SRVF – Volume 7 – Capítulo 9


— Depois de passar uma noite inteira refletindo sobre isso cheguei a uma conclusão.

“Conclusão? Será que é sobre o ensopado com leite de soja que comemos ontem? Sei que pode ser um gosto complicado e é difícil dizer se era gostoso ou não, mas passar a noite inteira pensando nisso… esse cara é um tremendo de um gourmet!”

— Só para deixar claro, não estou falando do ensopado de leite de soja, ok? Não sei como vocês conseguiram ficar tão animados com aquilo ontem à noite.

— Como sabia que eu estava pensando nisso!?

— Intuição.

Depois do café da manhã que Eli preparou e de descansar um pouco, Rail pediu para ter uma conversa séria.

As chances eram baixas, mas eu realmente queria falar sobre o ensopado de leite de soja. Depois do jantar de ontem, Eli e eu tivemos uma discussão acalorada sobre quão misterioso era aquele sabor.

— Aquela foi a primeira vez que vi os se divertindo tanto por causa de comida. Isso me fez pensar que a afinidade de vocês é muito boa.

— Apenas quando o assunto é comida. Na verdade, estamos sempre brigando.

Bem, ao invés de “brigando” estaria mais para “ela me espancando”, mas era melhor ficar quieto sobre isso. Se essa informação vazasse, algo terrível poderia acontecer a mim.

— Voltando ao assunto, depois de refletir ontem a noite, finalmente me decidi. Vou manter vocês dois à salvo no meu coração.

— …Isso significa que não vai contar nada para o príncipe que te deu o trabalho?

— Sim, tanto o príncipe Arc quanto o príncipe Lahsa. É claro, vou manter segredo de todos os outros que estão preocupados com vocês também, como a Iris-san.

— Mas isso não seria negligenciar o seu dever?

— Como não recebi qualquer pagamento por isso, tenho o direito de omitir o que quiser… não acha?

Ao que parecia ele estava bastante sério. É provável que realmente tenha passado a noite inteira refletindo sobre isso. Sua expressão agora estava relaxada, porque tinha decidido não contar nada à ninguém sobre nós. O rosto de alguém que se decidiu… seu apetite também estava ótimo esta manhã.

— Bem, de qualquer forma eu não me importo. Não tenho qualquer memória mesmo.

— Essa foi rápida. Kururi, você não tem o menor pingo de curiosidade?

— Na verdade tenho, mas você já decidiu ficar em silêncio, certo, Rail-san? Não tenho vontade de te forçar a contar sobre isso.

— Entendo… e quanto a você, Eliza-san? Está bem com isso?

No momento em que Eli voltava depois de lavar a louça, Rail perguntou a opinião dela. Toda nossa conversa provavelmente tinha sido ouvida, considerando que sua resposta foi simples e direta.

— Não tenho o menor interesse.

— En-entendo… Inesperadamente, a Eliza-san tem uma personalidade bastante agradável, hein?

— Embora se isso significasse que o príncipe viria pessoalmente, talvez a minha resposta fosse outra. Mas certamente ele não viria, não é? Ele seria um importante cliente para nós.

— Ah, entendo… hahaha, você certamente é uma mulher de negócios…

Rail tinha um sorriso amargo no rosto. Não se pode subestimar o espírito mercantil da Eli! O meu também, mas fazer negócios diretamente com um príncipe seria demais para mim!

— Tenho pensado que talvez vocês dois tocando essa loja seja a decisão correta. Não vão precisar se preocupar com questões do país lhes incomodar a partir de agora. Pelo menos não vindo de nós.

— Não entendi bem isso, mas venha como freguês a qualquer hora que quiser.

— Ah, vou fazer isso. Aproveitando, pegue isso também. É algo importante.

Dizendo isso, ele me entregou um envelope ainda selado.

— O conteúdo escrito aqui pode dar uma boa imagem de como vocês eram. Se quiserem ler ou não, a decisão é sua.

— Uma boa imagem de como éramos…?

Por favor, que não seja nada embaraçoso!”

— Sim, mas, como Moran-san havia dito, vocês já cumpriram com os seus deveres. Está tudo bem não ler e, mesmo que leia, não sinta qualquer sentimento de obrigação. Vocês dois estão livres agora.

— Tá, entendi. Vou ler quando sentir vontade.

— Por mim está ótimo. Bem, eu causei uma confusão ainda ontem, então me desculpe por aquilo. Agora, acho que vou continuar a minha viagem. Não, talvez que agora que os encontrei, minha jornada de treino acabe em breve. De qualquer forma, espero que passem bem.

— Sim, e você também. Não trabalhe até cair doente, entendeu?

Eli e eu o acompanhamos até sair da loja. Rail partiu com um sorriso relaxado no rosto e… ficou olhando para trás, de novo e de novo. Dava alguns passinhos para frente, olhava para trás e repetia a ação.

“Mas que cara indeciso!”

— Kururi! Você não precisa ler a carta, entendeu!?

Disse ele após se afastar um pouquinho.

— Entendi! Não vou ler!

— Estou falando sério, muito sério! Você não tem que ler! Não precisa ler nem mesmo um pouquinho!

— Claro! Pode ir!

“Qual é a dessa farsa? Ele quer que eu leia de qualquer jeito, não é!?”

— Bem, o que faremos agora? — No instante em que o Rail não estava mais à vista, perguntei à Eli ao meu lado. — Já que ele estava agindo assim, provavelmente queria que lêssemos isso. Para ser honesto, agora estou meio curioso.

— Não é? Mas, mesmo assim, confesso fiquei surpresa. Quem imaginaria que você seria o verdadeiro Kururi Helan?

— Ah, isso. Também fiquei surpreso. Então Eli se chama Eliza, hein? Quer dizer que coincidências assim acontecem?

— Se de fato você é o verdadeiro Kururi Helan… deveríamos considerar aumentar o preço dos nossos produtos. O que acha que seria bom como publicidade…? Também precisamos pensar em mudar o local da loja… além disso… e também…

“Essa mulher está ficando cada vez mais gananciosa!”

Nós voltamos para loja e discutimos se deveríamos abrir o envelope ou não. Eli disse que a decisão era minha e saiu para limpar a loja. Quanto a mim, estava super curioso sobre o conteúdo, mas pelo visto ela nem tanto.

“Hmm, o que eu faço? Depois de ver como o Rail estava agindo, sinto que não conseguiria voltar ao normal depois de ler isso.”

— Ei, Eli. Você realmente tem algum interesse em saber o que está escrito aqui?

Sendo chamada, Eli parou o que estava fazendo e se virou para mim.

— …Ter eu tenho. Mas só um pouco.

— Mesmo assim, não está tomando isso de ânimo muito leve?

— O direito de decidir é seu, não é? Fora que a carta foi entregue nas suas mãos.

— Mas você sabe, como vivemos sob o mesmo teto, eu queria que pudéssemos decidir isso juntos. Além disso, aquele tal de Rail parecia saber um monte de coisas sobre nós, então pode ser que o que estiver escrito aqui tenham a ver contigo também.

— Você pode estar certo. Então, posso dizer o que realmente acho?

— Claro que pode!

— Sou contra.

— O quê!? Mas por quê!?

— Definitivamente não é coisa boa. Aquela pessoa chamada Rail não quis nos forçar mesmo nos conhecendo, certo? Ainda que voltássemos com ele, nada de bom iria acontecer. Tanto a nós quanto a eles.

— Hmm, pensando bem, pode ser verdade. Mas não tenho dúvida de que ele queria que lêssemos.

— De fato, mas ainda sou contra. Ele acreditava que seríamos mais felizes cuidando de nossa ferraria, certo? É por isso que não quero saber… além do mais…

— …Além do mais?

Eli hesitou. Embora apenas de relance, pude ver suas bochechas corarem. Ela averteu os olhos e continuou em voz baixa.

— Esse estilo de vida… eu adoro. Quero continuar aqui para sempre… com apenas nós dois…

Ah, então é isso. Ela escondeu o rosto porque estava muito embaraçada”. — Ouvindo aquilo, não pude deixar de sorrir. Fiquei feliz com aquilo, apesar de que um pouco envergonhado também.

Então ela gosta daqui…”

Comemos o nosso café da manhã juntos, abrimos a loja, tivemos um almoço agitado e atendemos os fregueses até o pôr do sol. A noite, embora não tenhamos conversado muito, tivemos nosso jantar ao lado um do outro. Depois do banho, fizemos a contabilidade de nossas vendas com expressões maquiavélicas e risos perversos em nossos rostos. Então, em seguida, fomos para a cama.

Agora eu vejo bem claro, meu estilo de vida aqui é muito reconfortante.”

Pensando no que houve hoje, as palavras de Eli fazem muito sentido agora. Era verdade que eu queria estar aqui com ela e que se abrisse o envelope, poderia acabar perdendo essa vida. Eli estava assustada com isso e por isso foi contra.

— Eu… não vou ler o conteúdo. Vamos nos livrar dessa carta. Tudo o que quero é continuar vivendo aqui junto de você, Eli. Esse estilo de vida é muito precioso para mim também.

— Entendo… Nesse caso, conto com você para fazer uma espada para a nossa vaquinha.

“Ah, é, eu tinha esquecido disso.”

Para não ter qualquer arrependimento, ateei fogo na carta. O papel queimou imediatamente e o observei até que virasse cinzas.

“Com isso, o nosso passado está perdido.” — Iremos apenas viver aqui em alegria, tocando a nossa querida e amada Ferraria Eli&Kururi.


Tradutor: Rudeus Greyrat | Revisor: Rudeus Greyrat


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