TER – Capítulo 141 – A entrada de Ulmut


Levamos quatro dias para chegar em Ulmut a partir de Barbola.

Nada de importante aconteceu pelo caminho. O único evento digno de se mencionar foi nosso encontro com um ninho de goblin contendo mais de 20 indivíduos, mas limpar a área nos custou menos do que meia hora, assim, sendo sincero, isso foi bem insignificante.

Acontece que Ulmut era muito menor como cidade do que eu tinha imaginado. Quer dizer, eu sabia com certeza que ela seria menor do que Barbola, mas, na realidade, ela também se provou muito menor do que Aressa. Na verdade, ela tinha menos do que a metade do tamanho dessa última

Mesmo assim, a cidade ainda causou uma grande impressão em mim no momento em que a avistei. Nossa aproximação incluía Urushi nos carregando em suas costas enquanto corria pelo céu como de costume, então acabei com uma vista aérea da cidade. A mencionada vista me permitiu ter um total entendimento de quão estranho o layout de Ulmut era de verdade.

A maioria da esquisitice se originava das duas enormes construções que imediatamente capturaram minha atenção. A primeira era um muro imenso que percorria todas as fronteiras da cidade. Ele não era apenas tão alto quanto o de Barbola, mas também era muito mais largo. Ele parecia extremamente deslocado, e quase desnecessário.

A segunda era uma enorme estrutura cilíndrica que quase parecia pairar sobre a cidade em sua totalidade. Digo, eu poderia reconhecer isso como uma fortaleza destinada a defesa se ela estivesse no exterior do perímetro da cidade, mas ela não estava. Assim, só podia assumir que isso era algum tipo de abrigo ou instalação.

“Ah, bem, vamos descobrir o que é isso se apenas seguirmos até lá mais tarde.”

— Nn.

— Au.

O único problema com essa sugestão era que entrar na cidade parecia ser em si uma enorme dor de cabeça.

Havia por volta de mil pessoas alinhadas diante dos portões de Ulmut. Parecia que a entrada principal da cidade estava infestada de aventureiros, espectadores e o que pareciam ser mercadores como resposta ao torneio de artes marciais que se aproximava.

Para ser sincero, pensei que a multidão se justificava pelo fato do torneio ser considerado um dos maiores eventos do reino.

Descemos das costas de Urushi em um ponto afastado da multidão antes de nos movermos para a fila e nos juntarmos a espera… só para descobrirmos que a fila basicamente não estava se movendo.

Eu ouvi por acaso os mercadores de pé na nossa frente dizendo que era difícil ser admitido na cidade se essa fosse a sua primeira vez, a menos que você fosse um aventureiro. Ulmut continha dois calabouços diferentes, então eles interrogavam todos que desejavam entrar neles sobre suas intenções no portão de admissão.

Qualquer um que fosse aceito uma vez teria então concedida uma credencial que o permitiria entrar e sair livremente da cidade no decorrer do próximo meio ano. Isso também permitia usar uma das entradas menos congestionadas que não era usada para admissões. A competição de artes marciais era um evento anual, então as pessoas que vinham apenas por esse motivo acabariam recebendo um chá de cadeira nessa fila todos os anos.

As pessoas que vinham todos os anos meio que consideravam a fila como uma tradição anual. Alguns dos mercadores mais agressivos até tentariam mirar naqueles que estavam esperando na fila para vender refrescos. Alguns desses refrescos vinham na forma de bebidas alcoólicas; vários grupos de pessoas já tinham se sentado para começar competições de bebida e coisas do tipo.

Ver essas cenas me lembrou do comiket1 e outras convenções que tínhamos no Japão. Como resultado, não pude afastar o sentimento de que o evento começaria antes de conseguirmos ser admitidos.

Parecia que eu não era o único que me sentia assim, já que alguns outros indivíduos na fila pareciam simplesmente incapazes de esperar mais. A maioria desses indivíduos eram plebeus ou aventureiros como nós, que estavam visitando a cidade pela primeira vez.

O grupo mais agitado de todos era composto especificamente por aventureiros com uma aparência menos do que refinada. Eles estavam discutindo aqui e ali. Ainda não havia nenhuma violência, mas eu senti que uma briga poderia começar a qualquer momento.

Maldição. Esses idiotas não percebem que eles estão apenas deixando esta fila ainda mais lenta do que o normal?

Nossos olhares ficaram frios enquanto continuávamos a observa-los e esperávamos com paciência pela nossa vez.

“Goblin.”

“Ogro.”

“Hmmm. Dragão.”

“Kobald.”

“Uhhh, um segundo… uhhhhhh, demônio.”

“Quimera.”

“Hmmmm.”

Fran e eu estávamos passando o tempo engajados em jogos que poderiam ser jogados em qualquer lugar e a qualquer hora. Para ser mais específico, estávamos no momento nos revezando listando monstros enquanto tentávamos ser o último a conseguir nomear um.

Entretanto, nosso mencionado jogo por levado a um fim abrupto. E como se não fosse desagradável o bastante, não foi porque nossa vez por fim chegou.

— Ei, você aí pirralha. Venha já aqui.

Um aventureiro barbudo nos chamou com um tom arrogante. Eu dei uma rápida olhada em seus status, apenas para descobrir que eles eram terríveis. Ele devia ser no máximo um rank E.

— …

— Oi! Me escute sua maldita pirralha!

— …

— Desgraçada, você acha que é durona por me ignorar, hã?

— …

Fran não respondeu ao aventureiro como se ela estivesse ocupada demais tentando pensar em um monstro para nomear. O rosto do homem rapidamente ficou vermelho como resposta.

“Hmmmm…”

“Ei Fran.”

“Nn? Mestre desistindo?”

“Não, é só que tem alguém tentando chamar a sua atenção.”

— Nn?

O aventureiro imediatamente começou a gritar com Fran como se quisesse intimida-la no momento que ela se virou para ele.

— Eu estava pensando em te permitir me servir alguma bebida assim que atravessássemos a muralha, mas não tem como eu te perdoar agora pirralha!

— Calado.

— Que merda você disse!? Você está tentando me irritar!?

Fran estava com suas orelhas abaixadas e murmurou baixinho pela dor de cabeça que esse cara estava sendo, porém, isso só pareceu aumentar ainda mais sua raiva.

— Eu vou fazer você pagar por isto!

O homem barbudo logo desferiu um soco em nossa direção. Ele é estúpido? Tipo, olhe quantas testemunhas temos aqui. Espere, ele tem a capacidade de calar a todos ou algo parecido? Poderia ser que ele tem ligação com uma das figuras mais influentes de Ulmut?

— Nn.

Eu estava um pouco preocupado com a identidade do homem, mas Fran não poderia se importar menos.

Ela desviou do ataque dele e lançou seu próprio punho contra seu plexo solar2. Os espectadores devem ter pensado que essa foi uma ação bem insignificante. Na verdade, muitos pareciam suspeitar que o homem não sofreria o menor dano com o ataque, mas eles logo perceberam que estavam errados e foram forçados a duvidar de seus próprios olhos.

— Guah!

O homem voou cinco metros antes de finalmente cair no chão. A força do impacto o fez continuar rolando depois disso.

“Você não se conteve?”

“Inimigo fraco demais, então não usei o Mestre.”

— Guueeeeee…

O homem ficou no chão se contorcendo enquanto seu sangue e o conteúdo de sua última refeição escapavam de sua garganta. Veja bem, ele mereceu isso, considerando como ele acabou de dar em cima de uma garotinha. Ele tem sorte por não ter sido todo fatiado.

Mas, naturalmente, havia opiniões que diferiam da nossa.

— Ei, Brulace, você está bem!?

— Que merda você fez com ele sua pirralha maldita!?

— Yo, isso foi exagerado demais. Ah, que inferno!?

Os companheiros de Brulace gritaram raivosos com Fran. Parecia que eles queriam brincar também.

Seus rostos vermelhos revelavam o fato de que eles estavam todos bêbados. Brulace estava igual, por isso ele mostrou aquele temperamento excessivo. Mesmo assim, não era como se estivéssemos planejando ser gentis e perdoa-los só porque eles estavam sobre a influência do álcool.

Na mesma hora, Fran os desarmou e os fez voar da mesma forma que fez com Brulace.

— Ugeehh!

— Uuuueeeeee!

Quer dizer, formos a razão para eles acabarem vomitando, mas não podia me impedir de sentir que os quatro homens pareciam nojentos demais. As outras pessoas na fila pareciam pensar a mesma coisa, já que olhavam para os homens com olhos de repulsa enquanto se afastavam deles.

Ooops. Parece que fomos os primeiros a recorrer a violência.

Hmm, será que devemos limpar tudo isto?

Um homem mais velho se aproximou de nós enquanto pensávamos como poderíamos resolver o problema.

— Uou, isso foi impressionante. Você parece ser bem forte.

Ele tinha uma aparência de almofadinha, e devia ser um nobre. As roupas que ele vestia eram chamativas; elas tinham muitos bordados e pareciam luxuosas, mesmo com apenas um olhar. Seus cabelos brancos estavam penteados para trás. Sua barba, que logicamente era da mesma cor, foi cortada para ficar parecida com um cavanhaque. Embora ele parecesse ter pelo menos sessenta anos de idade, seu corpo ainda estava tão bem cuidado que chegava quase ao ponto de ser anormal. Em suma, ele parecia transmitir o ar de um guerreiro experiente.

Eu achei um pouco estranho ele estar sorrindo com alegria e falando conosco, considerando o status quo. Meu palpite era que ou ele tinha muita coragem ou simplesmente não podia reconhecer a situação.

— Meu nome é Dias. Qual é o seu?

— Fran.

— Você é uma aventureira?

— Nn.

— Entendo. Você parece muito promissora baseado em quão fofa e forte você é. Estou ansioso para ver como você vai se desenvolver daqui para frente.

Hmmm, mas quem é este velhote? Ele não parece ser hostil, ele não parece estar tentando avaliar Fran ou algo parecido.

Quer dizer, minha primeira impressão foi que ele era provavelmente algum tipo de nobre, mas ele não nos deu um nome de família quando se apresentou, então ou ele não é um, ou pertence a uma família famosa demais para dizer o nome.

Eu queria avalia-lo, mas acabei não fazendo isso. Fui distraído pelo que parecia ser um grupo de guardas correndo em nossa direção a partir do portão.

— Ei, você aí garota.

O tom do guarda era bastante intimidador. Parecia que não poderíamos escapar dessa situação apenas por clamar autodefesa. Porém, isso poderia funcionar se as pessoas ao nosso redor ajudassem ao testemunhar…

Mesmo assim, não parecia que qualquer um desejava nos dar uma mão. Todos desviavam os olhos no momento que Fran olhava para eles, como se dissessem que queriam ficar fora desse problema devido a quão perturbador ele era.

— Céus, por que você tinha que começar uma confusão dessas?

— Nós já estamos ocupados demais.

— Para a sala dos guardas. Vamos ouvir o que você tem a dizer assim que chegarmos lá.

— Venha, vamos.

Nós já perdemos uma hora na fila. Vai ser mesmo um saco se eles nos mandarem para o final da fila depois disso.

No entanto, os guardas com certeza pareciam estar de mau humor. Os olhares que eles enviavam na direção de Fran eram completamente frios. Não seria surpresa se eles acabassem nos prendendo sem nem ao menos nos ouvirem.

O que eu não entendia era o motivo para eles levarem apenas nós e não as pessoas em que Fran bateu.

Eu realmente não queria lidar com tudo isto, mas não era como se pudéssemos apenas mandar eles a merda e ir embora. Por sorte, Dias deteve os guardas assim que Fran se conformou em acompanha-los.

— Esperem. Nada do que aconteceu foi culpa dela.

— Tá legal, e? Quem diabos é você?

Um dos guardas encarou Dias de uma forma bastante convencida.

“Parece que isto pode causar ainda mais problemas.”

Ou assim pensei, mas, ao que parecia, as coisas eram diferentes.

— Mes-Mestre Dias!

— Ma-mas o que você poderia estar fazendo em um lugar como este?

— Ó, você sabe, eu só estava passando por acaso.

Hã, parece que esse velhote tem uma baita influência. Ao que parece, ele realmente pode ser um nobre.

— Entendido senhor.

— Como estava dizendo, ela não tem culpa alguma. Toda a culpa pertence aos homens caídos bem ali, então se vocês querem levar alguém, deveria ser eles. Eu sei que eles estão imundos, e me sinto mal por vocês, mas, mesmo assim, vocês vão leva-los, não vão?

— Si-sim senhor!

Ah, agora eu entendi. Os guardas não queriam carregar os quatro homens sujos, então decidiram tentar mirar em Fran. Eles poderiam até tentar incrimina-la, dessa forma, me senti muito grato pelas ações de Dias.

As palavras dele inspiraram os guardas a imediatamente agarrarem os quatro homens pelos pés e os levarem embora com seriedade.

— Obrigada.

— Não se preocupe. Ver o quão promissora como aventureira você é só fez eu me sentir com vontade de te manter longe de problemas.

— Por quê?

— Hahaha. De qualquer modo, estou indo agora. Te vejo por aí.

Dias sumiu após nos deixar com essas poucas palavras que pareciam indicar algo. Mas quem diabos ele é? Acho que vamos acabar descobrindo quando entrarmos na cidade.

— Entediada.

“Eu também.”

Parecia que ainda teríamos que esperar por bastante tempo antes de termos permissão para atravessar as muralhas da cidade.

“Ooops. Acabei de perceber que esqueci de avalia-lo.”


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Notas

[1] Comiket, também conhecido como Comic Market (literalmente “mercado de histórias em quadrinhos”), é a maior feira de dōjinshi do mundo, que acontece duas vezes por ano em Tóquio, no Japão. A primeira edição da Comiket aconteceu em 21 de dezembro de 1975 e contou com a presença de 32 círculos participantes e cerca de 600 visitantes. Atualmente o número de visitantes chega a ultrapassar a faixa de meio milhão de pessoas. A base do evento são esforços de DIY (faça-você-mesmo) para vender dōjinshi, revistas japonesas autopublicadas. Como os itens vendidos na Comiket são considerados muito raros (já que dōjinshis raramente são reimpressos), alguns podem ser encontrados na internet sendo vendidos a preços muito maiores do que o preço original.

[2] O plexo solar é a região mais ou menos na altura da boca do estômago.



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