, mas, assim como seu avô não enxergava isso, imagino que outros pensem de maneira parecida.
— Não é tão simples. Eu deixei assassinos fugirem. Pensei mais em mim do que nas pessoas que ele machucou. Se a Yasukasa tivesse a vida daqueles dois, ela não precisaria iniciar esse conflito.
— Você tem certeza disso? — arrebentou suas correntes com as mãos — Ninguém começa uma guerra por causa de duas pessoas.
— Os gêmeos disseram ser contra esse tal ditador. Mesmo assim, essa guerra me fez ver o quanto o mundo pode ser mau. Estou me tornando isso também.
— Pois bem, você se coloca importância demais. A verdade é que o mundo é muito grande e você é só um garoto pego no meio disso tentando cuidar do seu pai. Por acaso, já pensou em voltar? Estaria mais seguro.
— A guerra ainda viria nos pegar. Se os Kuro conseguirem tomar os Shiro, nada impede que os Aka sejam os próximos.
— E você pode impedir isso como? — acariciou sua cabeça — Por favor, meu filho, isso é muito grande, e você tão pequeno.
Yanaho recuou com as palavras da mãe.
— O que foi? — levou a mão ao peito — Foi algo que eu disse?
— E-eu… pensei em voltar para a Vila da Providência depois da morte do meu melhor amigo. Mesmo assim…
— Não podia desistir, imagino.
— Eu queria outra coisa — um trovão ressoou pelo lugar, assustando Yanaho — eu… — seus pés tremiam, fraquejando até ele se colocar de joelhos — eu pensei que era grande o suficiente para matá-lo!
Sua mãe insistia em levantá-lo do chão:
— Não há vergonha nenhuma em querer um mundo melhor. Compartilhamos do mesmo desejo, meu amor.
— Você não entendeu. Eu não lutei para melhorar as coisas. Lutei por raiva — apoiou-se na mãe, chorando — eu não posso perdoá-lo.
— E qual foi o fim disso tudo? — Aurora começou a guiar o mirim na direção da cortina.
— Eu perdi. Nunca tive chance. Nem de matar o Suzaki, ou salvar meus amigos, muito menos de parar esta guerra — forçou a mãe a parar no meio do caminho — Mãe, eu matei um homem.
— Pelo visto as espadas foram feitas para proteger, só que defender e matar às vezes é a mesma coisa.
— Eu não queria isso. Não me reconheço mais.
— Mas eu, sim — beijou sua cabeça — Sei também reconhecer quando as coisas no final não valem a dor que nos causam. É isso, não é? No fundo, nada valeu a pena.
Aurora tentou puxá-lo em direção a cortina mais uma vez, porém Yanaho manteve sua posição. O coração em seu peito saltitava, brotando uma dor ardente dentro de si.
Na sala de cirurgia improvisada, o corpo de Honda cedia apenas para seus três assistentes o manterem de pé.
— O coração dele… pulsou? — notou um dos assistentes.
— Mantenham o foco! Ainda não acabou!
O coração de Yanaho havia saltado uma única vez e voltado a quietude. A mão do médico permanecia pressionando o órgão como uma esponja, canalizando a energia bem no ponto focal da bomba de sangue.
No segundo plano o garoto suava frio. Uma arritmia perturbava seu peito, ao passo que sua mãe continuava a falar:
— Você perdeu a mim antes dos primeiros passos, e continuou em frente — Aurora puxava ele novamente em direção a cortina — foi tratado como um fardo por todos. Para fugir disso, confiou em pessoas que não devia. Se tornou um militar, e descobriu todas as malícias deste mundo, até perder seu melhor amigo sem nem poder dizer adeus...
— Por que está dizendo isso, mãe? Espera — tentava lutar, mas seu corpo estava fraco.
— Você persistiu em todas essas coisas apenas para terminar aqui. Isso é culpa minha, você herdou essa vontade do meu sacrifício por você e está na hora de pôr um fim a esse sofrimento — parou de caminhar, ficando frente a frente com o filho — como sua mãe estou te libertando desse jugo com um único pedido: Desista.
— Como assim desistir? — olhava para mãe, confuso — Que dor é essa?
— O mundo já levou muito de você — a mãe desviou os olhos — Devia olhar para si mesmo.
Yanaho encarou suas mãos. De um lado os dedos roxos e quebrados com queimaduras que se estendiam até o antebraço. Do outro uma cicatriz que seguia até seu torso que agora estava nu, ensaguentado e parcialmente torrado com a pele descolada em alguns pontos. A dor crescia de dentro para fora, na medida em que fios caíam pelos seus ombros. O filho de Yoroho levou as mãos à cabeça, enchendo suas palmas com o que restou de seu cabelo.
— Eu queria falar todas essas coisas para você em vida, meu filho. A única certeza que temos é que terá uma próxima perda. Por isso você não pode, ou melhor, não precisa fazer mais nada — com o abraço da mãe, Yanaho voltou a aparência de quando chegou ali.
Ela puxava o garoto para a cortina vermelha infinita, quando de repente Yanaho sentiu um formigamento no peito. O rastro de energia que Honda e seus assistentes sustentaram durante horas escorria entre os dedos do cirurgião.
— Senhor, estamos perdendo ele! — reclamou o assistente.
— Estamos no nosso limite aqui, senhor — acrescentou — Mais um pouco e podemos colocar a nossa vida em risco.
— Não importa. Continuem transferindo toda a energia que tiverem para mim, agora! — apertou o coração nas suas mãos sussurrando debaixo da máscara — Só mais um pouco.
A união dos médicos fez a sala toda brilhar em uma luz escarlate, a ponto de Imichi ter que proteger seus olhos do lado de fora. Do outro lado, Yanaho desabou cuspindo sangue.
— M-mãe, espera — suspirava fundo.
— Chega de sofrer meu amor. Sua vida, assim como a minha, já não vale mais nada — estendeu a mão para erguê-lo chão.
— Se isso é verdade, me diga — empurrou o braço da mãe — Por que nossa vida não valeu a pena?
— Nosso sacrifício, meu filho, foi em vão — se aproximou para agarrar o braço de Yanaho — me perdoe.
O mirim se ergueu subitamente, empurrando-a criando ainda mais distância entre si e Aurora. Sua mãe soltou um gemido de dor, se esticando para alcançá-lo de novo, mas dessa vez ela foi quem desabou no chão.
— Eu posso ter tornado meus sacrifícios em vão na luta contra o Suzaki, mas a senhora? Mesmo sem nunca ter te visto, tenho certeza que nunca diria isso! — apontava o dedo — Quem é você?
— Como pode ter certeza? Eu estou aqui não estou? Só irá restar dor e mais perda nisso tudo — suplicou a mãe — Como você vai voltar depois de tudo que sofreu?
A aparência de Yanaho voltava à ruína do final da sua batalha contra Suzaki. Aurora prosseguiu:
— É assim que vai voltar? E para onde? Um mundo que te abandonou, se dependesse deles você morreria aqui sem ninguém.
— Não, se eu ficar aqui é isso que acontece. Eu estou aqui porque deixei as pessoas que se importaram comigo para trás.
— Então não me deixe para trás — arrastava aos pés de Yanaho — Podemos finalmente estar juntos.
— Você não é a minha mãe. Se estou aqui é porque seu sacrifício valeu a pena, e mesmo que eu acabasse aqui, o trabalho dela nunca teria sido em vão — deu as costas para a cortina e a mulher que se arrastava — Eu vou fazer minha vida valer a pena, custe o que custar! Graças ao sacrifício da minha mãe eu estou…
Tudo sumia. A descarga de energia de Honda minguou as energias de seus assistentes adicionais. O trio caiu no chão desacordado. No silêncio absoluto, o corpo de Yanaho inclinou para frente, deixando escapar um suspiro tímido. Imichi invadiu a sala às pressas, encontrando todos os enfermeiros paralisados diante da mesa.
— E então?! — berrou Imichi.
Sem obter resposta, o próprio Shiro tentou se aproximar do garoto, porém os enfermeiros ainda de pé o bloquearam:
— Ainda não. Um agente externo pode causar uma infecção, vamos fechar ele!
— Infecção, então ele… — questionou Imichi, olhando para Honda ainda de costas para ele — Me responda, Honda!
Ainda naquele silêncio, o cadáver de Yanaho se mexeu de baixo para cima, como se estivesse respirando. Uma lágrima desceu do olho de Imichi.
— Ele está vivo… — ordenou Honda, enquanto olhava pras luvas ensanguentadas — Isso é…
Simultaneamente, um auxiliar respondeu junto a Imichi, ambos com palavras diferentes para descrever o ocorrido:
— Impossível.
— Um milagre.
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