PFF – Capítulo 5 – A Caça Às Garotinhas


um castelo onde três rios unem-se em um e desaguam para o mar. Um castelo seguro, cercado por águas torrenciais e protegido por duas camadas de muralhas. O Rei de Reverfeat viveu nele. Agora, o Lorde Siegfried, o homem possuído pelos próprios desejos e ambições, reside em seu interior. Com seu primeiro casamento; tornou-se um nobre. Com o segundo; parte da realeza. E, agora, o homem quer virar Rei no terceiro.

No fundo da sala do trono, a luz colorida transborda através dos vitrais, iluminando a cadeira do Rei, que fica em um nível superior ao resto da sala. É um trono impressionante, lindo, todo trabalhado em marfim, ouro e seda, além de peles tingidas de escarlate. Um ano e um dia atrás, o Lorde Ardiloso obteve o castelo. No entanto, até hoje, não conseguiu colocar suas garras em tal trono — devido a algumas leis antigas.

Embora ele possa ridicularizar as leis antigas, chamando-as de superstições e tradições arcaicas, por trás de sua fachada, também teme tudo isso. Acredita nessas coisas. Tanto que ele mesmo está tentando tomar essa bênção antiga para si.

Portanto, Lorde Siegfried tem um objetivo que almeja alcançar. Ele tem um obstáculo que deve superar. Fará todos os sacrifícios necessários para tal. Não importa o quanto os plebeus e as pessoas sem importância o insultem e ridicularizem!

 

— Quero casar com a Princesa Lala Lilia. Tenho que casar com ela! — gritou mais uma vez o Lorde Ardiloso. Fechando os punhos, sacode sua barba que foi dedicadamente aparada por seu barbeiro pessoal. — Juro por todas as estrelas do céu que tomarei a Princesa Lala Lilia como minha esposa!

A garota de pé ao lado dele olha de modo morto para o pai. Seus olhos são de um lápis-lazúli tão profundo e escuro que é quase impossível apontar a diferença entre suas íris e pupilas. No entanto, não é como o azul dos céus, mas sim como o de um abismo sem fundo.

— Você vai tomá-la como sua terceira esposa?

— Sim, minha terceira esposa.

Sua voz clara e constante não treme. Não vacila nem perde a compostura. Não fora assim desde que decidira se revoltar contra o Rei. Nem neste momento, quando confessa seus desejos egoístas sem temer o que aqueles que ouvem vão pensar.

Há uma razão pela qual esta menina, que recentemente completou dez anos, é tão calma, fria e reservada. Há um segredo que todos sussurram pelos cantos, murmurando e perguntando sobre, mas que param repentina e abruptamente e seguram tudo na ponta de língua.

— Uma menina de sete anos?

— Sim, uma menina de sete anos! — Será que sua capacidade de afirmar descaradamente seus desejos desavergonhados vem de seu desgosto e desilusão?

— Sua ideia é adequada para a realeza, pai. Mas o povo vai ver isso como…

— O povo vai ver isso como…? — interrompeu ele.

— Te considerarão um pervertido sem-vergonha.

— Não é como se eu quisesse desposar uma criança! O Reino cairá em ruínas se alguém que não tenha a Bênção Real suba ao trono. Não posso ser um rei sem reino.

— Eu sei.

— Ooh, Megan! Minha preciosa filha! Minha pérola!

O Lorde Ardiloso abre os braços e abraça a filha. O vestido azul dela, trabalhado com os materiais mais luxuosos e costurado com muitos babados e pregas, se amassa contra ele. Um grande número de pérolas, todas costuradas no tecido, se esfregam umas nas outras enquanto fazem barulho. Suas sobrancelhas esbeltas e douradas unem-se antes de rapidamente voltar ao lugar.

— Empreste-me sua sabedoria. Qualquer outra pessoa lá fora é incompetente. Um monte de merda que não vale nada. Desde o dia que comecei a gastar dinheiro como se fosse água, enviando soldados sem parar, já faz um… uh…

— Um ano e um dia.

— Isso. Um ano e um dia! Gastei meu tempo à toa. E ainda assim, esses homens não encontraram nada a respeito do paradeiro da Princesa Lala Lilia. Nem mesmo conseguem encontrar a trilha de uma garota de sete anos e sozinha!

Lady Megan se contorce suavemente nos braços do pai. Isso prova o quanto o abraço é superficial.

Ela nasceu a partir do primeiro casamento de seu pai, e ganhou um título de nobreza a partir do segundo casamento dele. Possui longos cachos dourados que se recusam a amassar ou perder a perfeição, mesmo após serem trançados. Seus olhos são bem adequados para sua pele branca feito porcelana. Nem mesmo o artesão mais habilidoso pode esculpir sua doce beleza em pedra, ou até mesmo capturar sua aparência de tirar o fôlego em uma pintura. Qualquer um que dê uma olhada em sua beleza acaba esquecendo de respirar. Mas esta menina, que foi abençoada com uma aparência impecável, não possui a coisa mais crucial.

Pouco antes do nascimento de sua filha, Lorde Siegfried conduziu um ritual de súplica. No entanto, ao invés de orar aos deuses dos céus, orou ao Diabo do Abismo.

— Conceda-me realeza! Ofereço a alma de minha criança recém-nascida como pagamento!

Embora seja questionável se o ritual funcionou conforme desejado ou não, sua filha nasceu sem alma. Não derrama lágrimas, nenhum sorriso alcança seus lábios, nenhuma raiva consegue fazer sua testa franzir. Não importa o que veja, ouça, toque ou prove, não tem um coração para ser tocado.

Assim, ele acredita que tudo deu certo. Um dia há de tornar-se Rei!

No entanto, não consegue encontrar a Princesa Lala. Não ouviu nenhum boato e sequer vislumbrou qualquer vestígio de seu paradeiro.

— O tempo de luto pelo Rei e pela Rainha já acabou. Não sobrou nada que possa impedir meu casamento com a Princesa agora — lamentou ele.

— Pai.

— Só falta a Princesa. Tudo estará pronto quando a encontrarmos! Só preciso dela! Vou tomá-la com minhas mãos e…

— Pai. — A voz gélida de Lady Megan cortou o ar. Seus olhos azuis perfuraram seu pai, torturado e impaciente, friamente.

— Ah…. ahem. — Ele limpa a garganta e se apressa para recuperar a dignidade. — Deixe-me escutar o que tens a dizer, ó filha minha. Fale.

Agora que seu pai recuperou a calma, Lady Megan esclarece com calma:

— Se você não consegue encontrar um único trevo de quatro folhas, então por que não arranca todos?

A princípio, o Lorde Ardiloso teve que se esforçar para entender o significado por trás das palavras de sua filha. Ele escuta de boca aberta, até que por fim pisca duas vezes, depois três… e sorri cheio de malícia.

 

— Entendo. Entendo. É isso mesmo. Sempre foi assim!

— Sim, pai. — Lady Megan curva-se antes de se retirar em silêncio e sumir na sombra traiçoeira do trono.

— Alguém! Há alguém aqui?! — demandou ele.

Então ela fica assistindo. Sempre das sombras, sem fazer som algum.

Guardas imperiais e soldados particulares correm até a sala, todos com as mãos nas espadas. Ela observa o Lorde Siegfried ordenar aos soldados usando capas brancas, tão brilhantes quanto os olhos suportam e decoradas com grande pompa.

— Capture todas as garotas de mais ou menos sete anos de nosso domínio. Traga cada uma delas para o castelo, não importando a classe social.

Assim, a caça começou.

Graças ao comando de um único homem.

 

*   *   *

 

VOCÊ pode arrancar quantos trevos comuns quiser, mas ainda assim não encontrar o trevo de quatro folhas que, em primeiro lugar, nunca esteva ao alcance. É desnecessário dizer que garotas foram tomadas de fazendas, ranchos, campos e beira de estrada, do peito da mãe, dos braços do pai, debaixo da mesa de casa e de suas camas. Garotinhas foram subitamente sequestradas e arrancadas de suas vidas pacíficas. Seus gritos de alarde chegaram a ouvidos surdos e olhos cegos quando foram empurradas para carruagens e levadas ao castelo.

Recebendo pouco ou nenhum alimento e água, algumas morreram antes mesmo de chegar ao castelo. Mas tal manipulação das “mercadorias” durante os transportes é um erro grave. Isso resultaria em um inferno caso o empregador descobrisse — poderia até mesmo resolver não pagar. Assim, os membros mais antigos do exército particular, trajados de branco, rapidamente se livravam dos cadáveres jogando-os pelos lados das estradas.

— Rápido! Rápido! Nosso lorde está esperando!

Não querendo gastar o tempo que levaria para enterrar os corpos, deixavam os cadáveres para os animais selvagens, corvos e insetos devorarem.

Mesmo chegando ao castelo não havia tempo para descansar. Tendo chorado do fundo do coração durante a jornada, as garotas não tinham energias e eram impiedosamente forçadas a ficar de pé, alinhadas, no salão do banquete, como se fossem gado.

— Vamos, olhem para lá.

Elas apoiam umas às outras, tremendo porque não sabem como escapar.

— Este cabelo é uma peruca? Hmm, não sai… Esses globos oculares são reais? — O Lorde Ardiloso agarra o queixo de cada uma delas, forçando um exame minucioso que revela cada detalhezinho. — Cale-se. Não chore. Não soluce. Vou arrancar sua língua. A cor dos cabelos e dos olhos pode ser trocada a qualquer momento! Não serei enganado! Não serei enganado!

Medo, ansiedade, fome, sede e cansaço pesam sobre as meninas. O Lorde Siegfried crava as unhas nas bochechas juvenis que se elevam com suspiros e uma respiração estrangulada enquanto puxa tudo desse jeito e daquele.

— Abra sua boca. Não feche os olhos. Ei! Você não vai fugir! OLHE! AQUI! — Depois de terminar sua inspeção horrenda, cospe nos rostos de todas, sem nunca deixar de fazer isso — Não é. NÃO É. Esta também não!

E então, com crueldade, joga a garota no chão, como se fosse um trapo usado.

— Não tenho uso para isso. Deem fim.

Corpos juvenis estavam colapsados no chão. Os oficiais júniores correm até elas assim que são descartadas, agarrando-as pelos membros finos ou pelos cabelos bagunçados, e arrastando-as para longe, sem ligar para a violência usada.

— Aju… de… me….

— Você… machuca…

As garotas gritam entre seus suspiros. Mas ninguém responde.

— Mamãe…

Seja lá como for, os oficiais que saíram com ordens para se livrar das garotas após a revista do Lorde Ardiloso também estão em apuros. Um monte de garotinhas fora levado para o castelo. Toda e qualquer inspeção acabou se provando inútil, pois ninguém era quem estavam procurando. O Lorde diz para que removam os descartes da sala e livrem-se deles, mas os oficiais não têm para onde levarem todas agora. Servindo de medida paliativa, criaram um cercadinho no meio do pátio, e encheram isso com as garotas.

— Quero ir para casa.

— Quero minha mãe.

— Por que você está fazendo isso?

— Não fizemos nada de errado.

Soluções débeis e gritos de fome vêm do recinto. A voz de cada garota é baixa e quase inaudível, mas cada uma de suas palavras se sobrepõe e acabam unidas como uma só, ecoando até mesmo nos cantos mais profundos do castelo. Várias delas desaparecem para nunca mais voltar. Mas isso não é o bastante para influenciar no assombroso número diário de recém-chegadas. Os números não diminuem, não importa quanto tempo passe — só aumenta.

— O que fazemos? — perguntam os oficiais.

— É, o que fazemos?

— O que deveríamos fazer?

— Essas crianças ainda estão vivas. É bem diferente de se livrar de corpos.

— Caralho. Até eu não me sinto bem assassinando crianças sem mais nem menos… Faz parecer que posso ser amaldiçoado por isso.

— Não acha que seria melhor trancar todas nas masmorras?

Neste exato momento, quatro guardas imperiais e oficiais do exército particular se reúnem pelos corredores do castelo, juntando as cabeças e pensando em uma resposta para todos os problemas. Ao rejeitar toda e qualquer ideia que apareceu, dobram os braços enquanto torram a massa cinzenta.

— Nós podemos enfiá-las nas masmorras e deixar lá para que morram.

— Oooooh, boa ideia.

— Ei, espera, espera aí. Sem chances. Fora de questão; as masmorras já estão cheias.

— Então por que não devolvemos todas para os pais?

— Hmm, espera. Sem chances também. Fora de questão. Não sabemos de onde pegamos quem.

— Então o que fazemos?

— É, o que fazemos?

Todos, ao mesmo tempo, fazem caretas e cruzam os braços. Então sons de farfalhar e arrastar de saias se aproximam. Um cheiro doce flutua pelo ar.

— A resposta é simples — diz a voz —, por que não descarta tudo na floresta? Boa ideia, não acham? Tudo o que precisam fazer é deixá-las lá. Vão morrer por conta própria.

Lady Megan!

— Não há motivos para hesitar. Não sujarão suas mãos.

Tentados pela beleza daqueles olhos azuis, os homens de branco começam a concordar. Essa é a maneira mais inteligente de fazer as coisas, pensam, sem hesitar.

— Faremos como você diz.

— Vamos agir conforme ordenado.

“Estaremos apenas seguindo ordens. Não faremos nada de errado”, acreditaram tolamente.

 

*   *   *

 

Não abaixe sua guarda, Gideon.

— Eu sei, Dragão.

A névoa da manhã está espessa como sempre.

Uma premonição misteriosa me deixa desconfortável, então deixo nosso refúgio ao amanhecer. A sensação vaga em meu intestino se torna cada vez mais real enquanto vou chegando à beira da floresta. O mato foi pisoteado por pés descuidados. Botas de couro deixaram marcas profundas no solo úmido.

Alguém veio aqui. Várias pessoas se esgueiraram pelos arredores da Floresta Negra. Mas também partiram com pressa, sem irem muito fundo. O que vieram fazer? Será que estão tentando tranquilizar o Lorde Ardiloso falando que tentaram entrar na floresta?

Mas fui ingênuo.

A carniça de sangue coagulado e de carne podre paira no ar. É o cheiro podre de cadáveres. Depois disso, abro caminho através dos arbustos e galhos.

Fui um velho tolo, ingênuo e otimista.

Vieram aqui fazer algo extremamente hediondo.

— Malditos sejam! — Maldições saem de minha garganta em uma voz rouca e trêmula.

Eles as descartaram — crianças — como se fossem lixo. E são todas garotinhas. Suas roupas e aparências são bem variadas. Mas todas parecem ter a mesma idade… da Princesa Lala Lilia.

— MALDITOS!

Sequestraram cada garota de sete anos que encontraram durante sua busca pela Princesa?!

Garotinhas desnutridas e excessivamente magras estão todas amontoadas, abraçando-se. Atravessei o matagal e corri até elas.

Um bando de corvos voa baixo. Suas asas negras perfuram a névoa branca.

Gideon, é tarde demais, diz o dragão através da escama.

Através de nossa visão compartilhada, cedo minha visão ao dragão para que ele veja o que está escondido para mim mesmo. Os montes de pequenos corpos sequer respiram. Não restou nenhum traço de vida. Os corvos bicam a carne macia e arrancam todos os minúsculos olhos. Os insetos, apressados, já puseram ovos e geraram seus filhotes.

— Que inferno!

Então vejo algo em meio a um monte de cadáveres em decomposição. Noto uma única fita verde-clara pendurada em um cabelo preto, todo desgrenhado, mas ainda trançado.

— AAAAAH! Mas que INFERNO!

É ela. A filha do estalajadeiro.

— Droga! Droga! DROGA! — Aperto meus dentes, cerrando eles para frente e para trás, cortando a língua e enchendo minha boca de sangue. — Eu devia ter percebido!

Bato meus punhos no chão. Soco e chuto as árvores. Não é o suficiente para conter minha raiva. Um calor amargo sobe por todos meus membros de uma só vez, queimando e perfurando meu cérebro. Não posso parar com isso.

Mas esse tipo de merda acontece o tempo todo, então por que não posso lidar com isso? Não é a primeira vez que um idiota faz isso, então por que não posso ignorar? Por que não posso engolir em seco e ir embora com um sorriso no rosto? Posso desistir? Posso ficar em paz? Não é isso que todos fazem? Não é por isso que essas atrocidades continuam acontecendo por milênios?

 

“Não vou aceitar isso”. Seja um adulto, criança ou velho — quer eu viva por décadas ou séculos — jamais aceitarei isso.

Gideon Aguilhão.

— O que…?

Não culpe a si mesmo por outros estarem predando filhotes. Parece que já estão fracas há muito tempo antes de serem deixadas aqui. Não duraram muito depois de serem abandonadas.

— O problema não é esse!

Não consegui salvar elas. Não consegui salvar nenhuma garota, mesmo tendo visto uma delas cantando há poucos dias. Ela estava se divertindo, brincando com seus amigos e jogando bola. Nós até conversamos. Ela estava, sem dúvidas, viva e bem. Eu sei disso.

 

— … cor… ro… — ouço o fantasma de uma voz. — Socor… ro…

Não estou apenas ouvindo coisas. Uma voz fraca e estrangulada está vindo do amontoado de garotas.

— Espere. Apenas espere. Vou te ajudar.

Cavo em meio aos cadáveres frios. Uma menininha de cabelo castanho claro está inclinada. Seu coração bate rápido. Através dos olhos do dragão posso ver isso — uma luz fraca emitida por todas as coisas vivas.

— Ela está viva!

De fato. Um filhote ainda está agarrado à vida.

Mas está fraca. A luz que representa sua vida parece que pode apagar a qualquer momento. Levanto o corpo frio em meus braços e o envolvo com meu manto.

— Fique comigo. Consegue me ouvir? Consegue ouvir minha voz? — Suas pálpebras estremecem e se abrem um pouco.

— Estou com frio.

Seguro seu corpo firmemente contra meu peito, buscando compartilhar meu calor. Sua mãozinha se agarra a mim como se sua vida dependesse disso.

— Agora está tudo bem. Vou te levar para um lugar seguro agora.

— Onde…?

— Para um lugar seguro. — Levanto-me com ela em meus braços. A garotinha não consegue parar de tremer. — Estou levando ela comigo.

Concordo com sua decisão.

Ainda consigo ver a fita verde-clara em meio à névoa branca e leitosa. Queria pelo menos dar um enterro decente a todas, mas…

— Sinto muito…

Os mortos podem esperar. Apresse-se, Cavaleiro Gideon.

— Eu sei! Eu voltarei em breve!

Cacete, ainda não tenho tempo para nada de novo.

Você ainda pode fazer algo por esse filhote.

Você está certo, sue lagarto estúpido. É frustrante, mas agora seu julgamento está correto.

 

*   *   *

 

— Voltei.

— Estive esperando, Gideon. Traga-a para meu quarto! — disse a Princesa.

Ar quente e úmido preenche o interior de nosso refúgio na Árvore Milenar. Um fogo crepitante queima na lareira, onde uma panela está com algo em ebulição. Um vapor denso se espalha a partir disso. Mas essa não é a única fonte. O dragão continua mantendo o ar aquecido a partir de seu quarto no porão também. Prepararam tudo isso enquanto eu estava voltando? Inteligente. Temos que aquecer o corpo frio da garota, mas não é como se pudéssemos apresentar uma criança moribunda a um dragão — ela poderia não sobreviver ao choque.

Subo as escadas correndo e pulo até o segundo andar. A Princesa abre a porta sem hesitar. Ela vai até a cama e puxa os cobertores.

— Coloque-a aqui!

Deito o pequeno corpo. O calor do dragão aqueceu bastante os andares superiores. Bochechas, braços e mãos, que estavam encharcados por causa do nevoeiro denso, agora estão aquecendo. A água pode tirar ou devolver o calor de seu corpo.

“Que dê tempo. Por favor.”

— Está quente… — Um pouco de cor retorna a suas bochechas frias.

— Agora você está bem. Aqui é seguro.

A garota estica a mão trêmula como se estivesse tentando pegar algo. A Princesa também estende sua mão e envolve a da garotinha entre suas palmas. Os lábios rachados da pobrezinha estão tremendo.

— Você está… perigo. Corra. Corra.

— Estou bem.

— Não… não… não… CORRA, você tem que CORRER! — grita a garotinha, pânico estampado em suas feições desgastadas.

Seu corpo inteiro está tremendo e balançando.

— Por que eu preciso correr? — pergunta a Princesa.

— Você precisa fugir. Vão te pegar e te levar para um lugar ruim. Te pegarão… e te arrastarão para aquele castelo do mal.

Tch. O mau pressentimento que tive estava certo.

— Todas… todas… garotas de sete anos; é isso que os homens maus falaram, todas serão levadas. Algumas morrem no caminho mesmo. Algumas têm o cabelo arrancado. — Ela funga, mas está tão absorta e em pânico que continua falando como se estivesse em um pesadelo. — Algumas têm os braços quebrados, e outras passam por coisas piores… AHH! — Suas pálpebras descansam e seu rosto espasma. — Então são todas jogadas na floresta… Porque um homem diz que… diz que está “errado, errado, não é essa também!”

A Princesa agarra a mão da garotinha assustada e a puxa para perto do peito.

— Não se preocupe… aqui ninguém vai te fazer mal.

— AH… aah… aaah… — A garota grita sem parar até que fica sem ar enquanto se agarra ao seu único ponto que pode indicar salvação ao alcance.

As lágrimas escorrem de seus olhos bem abertos. Não posso fazer nada além de enxugá-las. Ela exala uma longa, longa, longa respiração. Chiada, como se estivesse respirando os ventos frios do inverno.

— Quem disse essas coisas? — perguntou a Princesa no tom mais frio que já ouvi vindo dela.

— A-a p-pessoa mais i-importante do c-castelo — gaguejou a menina, e então fechou os olhos.

— Ela caiu no sono? — perguntou a Princesa.

— Sim, já está dormindo — respondo, confirmando que seu peito sob o cobertor está subindo e descendo aos poucos, seguindo a respiração.

— Ela deve estar assustada — disse a Princesa.

— Sim. Deve estar morrendo de medo.

Saímos do quarto e fechamos a porta.

 

No caminho, enquanto descíamos as escadas, a Princesa pergunta calmamente:

— É minha culpa?

— Não. — Me viro e seguro sua mão, assim como ela fez com a garotinha. A Princesa está um degrau acima de mim, então estamos com os olhos quase na mesma altura. Segurando sua mão com as minhas duas, lenta e cuidadosamente pronuncio palavras para persuadir: — Você não fez nada de errado, Princesa.

 

*   *   *

 

— Vou deixar a floresta. Não posso permitir que mais crianças morram em meu lugar.

A Princesa me pegou de surpresa. Essa é a primeira coisa que ela resolve me falar enquanto descemos as escadas até o porão. Não que eu não imaginasse que ela poderia chegar a isso.

— É muito perigoso. — Minha resposta é lamentável, está com tanta falta de força por trás dela que chega a ser repugnante. A visão da fita verde-clara está queimada na minha mente e teima em não sumir. Há uma fita idêntica enrolada no cabelo da Princesa; uma garota corajosa, que está de cabeça erguida e costas retas logo na minha frente.

— Relaxe. Não pretendo ir ao castelo. Só deixarei que saibam sobre mim. Saibam onde estou.

O problema aqui é que ela está realmente usando um argumento razoável. Está olhando para as coisas de maneira objetiva, tão pensativa quanto pode ser uma criança de sete anos. Ela entende a razão por trás das ações do Lorde Ardiloso e conhece seu objetivo final. Sua intuição está preenchendo as lacunas existentes por coisa que ninguém lhe contou — mas espere aí, esqueça isso!

— Não, não, não, não, não! — Agora não é hora de ficar impressionado com ela. — Não vou relaxar com você falando isso!

— Se souberem onde estou, então não terão motivos para continuar sequestrando outras crianças.

Veja! Esta Princesa entendeu tudo!

— Minha Lady, você quer ser usada como isca?!

Parece que não sou o único que está chateado. O dragão está revirando os olhos e balançando a cabeça para trás e para frente. Ele abre um pouco as asas, fecha, abre, fecha, e fica fazendo isso sem parar. Além de tudo, quando falou algo, sua voz falhou… É a primeira vez que noto algum nervosismo no tom de voz desse lagarto superdesenvolvido. Mas, mesmo quando confrontada por dois velhos, a Princesa não se submeterá.

— Estou. — Ela balança a cabeça, mantendo-a fria. — Só eu posso pará-lo.

— Mas…

Ela chega até mesmo a levantar sua mãozinha para interromper o dragão.

— Senhor Dragão, não foi você quem me disse para virar alguém que não pisaria em flores cujos nomes não conheço? Isso não significa que deveria estar fazendo justo o que quero fazer?

Hrm… — Tendo suas próprias palavras usadas contra ele, até mesmo o dragão teve que reter sua língua. Ele abaixa a cabeça e fecha os olhos.

Para onde foram sua calma e compostura habituais? Vamos lá, lagarto, não fique em silêncio igual eu logo agora. Encontre uma maneira de persuadir a Princesa a deixar essa ideia tola de lado, vamos Senhor Dragão!

— Chegou a hora. A Fada Madrinha já tinha comentado algo assim, algo sobre o “a hora chegar”.

Uou. Tudo bem, não tenho como me opor se você menciona isso.

Aquela profecia ambígua e misteriosa agora faz sentido em nossas vidas. Desde que é uma profecia, não temos escolha senão seguir adiante.

O dragão olha para mim.

Eu também olho para ele.

Nós vemos o mesmo pensamento estampado no rosto um do outro.

— Ela nos pegou.

— Nós falhamos.

— Mas antes de qualquer coisa, vou preparar uma sopa para aquela garota — anunciou a Princesa, disparando para subir as escadas.

— Oh, entendo, entendo. Bem que senti um cheiro muito gostoso. Então ela estava preparando uma sopa, hein?

No pouco tempo que levei para chegar, a Princesa planejou várias coisas. Não apenas pensou em tudo, como também colocou suas ideias em prática.

— Ela é um filhote notável. Aguardo ansioso pelo dia em que pisará livremente na luz do mundo. — O olhar solene do dragão segue a Princesa enquanto ela sobe as escadas, com uma tigela em mãos. — Um belo dragão… não, os passos iniciais de uma rainha que um dia governará.

Ela descartou minha insistência sobre como o sentimentalismo e a hipocrisia ao ser compassivo são desnecessários, e foi direto para o coração da questão. A Princesa coloca tudo que aprende em prática.

 

“Claro que sim. A Princesa sempre enxerga a verdadeira natureza das coisas.”

Ela vai ser uma rainha incrível.

Possui a inteligência e a obstinação para não sacrificar os outros por si mesma.

A Princesa disse que só irá deixar que saibam sobre seu paradeiro, e ela não tem intenção de ir ao castelo. Falando de outra forma, não vai simplesmente se entregar ao Lorde Ardiloso. Não poderia ter tomado essa decisão sem possuir uma confiança inabalável em nós dois.

Sim, ela confia ferozmente que, mesmo se deixar a floresta, eu e o dragão iremos protegê-la.

— Bem, então o que eu devo dizer? Ela cresceu e se desenvolveu, é nossa Princesa. Não é?

Hrm, ela sempre teve muita fibra. Você ajudou nisso.

— Entendo, entendo — digo casualmente, ignorando-o. E então começo. Ei, agora! Este lagarto me elogiou? — Não seja idiota. Nós fizemos isso juntos, não?

As pupilas do dragão dilataram e contraíram com força. Suas escamas agitaram e a luz que refletia nelas ficou curva. Forçando meus olhos, posso ver que suas escamas estão ligeiramente eriçadas.

— Ei, o que há de errado? — pergunto.

— Como posso descrever? Ser abertamente elogiado por você é… perturbador.

Aah, claro. Sempre tem que ser assim.

Tch, isso também vale para mim. — Viro minha cabeça para o lado e cuspo no chão.

De repente, sinto uma tremedeira. É leve, mas é incomum. Algo que nunca existiu antes acaba de surgir.

O arrepio percorre minha pele. As escamas do dragão ficam expostas, tão afiadas quanto uma navalha. Um grito surge, nós trocamos olhares.

— Princesa!

— Vá, Gideon!

— Rápido! — Eu corro para cima. Agarro minha espada e escudo que estavam pendurados numa parede.

Agora isso será necessário.

Nossa casa não está segura.

O teto range por causa de uma sobrecarga. É algo pesado. Algo enorme está fazendo peso no segundo andar.

Quando foi que apareceu? De onde? Não havia sinais de nada antes. Apenas surgiu do nada! Do nada, e bem no quarto da Princesa!

Chuto a porta e corro para dentro do quarto.

Um monstro está presente. Uma aranha ridiculamente grande, de oito patas, sentada sobre a cama virada da Princesa, como se fosse a dona do lugar e de tudo que existe. Um único olhar me diz que essa aberração da natureza não é uma criatura deste mundo ou de qualquer outro. A coisa parece que foi toda remendada com pedaços de gemas coloridas e joias, só para criar a forma de uma aranha. É quase como se o vidro manchado de um vitral tivesse resolvido tomar vida e assumir a forma física de uma aranha. Isso dá uma sensação meio estranha. Se não fosse pelas circunstâncias, poderia achar o monstro até bonito. Se não fosse por a Princesa estar pendurada em uma de suas oito pernas, embrulhada em um monte de teia colorida.

— PRINCESA! — Desembainho minha espada. Espere, eu já tinha desembainhado antes mesmo de entrar no quarto.

— Gideon! — A Princesa luta, mas a teia acaba a envolvendo ainda mais.

— Eu não lutaria se fosse você, Princesa — aconselha a voz. A aranha cria mais um fio. Ele se espalha e forma um pano, que é preso à boca da Princesa, silenciando-a.

— Mm! Mmph! Mmmmph!

— Viu? Eu disse.

— SUA BASTARDAAAAAAAA!

 

 

— Você está atrasado, Sir Cavaleiro! — A mestra da aranha está exultante com seu sucesso. Ela se aconchega no corpo de cor arco-íris e o acaricia com a mão direita.

— Maldita!

Minha boca fica seca. Tremores me percorrem. A garota está me ridicularizando e zombando de mim. A única sobrevivente da Caça às Garotinhas. A menina que peguei com minhas próprias mãos e trouxe até aqui!

— Quem… é você?

Ela ri. Seus ombros tremem devido à diversão.

Raiva, frustração, humilhação e arrependimento estão misturados, apertando meu coração. Engulo a bílis que veio subindo por minha garganta e vou cortar essa guria com minha espada.

— Você ainda não entendeu? — A menina olha para mim. Não, ela está olhando através de mim. — Escamas Bravias, ó, nobre e poderoso dragão rubi.

Sinto como se tivesse sido rasgado ao meio. Como diabos essa coisa sabe o nome do dragão, sendo que apenas as pessoas mais próximas a ele sabem?

— Tenho chamado por ti durante todo esse tempo… — sussurra ela.

A forma da garota muda. Em um piscar de olhos, sua aparência tremula, como se fosse uma sombra refletida na água. Sua pele fica preta, quase da mesma cor que as penas de um corvo. Até sua roupa muda. A saia surrada e sua blusa caem, e, em seu lugar, um material de seda preta e fina, semelhante a teias de aranha, agarra-se ao seu corpo. Sua pele aparece através da transparência da roupa. Ela parece uma estrangeira usando roupas marcantes. Pensei — senti — que nos conhecemos de algum lugar.

— Por que você não me salvou? — Lágrimas se misturaram em seus olhos âmbar. Seus olhos cheios tremeram e ameaçaram transbordar a qualquer comento. — Igual fez com esta criança.

Então seus olhos bem abertos se transformam. Manchas negras sobre cada globo ocular e pupilas vermelhas queimadas no centro disso me perfuram.

O dragão ruge. Seu rugido estrondoso sacode meus tímpanos e o chão, com violência, as paredes e até mesmo toda a maldita casa na árvore.

— GUH!

Isso não é tudo — não é apenas som. Os pensamentos do dragão estão extravasando pela escama. Suas emoções acertam minha cabeça como se fossem um jato de água, penetrando fundo em minha mente. Cortando-me por dentro. Saqueando minha mente. Faíscas voam dentro de meus olhos. O mundo parece se distorcer.

— Argh… grrr… nggh…

Arrependimento.

Pânico.

Tristeza.

Frustração.

Ressentimento.

Emoções sombrias que vêm à minha mente através da escama são exatamente as mesmas que tive algumas horas atrás.

— Droga. Droga!

— Por quê? Por quê?!

— Por que eu…

— Como eu poderia…

Nossas emoções idênticas se colidem e batem umas nas outras, atormentando-nos em dobro.

— Está quente!

A escama que deixei em meu bolso esquerdo está fervendo. Meus dedos empolam quando tento tocá-la e descartá-la. Chamas — chamas branco-azuladas estão queimando meus dedos. Em um raio de luz, se espalharam para todo o meu corpo.

— AAAAAAHHHH!

Estou sendo queimado vivo por chamas branco-azuladas por fora enquanto meu interior é fatiado por uma lâmina pesada e fria.

Não posso parar. Mesmo sabendo que é o meu próprio braço que está balançando a lâmina.

— PRINCESAAAAAA!

Minhas palavras fogem da boca e meus pensamentos se esvaem.

Vou ser engolido vivo pelas emoções violentas do dragão.

Não posso lutar contra isso.

Estou sendo arrastado por tudo.

— Prin… cesa…

Minha consciência some devido à turbulência gerada por tantas emoções avassaladoras.


Tradutor e Revisor: Taipan



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