TER – Capítulo 167 – A extensão do poder de uma Tigresa-Negra


Rumina de repente sugeriu algo que só poderia ser descrito como ultrajante.

— Que escolha você faria se eu te contasse que você poderia evoluir se apenas escolhesse me matar?

— Se eu… matar você?

— Isto é apenas uma hipótese, mas me dê uma resposta.

— Não matarei.

A reação de Fran surgiu na mesma hora.

Sua resposta era o que eu esperava que seria. Fran queria evoluir, não por vaidade, mas em nome do orgulho de sua tribo. Não havia como ela estar disposta a trocar a vida de alguém que atingiu seu objetivo para realizar isso. Além disso, Dias martelou em nós o fato de que não tínhamos permissão para matar a Mestra do Calabouço… em primeiro lugar, não era como se eu pensasse que fôssemos capazes de fazer isso.

A guilda acabaria nos taxando como traidores mesmo se conseguíssemos matá-la, nesse sentido, nós tecnicamente não poderíamos fazer isso.

— Então essa é sua resposta… era isso o que esperava de você. Quanta semelhança vocês possuem…

— Nn?

— Estava apenas divagando, não se incomode comigo nem com a pergunta estranha que fiz. Infelizmente, isso é tudo o que tenho para dizer a respeito da evolução.

Mas por que ela nos perguntou aquilo? Será que isso poderia… ser verdade? Nah, sem chances, não é? Quer dizer, ela não poderia nos fazer essa pergunta se isso fosse algo real. Mas, ela iria mesmo nos pedir algo como isso sem nenhum motivo? Isso devia ser algum tipo de dica, no mínimo.

Matar outro integrante da tribo dos gatos-negros deveria ser o que a permitiu evoluir? Ou talvez fosse apenas matar um Mestre do Calabouço ou algo relacionado a isso? Espere, não, não poderia ser esta opção. Nós já matamos aquele Goblin Mestre do Calabouço1.

Hmmm, sei lá. Eu não entendi.

— Não é muito como consolação, mas se sirva de uma xícara de chá.

Rumina ofereceu uma bebida a Fran e começou a falar sobre a vila da Tribo dos Gatos-Negros em uma tentativa de anima-la. Parecia que as duas eram capazes de conversar contanto que elas abordassem nenhum tópico envolvendo a evolução.

Ela descreveu que era normal para os Gatos-Negros evoluírem 500 anos atrás, nessa época, ela se tornou a mestra do calabouço. Eles não costumavam ser considerados inferiores a qualquer outra raça de homens-fera. Na verdade, eles eram uma das mais respeitadas tribos. Ela não podia nos dizer muitos detalhes sobre o que aconteceu nessa época, porém, ela contou o que poderia.

Não poderia mesmo entender a exata extensão com que a Deusa restringia a capacidade de alguém de revelar informações, mas isso evidentemente a impediu de falar sobre a evolução ou os motivos para os Gatos-Negros acabarem sob suas atuais circunstâncias.

A história da Tribo dos Gatos-Negros foi apagada por completa. As únicas pessoas que ainda sabiam disso deviam ser os elfos, vendo por quanto tempo eles viviam. Eu gostaria muito de falar com um e perguntar por que os Deuses chegariam tão longe ao ponto em que parecia que os Gatos-Negros eram incapazes de evoluir.

Fran e Rumina acabaram tendo uma conversa bem longa apesar do fato de elas não poderem discutir sobre a evolução. Nenhuma das duas tinha encontrado outro Gato-Negro durante muito tempo, então elas realmente ficaram amigas.

— Ah, é verdade… eu tenho um último assunto que gostaria de tratar com você, se você não se incomodar.

— Nn. Não me incomodo nada.

— Hahaha, não se preocupe. Não é nada difícil. Eu só gostaria de pedir a você que transmita a Dias uma mensagem por mim.

— Dias? Não Aurel?

— Sim, Dias. Minha mensagem para ele é uma única frase: “Cumpra o contrato. Recomendo que lembre-se disso”.

— Entendido.

— Há algo que você gostaria de me pedir em retorno? Vou fazer qualquer coisa que seja capaz de fazer.

— Pedido?

— Certamente.

A pergunta de Rumina fez Fran ficar perdida em pensamentos. Tinha bastante certeza que ela estava pensando e excluindo uma enorme quantidade de ideias.

“Mestre?”

“Ela te disse para pedir qualquer coisa que quisesse, então só faça isso. Expresse o que surgir em sua mente.”

— Entendido.

— Você tem um pedido?

— Nn.

Fran silenciosamente assentiu com a cabeça enquanto olhava para Rumina com o olhar de uma guerreira.

— Quero duelar.

— Ó?

— Quero ver a extensão do poder de um Tigre-Negro.

Eu tinha que dizer, era a cara de Fran querer algo como isto. Ela queria experimentar em primeira mão o poder que ela buscava.

Rumina respondeu ao pedido de Fran com um sorriso profundo e entretido.

— Muito bem. Devo mostrar a você minha força. Eu vou, contudo, primeiro pedir um momento, pois devo me preparar.

— Nn.

— Devo te providenciar um servo por enquanto. O comande como desejar.

Um boneco de madeira, muito parecido com aqueles usados no design de personagens, se materializou em resposta as palavras de Rumina.

Ele reabasteceu a xícara de Fran com movimentos tão fluidos quantos os de um humano.

— Obrigada.

O boneco não apenas assentiu com a cabeça em resposta a Fran, como também buscou alguns biscoitos e chocolate de uma prateleira em um dos cantos da sala antes de apresentá-los como se estivesse servindo a garota.

Pelas já mencionadas ações, entendi que ele era basicamente o familiar de Rumina, apesar do fato de não ser capaz de falar.

— Nn. Saboroso.


— Parece que te mantive esperando por uma boa quantidade de tempo.

— Nn?

Rumina voltou após uns dez minutos. Ela declarou estar pronta, mas parecia a mesma de antes de sair para se preparar.

Ela ainda vestia a mesma coisa, uma fina vestimenta de tecido que parecia lembrar uma veste casual de um nobre. Seu corpo não estava decorado com uma única peça de armadura.

Sua espada era muito afiada, mas ela não emanava nenhum poder mágico; ela não aparentava ter qualquer propriedade ou habilidade especial.

— Me siga.

Rumina nos levou para uma sala em forma de domo com um diâmetro de cerca de cem metros.

— Eu acabei de criar esta sala, e assim, ela está um pouco sombria. Infelizmente, isso foi tudo o que pude preparar, já que não tinha um espaço adequado para nós duelarmos. Você tem alguma reclamação com este espaço?

Ao que parecia, Rumina não saiu para preparar algum tipo de armadura. Ao invés disso, ela esteve trabalhando na preparação de uma sala. Hã-hã, essa sim é uma Mestra do Calabouço. A escala com que a mente dela trabalhava era completamente diferente da nossa.

“Mestre, só observe”

“Tá, eu sei. Seja você mesma.”

Quer dizer, não é como se elas estivessem lutando de verdade. Era apenas um duelo, então, sem problemas.

— Devemos começar?

— Sem equipamento?

— Ó? Você tem tanta confiança em sua habilidade para acertar um golpe?

— É claro.

— Hahaha! Que enérgica você é. Não tema, minhas roupas foram encantadas através das artes mágicas. Elas oferecem defesas superiores à da maioria das armaduras criadas com metal. Eu também tenho em minha posse um Bracelete de Sacrifício.

— Entendido.

— Muito bem, acredito que está na hora de começarmos, não?

— Nn!

E elas começaram. Rumina, assim como Fran, era uma espadachim. A forma como ela trocava golpes com Fran demonstrava o fato de que ela era muito habilidosa.

Sua habilidade Interferência de Avaliação fazia com que eu só pudesse identificar suas habilidades relacionadas a detecção, então eu só fui capaz de descobrir agora que ela era capaz de usar magia. Ou seja, eu podia dizer com apenas um olhar que ela tinha acesso a habilidade Manipulação de Magia.

Elas começaram com um ritmo mais tranquilo e se investigaram para avaliarem as habilidades da outra. A partir daí as duas aos poucos aumentaram o ritmo e começaram a atacar de forma mais incisiva e mais veloz.

— Esplêndido! Sua habilidade com a espada é incrível para alguém tão nova.

— Nn!


— O quê? Você não pode mais continuar?

— Haaah!

— Você cometeu um erro! Seu golpe seria muito mais efetivo se você tivesse dado mais um passo para a frente.

Rumina era, como você poderia esperar, muito mais habilidosa do que Fran. A Gata-Negra mais velha teve a liberdade de verbalizar os erros da outra a pesar de ela estar indo com tudo. Sua maneira precisa de fazer isso era como a de um treinador ou um professor.

— Isso não é tudo o que você tem, é? Me mostre tudo o que você pode fazer!

— Nn. Javelina de Fogo!

Fran criou uma lança coberta por chamas enquanto ela lançava outro golpe. Seu plano era distrair Rumina para acertar um golpe com um ataque duplo, mas sua tentativa terminou em absoluto fracasso. As chamas não foram o suficiente para oferecer nem a menor das distrações.

— Você é ingênua demais! Um feitiço como esse falha em servir até como uma simples distração!

— Nn!

A batalha delas se transformou de uma baseada apenas em esgrima para uma violenta troca de feitiços. Rumina se provou capaz de usar ambos os elementos do fogo e do vento.

As duas lutaram pelo que pareceu ser uma hora.

Fran estava sem fôlego. Rumina, por outro lado, meramente parecia satisfeita.

— Você é incrivelmente forte para uma Gata-Negra que ainda não evoluiu. Você com toda certeza se tornará forte o bastante para deixar seu nome na história se encontrar um caminho para a evolução.

Ela falou com um sorriso, mas logo distorceu sua expressão em uma mais austera.

— Está quase na hora para nós encerrarmos esta sessão. Eu devo te fazer o favor de colocar uma porção do próprio poder que você deseja em exibição para meu último ato. Não tema, não irei te matar.

— Pode vir.

Minha lâmina tremeu assim que uma incrível quantidade de energia mágica de repente explodiu do corpo de Rumina. Puta merda. Ela tem que ser pelo menos tão forte quanto Rynford.

— Aqui vou eu…. Ímpeto do Relâmpago!

Não tenho certeza se isso aconteceu porque estava superfocado nela, mas tudo o que Rumina disse soou com clareza para mim, apesar do fato de que ela murmurou a primeira metade. O ataque que ela lançou criou um clarão incrivelmente brilhante e fez Fran voar pela sala.


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Nota

[1] Eventos do capítulo 37.



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