TER – Capítulo 147 – Chegando no calabouço


Seguimos para o calabouço logo após comermos até nos empanturrarmos no salão de jantar da estalagem.

Nem Fran nem eu sabíamos para onde ir, então perguntamos a moça da estalagem. A resposta que recebemos dela foi surpreendentemente curta e simples.

— O calabouço do Oeste está perto da fortaleza do Oeste, e o do Leste bem ao lado da fortaleza do Leste. Só caminhe em uma linha reta, não tem como você não encontrar pelo menos um deles.

Parece que os calabouços estavam dentro das enormes construções cilíndricas. Ou melhor, descobrimos que as construções na verdade só foram criadas com o objetivo de cercar os calabouços.

No início, a maioria das pessoas ainda sentia que os mestres dos calabouços eram indignos de confiança. Elas não acreditavam que eles iriam cumprir os contratos que fizeram com Dias.

Assim, o Reino de Kranzell acabou construindo dois enormes edifícios, cada um deles ao redor de um calabouço. As duas construções foram uma tentativa de minimizar os sentimentos de preocupação do povo. As pessoas ficariam menos preocupadas com os mestres dos calabouços fracassando em cumprir suas promessas contanto que eles tivessem um resguardo para o caso em que isso acontecesse. A muralha que cercava a cidade também foi construída com o mesmo propósito em mente.

Ou seja, o muro externo seria capaz de conter os monstros dos calabouços mesmo que eles conseguissem atravessar as fortalezas construídas em suas imediatas proximidades. A construção de ambas as contramedidas conseguiu resolver a maior parte das preocupações dos cidadãos.

Isso, contudo, exigia uma certa pergunta. O que os cidadãos de Ulmut pensaram? Era possível que a cidade acabasse se tornando um campo de batalha.

Nós pedimos a opinião da estalajadeira, e descobrimos que a maioria das pessoas que vivia aqui se sentia positiva sobre os calabouços. A maioria dos cidadãos de Ulmut era ou mercadores e aventureiros, ou tinha algum tipo de conexão com eles. Na realidade, eles só escolhiam seguir para Ulmut por seus calabouços. Eles sabiam dos perigos e tinham há muito os reconhecidos como parte de suas rotinas. Na verdade, o povo da cidade via os calabouços como seu ganha-pão e até se preocupava com a conservação deles.

Eles chegavam até a considerar as muralhas externas da cidade como um bônus adicional que eles acabaram sendo sortudos o bastante para obter do governo; o motivo era eles não terem pago um centavo por nada disso.

Tudo o que eu tinha a dizer era… uou. Quer dizer, eu devia esperar isso, considerando que a cidade era frequentada por aventureiros desordeiros e mercadores astutos, mas, caramba, as pessoas daqui têm culhões.


Fizemos como a estalajadeira nos instruiu e traçamos nosso caminho para a fortaleza do Leste. Não levou muito tempo para que percebêssemos que navegar pelas ruas da cidade era tão difícil quanto explorar um labirinto, mesmo com nossa meta quase à vista. Quase parecia que a pessoa que construiu o local fez isso sem um layout preparado com antecedência.

Quanto mais perto chegávamos da fortaleza, mas aparente isto se tornava. Os próprios prédios começaram a ficar mais velhos e com aparências de serem históricos, enquanto as ruas apenas degeneravam em uma enorme bagunça de becos e interseções. Os edifícios mais velhos pareciam ter uma qualidade pobre, já que eles obviamente não foram construídos com qualquer tipo de princípios ou padrões de construção em mente.

Nós subimos e descemos escadas, encontramos becos sem saída, demos meia volta e vagamos por vários locais antes de enfim chegarmos na entrada do calabouço cerca de uma hora após sairmos da estalagem.

— Chegamos. Aqui, calabouço?

— Au?

“Tenho bastante certeza que esta é a fortaleza que eles construíram ao redor do calabouço. Devemos conseguir entrar se seguirmos para aquele portão logo ali.”

A construção parecia muito grande de perto. Agora eu também percebi que a fortaleza que estávamos olhando não era comum. Ela não tinha janelas, e seu portão na verdade era bem pequeno se você ignorasse a parte que foi cavada sob o nível do solo. Eu podia entender o motivo. Quer dizer, eles chamavam isso de fortaleza, mas, na realidade, ela foi construída para manter o calabouço em cheque. Em outras palavras, o objetivo dela era vigiar o que estava em seu interior, ao contrário do objetivo de uma fortaleza regular, que vigiava o que estava do lado de fora.

Um grupo de soldados residia nos andares superiores da fortaleza, então eles podiam atuar em momentos de emergência.

Dezenas de aventureiros estavam alinhados na frente de uma pequena construção preparada no portão da fortaleza. Parecia que eles estavam esperando por sua vez para serem admitidos no calabouço.

Fran atraiu muita atenção assim que entrou na fila, porém, desta vez, não houve ninguém que se incomodou em mexer com ela.

Uma boa parte dos aventureiros reunida no portão parecia ser rank D ou maior, e a maioria era capaz de entender que a garota não era algum tipo de fracote. Ter Urushi por perto também ajudou muito. Nós já tínhamos o feito voltar para seu tamanho real, então ele parecia muito intimidador.

Até os aventureiros que pareciam mais maliciosos não estavam muito interessados em se envolveram conosco com nosso amigo lobo gigante por perto. Em geral, Urushi era impedido de usar esta forma. Ele não podia se exibir nas cidades e calabouços costumavam ser estreitos demais para ele.

— Próximo por fa… MAS O QUÊ! O lobo é gigante!

— Qua-qual o problema? O que é toda esta comoção tão de repente!?

A pessoa responsável pelas admissões acidentalmente gritou quando viu Urushi. O guarda não o viu antes porque ele estava no ponto cego do edifício.

— O-ooops, de-desculpe. Eu só fiquei um pouco surpreso.

— Me desculpe jovenzinha, ele é um tanto idiota.

Os guardas que apareceram aqui eram muito mais educados do que os que encontramos no exterior da cidade. Eles se desculparam com sinceridade e, mais importante, eles não pareciam ter o menor sentimento de desdém. A atitude deles era tão incrível que eles até deixaram Fran em um estado de confusão.

— … ?

— Há algo errado?

— Nn. Completo oposto dos guardas fora da cidade.

— Entendo. Por acaso você passou por algum tipo de complicação com eles?

— Deve ser porque eles mandaram todas as pessoas mais diligentes para Barbola.

Os soldados de Ulmut precisavam ser fortes o bastante para defender tanto os calabouços quanto manter os aventureiros desordeiros sob vigilância. Assim, indivíduos mais fortes eram com frequência contratados, mesmo que suas atitudes não fossem assim tão boas.

A cidade decidiu enviar algumas de suas tropas para Barbola em resposta aos recentes eventos, e não é preciso dizer que enviar as pessoas mais grosseiras não seria nada além de uma ideia horrível. Logo, os superiores de Ulmut acabaram decidindo enviar a maioria de seus trabalhadores dedicados, as pessoas que normalmente formavam o pilar que sustentava a maior parte das atividades da cidade relacionadas à segurança.

Como resultado, os guardas menos educados, responsáveis por lidar com criminosos e subjugar feras demoníacas fora dos muros da cidade, receberam a tarefa de ajudar a manter a ordem pública. Assim, a cidade tinha, em geral, ficado um pouco menos segura. Na verdade, os próprios guardas acabavam criando uma boa quantidade de problemas.

— Os homens que enviamos para Barbola vão voltar logo. O Mestre da Guilda e vários outros aventureiros de alto nível estão ajudando a manter todos na linha, assim, felizmente, tudo ainda está sob controle.

— Mesmo assim, é melhor que você tome cuidado. Sendo sincero, foi muito difícil para nós reconhecermos você como uma aventureira logo de cara. Não teríamos acreditado em você se não fosse por seu cartão da guilda, e tenho certeza que haverá muito outros que não apenas não pensarão o mesmo, como também serão teimosos.

— Acho que você deve ser a aventureira mais jovem a entrar no calabouço do Leste.

— … e você está registrada. Seu cartão da guilda já deve gravar as informações do calabouço.

— Gravar?

— Ele irá marcar os andares que você visitou e o número de monstros que você derrotou. Isso vai te permitir determinar na mesma hora se você completou ou não uma missão.

Ó, maravilha, isso parece mesmo conveniente. Parece que relatar pedidos de subjugação será incrivelmente simples. Isso também impede as pessoas de darem relatórios falsos, não que isso importasse para nós, já que estamos planejando fazer tudo de forma legítima.

— Por favor, se atente ao fato que os calabouços do Leste e do Oeste tem rastreadores separados. Nada feito no calabouço do Leste será contado no rastreador para o calabouço do Oeste e vice-versa.

Acho que isso significa que temos que nos registrar de novo se quisermos fazer algo no calabouço do Oeste.

— E aqui está o seu cartão.

— Não se esforce demais.

— Nn. Obrigada.

Muito bem! Está finalmente na hora do calabouço.

“Vamos lá.”

“Au!”

“Tenham cuidado. O lugar deve estar cheio de armadilhas.”

“Nn. Entendido.”

Quer saber, agora que penso sobre isso, esta deve ser nossa primeira vez entrando em um calabouço com dificuldade maior por conta própria. Será melhor sermos prudentes.

Fran morrendo ao cair em alguma armadilha aleatória sem qualquer aviso seria totalmente ridículo, então eu prefiro que isso não aconteça.

“Urushi, não nos avise de qualquer armadilha, a menos que estejamos a ponto de nos ferrar. Não seremos capazes de treinar direito se você não fizer isso.”

“Ão.”

A porta se abriu assim que um dos guardas fez algo com um item que ele estava segurando. Parecia haver um estranho fluxo de magia na vizinhança da porta, então ele deve ter usado algum tipo de item mágico.

Nós avistamos algo que parecia um pequeno altar situado no centro do domo de pedra no momento que atravessamos o portão.

“Essa é a entrada do calabouço?”

— Pequena.

— Au?

Olhando com mais atenção, notei que a entrada do altar continha um lance de escadas que levava para o subterrâneo. Mesmo assim, a entrada do calabouço com certeza parecia pequena em relação a quão famoso ele era, mas isso não significava que poderíamos baixar nossas guardas. Afinal, um calabouço é um calabouço.


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