Kapakocha Brasileira

Autor(a): M. Zimmermann


Volume 1 – Arco 3

Capítulo 31: Caçada, Parte 1

Fizemos uma boa caminhada silenciosa que durou algumas horas. Passamos pelos campos verdejantes fora das barreiras místicas do Ducado. Mirele ficou quieta durante a maior parte do percurso.

Ela parecia sentir a tranquilidade do vento também.

Grandes vales, colinas cheias de flores de uma manhã fria no continente sul. Comparado à minha terra natal, era tão bonito quanto. A paisagem me lembrava muito de lá, talvez seja por isso que eu estivesse tão calmo, mesmo sem uma espada ao meu lado, como tem sido por boa parte de minha vida. 

— Sobre a missão que conseguimos: Temos que caçar as serpentes das cordilheiras filhotes. — Mirele guardou a carta, que estava com ela. — Precisamos derramar o sangue de um espécime no papel da carta.

— Como só temos apenas uma, podemos guardar o sangue em frascos ou parte de nossas roupas para tocar na carta depois… — comentei — mas o que tem essas serpentes? O pessoal na guilda parece ter ficado assustado.

— É que elas são enormes! Até mesmo as filhotes que estamos indo atrás já são quatro vezes o tamanho daquela lula que se prendeu no navio do meu pai.

Após algum tempo de caminhada, paramos para descansar em um lugar mais plano, onde era possível ver todos os nossos arredores.

— Quanto tempo até subirmos no topo da cordilheira?— perguntou o homem mascarado em um tom mais grosso e abafado pela máscara.

A fala dele me surpreendeu. Eu esperava que Zaltan ficasse mais tempo tentando esconder. No fundo, eu estava feliz por ele querer ao menos se comunicar.

— B-Bem…

— Não deve faltar muito — interrompi Mirele. 

Estávamos num planalto, praticamente na parte mais baixa das cordilheiras, o terreno era mais acidentado e tinha mais pedras espalhadas, além de trechos com neve próximos.

Em alguns minutos de caminhada, estava um paredão que se tratava da primeira subida para um ponto  da cordilheira. 

Meu palpite é que encontraremos uma das serpentes em breve…

— Por mais que elas sejam alvos grandes, estamos em um lugar que será difícil de encontrá-las.

— Você tem um plano?

— Sim, mas é um pouco dependente da sorte. — Mirele pegou um graveto neve próximo e começou a apontar para alguns lugares no horizonte — O próximo trecho será neve pura, e como estamos no verão, as serpentes vão buscar ambientes com maiores acúmulos de  neve para se refrescar.

— Como você sabe de tudo isso? — perguntei

— Você não estava lá na guilda? — Mirele franziu a testa — Meu pai caçou uma dessas e muitos outros monstros. Milene nunca se preocupou em aprender as características deles, mas eu, sim.

— Sugere que façamos um acúmulo de neve? — disse Zaltan

— Exatamente! — respondeu a garota, entusiasmada — Uma avalanche para ser mais específica.

O detalhamento de Mirele do plano era surpreendente, eu já havia visto suas bugigangas durante a viagem de volta com Heinrich, mas jamais pensaria que ela conseguisse combinar tantos conhecimentos para resolver essa missão da maneira mais eficiente possível.

Era um plano que consistia de uma abordagem do uso dos misticismos de Zaltan para fazer um deslize controlado, atraindo as criaturas para o lugar onde estávamos agora.

Enquanto elas fariam sua migração, nós atacaríamos por cima, usando o paredão ao lado para cair nelas, onde as próprias serpentes não teriam espaço para fugir.

Zaltan se retirou após isso para caçar alguns monstros menores em busca de comida. Mirele aproveitou a oportunidade e se aproximou de mim com o rosto baixo:

— Lâmina… Bem, isso não é necessariamente algo que tenho permissão para te falar…

— O quê?

— A Duquesa Schweitzer está colocando eu e meu colega como membros especiais da guilda para que possamos ficar mais fortes, então…

Antes que eu pudesse fazer outra pergunta, Mirele já me interrompeu, gritando:

— Se alguma das serpentes aparecer. Peço que me deixe com a maior independência possível para derrotar ela!!

Arregalei os olhos quando ela terminou de falar e só depois é que consegui esboçar um sorriso sincero. Mirele estava verdadeiramente determinada a realizar seu sonho… lutando contra uma serpente gigante das cordilheiras sozinha.

— A guerreira mais forte da costa oeste…

Mirele abaixou a voz e soltou uma risada.

— Aquela bebê fez alguma coisa com você. Esteve bem mais calmo desde que nos conhecemos… Parece que era ontem que você disse que iria quebrar todos os meus ossos.

— É.. hehe… — cocei minha nuca.

— E o seu sonho, Lâmina? — perguntou ela — O guerreiro mais forte do mundo? Haha, saiba que meu pai não morreu ainda, viu?

Comecei a olhar para cima sem nem entender o porquê. Eu me sentia suspenso nos próprios pensamentos, as palavras de Mirele me tocaram bem no fundo.

— Lâmina, tudo bem?

— Ontem à noite, eu e o pessoal… jantamos na casa em que estamos hospedados. Apenas eu, eles, e a bebê. 

“Quando minha carta d’O Círculo despertou…” pensei enquanto apertava minhas roupas no bolso onde ela se encontrava.

“Eu tinha certeza de que essa missão ia além de só proteger a bebê…”

— Eu me senti com um novo propósito…

— Ah, esquece! Eu devo estar ficando delusional com a altitude…

Splat!

Uma carcaça de um monstro foi jogada por Zaltan no chão entre eu e Mirele.

— Pronto para comer?

— Como é? — Olhei com nojo para a carcaça diante de mim.

Era alguma mistura bizarra entre uma cabra e um cão. Patas com cascos mas um focinho com dentes afiados… Com certeza era um monstro, com aquela bela pelagem branca. 

Tinha também uma parte queimada com um buraco, provavelmente Zaltan acertou a criatura…

Mirele sacou o sabre dos panos enrolados e começou a cortar a carne do monstro em fatias.

Cada pedaço saia com fumaça e um forte cheiro de carne assada. A pelagem desapareceu completamente enquanto Mirele colocava as fatias sobre folhas que tinha guardado.

— Pode tirar a barriga da miséria!

— O monstro estava bem próximo, parecia estar nos espreitando…

— É, o Lâmina acaba atraindo monstros por conta da Aura abundante dele — disse Mirele, já comendo e engolindo um pedaço de carne da criatura.

— Não tem risco de atrairmos as cobras antes de você arrumar o seu planejamento?

— Nem um pouco. Lembre-se do que eu disse, temos que atrair elas com a neve.

Rrrrrruuuuummmm!!

Todos nós nos viramos para o pico na distância. Uma explosão de fogo tomou forma no topo de uma das montanhas da cordilheira.

A neve no cume começou a descer, formando uma enorme nuvem que derrapava junto das pedras. Os pássaros que estavam nas árvores descendo a colina também saíram voando.

— O que foi isso?! — exclamei

— Avalanche?! — gritou Mirele — Mas, como assim?!

O amontoado de neve se aproximava com muita rapidez. Pessoalmente eu não estava preocupado comigo, mas sim com Mirele. Não tinha certeza se ela conseguiria sobreviver àquilo.

— Afastem-se — disse Zaltan

Ele andou na direção da Avalanche e estendeu o único braço que tinha diante de tudo aquilo. Eu preparei minhas pernas para agarrar Mirele e pular. Contudo, a calma na voz daquele feiticeiro me certificava de que não era necessário.

Quando a onda de neve bateu, alguma força invisível tomou a forma de uma doma ao nosso redor, bloqueando toda a avalanche de uma vez só e transformando a neve compactada em uma parede de gelo sólido.

Em seguida, Zaltan golpeou a parede de gelo e fez um clarão. O som do impacto reverberou dentro da doma de gelo enquanto diversos raios desmanchavam a estrutura em uma explosão potente.

Boom!

Dos diversos fragmentos de gelo que se estilhaçaram da explosão, a fumaça da neve ao redor tomou outra forma.

— Za… Ei, colega, cuidado! — Mirele berrou

Nas laterais de Zaltan, duas mandíbulas enormes deformavam a neve. O tempo parou por um instante enquanto eu tentava pensar no que eu poderia fazer.

Estava muito longe, não conseguiria reagir à tempo de salvar ele. Que droga…

Enquanto eu estendia minha mão para tentar alcançar o feiticeiro, um fio azul surgiu nas costas dele. Mirele fez algum gesto com o braço, retirando ele das bocas da serpente no último instante.

Foi a Milene?! Não…

Naquele momento, me lembrei do que ela havia me falado na guilda dos caçadores… A alma de Milene foi assimilada no corpo de Mirele. 

Ela herdou os poderes da irmã?!

— Bruxaria dos Fios…

A explosão da cúpula revelou o resto do corpo da serpente das cordilheiras.

Ela estava nos circulando. Ergueu sua enorme cabeça e preparou outro bote.

Eu estava pensando em já levantar meus punhos e golpear a criatura, apesar de ser grande, não era dois. Mas eu me lembrei do que Mirele me pediu, será que ela consegue resolver isso sozinha?

— Pulem! — Ela conseguiu reagir antes de mim e Zaltan.

A cauda da cobra passou como uma enorme parede, colidindo contra mim e Zaltan. Minha visão ficou embaçada depois. Não era nada demais, acho que um pouco de neve entrou no meu olho.

Mas… eu só conseguia sentir o vento. Esfreguei meu braço no rosto apenas para ver uma planície nevada.

Eu caí com força no chão, ouvindo um impacto leve logo depois.

— Argh! O ar está seco demais para eu levitar!! 

Cof! Cof! O que acabou de acontecer?!

— Você não deve ser daqui, não é? — Zaltan disse — Aquilo foi uma das muitas criaturas assustadoras que vivem fora das barreiras das cidades.

Me levantei, dando tapas na minha capa e roupas para tirar o excesso de neve. O Capuz de Zaltan estava abaixado e sua máscara de madeira escura havia rachado um pouco.

— Temos que voltar! A Mirele não vai aguentar sequer um impacto que nem esse.

“Eu pensei que poderia deixar as coisas com ela. Mas eu senti muito bem essa pancada. Se não fosse pela minha regeneração acelerada e resistência acima da média, meus ossos e órgãos internos estariam como uma sopa.”

Zaltan levantou parte da máscara e deu um cuspe de sangue no chão nevado, manchando-o.

— Neve é bem ruim para amortecer impactos. — Ele abaixou a máscara — Ei, Lâmina, não é?

— Você viu a explosão no cume. Aquilo não era normal.

— Algum outro usuário de misticismo?

— Não. Não parecia uma explosão feita com algum misticismo ou ritual.

Olhei ao meu redor, a serpente nos tinha jogado muito longe. Estávamos do outro lado da montanha que tinha ocorrido a avalanche. A luz dos três sóis não pegava aqui, então estava bem escuro.

— Ainda dá para escalar a montanha e ver o local da explosão. Estou com uma pulga atrás da orelha.

— Vamos nos apressar, então. — respondi

Enquanto olhávamos para a montanha com os raios solares rasgando o céu em tons amarelos e alaranjados, eu senti uma presença sinistra e levemente familiar se aproximando.

A cabeça como um crânio de veado. Três metros de altura com olhos vermelhos que passavam pela neve como holofotes da morte. Um corpo robusto e musculoso coberto por pelos brancos, se camuflando perfeitamente na neve.

— Ah… — suspirei — Olá de novo

— U-Um Wendigo das Neves?! 

Fiquei surpreso ao ver que Zaltan estava gaguejando. O homem até deu um passo para trás.

Ele parecia menos assustado com a serpente gigante…

— Se acalme. Essa coisa não é racional.

— T-Tá… —Zaltan levantou seu braço. Um pedaço da neve se levantou e começou a comprimir-se, virando um gelo cristalino no formato de uma espada curta. — Use isso por agora.

Segurei na arma. Era extremamente leve, mas parecia sólida o bastante para aguentar alguns golpes.

No ponto onde agarrei, o gelo começou a brilhar, deixando o punho mais pesado.

Da mão de Zaltan, raios começaram a surgir em faíscas que iam até o chão, derretendo a neve.

Ruuuuuuuuhhhrr!

A criatura rugiu, deformando o ar ao redor e espantando a neve num pulso de vento.

 


 

Aquilo era impossível, Zaltan e Lâmina haviam sido lançados para muito longe, tudo que restava naquele lugar era Mirele e a serpente gigante.

A garota entrou na na postura de combate semelhante a de seu pai: mão esquerda nas costas, com a empunhadura elevada para proteger o rosto, pernas quase completamente agachadas para poder disparar em qualquer direção.

A serpente era muito grande, mas não era maior que aquele dragão invocado por Nira no mar. Mirele engoliu em seco, mas não tremia.

O medo agora só estava na sua mente, pois seu corpo estava em paz. Já a sua alma…

Tudo que restava em suas memórias era o rosto surrado de Milene antes de virar pó nas mãos de Nira.

“Milene… tem muito medo de cobras” O fragmento da alma da irmã ressoou dentro da mente de Mirele.

Não que aquele dragão fosse muito diferente…

“Mas você ainda decidiu lutar e me proteger contra aquilo. No fim, você morreu protegendo sua irmã…”

Mirele não sabia se deveria se sentir sozinha ou não. Seu pai sumiu e sua irmã se foi diante de seus olhos, mas uma parte dos dois ainda estava junto dela.

Ela empunhava um misticismo poderoso e um sabre que torna qualquer espadachim em um semi-deus…

“Mas, eu ainda deveria sentir medo daquela serpente?”

A mesma recuou a cabeça e preparou mais um bote.

“É assim que a filha de Heinrich Cahrazan deveria se sentir?”

Enquanto Mirele estava parada, o monstro avançou, espalhando neve para todos os lados.

“É desse jeito que a guerreira mais forte da costa oeste… não… do Oriente, deveria morrer?”

Quando a criatura abriu a boca, para engolir a garota assim como tentou fazer com Zaltan, a adrenalina pulsava em sincronia com a Aura de Mirele, fazendo seus olhos brilharem com ainda mais intensidade.

— Nem a pau! — a garota gritou com um sorriso extasiado.

Ela desapareceu em um tufo de vento diante do monstro, indo para o lado da cabeça e cortando sua boca com o sabre negro.

“Usar isso aqui é bem difícil. Meu pai provavelmente conseguiria implodir esse bicho com um pequeno corte.”

A serpente se debatia enquanto o sabre de Mirele estava fincado na sua carne. A garota segurou-se com as duas mãos. O monstro começou a subir a montanha íngreme ao lado.

— Como que uma cobra tá subindo um paredão de neve e gelo?! — Mirele grunhiu — Argh! Não importa!

“Gire o sabre e aplique algum efeito aleatório.” Ela colocou a mão em uma das escamas brancas da serpente, fincou o sabre ainda mais fundo nela e girou.

RRRRaaaaaassssssk!!!

O monstro rugiu em dor. No lugar onde o sabre estava fincado, um líquido roxo começou a jorrar, enquanto Mirele recebia a informação do que o sabre estava fazendo.

“Novo efeito aplicado e adicionado ao compêndio: Veneno” As palavras apenas entraram na cabeça dela como um sussurro

“Eu não recebi isso quando estava cozinhando a carne com o sabre… Compêndio… Será que ele só registra efeitos que nunca foram usados antes?!”

Outro pensamento também ocorreu pela cabeça dela: “Nenhum outro portador desse sabre em sei lá quantos anos usou veneno?”

Mas ela estava satisfeita, isso iria ajudar muito.

Quando a serpente subiu até o topo da montanha ao lado, ela jogou Mirele, que havia afrouxado sua agarrada nas escamas.

Mesmo no ar, ela instintivamente usou a Bruxaria de sua irmã para fazer um fio que puxou o sabre da carne do monstro até sua mão.

Apesar de toda a emoção do combate, ela não conseguiu se conter e acabou olhando para Tzoldrich na distância: o mar, a praia, a cidade… A terra natal de seu pai.

Ela ainda sentia um peso em seu peito por não conseguir dar um passo adiante contra Nira naquele dia. Contudo, as caças contra monstros perigosos seriam sua chance de se redimir e ficar mais forte!

Mirele retornou à realidade. Dessa vez, mais motivada do que nunca.

“Ainda vou deixar você orgulhoso!”

Voltou sua visão para baixo, observando a serpente abrindo sua mandíbula para deixar a garota cair dentro de sua boca.

“Os fios da minha roupa estão reforçados pelo misticismo da minha irmã. E o veneno não vai deixar você me morder com tanta força assim…”

Mirele sorriu em um semblante confiante enquanto caía direto na goela do monstro gigante.

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