TER – Capítulo 206 – Sobre pecado e retribuição


Devolvi o olhar da deusa quando senti um ataque de nervosismo tomar conta de mim, ao qual ela respondeu levantando um par de dedos e falando outra frase.

— Os Gatos-Negros estão algemados, não, amaldiçoados, precisamente porque eles sofreram retribuição divina. Existem duas maneiras pelas quais essa maldição pode ser desfeita, cada uma com suas próprias condições.

A-acho que isso devia significar que não estava tão ferrado quanto imaginei. Ufa! Caramba, ela me deixou tremendo de medo por um segundo.

— A primeira das duas possibilidades requer que o indivíduo mate ou um Ser Maligno de rank A ou superior, ou mil dos mais fracos. Cumprir uma dessas duas condições libera o indivíduo em particular da maldição e permite que ele evolua.

Espere, está tudo bem para eu saber disso? Eu poderia jurar que Rumina não tinha permissão para dizer nada sobre isso. Os deuses não até se esforçaram para obscurecer o fato de que os Gatos-Negros podiam evoluir? Eu podia jurar que era como se eles tivessem apagado esse fato da memória de todos.

— Sua portadora já evoluiu. Rumina não está impedida de discutir o assunto com outro Gato-Negro evoluído, então é provável que ela lhe dê mais detalhes assim que o tempo descongelar. Considerando isso, decidi que poderia lhe contar agora, já que era sobre isso que estávamos falando.

“Ó-ó, entendi.”

Mas, Urushi e eu também estávamos lá, e nenhum de nós era um Gato-Negro, muito menos um evoluído, então Rumina teria mesmo a oportunidade de contar a Fran sobre as circunstâncias da Tribo dos Gatos-Negros? Parecia que isso não chegaria aos nossos ouvidos, mesmo que as duas pudessem discutir entre si.

Quero dizer, não estava reclamando nem nada do tipo. Estava totalmente interessado em absorver informações porque a deusa esqueceu que não deveria me contar ou decidiu abrir o bico por qualquer que fosse a razão.

— Está tudo bem. Você tem permissão para contar a qualquer familiar invocado, então o cachorro não conta. E você é um dos meus familiares, então também não conta.

É, ela acabou de me ler como um livro mais uma vez. Espere. Ela acabou de dizer o que eu pensei que ela disse? Eu meio que senti que acabei de ouvir algo que explodiu minha mente por completo.

“Você, uh… você acabou de falar que sou um dos seus familiares?”

— Bem, tecnicamente, seria mais preciso dizer que sou uma das muitas pessoas ligadas a você como familiar.

“Vo-você poderia me contar um pouco mais sobre tudo isso?”

— Não, já que temos que terminar de falar sobre evolução.

Ugh… quer dizer, achei que ela estava certa, mas caramba, ela me deixou curioso.

— O outro cenário possível exige que o integrante da Tribo dos Gatos-Negros derrote um Ser Maligno rank S, ou um familiar do Deus Maligno, sem qualquer assistência. A realização desse feito libertaria não apenas os participantes da batalha, mas toda a Tribo dos Gatos-Negros de sua maldição. Eles mais uma vez recuperariam seu status como uma das Dez Tribos Originais.

Caramba, redimir toda a raça parecia meio difícil.

— É justo, dada a gravidade de seus pecados.

“Então, o que exatamente eles fizeram para merecer tudo isso?”

Eu acabei de perceber que a deusa continuava falando sobre pecados graves e mortais, mas na verdade se absteve de mencionar o que a Tribo dos Gatos-Negros havia feito.

— Um dos chefes da Tribo dos Gatos-Negros, ou melhor, um dos antigos Lordes das Feras, desfez o selo do Deus Maligno e permitiu que os membros de seu clã absorvessem seu poder, a fim de reforçar suas proezas de combate. Foi uma manobra perigosa, e uma que teve um sucesso parcial.

Espere, absorver o poder de Deus Maligno era mesmo diferente de se transformar em um Ser Maligno?

— É muito pior do que isso. Uma boa parte dos membros da família real evoluiu para o que só posso chamar de um meio-Deus Maligno, meio-homem-fera. Metade dos Gatos-Negros conseguiu absorver o poder do Deus Maligno. Contudo, muitos também se tornaram Seres Malignos, perderam o controle de si mesmos e acabaram sendo eliminados pelos membros de sua tribo. Nós, os deuses, não podíamos suportar a visão dos poderes do Deus Maligno sendo usados de maneira tão egoísta. Assim, eliminamos a família real e quaisquer outros indivíduos que obtiveram o poder do Deus Maligno antes de administrar aos sobreviventes uma punição, uma que dificultava sua capacidade de evoluir.

Bem, uh… ao que parecia, eles fizeram algo muito pior do que eu esperava que tivessem feito. Por exemplo, usar o poder do Deus Maligno para evoluir para criaturas que eram efetivamente semideuses, fazia parecer que eles estavam tentando derrubar os deuses atuais. Sabe, não tinha muita certeza do que mais eles esperavam que acontecesse.

“Tudo bem, entendi que o que eles fizeram foi bem sério.”

— Você existindo no seu estado atual permite que os membros da Tribo dos Gatos-Negros evoluam sem primeiro expiar seus pecados.

A deusa não me encarou, mas eu senti que ela não estava em um estado que você poderia chamar de feliz comigo, devido ao tom de sua voz.

— Entendo que os membros da Tribo dos Gatos-Negros podem considerar a evolução um de seus maiores desejos. Isso, no entanto, falha em justificar a exploração de uma brecha no sistema e a evolução sem antes compensar por seus erros. Continuar contornando sua punição é um ato que pode ser considerado como mais um pecado, que incorreria em uma punição ainda maior.

“Uma punição ainda maior? Você se incomoda em, uh… dar mais detalhes?”

— Extinção.

“Is-isso é um pouco…”

— Eu estava apenas falando em termos de possibilidades. Quero que você entenda o quão sério é o tópico em questão.

“Tu-tudo bem, eu entendi.”

Minhas interações com a deusa me levaram à conclusão de que os deuses eram ambos aterrorizantes e uma enorme dor de cabeça para se lidar. Bom, uh, ela se esforçando para falar comigo desse jeito com certeza significava que eu tinha me metido em uma situação bem complicada.

“Então, o que exatamente devo fazer? Quer dizer, entendo que não devo usar meus poderes para evoluir ninguém além de Fran, e posso jurar que não farei isso.”

— Eu sei que você foi sincero com o que acabou de dizer, mas isso por si só não é suficiente. O fato é que você é um item mágico capaz de conceder ao seu usuário a capacidade de usar a habilidade Despertar, um item que eu não posso permitir que exista.

Ela não pode permitir que eu exista? Isso não significa que ela vai…

— Se acalme. Não tenho nenhuma intenção de fazer algo tão violento quanto eliminar você.

“Cer-certo!”

Ufa! Puta merda, fiquei feliz por ela me dizer isso. Ela me preocupou muito por um segundo. Cara, essa situação deveria ser a mais perigosa em que eu já estive.

— Vou consertar tudo agora mesmo.

Estalo!

“Hã? O que você acabou de fazer…?”

A Deusa do Caos estalou os dedos e fez minha lâmina começar a brilhar por um momento. Eu podia dizer que ela tinha feito algo comigo, mas não tinha certeza do que foi isso.

— Eu fiz isso para que você esteja vinculado a sua portadora.

“Vinculado?”

— Sim. Eu fiz isso para que você possa ter apenas um usuário por vez. Ninguém mais poderá equipá-lo até que sua portadora atual morra. Qualquer pessoa que faça isso à força receberá uma retaliação.

“O que você quer dizer com retaliação?”

— Qualquer pessoa que tentar equipar você receberá uma forma de punição. Aqueles que não conhecem suas circunstâncias ficarão um pouco chocados. Aqueles que conhecem suas circunstâncias provavelmente perderão suas vidas como compensação.

Isso era muito aterrorizante, mas meio que não importava, porque, em primeiro lugar, eu não tinha planejado deixar ninguém além de Fran me equipar. Portanto, o resultado final foi parecido comigo ganhando um dispositivo antirroubo.

— Também tirarei a habilidade Despertar de você, só por precaução, e farei com que seja impossível que você a obtenha daqui para frente.

Fiquei um pouco desapontado com o fato de que eu não conseguiria usar a habilidade eu mesmo, mas não me importei muito, porque não queria desobedecer à deusa, em especial devido à profundidade do que ela estava falando.

— O Despertar só funciona com Homens-Fera, já que permite que eles liberem os poderes que estão adormecidos dentro deles. Em primeiro lugar, não faz nenhum sentido em você utilizá-lo.

“Ó. Certo.”

Bom, acho que não fazia mesmo sentido que eu tivesse essa habilidade.

— Também vou fazer com que Rumina nunca mais seja capaz de convocar outra Fera Demoníaca capaz de Despertar — não que ela fosse capaz de fazer isso pelas próximas centenas de anos, de qualquer maneira, dado o quanto isso a esgotou.

“Ó, isso significa que Rumina estava frágil daquele jeito porque teve que convocar aquele monstro?”

— Isso mesmo. Rumina, como uma das minhas familiares, foi restrita em sua capacidade de ajudar os Gatos-Negros. Ela é incapaz de falar sobre o assunto, mas isso não é tudo. Eu também a bani de criar itens capazes de conferir a habilidade Despertar, e fiz com que ela se destrua se ajudar algum Gato-Negro a cumprir suas condições de evolução.

“Hum?”

Espere, isso é sério!? Isso não significa que Rumina vai…

— Se acalme. Ela não está morta, nem morrerá pelo que fez.

“Mesmo que Fran tenha conseguido evoluir?”

— Sim, e embora ela tenha prestado assistência, não foi de forma direta. Ela não deu diretamente à garota o que ela precisava. Em vez disso, ela ajudou você a ajudá-la. Como resultado, ela perdeu muito de seu poder, mas não irá morrer.

Ufa. Isso era bom. Fran se sentiria muitíssimo mal se soubesse que sua evolução havia causado a morte de Rumina.

— Mesmo assim, não posso permitir que a mesma coisa ocorra no futuro, e é por isso que agora a restringi ainda mais.

Rumina parecia ter se esforçado bastante para fazer com que tudo desse certo. Eu acho que isso também significa que ela não estava brincando quando perguntou a Fran se estaria a garota estava disposta a matá-la para evoluir.

— Seria injusto da minha parte tomar uma habilidade de você sem compensá-lo, então trocarei sua habilidade Despertar por uma diferente.

A deusa estalou os dedos mais uma vez.

Olhei na mesma hora para meus atributos porque estava curioso para saber o que havia mudado.

“Uhh… Ocultar Evolução?”

— A habilidade faz o que o próprio nome sugere, e permite esconder o fato de que ela evoluiu, sobretudo de outros homens-fera.

A Habilidade Extra que obtive parecia uma muito boa. O fato de as pessoas descobrirem sobre a evolução de Fran causaria um grande alvoroço, assim, essa habilidade parecia algo que poderíamos usar imediatamente.

Havia, contudo, um pequeno problema.

“Err… acho que acabei de perder cinco Pontos de Autoevolução.”

— Só para avisar, você causou um problema significativo o suficiente para exigir minha interferência. É natural que eu tire algo de você. Fique feliz por eu ter feito um favor a você e decidido dar-lhe uma nova habilidade para substituir a que tirei.

“Des-desculpe.”

Ei, sabe, a habilidade que adquiri valia a pena, então achei que foi uma troca justa, especialmente porque duvidei que algo de bom surgiria comigo reclamando sem parar.

A deusa assentiu como se estivesse satisfeita depois de verificar que eu não faria mais nenhuma queixa. Ela então começou a flutuar no ar e se tornar transparente.

— Minha missão aqui está feita, assim sendo, vou me retirar.

Perceber a deusa partindo me fez começar a questioná-la na mesma hora.

“Ei, espere! Ainda quero perguntar uma coisa! Que diabos eu sou? Você deve saber, não sabe? Considerando que você disse que eu sou um dos seus familiares e tudo mais?”

Eu não pude deixar de perguntar a ela sobre mim mesmo, vendo como ela era uma das primeiras pessoas a ter uma ideia clara sobre o que eu era.

— Bem… te contar sobre isso não é algo pelo qual devo ser responsável, então acho que vou lhe dar uma dica. Vá conhecer o ferreiro divino que reside no País dos Homens-Fera.

“Você quer dizer aquele que o Lorde das Feras governa?”

Lembrei que o Velho Gallus havia declarado que todos os ferreiros divinos tinham desaparecido…

No entanto, as palavras da deusa pareciam sugerir que a declaração do velhote não estava necessariamente correta. Isso significava que o Rei dos Homens-Fera tinha alguém que o servia de forma secreta? Seguir para o país do Senhor das Feras não parecia muito fácil. O local estava em um continente diferente e era liderado por um de nossos inimigos. Não havia como eu ir, ainda mais com Fran, vendo como isso a colocaria em perigo.

— O Ferreiro em questão pode fornecer informações adicionais, contudo, não posso dizer com certeza que esse será mesmo o caso.

“Então nem você sabe?”

— Não sei. Nem nós, os deuses, podemos prever o futuro.

“Mesmo vocês sendo deuses? Ser capaz de ver o futuro parece algo que uma divindade poderia fazer…”

— O fato de não podermos permanece. Você e muitos outros parecem ter cometido o erro de supor que os deuses são capazes de determinar o destino de alguém e ler o que acontecerá mais tarde, mas isso não éverdade. Apesar disso, muitos acreditam no destino. Eles acham que os deuses governam cada alto e baixo de suas vidas.

Sabe, isso era meio que verdade. Até eu acabei pensando que conhecer Fran foi um ato do destino.

— Eles acham que os deuses têm tudo sob seu controle, que o mundo segue uma planta precisa e predeterminada.

“Ééé, entendo o que você quer dizer. Quero dizer, muitas pessoas não acreditam em algo tão exagerado, mas há muitas pessoas que acreditam em algo desse tipo.”

— Mas, veja bem, não seria necessário que eu aparecesse para você como fiz se fosse esse o caso.

“Seu argumento é muito bom, agora que mencionou isso.”

— Não existe destino. O destino não passa de uma série de coincidências. O que quero dizer é que você é responsável pelo que acontece com você, independentemente de ser algo bom ou ruim.

Acho que isso significa que eu conhecendo Fran foi apenas uma coincidência?

— Isso mesmo. Seu encontro com ela foi apenas uma coincidência. Vocês dois serem capazes de trabalhar juntos como fizeram também é uma coincidência. Da mesma forma, conhecer todas as pessoas certas ao longo do caminho também foi uma coincidência, algo que eu chamaria de milagre.

Por alguma razão estranha, ouvir a declaração da deusa me deixou um pouco envergonhado.

— Eu já falei bastante, mas deixarei uma última afirmação. Eu, como Deusa do Caos, estou esperando algo grande de vocês dois.

Suas palavras me deixaram feliz, uma emoção que eu não tinha certeza se estava tudo bem estar sentindo, dadas as circunstâncias atuais.

— Fufufufu. Essa é uma pergunta que não sei a resposta.

“Ei, espere aí!”

— Adeus. Ofereço a você uma dose agradável e saudável de caos.

A deusa desapareceu depois de declarar sua frase final, que soou um pouco sinistra. Não pude deixar de sentir como se ela tivesse me amaldiçoado.


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