TER – Capítulo 134 – O objetivo de Zerais



Cinco Soldados de Pedra Mágica emergiram das profundezas da área da Guilda dos Alquimistas. Por algum motivo estranho, eles pareciam transmitir um ar pesado e intimidador, apesar de parecerem apenas um grupo de gorilas armados.

Eles também podiam ser descritos como Golems com braços alongados. De qualquer forma, seus corpos eram feitos de uma substância cristalina completamente vermelha e preta.

Suas pernas curtas faziam com que seus braços longos se estendessem até o chão. Um pouco mais de observação me levou a perceber que eles lembravam, e muito, soldados robóticos que guardavam um certo castelo no céu1.

Nenhum dos cinco exibia o menor sinal de força vital. Parecia que eles eram mesmo Golems, ao invés de exoesqueletos energizados2.

— Tomem cuidado. Não posso avaliar essas malditas coisas, não importa o quanto tente. Não há como dizermos do que eles são capazes.

— Mais motivos para ataca-los antes que tenham a chance de nos atacar!

Apesar de Colbert ser do tipo de pessoa que gostava de disparar contra o inimigo, ele tinha experiência o bastante para entender que sair correndo e socar um inimigo cujas habilidades ele desconhecia não era exatamente a melhor ideia. Assim, seu ataque preventivo tomou a forma de uma habilidade que parecia a Onda Sônica da Esgrima. Ou seja, ele lançou uma onda de choque na direção dos Golems ao socar o ar.

A onda de choque seguiu em linha reta contra seus alvos. Eu podia dizer com apenas um olhar que ela tinha poder mais do que suficiente para mutilar um Hobgoblin e despedaça-lo.

Mas o ataque não teve efeito.

A onda de choque de Colbert quase pareceu se apagar no momento que entrou em contato com o Soldado de Pedra Mágica na vanguarda. Ele não recebeu qualquer dano com o ataque.

Eu não podia dizer se ele usou uma habilidade ou invocou algum tipo de magia, mas, em todo caso, parecia que ele não foi afetado. Puxa, não ser capaz de avaliar algo é uma enorme dor de cabeça.

Ver a habilidade do Soldado de Pedra Mágica fez nossos aliados pararem por precaução. Quatro de nossos cinco inimigos logo tomaram nota de nossa hesitação e começaram a balançar seus braços em um enorme arco. Parecia que eles estavam no meio de reunir energia mágica de seu interior.

— Cuidado! Eles estão preparando um ataque!

— Ó Barreira de Vento.

— Uive! Magno Raio!

“Parede de Fogo.”

Nós preparamos nossas defesas no momento que os Golems lançaram seus ataques.

— Eles estão usando atributos compostos!?

— Essa coisa foi tão forte quanto um feitiço de nível superior!

Nós conseguimos repelir a barragem dos Golems, mas a força bruta que eles usaram nos deixou bastante impressionados. As balas de vento que eles dispararam eram tão poderosas quanto o que você esperaria da Magia da Tempestade, mas isso não era tudo. Eles também usaram alguns elementos mais raros no meio, mais especificamente, gelo, relâmpago e lava.

O fato de que Golems eram capazes de usar magia, por si só, era uma ocorrência muito rara, então ver eles usando feitiços poderosos derivados de elementos raros tornou toda a situação irrealista.

Tanto Amanda quanto Gamud gritaram surpresos, e apesar de Forrund abster-se de falar, eu podia dizer que ele sentiu o mesmo baseado no fato de que ele estava com os olhos arregalados.

— Então, o que vocês estão achando dos meus Soldados de Pedra Mágica?

— Nn?

“Aquilo é um holograma? Ou ele está usando magia de ilusão ou algo do tipo?”

Um homem se materializou entre nós e os Golems logo após Amanda ver outro de seus feitiços não fazer nada contra um dos inimigos.

A princípio, eu pensei que ele se teleportou para cá, mas eu estava obviamente enganado. Sua forma translúcida e a ocasional estática que parecia pulsar através de seu corpo serviam como evidência de que ele era apenas uma ilusão.

O homem era tão bonito que me deixou muito irritado. Ele parecia ter cerca de vinte anos, e tinha a sempre famosa combinação de cabelo loiro e olhos azuis. Sua estatura estava um pouco mais para o lado dos baixinhos, mas só o bastante para eu sentir o impulso de avisá-lo para tomar cuidado com pedófilos.

— Quem?

— Zerais!

— Ó, faz muito tempo que não te vejo, meu Mestre.

Eugene acabou gritando o nome do homem e nos revelou a identidade dele, mas eu ainda tive dificuldade em digerir isso. É que, esse é mesmo ele? Eu não esperava que ele fosse tão jovem e tudo o mais. Eu sempre imaginei Zerais como um cara mais velho com um jaleco de laboratório.

— Você não mudou nada.

— Ó, isso? Por acaso eu consegui colocar as mãos em um pouco de sangue de Demônio.

Óóóó, entendi. Se você injetar sangue de uma raça de vida longa em você mesmo, você acabará parecendo muito mais novo do que na verdade é.

— Você é o motivo para os Alquimistas da Guilda estarem do jeito que estão?

— Bem, é. Eu coloquei todos eles em experimentos com a minha Demonização, mas como você pode ver, eles acabaram se transformando em falhas. Parece que você tem que ser alguém muito forte, tanto na mente quanto no corpo, se você quiser conseguir algo ao introduzir Pedras Mágicas dentro de um ser humano. Todos os insetos com que tentei o experimento acabaram morrendo porque seus corpos rejeitaram as Pedras Mágicas. Aqueles com sorte o bastante para sobreviver acabaram perdendo suas mentes. Eles podem até ser considerados Zumbis com a forma como agem, mas, que seja, acho que isso está bom, já que eles são bem fáceis de controlar.

Zerais orgulhosamente começou a tagarelar sobre tudo que tinha feito. O olhar que ele tinha em seu rosto me irritou para caramba. Ele parecia amar atenção, então ele acabou nos dando muita informação basicamente por motivo nenhum.

— Eu ainda preciso trabalhar um pouco mais na finalização da Demonização, mas esses Soldados de Pedra Mágica já estão completos. O que vocês acharam deles? Fortes, não? Eu descobri como faze-los quando estava fazendo minha pesquisa sobre Demônios. Eu não consegui fazer as coisas do jeito que queria a princípio, mas um dos meus colaboradores me deu uma mão e me ajudou a completa-los.

— Rynford?

— Isso mesmo. Ó, espere, eu tenho uma boa ideia de quem você é. Você é aquela garota Aventureira, Fran, não é?

— Rynford? Quem é esse?

Hmmm, entendo, então Eugene nem sabia da existência de Rynford.

— Ele é um dos servos do Deus Maligno, e o homem por trás de toda esta bagunça. No entanto, eu não posso dizer que não o dei uma ajuda. Ele me ensinou Artes Malignas e vários métodos para lidar com energias malignas, então eu o recompensei ao ensiná-lo tudo sobre Alquimia e Pedras Mágicas. De qualquer forma, eu sei que a noite pode ter sido um pouco turbulenta, mas por que vocês não se juntam as festividades? Ah, sim, acabei de perceber que menti um pouco. Acho que eu acabei participando no plano desta noite, já que precisava de duas ou três mil almas, entendem?

O sorriso de Zerais era tão puro e sereno que quase parecia que suas ações não o faziam sentir nem mesmo a menor das culpas.

— Por-por que você faria…

Eugene por pouco conseguiu fazer uma meia pergunta enquanto encarava seu discípulo. O rosto do Meio Homem-Inseto estava pálido.

— Hmmm… bom, para resumir, acho que o motivo é que eu queria deixar prova do fato de que existi.

— Quê? Eu não entendo o que você está dizendo.

— Acho que vou remover um degrau de abstração então. Meu objetivo é me tornar tão famoso que meu nome vai ser gravado na história. Eu quero que as pessoas se lembrem de mim, mesmo que mil anos se passem.

— Você está falando sério Zerais? Você está disposto a sacrificar as vidas das pessoas por uma razão tão mundana?

O rosto de Eugene endureceu. Ele ficou com um ar muito mais parecido com o de um professor, apesar do fato de que parecia não compreender o motivo para seu ex-discípulo ficar louco.

— Quando foi que aconteceu? Quando foi que você se perdeu?

— Quando? Bom, eu sempre fui assim. A única diferença é que eu costumava ser um pouco mais comportado, só isso. Sabe Mestre, eu realmente aprecio tudo o que você fez por mim. Suas lições são a única razão para eu começar a me aproximar da concretização do meu sonho, sabia?

Eugene era honestamente um cara muito bom e realista, mas como resultado, ele não podia entender o porquê seu aprendiz estar agindo da forma que estava. Ele falhou em compreender sua malícia, não, sua absoluta falta de preocupação por qualquer um que não fosse ele.

Em outras palavras, eu estava tentando dizer que Eugene era gentil e ingênuo demais. Embora isso parecesse um tipo de ofensa para a pessoa, eu estava querendo dizer isso como algo bom. A gentileza e ingenuidade de Eugene pareciam ser o motivo para ele estar onde estava hoje. Meu palpite era que ele acreditou que Zerais estava em algum lugar do mundo pagando por seus pecados com suas ações diárias.

No entanto, do meu ponto de vista, Zerais não tinha o menor desejo de arrepender-se. Ele era mais do que uma maçã podre. Na verdade, ele estava tão apodrecido que começou a drenar a vida das outras maçãs saudáveis a seu redor. Neste momento, eu diria que seria justo começar a chamá-lo de maça mutante. Ele parecia bastante normal do lado de fora, mas seu interior era uma completa bagunça de resíduos tóxicos. Qualquer um que tentasse comê-lo iria morrer na mesma hora de intoxicação alimentar, então era melhor jogá-lo fora. Yup, precisamos encontrá-lo e elimina-lo agora mesmo.

— Aliás, o que é tão anormal sobre querer ficar famoso? Eu tenho certeza que isso é algo normal que quase todos desejam.

— Você está certo Zerais. Fama é algo comumente buscado, mas isso não significa que você pode apenas sair por aí fazendo o que quiser. Você não pode pisar nas vidas dos outros seres humanos como se isso não fosse nada! Você está mesmo satisfeito em deixar para trás um nome conspurcado por um legado de infâmia?

— Como se eu me importasse. Eu não me importo nem um pouco em ser infame. Na verdade, eu prefiro ser infame do que apenas famoso, entendeu?

— Por quê? Exijo razão.

— Bem, Fran, por que eu não explico desta forma? Você já ouviu os contos do Rei Yvel e a Santa Myurell? Se não, que tal Sigmund Matador de Dragões?

— Não conheço nenhum.

— Viu? Esse é exatamente o meu ponto. Essas três pessoas que acabei de mencionar foram indivíduos excepcionais e famosos por suas realizações. O primeiro trabalhou com um grupo de Cavaleiros para segurar uma horda de um milhão de poderosos Goblins. Em sua época, ele ficou conhecido como “O Rei Heroico”. A segunda era uma santa errante, ela viajou pelas terras e dedicou sua vida toda a curar as pessoas. O terceiro era um Aventureiro que sacrificou sua vida para libertar o continente de Khrome de um Lorde Dracônico que teria causado a destruição da nação. As conquistas deles são todas bem impressionantes, você não concorda?

— Nn. Incrível.

— Sim, mas apesar disso, você não sabia sobre nenhum deles até agora. Na verdade, poucos conhecem, esses nomes não são celebrados. Porém, e se eu te perguntar sobre Trismegistus o Rebelde? Você o conhece?

— Ouvi falar.

— É claro que sim. Basicamente, todos o conhecem. E agora você entendeu, não?

Espere, quem diabos é Trismegistus?

“Ei Fran, quem é Trismegistus?”

“Alquimista famoso. Pessoa muito ruim. Destruiu o continente de Goldishia.”

Fran logo me fez um resumo sobre esse cara e seus feitos.

Trismegistus era um homem que existiu há muito tempo no passado. Ele era um rei, mas não um rei qualquer. O reino que ele governava era tão vasto e poderoso que ele efetivamente tinha controle de todo o continente. Mesmo assim, ele não estava satisfeito. Ele tentou dar à luz a uma Fera Demoníaca poderosa em nome de um único objetivo: dominância mundial. E é claro que suas ambições não eram do tipo que podia ser alcançado através de meios comuns. Assim, ele desfez o selo do coração do Deus Maligno e tentou usar seu poder.

A Fera Demoníaca que resultou de tal decisão era muito poderosa, tanto que ela acabou obliterando um continente inteiro e quase todo o seu povo. A citada Fera Demoníaca continuou a crescer em força ao devorar a própria terra. Ela ficou tão grande que se tornou capaz de tragar cada pedaço de terra que restou em uma única investida. O povo se desesperou, mas os Deuses desceram e os ofereceram salvação. Eles criaram uma barreira imensa e aprisionaram a Fera Demoníaca do tamanho de um continente, o Devorador do Abismo. É dito que o Devorador do Abismo continua a crescer dentro da barreira até hoje.

Em um comentário adicional, os Deuses amaldiçoaram Trismegistus com o objetivo de força-lo a pagar por seus pecados. Explicando com mais detalhes, eles o concederam a imortalidade enquanto também o deixavam dentro da barreira, assim o forçando a sofrer enquanto o monstro consome sua carne pela eternidade.

Eu não tinha como saber se a história era uma descrição real, especialmente vendo como ela era usada como uma história para dormir com o objetivo de desencorajar o mau comportamento das crianças. Mesmo assim, puta merda, isso é terrível. Tipo, caramba, isso é o que eu chamo de maldição. Deuses, vocês são assustadores demais.

— Puxa, que inveja de Trismegistus. Deve ser incrível ser ele!

— O que você está dizendo Zerais!? Isso é ridículo! Espere… não me diga que você planeja desfazer um dos selos do Deus Maligno?

— Sabe, isso é exatamente o que eu tenho em mente. Mas não se preocupe, não estou planejando fazer algo tão drástico quanto libertar um pedaço tão grande quanto seu coração.

— Você está tentando dizer que acha que pode assumir o controle disso!?

— Na verdade, sim, sim, eu estou. Eu posso fazer isso, entende? Quer dizer, só olhe para mim! O único problema é que meu velho colaborador acabou morrendo antes de termos a chance de fazermos um teste. Eu também não consegui almas o bastante, e não posso desfazer o selo por conta própria. Quer dizer, eu posso ser abençoado, mas não sou capaz de usar as Artes Malignas.

Ufa.

— Mas veja, o problema é que estou começando a ficar muito irritado com a Fran que está logo ali, sabia? Primeiro ela pegou o pacote que eu encomendei, então ela entrou no meu caminho quando tentei fazer alguns dos meus empregados lidarem com o orfanato, e agora ela até ajudou a matar Rynford e seus amiguinhos.

O orfanato? Espere, então ele estava atrás da receita de Io?

— Queria receita por quê?

— Nada em especial. Só um pouco de curiosidade fútil, entende?

— Curiosidade?

— Yup, curiosidade. No início, era porque Bluke queria saber sobre ela e não pararia de me importunar, então comecei a desviar todo o dinheiro que normalmente seria usado para as despesas operacionais do orfanato. Veja, me custa dinheiro colocar as mãos em Pedras Mágicas e equipamentos, então não via qualquer motivo para não fazer isso. Eu imaginei que eles poderiam começar a vender as crianças se não tivessem dinheiro suficiente, e estava precisando mesmo de ratos de laboratório extra. Era uma clara situação de ganha-ganha, não concorda? Eu decidi fazer uma rápida visita ao orfanato um pouco mais tarde, assim poderia começar a verificar as crianças com antecedência, mas acabei percebendo que os pratos que eles serviam lá eram bastante estranhos, entende?

— Pratos?

— Quero dizer, veja os ingredientes. As coisas que eles servem são obviamente muito melhores do que elas deveriam ser. Eu pensei que eles podiam ter acesso a algum tipo de tecnologia que os levava a injetar mana em seus ingredientes ou algo do tipo. Acontece que não podia estar mais errado.

Zerais riu um pouco enquanto se lembrava de seu erro.

Puta merda, este cara é completo imbecil. Não podemos pegar ele, nem mesmo encontrá-lo no momento, mas isso não parece ser um grande problema. Amanda estava liberando uma quantidade incrível de sede de sangue, então imaginei que ele só acabaria no topo da lista de inimigos dela. Não há enganos quanto a isso, ele está destinado a um fim muito pior do que a morte.

— De qualquer forma, esta conversa acabou se arrastando um pouco mais do que eu planejava, então estou indo embora. Ah, sim, caso vocês ainda estejam especulando isso, eu não estou mais na Guilda.

— Fugindo?

— Sim, estou. Meu plano foi um fracasso total agora que Rynford está morto. Eu planejava fazer com que os Seres Malignos dele matassem muitas pessoas, assim poderia usar suas almas para invocar um pedaço do corpo do Deus Maligno. Isso teria funcionado, especialmente se Rynford conseguisse extrair o poder do Deus Maligno. Ah, bom, há sempre uma próxima vez. Divirtam-se brincando com meus Soldados de Pedra Mágica. Tchau, tchau.

A projeção de Zerais fez um rápido aceno e desapareceu logo após ele terminar de falar.

“Parece que ele estava dizendo a verdade. Não posso sentir ninguém dentro da Guilda.”

“Urushi. Não pode perseguir?”

Ganido.”

“Tsk. Pelo amor de Deus.”

Au…”

“Oh, uh… ops. Sinto muito Urushi, não estava tentando dizer que foi sua culpa.”

Ah, bem, acho que não há o que fazer. Por ora, vamos lidar com esses caras e pensar no que fazer com Zerais mais tarde.


Tradutor:



Notas

[1] Referência a Tenkû no shiro Rapyuta, também conhecido como Laputa ou o Castelo no Céu, é um filme de animação japonês realizado por Hayao Miyazaki em 1986. Esse foi o primeiro filme do Studio Ghibli e foi animado por Tokuma Shoten.

[2] Um exoesqueleto energizado, também conhecido como armadura elétrica, exoframe ou exosuit (exoterno), é uma máquina móvel que consiste principalmente de uma armação externa (similar ao exoesqueleto de um inseto) utilizada por uma pessoa (ou por outro animal, dependendo do formato), e conta ainda com um sistema de motores, que proporcionam energia para, ao menos, o movimento dos membros. A principal função de um exoesqueleto energizado é o de aumentar a força, velocidade e resistência do usuário. Eles são geralmente projetados para uso militar, para auxiliar soldados a carregar cargas pesadas. Em áreas civis, entre diversas aplicações dos exoesqueletos podem ser utilizados por bombeiros e trabalhadores que desenvolvem atividades em ambiente de risco.



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