SRVF – Volume 7 – Capítulo 4


Recentemente, tornou-se um prazer para mim, contabilizar à noite os ganhos que obtivemos durante o dia. Em um canto da sala escura, Eli e eu cuidadosamente contamos cada moeda. Nesse momento, nossas faces estão provavelmente fazendo sorrisos diabólicos, enquanto nos divertimos com isso, algo que já virou parte da nossa rotina.

— Os negócios estão indo muito bem. Se continuar assim, logo poderemos abrir uma loja maior!

— Pode crer e seria maravilhoso se fosse em um lugar de frente para as ruas principais.

— Sim! Ah, que tal se comprarmos amanhã aquela estátua de Guaxinim que estão vendendo no depósito? Sabe, aquela que era bem fofa.

Não tinha a menor possibilidade de um Guaxinim enorme de bronze ser considerado fofo, mas, ainda assim, concordei com o pedido dela.

— Claro, pode comprar. Vou deixar isso com você.

Eli lidava com os clientes enquanto eu forjava as espadas. Depois de nos habituamos à esse padrão, ela passou a ter mais tempo livre, então começou a trabalhar no layout da loja. Colocando um maravilhoso papel de parede em formato de tijolos, vasos de flores em uma sala chata, Eli usou todo o seu senso de estética para dar vida à loja.

Graças a isso, a ferraria passou a ter uma aparência limpa e os clientes responderam positivamente a isso. Minhas espadas foram lentamente ganhando reputação por causa de sua boa qualidade, trazendo cada vez mais pessoas querendo comprar de nós. A maioria deles eram cidadãos comuns que não poderiam desperdiçar dinheiro com itens mais caros, mas, mesmo assim, ainda houve muitos que decidiram comprá-los, pensando no uso a longo prazo.

Foi nesse momento que Eli veio até mim dizendo algo terrível: que as minhas espadas eram tão boas que deveríamos começar a vender para os nobres também.

Entretanto, a Ferraria Eli&Kururi ficava muito longe das ruas largas e em uma região onde os nobres ricos não frequentavam. Por essa razão lhe respondi que seria muito difícil, mas ela me disse com tanta confiança para deixar essa questão nas mãos delas que não pude recusar.

Assim, a solução que Eli me trouxe foi comprar uma estátua de bronze de um porco bípede na loja de usados gerenciada por um homem de aparência suspeita. Deixando de lado os meus sentimentos quando fui pego de surpresa ao ver a estranha estátua de porco em uma pose assustadora, de todas as coisas, ela ainda pendurou uma das minhas espadas na cintura do bicho.

Sem tomar a menor consideração por mim quando gritei “Mas que porra é essa!”, mais um dia de negócios teve início. E então, no mesmo abençoado dia, nosso primeiro cliente nobre veio até a loja e, após dar uma olhada nos produtos, comprou cinco espadas que o agradaram.

Como eu estava trabalhando na parte de trás da loja, não pude ouvir sobre o que conversaram, mas, depois que ele saiu, Eli veio para me atualizar.

Ao que parecia ele tinha avistado algo esquisito na rua principal e caminhou até uma ruela para dar uma olhada melhor. Conforme foi se aproximando, ele encontrou a estátua de um porco carregando uma espada e achou isso muito interessante, decidindo entrar na loja para matar o tempo. Foi assim que tomou conhecimento de que esta era uma ferraria já bem conhecida e comprou cinco espadas.

A estratégia de marketing da Eli é simplesmente perfeita.” — Após este evento, decidi nunca mais me opor à qualquer escolha dela sobre o layout da nossa loja.

Fico me perguntando se a enorme estátua de Guaxinim ficará lado a lado com a do Porco-san… Isso me deixava um pouco aflito, mas tive absoluta fé de que tudo acabaria bem.

 

 

◇◇◇

 

 

No dia seguinte, Eli foi comprar a estátua quando estava com tempo livre e os funcionários de lá a entregaram em nossa loja. Da mesma forma que o corpo, agora havia um Guaxinim em pé sobre as duas patas traseiras…

Felizmente a estátua não seria colocada do lado de dentro da casa.

— Faça uma espada para o guaxinim também, entendeu? — Foi o que ela disse como se cada estátua ter a sua fosse a coisa mais natural a esta altura do tempo.

E como tal, a entrada da ferraria agora possuía uma espécie de: Portal do Porco-Guaxinim.

Iriam os clientes entrarem em uma loja com tamanha imponência? Eu estava preocupado, mas como já tinha decido não interferir, fiquei calado e me apressei em forjar a espada para o guaxinim.

Na tarde daquele mesmo dia, mais um cliente nobre entrou na ferraria… A decisão de ficar quieto e fazer a espada se provou correta.

— Essa é a loja do porco com a espada? Apesar de que também possui um guaxinim…

No mesmo instante em que fiz uma pausa e fui para a recepção, uma cliente chegou trazendo seu filho.

Uma senhora um pouco acima do peso na faixa dos quarenta, entregou usando um vestido pomposo e atrás dela, um jovem rapaz estava escondido.

Ela perguntou à Eli se esta era a loja que estava procurando.

— Sim, a loja com as estátuas de porco e guaxinim com espadas é esta mesma, Ferraria Eli&Kururi.

— En-entendo! Que loja peculiar vocês têm aqui. Outro dia, ouvi de meu primo que ele comprou algumas espadas daqui. Eu sempre tive um ótimo discernimento para espadas, então pude dizer com toda clareza que aquelas tinham sido muito bem feitas. Sinta-se orgulhosa de que eu, a esposa de um visconde, vir pessoalmente até o seu estabelecimento.

—  Nós já temos orgulho disso.

“Ehrrr… é só eu ou mais alguém acha que ela está sendo meio bruta com isso?” —  Por alguma razão era o que me parecia.

Poderia ser que ela estava irritada com a atitude dessa senhora? Não, não tem como a Eli que sempre tratou os clientes com tanta cortesia… ah, ferrou, ela está puta.

Quando olhei bem para seu rosto, Eli parecia realmente irritada. Uns dias atrás, eu taquei o dedo mindinho na quina da mesa e derramei a sopa que ela tinha feito para o jantar. A expressão dela naquela hora era exatamente a mesma.

— S-sim, tudo bem, então. Mais importante, eu vim para comprar uma espada. Mostre-me os bens mais caros que você possui. Caso sejam bons, irei comprá-los.

— Cla~ro~!

Como a cliente parecia ter muito dinheiro, Eli caminhou alegremente até a parte de trás da loja e trouxe a  nossa melhor espada. Um excelente produto que normalmente não deixávamos exposto na frente.

— Aqui está.

A espada que ela carregava em suas mãos era de dois gumes, levemente curvada. Esse foi o resultado que obtive quando estava experimentando novos modelos para a loja e era o melhor exemplar que tínhamos no momento. Eu não coloquei qualquer ornamento, portanto a espada aparentava ser bem simples, então me pergunto se esta madame iria gostar.

A senhora pegou a enorme espada com suas mãos gordas e inspecionou cada pequeno detalhe dela com seus olhar afiado.

Uma estranha tensão tomou conta do interior da loja. Fico curioso em saber o que os demais clientes iriam pensar depois de cruzar a porta com um porco e um guaxinim em cada lado para encontrar essa atmosfera tensa dentro da loja. Eu com toda certeza daria meia volta e fugiria.

— Hmm, acredito que a espada comprada por meu primo fosse muito mais elegante, mas talvez possa ser realmente considerada a melhor de uma loja como esta. Para ser honesta, é a melhor que já vi até hoje, nesta cidade. Não, talvez não haja nada assim em todo território.

As palavras dela foram bastante precisas em sua avaliação.

— Então, quanto custa? Pagarei o valor que que quiser, por isso fale logo.

Nossa sempre confiável recepcionista contou o preço fixo da espada de maneira animada. Apesar de ser uma quantia considerável, a senhora não mostrou se importar. Ela disse que não tinha a quantia no momento, por isso enviaria alguém com o dinheiro mais tarde e que essa pessoa levaria a espada.

A cara animada que Eli estava fazendo agora, eu podia dizer que ela estava pensando na contabilização dos lucros que iremos fazer hoje. Aquelas horas sombrias que passaríamos pilhando moedas e fazendo “gueheheeh ¹”.

Entretanto, por minha causa, poderia ser que essa hora tão feliz não acontecesse hoje. Em outras palavras, acabei dizendo algo que não devia.

— Ei, senhora, espere um pouco.

— Senhora!? Quem você está chamando de “senhora”!?

— Ah, foi mal. Viscondessa, tem uma coisa que eu preciso discordar.

Fiquei tanto tempo a chamando de senhora na minha cabeça que acabei deixando escapulir. A forma como ela me olhava parecia assustadora.

— Você não vai dizer agora algo como não poder mais vender por esse preço, vai?

Ah, então era essa a razão por trás daquele olhar. Talvez isso aconteça com frequência sempre que ela faz compras nas lojas dos plebeus.

— Não, não é isso. Eu só queria lhe perguntar uma coisa.

— …E o que seria?

— Você por acaso está pensando em dar essa espada para aquela criança?

Apontei para o menino que tinha aproximadamente uns sete ou oito anos de idade e estava escondido atrás da senhora. Provavelmente era o filho dela.

— É precisamente o que planejo. Eu quero que este garoto se torne um glamoroso cavaleiro no futuro e pagarei o que for necessário para isso. Enquanto meus olhos ainda enxergarem, ele carregará consigo a melhor de todas as espadas.

Era exatamente o que eu imaginava, então foi bom ter decidido falar.

— Senhora, essa espada que está querendo é feita para um adulto. Não apenas isso, um que tenha um físico muito forte, ou pelo menos era o que eu tinha em mente quando a forjei. O seu filho ainda parece estar aprendendo a manejar uma espada, então não acho que essa seja a melhor arma para ele.

— Quem você está chamando de “senhora”!?

— Ah! Foi mal…

— Eu quero dar ao meu filho a melhor espada!

— Bem, essa pode ser a mais cara em nossa loja, mas “a melhor” espada é algo que difere de pessoa para pessoa. Essa arma é grande demais para o seu filho se… madame. Se o garoto começar com uma espada voltada para guerreiros veteranos, pode ser que isso prejudique o talento dele no futuro.

— …Acho que “madame” irá servir. Você pode estar certo em seu ponto, mas não sei dizer qual espada seria melhor para ele.

— Deixe isso comigo. Vou fazer uma espada novinha que combine com o garoto e já que a madame parece estar disposta a investir no futuro do seu filho, poderei criar novas armas para ele a medida em que for crescendo e desenvolvendo suas habilidades. Como nós lhe prometemos a melhor espada na loja, posso forjar uma usando os melhores materiais que temos disponíveis. O que acha?

A madame parou para pensar um pouco, porque a minha sugestão era bem diferente do que ela tinha imaginado. E assim, o garoto que até agora estava escondido, decidiu falar.

— Mamãe, eu quero a espada que o moço está falando.

— Por que, meu anjo?

A voz dela para o menino foi bastante terna, bem diferente de como estava falando com a gente até agora.

— Porque… ele disse aquilo olhando para mim… não para a senhora…

A madame abraçou o menino e disse a ele “tudo bem querido”. Em seguida, caminhou até a mim.

— Bem, parece que terei você criando algo especialmente para o meu filho. Se for tão bom quanto você diz, comprarei mais na medida em que ele crescer.

— Muito obrigado!

Eli e eu trouxemos a tímida criança que estava atrás da sen… madame e tiramos as medidas dos seus braços, pernas, altura e peso. Com as medidas exatas, comecei a trabalhar na espada que melhor se encaixava nelas, usando, é claro, os melhores materiais assim como prometido.

O resultado final foi uma espada pequena e sem muitos ornamentos. Existe um ditado que diz “The Simple is Beautiful” (O simples é belo), mas me pergunto qual será a opinião da madame.

Ela tomou a espada em suas mãos e a inspecionou cuidadosamente.

— Quais eram as suas intenções enquanto fazia essa espada?

O seu tom parecia estar me avaliando agora.

— De criar a melhor espada para se aprender o básico. O tipo de espada que eu adoraria ter recebido quando era pequeno.

— Fufufu, acho que irei leva-la. Então, quanto irá custar?

Depois de considerar os custos dos materiais e um bom lucro por cima deles, respondi a madame quanto seria. O valor foi algo em torno de 1% da primeira espada.

Pelo visto, ela tinha consigo aquele tanto e nos pagou na mesma hora. Ela olhou para a espada de maneira satisfeita e, em seguida, a passou para seu filho, que parecia ainda mais contente.

— Parece que teremos um contrato bastante longo.

— Sim, estou ansioso por isso.

Quando os dois passaram pelo portão do porco e guaxinim, as costas do menino indo embora deixaram uma impressão muito mais confiável do que antes.

— Moço! Na próxima vez, eu vou vir aqui sozinho!

As palavras do menino ressoaram calorosamente por dentro da loja quando ele saiu.

 

 

◇◇◇

 

 

— Por sua culpa nós não vendemos aquela espada!

Eli gritou comigo enquanto apontava para a espada que a madame pensou em comprar primeiro.

— Sinto muito…

Pedi perdão com toda a sinceridade por ter tirado dela o seu precioso momento de diversão, fazendo “guehehe”.

— Haaa… tudo bem. Quando aquele menino crescer mais um pouco… Fufufu, farei com que ele compre espadas ainda melhores do esta ♥

Depois de dizer essas palavras horripilantes, Eli levou a espada de volta para o armazém.

 


Tradutor: Rudeus Greyrat | Revisor: Ma-chan


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1 – “Guehehe” é uma risada bizarra feita geralmente por pervertidos. Quem acompanha Death March já deve ter visto a Arisa-chan mais de uma vez =3 ⤴


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