Fantasma Sombrio Brasileira

Autor(a): Pedro D'Arck


Volume 1

Capítulo 9: Sequestro de Morte

"O estranho caso de pessoas entrando em estado de coma continua ocorrendo, e o número de vítimas só aumenta — algumas chegaram a desaparecer sem deixar vestígio algum, não havendo qualquer informação sobre elas desde então.

Para piorar, algo possivelmente conectado a isso começou a acontecer: várias coisas estão sendo devastadas de forma inexplicável pelos lugares, desde a destruição de pequenas construções até, acredite, edifícios e ruas inteiras, ocorrendo com mais frequência à noite. Até agora ninguém sabe o motivo — é algo completamente sem explicação — e a população está espantada.

A teoria que circunda tudo isso é a de que os indivíduos desaparecidos foram “arrebatados”, mas parte de suas almas ainda permanece vagando por aí, descontrolada, perdida em fúria enquanto destrói o que encontra.

Poderia ser, talvez, uma batalha entre esses espíritos? O que realmente está acontecendo? Seria o prelúdio do fim? Apenas o tempo dirá…", dizia a repórter no jornal das sete.

Era uma quinta-feira nublada. Apoiado no parapeito do terraço da escola, o professor Noah observava a paisagem florestal das montanhas ao longe, ao lado de um homem engravatado, de óculos escuros e cabelo loiro com franjas divididas e laterais raspadas, cuja postura era rígida.

— Cigarro? — perguntou ele, chacoalhando o maço para tirar um.

— Você sabe que isso faz mal, Dalton. Não está vendo o tanto de pessoas morrendo por causa dessa porcaria? — comentou o professor, tranquilamente.

— Sei. Mas acho que não deveria receber importância. Afinal, o Deus da Morte gosta quando as pessoas morrem, não é mesmo… professor? — disse com uma leve insinuação.

Noah apenas fechou os olhos e sorriu, relaxando ainda mais o corpo enquanto apreciava a brisa um pouco fria que circulava naquele dia.

— Então aquele é Saketsu Sura? — Dalton focou no garoto sentado mais afastado, no banco sob uma árvore, sozinho, observando os outros estudantes jogando futebol no campo de terra.

— Sim, é ele.

— E o que o torna diferente?

— Então você ainda não sabe da história? Bom… quando Saketsu tinha apenas três anos, os pais dele foram mortos de um jeito “anormal”.

— Hum…

— O corpo do casal foi encontrado queimado de dentro para fora. As portas e janelas da casa estavam trancadas naquele dia, sem qualquer vestígio de invasão.

— Não vai me dizer que…

— Pois é. A única “prova” encontrada ali, e que poderia ser responsabilizada pelo ato tão brutal, era o próprio Saketsu, chorando diante do casal carbonizado, completamente ileso.

Dalton tragou o cigarro, mirando o horizonte enquanto seguia atento a cada palavra do professor.

— Naturalmente, nada fazia sentido. Corpos queimados daquela forma, não tinha possibilidade de uma criança daquela idade ter feito aquilo. Mesmo assim, depois de muita gente quebrar a cabeça tentando achar uma razão lógica, acabaram não encontrando nada, e decidiram pela conclusão mais fácil: que Saketsu havia feito aquilo usando poderes sobrenaturais.

— Como sempre, as pessoas escolhem o primeiro sentido ilógico para explicar o que não compreendem; não que este seja o caso — expressou Dalton, como quem já está acostumado. — Você acredita que foi mesmo o garoto?

— Talvez. Só sei que, após o ocorrido, Saketsu ficou conhecido como o “Garoto Demônio” e, por causa disso, viveu sozinho por anos. As pessoas tinham medo dele, acreditando que quem se aproximasse acabaria amaldiçoado até a morte. E, de fato, ocorreram algumas coisas que pareciam confirmar essa dedução… então vai saber.

— Entendo. — Dalton se moveu depois de terminar o cigarro, caminhando em direção à porta.

— Já vai? Decidiu o que irá fazer? — perguntou Noah, permanecendo onde estava.

— Sim. Vou fazer o meu trabalho — respondeu, frio, entrando no prédio.

Alguns minutos depois, o sinal tocou anunciando a troca de aula. A turma de Saketsu voltava para a sala após a Educação Física.

Ao entrar, ele seguia direto para o fundo. No caminho, porém, notou algo extremamente estranho atrás de sua carteira: um par de orelhas negras, peludas e pontudas que, à medida que se aproximava, revelavam a quem pertenciam.

— Ukyi?! — gritou, espantado, apontando para o felino sobrenatural sentado na cadeira, olhando de volta com seus grandes e reluzentes olhos vermelhos.

— Que foi, Saketsu? Endoidou? — perguntou Tales, chegando por trás e espiando por cima do ombro do amigo, tentando entender o motivo do alvoroço.

— Não tá vendo ele, não?! — Saketsu alternava o olhar entre Tales e Ukyi, sem parar de apontar.

— Tô não — respondeu, indiferente.

— Você é cego, cara?!

— Pare, Saketsu — disse Ukyi com um certo tom insinuante, fazendo o garoto perceber o silêncio repentino na sala. Todos o olhavam com estranha confusão, o que o deixou sem graça. — Apenas tu consegues me ver e ouvir aqui.

— E o que você está fazendo aqui? Por que aparecer logo na sala de aula? — sussurrou entre dentes ao se aproximar e agachar, tentando ser discreto depois que a turma desviara o foco.

— Vim ver como você está.

— Agora, seu idiota?!

— Já disse para parar.

Saketsu acabou se exaltando, falando alto sem querer — nem precisou olhar para saber que o silêncio havia voltado, com todos encarando-o novamente, inclusive Tales, ao lado, tentando entender.

Ele simplesmente se levantou, pegou a bolsa pendurada na cadeira e foi em direção à saída.

— Aonde você vai, Sake? — gritou Tales do fundo.

Saketsu não respondeu. Ao chegar à porta, porém, deu de cara com o professor Noah.

— Ah! Aí está você! É para ir à diretoria.

— Já falou mal de mim lá, seu velho? — resmungou.

— Não, você não fez nada, que eu saiba. A diretora só quer falar com você, creio.

— Ai, ai… o que será agora? — Saiu reclamando.

Andando no corredor, Ukyi perguntou:

— A diretoria fica por aqui?

— Até parece que vou para lá — respondeu, frustrado, seguindo para a saída do prédio.

Ao chegar no pátio, como não havia ninguém por perto, adiantou-se até uma árvore e sentou-se no chão atrás dela, com as costas no tronco, evitando ser notado.

— Então, Ukyi, vai mandar a real agora? — disse ao felino parado diante dele. — O que é esse negócio de “glasbhuk”? Quem são esses zumbis-sobrenaturais que andam aparecendo todas as noites? Quem mandou Iuri me matar e por que você não apareceu naquele dia para me ajudar?

— Uma questão por vez. Glasbhuk é a definição para indivíduos que possuem poderes sobrenaturais do elemento treva, no caso, vós.

Saketsu ergueu uma sobrancelha.

— Zumbis-sobrenaturais são pessoas comuns possuídas por um tipo de entidade sobrenatural. Eles são atraídos pela energia de um glasbhuk, buscando alimentar-se da alma trevosa dele para evoluir, e, assim, ganham imunidade total contra o Sol, que os enfraquece por serem seres de propriedades obscuras. Eis o motivo de atacarem apenas à noite.

— Então sou uma refeição para eles? E por que só apareceram agora? Eles já existiam antes, certo?

— Sim. Porém, surgiram recentemente porque vosso poder espiritual despertou. Tua aura começou a emanar quando entrou em contato com a de Iuri dias atrás. Mas há algo errado nisso.

— O quê?

— As coisas estão mais intensas do que seriam normalmente. Esses e outros seres sempre estiveram presentes, mas em grau imperceptível. Agora até pessoas comuns estão percebendo e se envolvendo conscientemente com o sobrenatural. É como se o plano espiritual estivesse se mesclando ao material.

— Todas essas pessoas entrando em coma têm a ver com os zumbis-sobrenaturais?

— De fato. Todas elas se tornaram ou ainda se tornarão zumbis-sobrenaturais.

Saketsu ficou espantado.

— E quanto ao Iuri? Parece que alguém o mandou para me matar.

— Não sei quem teria feito isso. Há alguém que te queira morto?

— Não sei — pensou Saketsu. — Antes tinha, já hoje…

— Quem?

— Todos ao meu redor.

Ukyi silenciou.

— Quem diria… tinham razão. Eu realmente sou um garoto com poderes malignos — disse com um sorriso que escondia angústia, olhando para a própria palma, por onde já tinha visto as chamas de trevas emanarem.

— Teus poderes são malignos, sim, mas não se comparam a outros que já vi. Tu só te tornarás maligno pela forma como os usares. Até o momento, tens usado para o certo: sobreviver.

As palavras de Ukyi não bastaram para dissipar os pensamentos sombrios de Saketsu, que mudou o foco:

— Outra pergunta: o que aconteceu na segunda-feira, naquela rua, quando Iuri me lançou uma espadada que devia ter tirado minha vida?

— Eu te defendi. No instante em que ele ia matar-te, intervi interceptando a espada e o possuí, fugindo direto para tua casa.

— Isso explica eu não lembrar de nada… Quer dizer, como assim você me possuiu?! Não gostei disso.

— Não te preocupes. Não sou esse tipo de espírito. Possuir um corpo humano não é fácil para mim; só consegui naquele momento porque teu corpo ficou totalmente “aberto” no choque de energias sobrenaturais.

— Hum… — encarou Ukyi com desconfiança. — De qualquer forma, acho que devo agradecer, inclusive por me ajudar contra os zumbis-sobrenaturais. Mas por que não apareceu na luta contra Iuri também? Eu quase morri!

— Você e Iuri estavam no mesmo nível. Eu queria ver até onde podias chegar sem meu auxílio. Se fosse necessário, eu interferiria.

— Ah…

— Parece que garantiste melhor tua proteção. — Os grandes olhos vermelhos focaram o pulso de Saketsu.

— É, ganhei isto da senhora que salvou Lana… — Era a pulseira de raízes entrelaçadas que a sra. Gardênia fizera. — E então, por que resolveu aparecer justo agora, na sala de aula?

— Porque, neste exato momento, sinto uma energia hostil rondando o território, algo com forte cheiro de sangue e intenção de caça. Achei que devias saber logo, para tomar cuidado.

Atordido, Saketsu notou uma sombra surgindo sobre sua cabeça e, ao ver o dono, uma expressão incômoda tomou seu rosto.

— Vish… ferrou.

— Bonito, hein, Saketsu? — ironizou Smoker, curvado, mãos na cintura. — Matando aula dentro da escola!

— Só estou descansando um pouco, já volto pra sala — disse, sem nem disfarçar direito.

— Não vem com essa, seu lixo! Era pra você estar na diretoria agora, a senhorita Cari mandou eu vir te buscar!

— Tá, tá bom, já estou indo. — Saketsu se levantou, totalmente sem disposição, percebendo que Ukyi havia desaparecido, então deu de ombros e seguiu.

Na diretoria, Smoker bateu à porta, abriu e empurrou Saketsu para dentro, fechando-a em seguida.

— Com licença — disse o garoto, sem jeito.

— Sente-se, por favor — convidou a diretora, simpática, jovem, de cabelos brancos descoloridos, pele clara como porcelana e olhos azuis como o mar.

Saketsu sentou-se, nervoso e tímido, sem saber como agir diante de alguém que quebrava o estereótipo da diretora velha e rabugenta. Herdeira da cadeira do pai — o homem no grande quadro atrás de si — Cari era alvo de olhares e comentários pervertidos de rapazes, mas, apesar disso, mantinha-se gentil e agradável.

— Como vai, Saketsu? Quanto tempo. Smoker ainda anda cuidando de você?

— Não sei como você permite que ele ainda seja inspetor — murmurou, emburrado.

— Apesar de tudo, sei que ele tem um bom coração — riu. — Bom, pode achar que te chamei aqui por alguma coisa que aprontou, mas, na verdade, foi porque alguém quer te ver.

— Quem? — surpreendeu-se.

Pensou em Lana, mas não fazia sentido. Poderia ser a sra. Gardênia… ou outra pessoa. Antes que a diretora revelasse, ouviram uma batida na porta.

— Ah, deve ser ele! Entre.

A porta se abriu, revelando o homem loiro de terno e óculos escuros, semblante frio e autoritário.

— Vim buscá-lo — disse ele.

— Pois não, senhor Dalton — respondeu Cari.

— Vamos, Saketsu Sura — chamou Dalton quase como uma ordem, virando-se e começando a andar.

Saketsu sentiu um mal-estar pesado. Quem era aquele homem? Por que queria que ele o seguisse? Olhou para a diretora, e ela apenas sorriu, o que não ajudou em nada.

No fim, ele decidiu obedecer. Dalton seguia à frente, e Saketsu o encarava, com mil pensamentos turbulentos, até chegarem ao estacionamento. Pararam diante de um carro preto, modelo convencional, quatro portas. Dalton abriu a porta de trás para Saketsu entrar e deu a volta, assumindo o volante.

Minutos depois, já na estrada, a sensação ruim continuava. Algo estava errado. Uma impressão opressora o tomava. Em silêncio total, ele finalmente juntou coragem para perguntar:

— Quem é você? Para onde está me levando?

Dalton não respondeu. Pareceu ignorar.

— Ei, me responde — insistiu.

— Eu sei o monstro que você é — disse de forma curta e intensa, virando a cabeça de repente e olhando por trás dos óculos escuros.

“Ele sabe o monstro que eu sou? Do que está falando?”, pensou Saketsu, espantado, enquanto o homem voltava a atenção à estrada, mergulhando em completo silêncio.

Restava esperar as respostas — se é que realmente queria descobri-las.

Minutos se passaram, e eles já não trafegavam pelas ruas movimentadas da cidade, e sim por uma longa estrada curva de montanha que, ao chegar ao topo depois de uma extensa volta, passou a ser feita de blocos, ladeada por lindas árvores que guiavam até o destino que não estava longe.

Quando o carro parou, Dalton saiu, deu a volta e abriu a porta para que Saketsu pudesse descer. Ao pisar no chão, ele observou diante de si uma linda casa branca de dois andares, composta por diversas vidraças.

Era realmente luxuosa, e o fato se confirmou quando a viu pela parte de dentro, depois de seguir o homem que apenas o chamou com um movimento frio de mão. Pelos móveis e objetos presentes ali, era fácil afirmar que o dono era bem rico e tinha um gosto bastante refinado; Saketsu nunca estivera em um lugar assim antes.

Tentando adivinhar o motivo de ter sido trazido ali enquanto seguia no encalço de Dalton, acabaram chegando a uma escada que provavelmente dava acesso a algum tipo de porão, e começaram a descer.

Na metade dos degraus, Saketsu não pôde deixar de reparar que dali em diante tudo era um pouco diferente do restante da casa, pois estava descuidado, havendo manchas avermelhadas nas paredes e nos azulejos brancos, aparentando que alguém havia tentado limpar, porém sem obter muito êxito.

Para piorar, em meio a isso um estranho odor nauseante começou a surgir, ficando mais intenso à medida que se aproximavam da porta de aço fechada no fim do degrau.

Quando chegaram e Dalton a abriu com a chave retirada do bolso, todo o cheiro se intensificou, e Saketsu logo entendeu o motivo, impressionando-se negativamente enquanto era conduzido para dentro pela mão em seu ombro.

No quarto malcuidado havia três pessoas. A primeira que Saketsu reparou era um homem de meia-idade virado em direção à porta, preso a uma cadeira velha por arames farpados encravados em seu corpo nu e com uma chapa de metal soldada cobrindo a boca, provavelmente para impedir que gritasse, embora não fosse suficiente para abafar os gemidos agonizantes que começaram a surgir quando viu que havia gente ali, os olhos afogados em lágrimas de desespero.

À esquerda dele havia uma mulher pendurada no teto pelos pulsos, também nua, presa por arames farpados envolvendo sua pele e com uma chapa de metal soldada na boca — não que ainda estivesse sendo útil, uma vez que a exaustão havia tomado conta dela, mal conseguindo manter os olhos abertos — e, pelos hematomas e marcas roxas presentes em todo o corpo, era notável que havia sofrido bastante abuso.

Por fim, no canto esquerdo da sala, deitado sobre uma mesa de ferro, estava um garoto de mais ou menos a idade de Saketsu e, diferente dos outros dois, ele estava totalmente inconsciente — isso para não dizer morto. Seu corpo, que parecia estar servindo mais como instrumento de estudos, tinha algumas partes abertas e diversas linhas finas de rastros de sangue, provavelmente marcas do arame que antes o amarrava, assim como os ferimentos em sua boca, que em algum momento devia ter sido tapada pela chapa metálica.

— O que é tudo isso? — questionou Saketsu, sentindo o estômago embrulhar com uma forte ânsia, sufocando-se com uma vontade imensa de vomitar, ainda mais pelo forte cheiro de podridão concentrado no ambiente, incapaz de sair pelo único e pequeno duto de ar no alto da parede.

— Isso é o que acontecerá com você se não cumprir o que estou disposto a ordenar — disse friamente, ao trancar a porta e se aproximar de uma mesa no canto da parede, onde havia vários utensílios que iam desde ferramentas médicas até de trabalho, alguns pendurados também e, pela sujeira avermelhada, era fácil adivinhar para que estavam sendo usados.

Dalton pegou uma faca de prata da mesa e a colocou nas mãos de Saketsu.

— Mate ele — ordenou, indicando o homem na cadeira.

Saketsu não se moveu; apenas observou as mãos trêmulas segurando a lâmina, chocado demais para fazer qualquer coisa.

— Faça — ordenou novamente, mais alto e claro.

— Eu não vou fazer isso... São pessoas que estão aqui!

— Não são pessoas, são monstros, assim como você.

— Quê?!

— Glasbhuks são a escória do mundo; vocês não merecem viver.

— Você é louco, cara? De onde tirou isso? Eu já disse que não vou fazer nada! — decidiu, lutando contra o medo que claramente emanava de si.

— Está bem. Eu fiz minha parte; matar você também não será nenhum problema para mim…

— Por que quer que eu faça isso?! Não faz sentido! O que você quer de verdade? Acha que somos algo para te entreter?!

— Eu só quero te provar. Estou à procura de glasbhuks honrados para servir ao meu lado.

Saketsu riu.

— Isso é sério mesmo? Você acha que se eu matar este homem eu irei seguir um merda como você?

— Você não tem escolha. — Dalton retirou o celular do bolso, deu alguns cliques e ordenou: — Podem trazê-la.

Saketsu não entendeu o que ele havia acabado de fazer, mas sabia que alguma coisa ruim estava prestes a acontecer no momento em que a porta atrás de si se abrisse.

Não demorou um minuto; três pessoas entraram, e a que mais chamou a atenção foi a que estava no meio, mantida pelos braços de dois delinquentes bem arrumados.

— Lana!

— Sake... tsu... — balbuciou ela, fraca, zonza, parecendo ter sido fortemente dopada.

As mãos de Saketsu começaram a tremer, mas desta vez por conta da raiva. Ele tentou se adiantar até ela, mas Dalton se colocou à frente.

— Seu maldito! — Saketsu se enfureceu, avançando em Dalton com a intenção de esfaqueá-lo.

Dalton, contudo, desviou-se agilmente para o lado e, usando uma técnica de autodefesa, segurou o punho armado de Saketsu e o dobrou, parando atrás dele, imobilizando-o com o braço nas costas e o corpo inclinado para frente, em direção ao homem preso na cadeira, fazendo seus rostos quase se encostarem.

— Faça o que tem que fazer logo. De qualquer jeito, hoje sangue será derramado por sua causa. — Dalton o soltou quando percebeu que a ameaça havia passado e deu dois passos para trás.

Saketsu tentava pensar no que poderia fazer, mas seu raciocínio estava sendo bloqueado pelo ódio. Olhou por cima do ombro e viu Lana ainda sendo segurada à força pelos dois rapazes que brincavam com ela, o que fez o sentimento aumentar ainda mais.

Era certo que Lana estava sendo usada de refém para que Saketsu fizesse o que fosse mandado. A primeira ordem já havia sido dada: matar o homem indefeso que estava bem diante de seus olhos. Não queria fazer isso, porém não via outra solução.

Dalton havia dito que, de qualquer maneira, sangue seria derramado hoje, mas afinal, o que exatamente ele queria? Não estava fazendo sentido.

E se fosse só o começo do caminho de um assassino? Depois de matar o homem à frente, o que viria? Será que teria que seguir acatando tudo o que o maldito genocida mandasse?

A reflexão de Saketsu acabou sendo interrompida pelo gemido abafado do homem na cadeira. Era como se o olhar dele clamasse por morte, considerando-a a única saída para todo o sofrimento que estava passando.

Bom, se era o que ele queria, de algum modo isso facilitava as coisas. Saketsu segurou a faca fortemente com as duas mãos, ergueu-a no alto e fechou os olhos para não precisar ver o ato perverso que estava prestes a cometer.

A partir do momento em que abaixasse a faca, que estava bem mirada, se tornaria um assassino, e não haveria como voltar atrás; era o preço que estava disposto a pagar para salvar Lana e tirá-los dali.

Ainda com os olhos fechados, porém, parecia que já não estava mais no mesmo lugar, e sim em outro completamente escuro e familiar. Tudo estava quieto, até que de repente ouviu sons de açoites, que deveriam estar vindo de sua faca.

De certa forma conseguia sentir os movimentos automáticos de seus braços, não demorando para sentir também um líquido espesso e morno espirrando, encharcando cada vez mais suas mãos e roupas.

Os movimentos não paravam, assim como o som. A cada instante sentia que o espaço de escuridão se inundava com alguma coisa, cobrindo tudo.

Era morno… era agradável… era como se estivesse mergulhando em um oceano de trevas, onde não se afogava, mas sua mente relaxava tanto ao ponto de começar a atingir uma espécie de êxtase, a melhor sensação que já sentiu…

— PAAAAAARAA!

Tudo foi pausado com o grito da garota, e com isso a visão começou a clarear novamente para o local presente, deparando-se com Lana ainda presa pelos dois caras, absurdamente perplexa — e era entendível o porquê: Saketsu estava com uma expressão totalmente doentia, proporcionada pelo sorriso arreganhado, que foi se fechando à medida que tomava consciência, reparando em seguida que seu corpo estava cheio de sangue, ainda mais nas mãos, um sangue que não era dele.

Rapidamente largou a faca como se ela estivesse quente e se afastou um pouco para trás, olhando para a vítima de sua terrível ação.

A imagem do cadáver desfigurado pelas próprias mãos era de tirar o fôlego. As pernas de Saketsu bambeavam, levando-o a cair sentado no chão.

Dalton se agachou ao lado do atormentado garoto e pegou a faca inundada do sangue que começava a misteriosamente sumir não só da lâmina como também de todo lugar ao qual havia espirrado, acompanhando a desintegração do morto na cadeira, que desprendia de seu corpo essências incandescentes que desapareciam no ar.

— Faca de matar espíritos — afirmou Dalton, referindo-se à lâmina em mão. — Ele já estava morto; agora simplesmente irá deixar de existir. Mas o mais importante é que você mostrou sua verdadeira natureza e confirmou que eu estava certo. — Ainda agachado ao lado do garoto, levou a mão até a cintura e puxou um revólver, encostando o cano no canto da cabeça dele, já com o dedo no gatilho. — Eu menti para você; não suporto glasbhuks, e sua vida amaldiçoada termina aqui, Saketsu Sura.

— SAKETSU, REAJA! ELE VAI TE MATAR! — alertou Lana, com os dois rapazes tentando calá-la, até que pararam de repente ao serem atingidos por algo que surgiu avançando por trás, lançando cortes em suas costas e os fazendo cair jorrando bastante sangue, exceto Lana.

Dalton moveu o revólver acompanhando o vulto negro responsável pelo ataque, que se locomovia rapidamente por todos os cantos da sala como se fosse uma bola de elásticos descontrolada, e viu claramente que era um felino negro quando ele veio direto para cima, com um dos braços transformados em lâmina.

Surrealmente, o revólver de Dalton no mesmo instante se transformou em uma lâmina maior e se chocou contra a de Ukyi, contendo a investida no ar.

— Pegue Saketsu e saiam daqui — ordenou Ukyi para a garota, segurando Dalton em uma disputa de forças.

Lana, sem ter tempo de se impressionar, acatou as ordens e segurou a mão de Saketsu para ajudá-lo a se levantar.

— Vamos, precisamos ir. — Ela o puxava do chão, enquanto mal se aguentava.

Finalmente o esforço dela deu resultado e, quando haviam acabado de pisar um pé no degrau, ouviu-se uma forte batida na parede e, em seguida, a voz de Dalton:

— Se você for, esta mulher morre.

Saketsu e Lana pararam e se viraram, vendo que Dalton estava com a mulher torturada em mãos, a faca encostando bem no pescoço dela.

— Não, Saketsu! Vamos, temos que ir! — Lana tentava convencê-lo, percebendo que ele tinha pretensão de voltar.

Sem dó, a faca acabou passando no pescoço da mulher, e só se viu um jorrar de sangue, com o corpo logo sendo descartado de lado. Dalton tentou avançar até os jovens, contudo foi interceptado por Ukyi, que parou em seu caminho.

— Vamos, Saketsu, por favor — implorou ela, apoiada na parede, arfando, com o rosto pálido quase ao ponto de desmaiar.

Vendo a agonia da garota, mesmo inconformado e relutante, Saketsu decidiu obedecer ao pedido dela; então seguiram depressa escada acima e fugiram.

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