TER – Capítulo 194 – Chamas douradas


“Tem certeza de que está tudo bem deixá-los escapar só com isso?”

— Não deixei escapar. Só dei tempo.

“Bom, tudo bem, contanto que seja mesmo o que você queria.”

Fran começou a andar pela cidade logo depois de deixar o acampamento do Orgulho Azul. O humor em que ela estava não era nada menos que terrível.

Zefmate tinha sido um cara muito bom. Fran achava que poderia se dar bem com ele, apesar da diferença em suas raças, e ao conhecê-lo, ela aprendeu que nem todos os Gatos-Azuis eram desprezíveis. Chegar a essa conclusão fez ela realmente querer se tornar sua amiga. Contudo, as circunstâncias tornaram o desejo de Fran muitíssimo difícil de alcançar. Zefmate tinha sido uma exceção. Nenhum de seus subordinados compartilhava sua mentalidade, o que, por sua vez, significava que os dois poderiam acabar tendo que lutar.

Havia uma chance de Fran ter que matar Zefmate em um futuro próximo.

Para a garota-gato, as palavras de Seren não foram nada além de ofensivas. Eles eram tão doentes e retorcidos que isso afetou minha cabeça, então eu só podia imaginar a extensão da raiva que habitava dentro dela. Nenhum de nós poderia suportar a atitude que a maioria dos Gatos-Azuis tinha, e teríamos assassinado todos os presentes se Zefmate tivesse aparecido um segundo mais tarde.

As coisas que lhe foram ditas continuaram atormentando sua mente até agora. Eles fizeram suas emoções mais sombrias incharem e girarem em seu interior. Eu esperava que ela não encontrasse ninguém que a irritasse, pois provavelmente acabaria perdendo o controle se fosse incentivada a atacá-los.

Por sorte, não havia ninguém estúpido o suficiente para fazer isso, já que sua aura refletia seus pensamentos; ela estava emanando um ar de puro perigo, que obrigava as pessoas ao nosso redor a olhar para o outro lado.

Ela vagou assim por cerca de vinte minutos antes de girar em seus calcanhares quando sentiu uma quantidade incrível de energia mágica explodir atrás dela.

“Eu posso sentir o…”

— … Lorde das Feras?

Sua fonte era o acampamento do Orgulho Azul, mas era tão potente que podíamos sentir a extensão de seu poder até na cidade.

Perceber isso fez Fran começar a correr na mesma hora, não para longe, mas em direção a ela.

A única pessoa capaz de criar tanta pressão era o Lorde das Feras. Não havia mais ninguém que possuía uma quantidade tão ridícula de força. Além disso, nem precisávamos estar presentes para dizer que ele não estava apenas praticando; sua magia estava cheia de sede de sangue.

Alguma coisa tinha acontecido.

Fran não fazia ideia do que poderíamos fazer correndo para o acampamento do Orgulho Azul, mesmo assim, continuava a forçar suas pernas o máximo que podia. Era algo que não podia ser evitado, dadas as circunstâncias. Tudo o que sabíamos era que algo havia acontecido, algo que envolvia Zefmate, de quem Fran tinha uma boa impressão, e o Lorde das Feras, quem ela temia.

“Ei Fran, você tem certeza de que isso é uma boa ideia? Tenho certeza que você está indo direto para o Lorde das Feras.”

— Nn…!

Chegar ao acampamento do Orgulho Azul levou menos de 2 minutos na velocidade máxima de Fran.

— Hah… hah…!

“Eu sabia! O Lorde das Feras realmente estava aqui.”

A primeira coisa que vimos ao chegar foi o Lorde das Feras. Ele ficou parado no meio do acampamento com calma, seu corpo envolto em chamas douradas. O segundo foi Zefmate, desmoronado no chão, preto, carbonizado e claramente à beira da morte.

— É isso que você recebe por me desafiar, idiota. Que seja, já tive o suficiente de você. Só morra logo.

O Lorde das Feras esticou sua mão direita coberta de chamas na direção de Zefmate — uma ação que levou Fran a reagir sem a menor hesitação.

— Mestre, atacando!

Ela partiu para a ofensiva sem ao menos esperar que eu respondesse; ela me puxou com sua mão direita, pegou o Olhar da Morte com a esquerda e disparou em direção ao Senhor das Feras, como se fosse uma bala. O ataque cortante que surgiu da ação foi tão rápido quanto o ataque que ela usara contra Rynford; foi um que combinou todas as suas habilidades e conhecimentos, incluindo habilidades furtivas.

Rigdis, o Lorde das Feras, não era tão proficiente em relação a detecção. Ou melhor, ele era, mas os níveis dele não eram tão altos quanto o que esperávamos de um rank S. Isso, por sua vez, dificultava que ele percebesse o ataque furtivo de Fran.

Emboscar o Lorde das Feras era uma escolha muito melhor do que chamar sua atenção. De qualquer forma, Rigdis podia apenas ignorá-la e acabar com Zefmate, então atacar era, de fato, a opção mais confiável se quiséssemos salvar a vida do Leopardo-Azul. Além disso, gritar para ele parar significava anunciar a presença de Fran, o que, por sua vez, significaria perder a oportunidade de conseguir um primeiro ataque preventivo. De qualquer forma, tudo isso só seria válido sob a suposição de que acabaríamos tendo que lutar contra o Lorde das Feras.

Foi uma escolha possível apenas pelo fato de Fran já ter se decidido a lutar com ele. Por esse motivo, sua lâmina não continha o menor pingo de hesitação.

Ela acabou indo para o pescoço dele na esperança de acabar com a luta logo de cara; seu objetivo era acabar com o alvo em um único ataque. Ela não se importava em provocar a ira de um país inteiro, nem se importava com o alvoroço internacional que o atacar causaria. A única coisa que ela se preocupou em considerar era o que precisava fazer para salvar a vida de Zefmate.

Não precisávamos nos preocupar em nos conter, o Bracelete de Sacrifício do Lorde das Feras nos impediria de assassiná-lo, independentemente do que fizéssemos com ele. Embora estivéssemos dispostos a nos envolver em um combate com o Lorde das Feras, na verdade, matá-lo era algo que eu queria evitar, pois isso seria um pouco mais do que entrar de cabeça em uma merda internacional seríssima.

Atacá-lo era um problema por si só, mas isso ainda era um pouco melhor do que cortar a cabeça dele. Você poderia dizer que só fomos capazes de ir com tudo em nosso ataque precisamente porque o Lorde das Feras tinha um Bracelete de Sacrifício à mão e equipado.

Eu estava convencido de que nem mesmo alguém como ele seria capaz de agir se estivesse em um estado aterrorizado o bastante para que precisasse usar um item desses, então imaginei que poderíamos pegar Zefmate e fugir antes de ele conseguir retaliar.

O que Fran estava fazendo era perigoso. Isso, eu entendia. Eu sabia que se teletransportar e deixar Zefmate morrer teria sido o melhor no interesse de sua segurança.

Mas isso não era algo que a pessoa em questão poderia aceitar. Se eu estivesse preocupado com nada além da segurança de Fran, há muito tempo a aconselharia a aceitar um emprego menos perigoso do que aventurar-se. Mas não fiz isso. Isso foi em parte porque eu queria sair e ver o mundo com ela, mas querer se aventurar não era o real motivo de ter escolhido não me incomodar em convencê-la a mudar de ideia. A outra razão, a mais importante, foi porque eu queria respeitar a vontade dela. Fran queria ser uma aventureira, e isso era tudo.

Como guardião de Fran, de forma natural, era importante para mim tentar mantê-la o mais segura possível. Isso era o que implicava ser o guardião de alguém.

Mas eu não era apenas seu guardião, eu também era sua espada. Assim, eu precisava fazer o máximo para satisfazer seus desejos, mesmo que esses desejos envolvessem algo tão perigoso quanto pular do alto de um penhasco.

Como sua espada, eu já tinha decidido seguir seus passos, mesmo que ela tomasse esse tipo de decisão. E, como seu guardião, decidi protegê-la da melhor maneira possível, a despeito das consequências de suas escolhas.

Em outras palavras, meu papel era apoiar Fran em suas decisões a cada passo, desde que me fosse possível.

A Gata-Negra desferiu as duas lâminas para formar uma cruz no momento em que se aproximou do Lorde das Feras. Suas defesas eram ridiculamente altas, mas pensamos que poderíamos perfurá-las, desde que focássemos tudo o que tínhamos em um único ponto. As duas espadas que se fecharam no pescoço do Lorde das Feras… não fizeram nada com ele.

Fran, com as duas lâminas ainda em punho, encarou o Lorde das Feras sem ferimentos com um olhar de perplexidade. Ela não sentiu nenhuma resistência ao cortá-lo, então não percebeu o que tinha acontecido até que olhou para a minha lâmina.

— Haah? Quem diabos é você?

Conseguimos impedir que o ele matasse Zefmate, mas Fran havia entrado em seu radar como resultado.

Fran não tinha a compostura para responder à pergunta do Lorde das Feras. Em vez disso, ela olhou para os dois punhos em suas mãos.

Punhos.

As duas espadas haviam perdido suas lâminas. Na verdade, Olhar da Morte estava totalmente perdida, pois toda a sua energia mágica já havia se esgotado. Até o Manto da Gata-Negra, que ficou um pouco chamuscado, estava agindo de maneira anormal. Ou seja, ele estava se consertando a uma taxa muito mais lenta que o normal. Você quase não poderia dizer se o ataque funcionou apenas com a aparência.

A garota-gato não entendeu o que estava acontecendo.

Mas eu sim.

A razão pela qual Olhar da Morte e eu perdemos nossas lâminas foi porque tocamos as chamas douradas que cobriam o corpo do Lorde das Feras. Explicando de forma simples, nós evaporamos no momento em que as tocamos. As chamas não irradiavam calor, mas, puta merda, elas eram potentes. A falta de consistência entre os dois fatos só foi possível porque a conflagração de ouro nasceu de uma habilidade.

— Mestre!

— Hah? Mestre? Você é discípula desse maldito Gato-Azul?

“Acalme-se Fran, eu estou bem. Não grite ou faça alarde. Apenas fale comigo por telepatia, como sempre.”

“Ufa…”

Felizmente, minha lâmina foi a única coisa que acabou sendo queimada, então eu ainda estava bem e não estava irreparável. De forma lamentável, as chamas mágicas haviam me roubado tanta mana que eu não continha mais do que Olhar da Morte possuía.

“Puxa, isso está parecendo muito ruim…”

Atacar o Lorde das Feras me fez entender que suas chamas funcionavam como um mecanismo automático de autodefesa. Elas eram tão poderosas, mesmo quando deixadas no modo automático.

Eu não conseguia me ver com sucesso afastando-as no caso em que ele as usasse para atacar.

— Ó, vamos lá garota. Me responda logo. Não fique aí sentada com a boca fechada.

— O que fez… com Zefmate?

— Heh, respondendo a uma pergunta com outra pergunta? Você não tem boas maneiras, Gata-Negra.

Ser provocada pelo Lorde das Feras fez Fran ranger os dentes de raiva, mas ela acabou reprimindo o sentimento e fez uma pergunta.

— Tentou matar Zefmate. Porquê?

— Que merda? Há algo de errado com seus ouvidos? Você não me ouviu? Ah, bem, tanto faz. Tudo bem, vou falar. Tudo o que eu estava fazendo era punir um subordinado de forma bem rápida.

As palavras do Lorde das Feras pareciam insinuar que o Orgulho Azul trabalhava para ele, e que Zefmate havia feito algo que tinha ido contra suas ordens. Foi porque o Leopardo-Azul era a favor dos gatos-negros? Isso significava que o Lorde era contrário aos gatos-negros?

— Estou assumindo que você está do lado dele. Mesmo sendo uma Gata-Negra?

— … nn.

— Hum, tudo bem. Ei, você tem uma espada bem interessante. A coisa toda se consertou em um instante.

Consegui consertar minha lâmina usando a Regeneração Instantânea, mas isso não significava que eu seria muito útil do ponto de vista ofensivo, devido aos efeitos das Chamas Douradas. Parecia que teríamos que acabar recorrendo à magia.

O elemento do Lorde das Feras era fogo, então precisaríamos combatê-lo com água ou gelo/neve. Não podíamos nos dar ao luxo de ser mesquinhos com nossos pontos de habilidade, eu precisava investi-los sem demora para que pudéssemos aproveitar ao máximo nossa situação.

— Fran… não…

— Vou te salvar agora, Zefmate.

— Hahahah! O que é isso? Uma Gata-Negra e um Gato-Azul agindo como amiguinhos? Nossa, isso é tão engraçado que na verdade me deixa meio que com pena de vocês!

— Cale… a boca…

— Puxa, você ainda está com essa atitude comigo? Que pena, eu tinha grandes expectativas por você. Tudo bem garotinha, eu vou te mostrar o quão aterrorizante eu, Rigdis Narasimha, o Lorde das Feras, posso ser. Lamente o fato de você ser estúpida o suficiente para se opor a mim!

As chamas douradas que envolviam o corpo do Lorde das Feras começaram a tremer e balançar com uma energia feroz.

Elas eram perigosas. Tudo acabaria se elas apenas nos roçassem.

Eu me preparei para nos teletransportar a qualquer momento.

Fran e o Lorde das Feras se entreolharam, ambos prontos para atacar o outro.

Mas eles tiveram a chance de agir negada.

— Sua Majestade! O que em nome de Deus você está fazendo?

— Ugh… você de novo, Roche…?

— Como foi que isso aconteceu? Eu só tirei meus olhos de você por um segundo!

Um homem, que reconheci no mesmo instante como o cocheiro da carruagem, de repente entrou na conversa e começou a censurar o Lorde das Feras em um tom de repreensão.

 

Nome: Roche Idade: 37 anos
Raça: Homem-Fera Fuinha-Branca-da-Calamidade Tribo das Fuinhas-Brancas
Classe: Buscador de Runas Level: 62/99
Condição: Normal
HP: 556 MP: 558
Força Física: 251 Resistência: 302
Agilidade: 539 Inteligência: 248
Mágica: 306 Destreza: 417
HABILIDADES
Furtividade Lv8 ⋯ Magia do Vento Lv4 ⋯ Técnicas com Arco Lv9 ⋯ Habilidades com Arco LvMáx ⋯ Habilidades Divinas com Arco LvMáx ⋯ Cocheiro Lv7 ⋯ Vigilância Lv8 ⋯ Detecção de Presença LvMáx ⋯ Isolar Presença Lv7 ⋯ Flexibilidade Lv4 ⋯ Movimento Instantâneo Lv8 ⋯ Abafar Ação Lv5 ⋯ Resistência a Status Anormais Lv4 ⋯ Magia da Vida Lv3 ⋯ Resistência a Anormalidades Mentais Lv5 ⋯ Técnicas com Espada Curta Lv4 ⋯ Habilidades com Espada Curta Lv5 ⋯ Criação de Perfume Lv8 ⋯ Salto Lv6 ⋯ Escalar Lv5 ⋯ Conhecimento de Venenos Lv8 ⋯ Magia de Veneno Lv5 ⋯ Magia da Terra Lv7 ⋯ Furtividade e Mobilidade Subterrânea Lv5 ⋯ Magia do Fogo Lv5 ⋯ Resistência a Magia Lv3 ⋯ Percepção de Magia Lv7 ⋯ Cobertura das Sombras Lv7 ⋯ Desarmar Armadilha Lv6 ⋯ Detecção de Armadilha Lv8 ⋯ Criação de Armadilha Lv4 ⋯ Senso Único Lv4 ⋯ Cavar Lv6 ⋯ Manipulação de Vigor ⋯ Faro Aguçado ⋯ Sentidos Aprimorados ⋯ Manipulação de Magia ⋯ Audição Aprimorada
HABILIDADES INERENTES
Despertar Investida Amaldiçoada
TÍTULOS
Matador de Quimeras ⋯ Conquistador do Calabouço
EQUIPAMENTOS
Arco da Árvore Infernal Aljava Dimensional Armadura de Couro da Besta Negra das Sombras Sapatos Furtivos da Besta Negra das Sombras Guarda-braços de Aço da Magia das Sombras Manto da Aranha-Negra-Furtiva Anel da Destreza Bracelete do Armazenamento

 

Roche era uma espécie de caçador, sendo mais específico, do tipo generalista que poderia usar magia em conjunto com as habilidades mais tradicionais de batedores.

— Eu não posso acreditar em você… por que você está lutando contra uma Gata-Negra? Você esqueceu do motivo para virmos aqui?

— Culpe ela, não eu. Foi ela quem decidiu ficar do lado do Orgulho Azul.

— Isso não significa que você precisa lutar com ela, seu cérebro de músculos!

— Já basta, Roche. Lorde Rig, eu capturei todos os membros do Orgulho Azul que descobri terem um envolvimento no comércio de escravos e me livrei daqueles que resistiram.

Royce acalmou Roche enquanto relatava a situação ao mesmo tempo.

Espere, ele acabou de dizer que lidou com todos que tinham ligação com o comércio de escravos? Uh… o quê?


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