WCC – Capítulo 1 – Templo do Deus Maligno



Ding dong
Com um toque de campainha em sua cabeça, Yuusuke Tagami sentiu sua consciência embaçada clareando.

“Está FRIO!”

O ar estava frio. Quando ele tentou mover seu corpo ele sentiu pedra bruta com suas costas e parte de baixo do corpo. Instintivamente abrindo seus olhos, o que ele viu era um claro e balançante fogo de um braseiro que iluminava um quarto, que parecia como se fosse feito inteiramente de pedra. Depois de levantar e achar seu corpo sem mudanças, ele olhou ao redor novamente para confirmar seus arredores.

Parecia que ele estava deitado num pedestal de pedra. De algum modo ele estava completamente pelado. Na frente do pedestal havia um altar com uma estátua azeviche de um ser que de algum modo lembrava um humano e um monstro ao mesmo tempo e criava uma atmosfera sinistra.

“Que diabos é isto? É algum tipo de ritual?”

Sem saber se algo foi feito em seu corpo, Yuusuke, ao invés de sentir medo ou pânico, queria juntar informação e achar algumas roupas.

Ele se levantou do pedestal que parecia um retângulo de 1 metro de altura. Logo abaixo dele havia um pequeno apoio como uma mesa onde haviam frutas, lembrando tangerinas, e um maço feito de flores levemente secas de várias cores. Além disso um tecido, lembrando roupas, estava alinhado.

“Parece que eu fui uma oferenda no altar”, Yuusuke pensou.

O pequeno apoio era certamente feito de pedra. As superfícies de ambos o altar e o pedestal estavam gastos, fazendo eles parecerem velhos.

“Isso é realmente uma oferenda… ou aliás, o que é aquilo.”

Tendo algumas dúvidas, ele finalmente decidiu que para descobrir isso ele tinha que fazer alguns sacrifícios. Logo ele esticou suas mãos em direção do pano que a estátua e o altar suspeito tinham em suas mãos. Estar pelado deixou ele mais ansioso do que qualquer outra coisa neste momento. O momento que Yuusuke tocou o tecido branco, levemente amarelado…

Ding dong

“?!”

Agitado, ele recuou sua mão. Era um som que ele ouviu quando ele acordou pouco antes. Ele olhou ao redor do altar mas não viu nada fora do lugar. Depois de olhar ao redor da sala de pedra mais uma vez e confirmando que nada havia mudado, ele levemente tocou o pano.

Nada aconteceu desta vez e Yuusuke, depois de pegar o pano em suas mãos, estando desconfortável sobre seus arredores, tentou abrir ele.

“Não é uma peça única de mulher, é?”

Além dos três buracos para braços e cabeça, era apenas um simples pedaço de pano. Ele tinha uma imagem de um lençol de futon com buracos que permitiam uma pessoa vestir como um pedaço de roupa.

“Não pode ser uma roupa de boneco de papel…”

Depois de apertar ele ao redor de sua cintura como um koshihimo, ele parecia uma pessoa dos tempos antigos, mostrados em filmes. Depois que ele colocou suas roupas, Yuusuke tentou lembrar o que havia acontecido logo antes dele perder a consciência. (NT: Koshihimo é um tipo de cinto para amarrar um kimono.)

“Um sonho… Não, não parece isso.”

Olhando para cima no baixo teto da sala de pedra iluminada pelo braseiro, uma pessoa podia ver uma imagem de uma terra redonda, em forma de disco abundante com oceanos e montanhas. O mural parecia que foi tirado direto da imaginação do povo de tempos antigos. Ele deu à Yuusuke uma forte sensação de déjà vu.

“… O que isso poderia ser…? Eu ouvi uma voz estranha e meu corpo começou à flutuar… eu tenho a impressão que eu já vi essa imagem antes.”

As palavras ao invés da voz. Ao invés de ouvir as palavras diretamente, era como se ele tivesse sentido elas de um jeito misterioso. Depois disso ele viu seu próprio corpo se levantando e saindo da área do templo num passo rápido. As memórias do que aconteceu depois estavam embaçadas na mente dele.

Yuusuke suspirou uma vez, se levantou do pedestal, ele estava usando como uma cadeira, e se virou em direção da saída da sala de pedra. Olhando por trás do pedestal, na frente dele havia uma saída sem porta, levando para um corredor escuro.

Imediatamente depois de deixar o quarto, o corredor se esticava para a direita. Depois de ir em frente um pouco ele foi para esquerda. Depois disso por algum motivo ele voltou para o mesmo lado de novo. Ele pegou um pedaço de madeira do braseiro e segurou ele na frente como uma tocha.

Quando ele tocou o pedaço de madeira, a mesma campainha tocou de novo na cabeça dele, mas, no que Yuusuke se acostumou com ela essas horas, ele não teve pânico.

Curiosidade e sentimentos como ansiedade ou raiva não apareceram dentro dele. Yuusuke também não sentiu sua mente congelar nesta repentina, inaturalmente misteriosa situação. Fundo em seu coração, Yuusuke sentiu um sentimento de aceitação.

***

Com seu cabelo branco puro flutuando no vento, uma garota se apressou por um pequeno caminho para o templo que estava construído na mata, localizado uma pequena distância da vila.

“Sun, você está indo para o templo, certo?”

“Ah, professor Zeshald.”

Um homem idoso gritou para uma garota de vila, Sun, que estava segurando flores multicoloridas e recém colhidas frutas rara, O nome do homem era Zeshald. Ele era um doutor na próxima vila [Rufk]. Apesar de entorpecido pela idade, este homem de cabelo e olhos azuis recebeu proteção divina do [Deus d’água – Shalnar] e era um [artista divino] pertencendo aos [usuários de artes de água]. (NT: A fruta se chama rara, não é que a fruta em si tenha raridade… mudei para lala.)

– Usuários de artes divinas –

Poderes únicos, chamados [artes divinas] eram possuídos pelos quatro grandes deuses. Neste mundo, pessoas acreditavam na religião dos quatro grandes deuses, governando sobre [fogo], [água], [terra] e [vento], que, supostamente, haviam criado o mundo.

A maioria das pessoas receberam bênção divina e proteção dos deuses e, como uma prova disso, tinham a habilidade de usar artes divinas. A lei era que uma pessoa podia usar uma skill divina e, sob o efeito da bênção do deus, seu cabelo e olhos mudavam de cor para a cor pura do deus.

***

Zeshald podia usar uma arte divina de Shalmar, Deus d’água, que era o segundo mais forte dos quatro grandes deuses e é considerado um Deus de força média. Porque ele masterizou arte divina de água do tipo de cura, ele era tão influente que se ele vivesse na sociedade dos usuários de artes divinas ele seria capaz de levar uma vida luxuosa. Ainda assim, ele era um excêntrico…

“Professor, esses são livros novos de novo?”

“Desta vez eles parecem ser de um antigo templo de Nossentes.”

“Aquele templo também, claro que de uma vila daqueles sem poderes…?”

“Afinal é improvável que pessoas sem poder e o deus maligno tenham algum tipo de relacionamento.” (NT: Eu acho que isso está errado, mas…)

– Os sem poder literalmente significavam pessoas que não podiam usar qualquer tipo de arte divina e, portanto, eram diferenciados dos usuários de artes divinas.

Usuários de artes divinas criaram um [sistema de ranque], governado pelas diferenças em artes divinas. De acordo com este sistema, pessoas com habilidades similares viviam juntos em cidades separadas. Pessoas sem poder por outro lado não eram permitidas a entrar nessas cidades, então elas se juntavam em vilas e comunidades.

Uma típica comunidade onde pessoas sem poder viviam era chamada [uma vila dos sem poder]. Então nas velhas vilas das pessoas sem poder, espalhadas por toda a terra, haviam vários templos misteriosos, chamados [templos dos sem poder]. Aqueles, que estudavam esses templos, mencionaram altares consagrando deidades ameaçadoras. Logo os templos começaram a ser chamados de [templos do Deus Maligno].

Em Kaltsio, o [Deus Maligno] era conhecido como o [Deus da calamidade] desde os velhos tempos. De acordo com a lenda, ele descendeu em Kaltsio por volta de cada 300 anos e trouxe calamidades com ele. Neste ano, exatamente 300 anos se passaram desde a última calamidade.

Contudo, a [última calamidade] e o [deus da calamidade] eram apenas uma lenda no que não havia informação escrita sobre os eventos de 300 anos atrás, nem sobre aqueles que aconteceram mais 300 anos antes. Mais da metade das pessoas educadas acreditavam que este deus era uma superstição.

***

“Um Deus Maligno? … Isso realmente existe?”

“Hoho, eu, também, sei um monte de lendas sobre bestas malignas, mas eu realmente acho que isso existe.”

O [Deus da Calamidade] é pensado como sendo ligado com eventos tais como desastres naturais e surtos epidêmicos. Pessoas sem poder também se machucaram ou adoeceram, mas, diferente dos usuários de artes divinas, elas não tinham quaisquer artes como as artes de cura que os usuários d’água tinham que podiam imediatamente curá-los.

Então no caso de um desastre de larga escala ou uma epidemia, as pessoas sem poder levavam o grosso do dano. Eles construíram templos para o Deus Maligno próximos de suas vilas para rezarem para aqueles grandes desastres evitarem eles. Era pensado que por esta razão uma estátua lembrando um deus maligno era contemplado nesses templos.

“Nesse caso, para o professor vir até Rufk, o deus maligno não deve ser assustador, certo?”

“Hohoho, você é uma boa garota, Sun.”

Zeshald sorriu com os cantos de seus olhos e passou a mão pelo cabelo de Sun com as costas de sua mão. Ela era uma garota com olhos distintivamente brancos emoldurados pelo cabelo branco, que era a característica de uma pessoa sem poder. Ela vivia em uma das vilas dos sem poder que estavam espalhadas na área, chamada Rufk.

Por causa da diferença de força entre os usuários de habilidade e os sem poder era tão desesperadoramente evidente, isso se tornou uma identificação absoluta de status social. Dependendo do país, pessoas sem poder eram ou consideradas como sendo de baixo status ou nem eram tratadas como humanas mesmo.

Não haviam usuários de artes divinas interessados nas pessoas sem poder constantemente oprimidas, além de piadas e caridade. Zeshald, que vivia na vila dos sem poder, compartilhava do mesmo ponto de vista de viver nas vilas e livremente usava suas artes divinas de cura para ajudar eles, era verdadeiramente um excêntrico.

Então Sun, mesmo que ele era um médico usando artes divinas, mesmo que ele fosse apenas uma pessoa, respeitava Zeshald.

“Então, eu estou indo para trocar as oferendas.”

“Tome cuidado.”

Zeshald viu Sun partir, que seguia para o pequeno templo. Ele então sentou olhando em direção da vila Rufk enquanto passava pelos recém obtidos livros relacionados ao [Deus da Calamidade]. Os livros que ele havia estudado até agora continham conhecimento comum sobre o Deus Maligno: [O Deus Maligno trouxe a calamidade ao mundo e então desapareceu].

“Hmm, a mesma coisa está escrita neste livro… Afinal os tipos de doenças infecciosas são notáveis, eh?”

Além de ser um médio de vila em Rufk, Zeshald também realizava pesquisa relacionada aos templos das pessoas sem poder. Na verdade, a razão original pela qual ele começou a viver na vila das pessoas sem poder era para que ele pudesse estudar o estilo de vida rústico das pessoas que não receberam a bênção e não podiam usar as artes divinas, cuja ingenuidade e esforço deixaram uma impressão profunda nele.

Nas cidades dos usuários de artes divinas, se um trabalho de fazer simples jóias ou de construir uma casa esplêndida, o trabalho era feito pelos usuários de artes divinas. Havia quase nenhum trabalho para pessoas que não eram artesãos. Produtos e estruturas que eram o resultado da maestria de pessoas em artes divinas podiam ser vistos em qualquer lugar.

E ainda assim, nas vilas dos sem poder, se uma casa precisava ser construída, a vila inteira trabalhava junta para construir ela. Desde cortar a madeira e preparar a base até completar a porta e o telhado, a pessoa que tinha as habilidades e experiência, enquanto ensinava aqueles que queriam aprender o trabalho, trabalhavam juntos para completar a construção.

Zeshald, reconhecendo este estilo de vida de suporte e cooperação mútuos e tendo obtido a dita experiência e habilidades, não achava que os pequenos templos e as velhas lendas dos sem poder carregam sentido nenhum que deviam ser deixados para o futuro.

“Se eu tivesse que chutar pela descrição e período da última calamidade… Deve ser entre o quinto dia e o décimo dia do mês de fogo de Shalnar. Hoje é o dia 11, eh?”

Havia uma boa quantia de boatos flutuando ao redor nas cidades se tratando do período de 300 anos da calamidade. Mas a atmosfera era calma e de forma alguma lembrava aquela de uma preparação para a calamidade por vir. Uma pessoa podia normalmente ouvir esses boatos como papo furado enquanto bebia álcool.

“…? Há mais pássaros por perto que o de costume?”

Inadvertidamente erguendo seus olhos para o céu acima da floresta, Zeshald se agitou depois de sentir algo parecendo um poder divino parecido com o que ele mesmo manejava.

“Bem, nada aventurado, nada ganho.”

Ele olhou de novo para o bando de pássaros circulando ao redor da floresta, parou seu trabalho, e começou à andar em direção do pequeno templo.


Tradutor: Thyros



Fontes
Cores