TER – Capítulo 113 – O Banquete Lunar



Silêncio preenchia a cozinha enquanto nos preparávamos para cozinhar.

A primeira coisa em nossa lista de afazeres era preparar os temperos.

Nem todos os temperos que tínhamos em mãos serviriam para melhorar o sabor de nosso pão de curry, então teríamos que organizá-los e deixar de lado aqueles que não iríamos usar. Não seria exagero dizer que nossa escolha de temperos poderia tanto melhorar quanto destruir por completo nosso produto final. Em seguida, começamos a misturar os temperos com o máximo de cuidado possí…

… ou não. Eu planejava prosseguir com cautela, mas Urushi estragou completamente esse plano ao farejar nossos ingredientes. Normalmente, só isso não seria causa suficiente para preocupação, mas esse ato causou uma reação em cadeia ao mandar alguns temperos voando na direção de Fran, que, por sua vez, espirrou e então fez mais temperos se espalharem por toda a parte.

Muito bem, que tal vocês dois fazerem algo diferente enquanto eu preparo todos os temperos?

— Nn.

— ]Ganido…[

Eu honestamente queria usar um Doppelganger, assim eu poderia verificar o sabor e cheiro enquanto lidava com todo o processo de cozinhar, mas eu acabei abandonando a ideia por completo. Eu não poderia manter meus Doppelgangers por muito tempo, então seria melhor manter a habilidade disponível para o caso de nos encontramos em algum tipo de emergência.

Eu pedi a Fran que focasse na preparação de outros ingredientes. Isso não apenas preveniria incidentes adicionais, como também ajudaria a longo prazo, já que eu não teria que lidar com tanto trabalho de prevenção mais tarde.

— Vou preparar bem.

— Woof?

Hmm, yeah, realmente não parece que há algo para você fazer. Sinto muito Urushi.

— ]Ganido, ganido…[

Yeah, eu sei que você queria ajudar, mas não há o que fazer.

— Woof, woof, woof!

Eu sei, eu estou vendo, mas não tenho certeza de como se esforçar mais poderia mudar qualquer coisa.

— ]Latido![

Não é uma questão de quantas patas você usa para caminhar, então isso também não vai ajudar.

Urushi parecia estar tentando ficar de pé com suas pernas traseiras como se estivesse demonstrando que ele poderia usar as patas da frente da mesma forma que um ser humano. Suas patas estavam tremendo, então isso evidentemente não era o que eu poderia chamar de boa ideia.

Mesmo assim, ver ele agindo todo animado me fez querer encontrar algo que ele poderia fazer.

Vejamos… ele estava basicamente limitado a usar apenas sua boca e patas da frente. A primeira opção era muito mais confiável do que a última, então nós precisávamos de algo que não sofresse danos por ele ao ser segurado com sua boca.

Oh, já sei. Que tal você me ajudar a fazer a manteiga?

— Woof?

Um segundo.

Eu peguei um barril do Armazenamento Dimensional. Dentro havia leite recém-ordenhado, obtido de ninguém menos do que nossos amigos do Conglomerado Luciel. O plano era usá-lo para fazer manteiga, que seria usada na preparação do caldo de galinha que precisávamos para a variação mais apimentada. Eu estava planejando usar apenas Magia de Espaço-Tempo, mas esta era uma das poucas coisas que Urushi poderia fazer, então eu poderia apenas deixar isso com ele.

Para começar, eu o fiz voltar para seu tamanho habitual.

Hey, Urushi, abra bem.

— ]Latido[

Pegue.

— Woof?

Tenha certeza de não mastigar ele, entendido? O barril é feito de madeira, então ele provavelmente vai se quebrar se você usar muita força.

— Woof.

Muito bem, você realmente não precisa fazer nada muito complicado. Tudo o que você tem que fazer é começar a sacudir o mais forte que puder e não parar até eu te disser.

— W-woof?

Hey, foi você quem disse que queria ajudar, então vamos começar a trabalhar.

— W-woof!

Urushi obedientemente começou a reproduzir o tão famoso fenômeno do violento bate-cabeça1 em resposta a meus comandos. Tudo o que ele tinha que fazer era manter isso por uma hora, e nós teríamos manteiga! No entanto, ele ficaria um pouco tonto, mas, hey, tanto faz. Ele pediu por isso.

E com isso, ambos Fran e Urushi tinham algo para mantê-los ocupados, então eu voltei a trabalhar nos temperos.

O tempo voou enquanto nos concentrávamos em nossas tarefas designadas; o anoitecer quase nos pegou de surpresa.

Urushi estava, como você poderia imaginar, incapaz de ficar de pé. Ele estava trêmulo em um dos cantos do quarto desde que completou sua tarefa.

Vocês querem fazer uma pausa para dar uma olhada no Banquete Lunar?

— Nn. Vou visitar barracas de comida.

Não era bem isso que eu tinha em mente. Vai ter um desfile e outras atrações. Eu estava pensando que poderíamos ir ver essas coisas também.

— Nn. Muitas comidas deliciosas.

Bem, isso também funciona, eu acho.

A cidade já tinha entrado em seu modo festivo. As ruas estavam cheias de barracas e estavam transbordando com pessoas.

As coisas realmente ficaram mais animadas por aqui.

— Nn. Nom, nom.

Espere aí, você já está comendo!?

— Nn. Lula grelhada.

— ]Mastiga, mastiga[

Puxa, e agora até Urushi arrumou um pedaço de carne com osso? Vocês dois não estão sendo um pouco rápidos demais nisto? Não faz nem mesmo um minuto desde que saímos, sabiam?

E espere, Urushi não estava a ponto de cair por causa da tontura que ele tinha há apenas um segundo?

— Ouvimos o chamado da comida gostosa.

— Woof.

Eu acho que essas coisas não importam, contanto que os estômagos deles estejam envolvidos, ou algo do tipo.

Fran se moveu através da rua enquanto costurava a multidão e ia para cá e para lá entre os dois lados. Ela visitou todas as barracas que a atraíram e não permitiu que nada detivesse seu avanço repleto de comida.

Não levou muito tempo para começarmos a escutar o som de música, e eu não estava falando de música de festival no estilo japonês. Ela parecia mais com algo da Europa, mas parecia ter um sabor africano misturado também.

Nós começamos a nos mover em direção a fonte do som, e, eventualmente, encontramos uma banda de cinco pessoas tocando ao lado da estrada. Seus instrumentos pareciam muito com o que eu costumava ver na Terra. Ou seja, os músicos estavam usando objetos que pareciam violinos e flautas para criar suas melodias.

Nos divertindo mais uma vez, o tempo voou, e antes que percebêssemos, o Sol já tinha desaparecido no horizonte.

O crepúsculo foi prontamente acompanhado por aplausos dos participantes do festival.

Oh? Parece que algo está acontecendo.

— Ali. Realmente grande.

Parece um carro alegórico. Espere, há alguém no topo daquilo?

— Sacerdotisa.

Huh, agora que você mencionou, as roupas dela transmitem toda essa sensação de algo sagrado.

Avalia-la me informou que ela era um Oráculo. Espera, então ela podia mesmo ouvir as vozes dos Deuses? Nesse caso, eu acho que eles existem mesmo, ou pelo menos eles existem neste mundo.

Nós queríamos seguir o carro alegórico porque, aparentemente, iria acontecer uma dança para algum tipo de ritual, mas todos os demais pareciam pensar a mesma coisa, então a situação acabou ficando um pouco complicada. Nós acabamos presos no meio de todo o fluxo humano, e, neste ritmo, parecia que acabaríamos perdendo completamente o ritual.

Vamos tentar obter uma vista aérea, assim não vamos precisar lidar com essa situação apertada.

— Nn.

Fran deslizou para fora da multidão e saltou para cima de um prédio próximo. Ela continuou a atravessar de teto para copa de árvore para terraço enquanto saltitava à frente do carro alegórico. Eu sentia que estávamos meio que trapaceando vendo como todos ainda estavam presos no meio da multidão e tudo o mais, porém, hey, vamos usar tudo o que pudermos.

Nosso destino final acabou sendo o topo de uma torre do relógio onde podíamos observar a praça em que o ritual iria ser realizado. Eu tinha que dizer, nós tínhamos uma visão muito boa.

Parecia que nossa sincronia tinha sido perfeita. O carro alegórico entrou na praça assim que terminamos de nos acomodar.

Não levou muito tempo para eles começarem a cerimônia. A sacerdotisa começou a oferecer suas preces na forma de uma canção, a qual a multidão logo respondeu ao ficar em silêncio. Logo, a praça foi preenchida com nada além do som da voz da sacerdotisa e os instrumentos que ela usava. A melodia era muito gentil e parecia ter um pouco de qualidade japonesa nela.

Seis lindas dançarinas entraram em cena enquanto a sacerdotisa cantava; seus cabelos prateados na altura do ombro balançavam enquanto elas se envolviam incondicionalmente em sua apresentação.

— Lindo.

Yeah.

Eu não poderia deixar de notar quão práticos e eficientes seus movimentos eram. Eu sentia que a própria dança seria algo útil em batalha.

 

Nome: Charlotte Idade: 16 anos
Raça: Humana
Classe: Dançarina de Guerra Level: 30/99
Condição: Normal
HP: 146 MP: 198
Força Física: 68 Resistência: 77
Agilidade: 141 Inteligência: 96
Mágica: 100 Destreza: 111
HABILIDADES
Evasão Lv6 Canto Lv5 Magia do Vento Lv3 Movimento Instantâneo Lv3 Dança da Guerra Lv7 Técnicas de Dança da Guerra Lv6 Combate Corpo a Corpo2 Lv3 Combate a Curta Distância3 Lv4 Dança Lv8 Magia de Água Lv3 Manipulação de Vigor Manipulação de Magia
HABILIDADES INERENTES
Dançarina Sedutora
TÍTULOS
Sacerdotisa da Guerra
EQUIPAMENTOS
Anel de Aço Mágico de Combate Traje de Macaca4 da Resistência ao Frio Manto do Lobo Pérola Sandálias do Lobo Pérola Bracelete Anticharme Tornozeleira da Beleza

 

Parecia que todas as dançarinas possuíam a classe de Dançarina de Guerra. Eu presumi que a principal habilidade dessa classe seria Dança da Guerra. Hmm, vamos verificar alguns detalhes a mais.

 

Dança da Guerra
Uma arte marcial que permite lutar enquanto dança.

 

Técnicas de Dança de Guerra
Uma dança que encanta os inimigos observando e revigora os aliados.

 

Dançarina Sedutora
Amplifica os efeitos de qualquer habilidade relacionada a dança.

 

Aparentemente, elas podiam lutar e dançar ao mesmo tempo. O que há com todas essas habilidades de mangá que têm aparecido nos últimos tempos? Quer dizer, as armas delas eram simples anéis de metal que elas estavam usando em seus corpos. Eu honestamente não podia dizer que não estava interessado. Isso parecia incrível demais.

Fran puxou um copo de ginger ale5 quente enquanto ela continuava observando o ritual. Ela realmente parecia ter gostado de tomar essa bebida.

O gengibre deste mundo não era tão picante quanto o que tínhamos no Japão. Ele era muito mais doce, então a maioria das pessoas apenas o comia como um vegetal ao invés de usá-lo como tempero. Eu realmente nunca vi ninguém cozinhar com isso, e, aparentemente, Fran nunca tinha ouvido falar de cerveja de gengibre ou porco com gengibre6.

— Yum.

— Woof!

A expressão facial de Fran relaxou assim que ela se inclinou em Urushi e afundou em seu pelo enquanto bebia seu ginger ale. Ela estava mostrando um raro sorriso feliz.

E assim, nós continuamos a assistir. Nós assistimos a cantora cantando e as dançarinas dançando; nós observamos a efêmera cena enquanto olhávamos do alto no que só poderia ser descrito como um assento VIP.

Parece que acabou.

— Nn. Foi mesmo lindo.

Não foi um espetáculo nem um pouco ruim. A cerimônia do ritual foi linda de se contemplar, e eu senti que eu realmente fui atraído para ela. Ver isso fez eu me sentir tanto relaxado quanto revigorado o bastante para voltar para a cozinha e continuar a árdua tarefa da preparação.


Tradutor: Zé   |   Revisor: Heaven



Notas

[1] Headbanging é um tipo de dança que consiste em movimentar violentamente a cabeça no ritmo da música, mais comum com metal, mas também com derivados do rock de maneira geral. No Brasil é mais conhecido como bate-cabeça. O termo headbanger foi criado durante a primeira turnê do Led Zeppelin nos EUA em 1969. Durante um show na Boston Tea Party, as pessoas da primeira fila estavam “batendo suas cabeças” com o ritmo com a música.

[2] Combate corpo a corpo (por vezes abreviado pelas siglas HTH ou H2H, do inglês hand-to-hand combat), é um termo genérico muitas vezes usado para se referir a uma luta sem armas conduzida do ponto de vista militar, distinguindo-se assim dos desportos de combate. A expressão “corpo-a-corpo” indica combate desarmado, mas muitas vezes abrange a utilização de algumas armas como facas e baionetas.

[3] Combate em ambientes confinados, ou combate a curta distância, é um tipo de ação militar em que se emprega um conjunto de táticas quando a proximidade com o alvo é mínima. O cenário típico desse tipo de intervenção é o ambiente urbano, como casas, apartamentos, prédios e quartos. É caracterizado pela velocidade, agressividade e precisão da força (letal ou não-letal). Esse conjunto de técnicas foi desenvolvido nos anos 70, na Grã-Bretanha pela Special Air Service, e se tornou popular com as unidades policiais metropolitanas em todo o mundo.

[4] Macaca é um gênero de macacos do Velho Mundo, uma família de primatas dentro da superfamília Cercopithecoidea. São nativos da África e Ásia, habitando vários ambientes, desde savanas até florestas tropicais, terrenos montanhosos, e áreas semiáridas. Os babuínos, mandril e langures são exemplos dessa família.

[5] Ginger Ale é um refrigerante comum nos Estados Unidos, Canadá, Japão e Inglaterra feito à base de gengibre. É uma bebida normalmente usada em substituição ao champanhe devido à aparência similar. A Ginger Ale é também usada para evitar a sonolência. No Japão, ginger ale normalmente é bebida quente.

[6] Shogayaki de porco é um prato da culinária japonesa. Ele também pode ser feito com carne bovina, mas a versão com carne suína é tão popular que o termo shogayaki normalmente se refere apenas a carne de porco no Japão. É o segundo prato com carne suína mais popular no Japão, atrás do tonkatsu. Ele consiste de finos pedaços de porco, dourado em uma frigideira e refogado em molho de gengibre ralado, molho de soja e mirin (condimento japonês que parece um de vinho de arroz). Shogayaki é uma adição comum dos bentō, já que pode ser comido frio. Contudo, o prato é mais comumente servido quente com arroz e repolho fatiado.



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