Volume 1
Capítulo 16: Quebrando Trilhas
A trilha não tinha portão.
Tinha desgaste.
Pedra gasta por passos antigos, terra batida demais para ser natural, neve que não se acumulava do mesmo jeito em todos os pontos. Era o tipo de caminho que ninguém lembrava quem abriu, mas que todos seguiam porque parecia mais fácil do que decidir outro.
Kael foi o primeiro a sair da proteção da Academia.
O ar mudou imediatamente. Não houve vento nem ruído, mas o cheiro deixou de ser limpo. Ficou úmido, verde demais, como folha esmagada sob peso errado. A montanha respirava.
Satoshi veio logo atrás.
O fogo em seu peito não reagiu. Não se agitou. Não pediu nada. Apenas esteve ali, atento, como alguém que entra em território alheio e sabe disso.
— Aqui começa — disse Kael, sem olhar para trás.
Rask observou os lados, a mão próxima demais do corpo.
— Começa o quê?
— O lugar onde o reino não manda — respondeu Kael.
A trilha descia em curva lenta pela encosta. Não era íngreme. Não parecia difícil. Isso, por si só, incomodava. Árvores baixas se acumulavam dos dois lados, galhos tortos, folhas grossas que não caíam com a neve. O verde não avançava como muralha. Avançava como decisão antiga demais para ser apressada.
Mira tocou o chão com a ponta do pé.
— Está mais quente aqui.
— Está vivo — corrigiu Arume, em voz baixa.
Torvel caminhava alguns passos à frente, a mão flutuando a um palmo do ar. As tatuagens sob sua pele se moviam com atraso, como se recebessem informação de outro lugar.
— Nada direto — disse ele. — Mas tem coisa olhando.
Satoshi sentiu.
Não como presença definida. Como atenção espalhada.
Mais abaixo, a trilha afinou. Pedra virou terra. Terra virou raiz exposta. A neve já não cobria tudo. Havia manchas escuras onde o branco não se fixava.
Foi quando Satoshi viu as pegadas.
Ele parou.
— Espera.
Kael ergueu a mão, sinalizando silêncio.
Satoshi se abaixou devagar. Não tocou. Apenas olhou.
As marcas seguiam a trilha comum da montanha, mas algo nelas não batia. O calcanhar estava à frente. Os dedos apontavam para trás.
Pegadas invertidas.
Mira se aproximou, respirando fundo.
— Não são humanas.
— Não são de animal comum — completou Arume.
Torvel se agachou ao lado, analisando a profundidade.
— Quem fez isso anda leve e pesado ao mesmo tempo.
Rask sorriu de canto.
— Curupira.
O nome não precisou de eco. O ar pareceu se ajustar por um instante. Nada se moveu. Nada respondeu. Mas o silêncio ficou mais cheio.
— Ele não está afastando — disse Mira. — Está avisando.
Kael observou as pegadas por mais tempo do que o necessário.
— A trilha não é armadilha — disse. — É hábito.
— E hábito mata quando o lugar muda — respondeu Arume.
Satoshi sentiu o fogo em seu peito se alinhar. Não aqueceu. Não expandiu. Apenas se tornou preciso.
A imagem do pai veio sem esforço.
O homem curvado sobre a bigorna do reino. As mãos marcadas, um dedo aberto outra vez, sangue seco misturado à fuligem. O martelo descendo mesmo assim.
“Se parar, eles trocam a gente.”
“Esse reino de merda não espera ninguém cicatrizar.”
Satoshi se levantou.
— A trilha é só trilha — disse. — Não é escolha.
Rask arqueou a sobrancelha.
— E você acha que o Curupira está oferecendo uma?
— Não — respondeu Satoshi. — Está mostrando o erro.
Ele deu um passo para fora do caminho batido.
A neve cedeu sob o peso. A terra não afundou. Não reagiu. Apenas aceitou.
Nada aconteceu.
Depois outro passo.
O ar mudou de novo. Não para ameaça. Para atenção.
Arume sentiu primeiro.
— Ele percebeu.
— Quem? — perguntou Rask.
— A floresta.
Torvel respirou fundo.
— Não tem volta fácil por aí.
— Não tinha pela trilha também — respondeu Mira.
Kael observava Satoshi em silêncio. Não aprovava. Não impedia.
— Você está escolhendo agora — disse ele.
Satoshi assentiu.
— Estou lendo o chão.
Ele seguiu na direção das pegadas invertidas, não copiando o passo, mas respeitando o sentido. Um caminho torto, irregular, sem promessa de retorno.
Um a um, os outros vieram.
Rask, com um sorriso quase devoto.
Mira, leve e calculada.
Torvel, atento demais.
Arume, firme, o raio quieto sob a pele.
Kael por último, fechando o grupo como quem aceita o erro necessário.
A trilha comum ficou para trás.
Não houve ataque. Não houve aviso. Apenas a sensação clara de que algo fora entendido.
O verde não avançou.
Observou.
O terreno começou a mudar.
A subida não se fazia por inclinação, mas por resistência. A terra cedia menos. As raízes surgiam mais grossas, cruzando o caminho como costelas expostas. A neve praticamente desaparecera.
— Isso não é altitude — murmurou Torvel. — É decisão.
Satoshi sentiu nos tornozelos. Cada passo exigia mais força do que deveria. Não era peso. Era atrito errado.
— Aqui já não é trilha abandonada — disse Arume, pressionando o pé no chão. — É território assumido.
Rask soltou um riso curto.
— Então estamos dentro de alguma coisa.
— E não fomos convidados — respondeu Kael.
Um estalo seco veio da esquerda.
Todos congelaram.
Não foi galho quebrando. Foi curto demais. Controlado demais.
Satoshi ergueu a mão. O fogo em seu peito se contraiu, atento.
Marcas novas surgiam na terra. Arranhões paralelos, profundos. Algo havia passado arrastando parte do corpo.
— Tier baixo — murmurou Mira. — Mas irritável.
— Só marcou — disse Torvel. — Está medindo.
Eles contornaram a área com cuidado. O grupo se apertou naturalmente. Kael fechou a retaguarda.
Mais acima, arbustos densos raspavam os braços. Um cheiro forte de resina tomou o ar.
— Não toquem nos olhos — avisou Mira.
Mesmo assim, Rask sofreu um arranhão leve no antebraço. A pele escureceu por um instante.
— Esse é o custo — disse Kael. — Pequeno. Por enquanto.
Chegaram a um platô irregular. A Academia agora parecia distante demais para oferecer retorno.
Satoshi parou.
— Aqui alguém virou.
— Morreu? — perguntou Rask.
— Ou voltou errado — respondeu Mira.
O vento passou frio. As folhas não se moveram juntas.
— A floresta está ficando impaciente — disse Arume.
— Não — respondeu Satoshi. — Está esperando erro maior.
Ele tocou o chão pela primeira vez. A terra estava morna.
O fogo respondeu, contido. Permanência.
— Continuamos — disse. — Mais devagar.
— A partir daqui, cada passo é registro — completou Kael.
O verde fechou atrás deles, ocupando o espaço deixado. Não bloqueava. Apenas afirmava.
Torvel olhou para trás.
— Não tem trilha voltando.
— Tem — disse Mira. — Só não é a mesma.
Satoshi entendeu.
Não era ponto sem retorno. Era algo pior: o chão não os reconheceria de novo.
— Se alguém perguntar — disse ele —, não seguimos o caminho errado.
Rask sorriu.
— Seguimos o único que avisou.
O grupo avançou, pequeno contra a montanha antiga.
E enquanto subiam, a floresta deixou de avaliá-los como intrusos.
Passou a avaliá-los como escolha.
Apoie a Novel Mania
Chega de anúncios irritantes, agora a Novel Mania será mantida exclusivamente pelos leitores, ou seja, sem anúncios ou assinaturas pagas. Para continuarmos online e sem interrupções, precisamos do seu apoio! Sua contribuição nos ajuda a manter a qualidade e incentivar a equipe a continuar trazendos mais conteúdos.
Novas traduções
Novels originais
Experiência sem anúncios