Afterstory, Parte 3 – Um Certo Príncipe em Caos e Uma Certa Dublê



“Eu esqueci a minha toalha…”

O menino percebeu após já ter começado a se banhar na água quente da banheira de pedra.

Talvez ele tivesse deixado a toalha do lado de fora do banheiro com suas roupas? Ainda assim, quando ele tentou retraçar seus passos, ele nem mesmo se lembrou de ter pegado uma.

Ficar assim provavelmente seria inconveniente, mas também não seria um grande problema incomodar o soldado de guarda do lado fora.

O menino começou a lavar seus braços após esmagar algumas folhas de buffle e fazer uma espuma ensaboada.

Bolhas levemente esverdeadas começaram a cobrir seu corpo.

Apesar de o menino ainda não estar acostumado com cheiro de mato das folhas buffle, ele estava relativamente acostumado à vida no seu segundo confinamento.

O rei do deserto que ele havia encontrado durante a forte tempestade de areia o recebeu com palavras irritantemente gentis demais. Mas o menino não havia vivido uma vida simples o suficiente para acreditar nas palavras do rei, seus olhos foram o que mais o entregaram, eles eram afiados demais para combinar com seu tom piedoso e encorajador.

E assim, antes que ele pudesse descansar do torpor causado por um ano inteiro de confinamento, ele foi levado a Yohk’Zai com pretextos cobertos de açúcar e gentileza. No fim, ele apenas foi jogado em uma nova prisão chamada de ‘quarto de hóspedes’, mas ele não sentiu qualquer surpresa ou desânimo.

Comparada àquela torre, agora ele tinha uma janela maior, mais comida do que o suficiente e se ele desejasse, poderia até mesmo tomar banhos como ele estava fazendo agora.

Quando pensou que havia sido libertado, o castelo foi destruído e poderia se dizer que sua terra estava prestes a… bem, entrar em colapso. Para ser preciso, eles estavam sendo invadidos por Yohk’Zai e ele havia sido aprisionado novamente.

Não era como se ele não tivesse sofrido de verdade. Mas, ao invés de pensar nas circunstâncias a sua volta, o menino sentiu esperança dentro dele.

Ele não servia para ser rei.

No momento em que viu aquele ambicioso e confiante rei do deserto envolto em roupas azuis, ele soube.

Ele soube que esse rei seria capaz de encantar as pessoas com suas palavras fortes, com seu olhar inabalável e com qualquer uma de suas ações.

Era ele quem merecia o título de rei.

Comparado a um rei tão magnifico, ele era quase nada.

Quando percebeu isso, ele descobriu que a história que havia lido antes na torre era verdadeira.

Ele obviamente era o descendente de um usurpador. Ele não era o sucessor legítimo do trono de Ii’Jibro.

Se descobrissem onde ele realmente havia nascido, todas as pessoas que se esforçaram para libertá-lo provavelmente entrariam em desespero.

Porque aquele homem que resgatou sua mãe da torre teve que se tornar o rei. Teria sido tão mais fácil se eles tivessem fugido juntos e vivido livremente, dessa forma, ele não teria que…!

Ele sabia que não podia fazer nada, mas ainda lamentava as decisões de seu ancestral uma vez após a outra. Dominado por suas preocupações, ele pressionou seu braço com mais força.

Eram nesses momentos que ele se sentia irritado consigo mesmo pelo quão feminino ele se sentia.

“Agora o próximo, por favor, que seja o Príncipe Hinoki!”

Uma voz aparentemente irritada e apressada ecoou pelo pequeno banheiro.

Todo o vapor dentro do aposento pareceu ser sugado na direção de onde aquela voz parecia ter vindo, clareando sua vista.

“Ah. Príncipe Hinoki?! Eu consegui! Hum, isso não está funcionando quase todas às vezes? Talvez isso realmente funcione o tempo todo…”

Apesar de estar apenas fingindo, o jovem Hinoki que havia se tornado o rei de Ii’Jibro arregalou os olhos de surpresa.

Diante dele estava a bruxa que ele havia encontrado antes na torre.

Suas peculiares feições e seu cabelo negro combinavam perfeitamente com a descrição da bruxa encontrada nas velhas lendas de Ii’Jibro e, apesar de ela estar cobrindo seu peito apenas com um pedaço de pano, ela não parecia estar nem um pouco envergonhada, nem mesmo se importando de mostrar sua pele cor de mármore.

De início seus olhos negros estavam repletos de alegria, mas quando olhou para baixo, sua expressão lentamente se tornou estranha.

“Umm, eu definitivamente não vim roubar sua vitalidade ou… fertilidade, você sabia?”

“… O que faz você pensar que pode me convencer?”

Ele friamente a respondeu após ela pretender olhar para longe de seu rosto.

“Não, eu juro! Eu nem mesmo sabia que você estava tomando banho. Na verdade, eu não tinha escolha!”

A bruxa olhou para um certo pano que segurava em suas mãos.

“Você vê, eu me encontrei com o Huu-… Quer dizer, com aquele cabeça dura do Karasu, então eu quis tomar um banho com a Kyousui-san, mas eu fiquei com medo de que ela recusasse por causa do constrangimento!! Então eu resolvi dar a ela os sais de banho e, em troca, eu recebi essa toalha de banho… Isso significaria que o próximo lugar para onde eu iria seria um banheiro, certo? Então não foi realmente minha culpa, foi tudo por causa daquele idiota lento do Karasu, você não acha?”

“Espere um pouco, eu não estou conseguindo acompanhar a sua história.”

“Bem, em primeiro lugar, apesar de alguém como eu, que não tem qualquer relação com esse mundo, estar se preocupando tanto com ele, quem o Karasu pensa que é para calmamente desfrutar da sua vida de recém-casado com a Kyousui quando é com ele que eu mais me preocupo? E de qualquer forma, por que eu tenho que escutar as suas desilusões amorosas? ‘Uma Kyousui-san envergonhada é boa também, esfregar as suas costas desse jeito sempre foi o meu sonho’ uma ova, eu não quero ouvir esses seus autoproclamados sonhos!”

Ela parecia estar furiosa enquanto balançava os braços para cima e para baixo. Então ela repentinamente pareceu ficar sem energia, apenas para recomeçar com ainda mais vigor.

A bruxa simplesmente apareceu sem aviso e começou a divagar sem parar sobre histórias sem sentido e a surtar do nada. E tudo isso naquele estado seminu.

Obviamente, havia sido um erro achar que ela era sã, ela provavelmente já estava quebrada além do que era possível salvar…?

Após duvidar da sanidade dela, ele repentinamente se lembrou do seu próprio estado, sem um único fio cobrindo seu corpo, e ficou embaraçado.

Ele imediatamente esticou seus braços cobertos de bolhas na direção da bruxa.

“Eu não ligo se você veio roubar minha vitalidade ou fertilidade ou qualquer outra coisa. Apenas me dê essa toalha ou seja lá o que for agora.”

“Oh, sim… Certo. Você está numa idade difícil afinal. Eu sinto muito, eu sinto muito. Aqui está.”

Hinoki enrolou o pano que recebeu da bruxa em sua cintura.

Então ele a encarou atentamente.

Por que ela apareceu para ele de novo?

Foi ela que deu a Huuron a chave que ele usou? Se fosse isso, então ela deveria ser cúmplice do plano organizado pelo rei de Yohk’Zai. Mas então, por que ela apareceu novamente?

Hinoki permaneceu em silêncio, tentando adivinhar o que a bruxa estava tentando conseguir.

A bruxa também, apenas murmurou sem coerência, tentando encontrar alguma coisa para dizer.

Novamente, o vapor preencheu o banheiro enquanto eles permaneciam em silêncio.

Uma única gota caiu do teto, emitindo som.

Como se impelida por esse barulho, a bruxa quebrou o silêncio.

“Umm, você parece melhor do que eu imaginei.”

“Eu não sei o que você estava esperando, mas eu de fato não estou me sentindo mal.”

“Eu-, eu vejo. Isso é bom.”

Aparentemente ela havia sido muito vaga. Após olhar ao redor freneticamente, ela fixou seu olhar em Hinoki e, como se juntasse coragem, encarou atentamente seu corpo.

Hinoki ficou perplexo.

“Poderia ser que você realmente veio pela minha fertilidade?”

Em um instante a bruxa entrou em pânico.

“Eu-, eu já te disse que não é isso! Apenas esqueça isso de uma vez. Eu não quis dizer isso, você vê, bem, eu só estava me perguntando se alguma coisa ruim havia acontecido com você…”

Que bruxa difícil de entender, apesar de ela ser cúmplice do Rei Huuron, ela ainda se preocupava com a pessoa que eles prenderam.

Hinoki bufou levemente e a respondeu de forma brincalhona:

“Por sorte eu não fui torturado ou maltratado. O Rei Huuron está apenas me tratando como um hóspede… Por enquanto, eu quero dizer.”

A bruxa relaxou após ouvir a resposta de Hinoki, mas franziu o cenho com suas últimas palavras.

“Eu vejo, isso faz sentido. Eu estou tão feliz que cheguei a tempo. Não, não foi isso o que eu quis dizer…”

Ela endireitou sua postura e tossiu levemente.

Então ela se curvou diante de Hinoki, que a estava encarando, tentando descobrir o que ela pretendia fazer.

“Eu realmente sinto muito!”

Ela repentinamente se desculpou.

O quão difícil de entender ela podia ser?

“Eu pedi a ele. Eu pedi a Huuron que te tirasse da torre e te ajudasse. Eu nunca pensei que ele fosse te trancar em outra torre em Yohk’Zai e tomar Ii’Jibro. Ahhh, se eu apenas tivesse pensado melhor… Eu só disse a ele para te tirar da torre, eu nunca disse nada sobre o que fazer depois. Eu não posso dizer que ele não fez o que eu pedi… Ahh, ele é tão astuto que é irritante.”

Hinoki observou a bruxa cautelosamente.

Suas ações e aparência realmente eram suspeitas, mas ele não conseguia detectar qualquer motivo oculto em sua voz.

Para ele, ela só parecia conter arrependimento, raiva e sofrimento.

“É por isso que agora eu me responsabilizarei por você e te salvarei. Não se preocupe, eu tenho uma moeda de troca. Eu terei certeza de obrigá-lo a fazer as malas e devolver Ii’Jibro para você.”

Ela disse apressadamente com a respiração irregular, cerrando seus punhos enquanto falava. Sua animação era preocupante, ela poderia facilmente desmaiar por causa da quantidade de estresse.

Tendo dito isso, Hinoki ainda duvidava de que a bruxa estivesse lhe oferecendo ajuda simplesmente pela bondade em seu coração.

Ele começou a pensar nas situações que favoreceriam a bruxa. Se ele não quisesse mais sofrer, ele precisaria avaliar a situação de um ponto de vista mais objetivo.

“Essa sua promessa me parece um tanto inconcebível. Mas e então? O que você vai querer se Ii’Jibro for devolvida a mim?”

Hinoki pensou que talvez ela não tivesse conseguido chegar a um acordo com Huuron e agora estava tentando usá-lo.

Talvez a bruxa quisesse terras férteis ou minas de pedras da lua, ou talvez até os muitos tesouros herdados das épocas dos velhos reis sábios.

A bruxa começou a dizer: “Bem, muitas coisas estão acontecendo, mas… No caso de acontecer o que você disse… Primeiro nós precisaríamos parar a invasão de Jebas.”

“O que?”

Hinoki perguntou surpreso quando ouviu uma resposta que não estava realmente esperando. Mas a bruxa o ignorou e continuou contando com seus dedos.

“Depois disso, eu gostaria de arranjar as pedras de fogo que Triht precisa. Então eu gostaria de acabar com as demandas irracionais que são feitas à tribo Ottko Yu e se for possível, fazer alguma coisa pelos arrijighock famintos. Eu também estou preocupada com os campos de zhaltkane em Insen. Então eu ficaria muito grata se o problema das correntes de água subterrâneas pudesse ser resolvido. Mesmo se elas não puderem ser controladas, se pelo menos seus movimentos pudessem ser previstos…”

Hinoki ficou com a boca cada vez mais aberta à medida que ela continuava a falar.

Isso não era mais apenas inconcebível. Após ouvir os nomes de todos esses outros países, ela até mencionou as correntes de água subterrâneas.

Mesmo se ela fosse uma bruxa, isso era muito inconcebível. Se houvesse alguma criatura capaz de fazer tudo isso, só poderia ser um deus.

“Es-, espere um pouco. Você está falando sério sobre tudo isso?”

“É claro que eu estou falando sério.”

A bruxa assentiu imediatamente.

“Pensando nisso, tudo começou porque eu ajudei aquela pessoa perdida no deserto… E do jeito que as coisas estão progredindo, eu não poderei mais desfrutar dos meus banhos longos. Já que eu desisti do meu tempo de banho para isso, eu quero ver como tudo vai acabar.”

Hinoki não conseguiu entender o que a bruxa estava tentando dizer afinal.

A quem ela se referia quando falou de uma pessoa perdida? Em primeiro lugar, qual era a relação entre tomar um banho longo e todos esses países que ela mencionou antes?

“É por isso que primeiro eu vou te tirar daqui. Então você terá que se esconder com alguém até as coisas se acalmarem.”

Dizendo isso, ela esticou a mão.

A mão dela não parecia com a mão de um guerreiro, nem com a mão de um plebeu. Mais do que qualquer coisa, ela parecia com a mão dos aristocratas que cercavam Hinoki quando seu pai ainda estava vivo.

Uma pele macia que jamais havia enfrentado dificuldades, mas que causava uma impressão completamente diferente.

“Eu não entendo. O que você vai ganhar por se envolver com todos esses países? Você não quer algum tipo de compensação? Que tal dinheiro? Ou prata? Você pensou em tomar todos os tesouros de Ii’Jibro talvez?”

“Isso seria ótimo. Todos os tipos de riquezas… Eu sou uma mulher afinal, eu amo coisas brilhantes. Mas não importa o quanto eu ganhe, nada disso terá valor.”

– Ela se contradisse.

“De qualquer forma, se apresse! Será mais difícil se você começar a suspeitar de mim.”

A bruxa se inclinou para fora de seu aposento e agarrou o braço do confuso Hinoki.

Hinoki imediatamente puxou seu braço de volta, tentando fugir dela.

Graças à espuma das folhas de buffle, a mão da bruxa escorregou.

“Huh, espere!”

A bruxa gritou surpresa.

Entretanto, Hinoki ficou mais chocado com sua própria reação do que com a da bruxa.

Se seguisse a bruxa, talvez ele fosse capaz de se tornar o governante de Ii’Jibro, mesmo que apenas em nome. Ele seria capaz de se sentar no mesmo trono que seu pai uma vez se sentou e supervisionar as famílias vassalas que uma vez o serviram.

Mesmo se ele não fosse o verdadeiro herdeiro do trono, as pessoas provavelmente ficariam mais satisfeitas com ele como governante do que se tornarem escravos de Yohk’Zai.

Mas apenas pensar em se tornar rei já o fazia tremer.

– Eu posso ainda não estar louco, mas a minha mente já se quebrou há muito tempo.

Ele era muito fraco. Quando sua suspeita foi repentinamente confirmada, Hinoki não teve escolha a não ser admitir isso para si mesmo.

“Eu agradeço pela sua bondade, mas eu não posso aceitar isso.”

“Huh? Por quê?”

Ela não sabia quais eram as circunstâncias de Hinoki, então ela inocentemente inclinou a cabeça para o lado em confusão.

“Eu não tenho o que é preciso para ser rei. O que um ignorante que foi preso duas vezes poderia sequer fazer?”

“Mas, você não pôde evitar isso. Você ainda é apenas uma criança afinal…”

Vendo a bruxa se recusando a recuar, Hinoki começou a ficar irritado.

“O que ser uma criança tem a ver com isso? Quantas pessoas você acha que seriam ingênuas o suficiente para agirem de forma mais consideradas apenas porque eu sou uma criança?”

“Bem, certo… Hum, então, você devia arranjar algum tipo de guardião ou assistente. Se você pedir para aquelas pessoas que estavam tentando te resgatar da torre, eu tenho certeza de que eles irão concordar em te ajudar, eles pareciam ser pessoas decentes afinal.”

Quando Hinoki a ouviu, ele foi tomado por um sentimento indescritível de culpa.

Ele sempre ficava preocupado quando pensava se deveria sentir qualquer gratidão por aquelas pessoas que se esforçaram para libertá-lo.

Ele nunca foi uma pessoa digna de ser salva!

“Se descobrissem sobre as minhas origens, eles provavelmente me abandonariam.”

A bruxa franziu as sobrancelhas.

Até a bruxa provavelmente perderia o interesse e desapareceria se descobrisse quem Hinoki realmente era.

Então ele gritou, tentando jogar fora toda a hesitação que havia se acumulado no fundo de seu coração.

“Eu não sou descendente do rei. Eu sou apenas o filho de um usurpador!”

“Eh. O que, você sabia disso?”

“… Huh?”

A bruxa soou completamente indiferente.

“O homem que resgatou a sua mãe da torre era o seu pai, certo? Seu ancestral era um homem corajoso, resgatando sua mãe e se opondo ao rei…”

Era verdade que ele era corajoso, ou melhor, devia ter sido corajoso. Mas esse não era o problema em questão agora.

“É-é por isso que eu não posso me tornar o rei.”

“Por quê?”

“Você realmente prestou atenção no que eu disse?”

“Que rude. Eu ouvi você sim. Você apenas não é da linhagem dos reis da primeira geração, certo?”

Parecia que ela estava tentando dizer para ele: ‘Qual é o problema disso?’

O rumo que a conversa tomou foi tão diferente do que Hinoki esperava que ele ficou sem saber o que dizer.

“A história do seu ancestral tomando o trono já é uma história bem velha, não? E desde então, após a geração seguinte de reis, você veio, essa é a sua linhagem, já se passou tempo mais do que o suficiente. E depois…”

A bruxa disse com confiança enquanto segurava seu braço, mas foi repentinamente interrompida.

“Se eu ficar quieto, eles não vão descobrir.”

“Então esse é o problema!”

Depois de responder, Hinoki segurou a cabeça enquanto se abaixava.

Quanto mais ele conversava com a bruxa, mais ele sentia que seu senso comum estava desmoronando.

“E tirando isso, quais são os outros problemas? Ah, sabe, se você não quiser que isso seja revelado, você pode tentar se aproximar da tribo Ottko Yu.”

“Por quê?”

“Porque a tribo Ottko Yu já sabe disso.”

Apesar de isso ser um segredo que apenas ele devia saber…

Hinoki se sentou onde ele estava por exaustão, tanto pelo alívio de ter tirado aquele fardo de suas costas, quanto pela estupidez que ele sentia por se atormentar com esse complexo de inferioridade.

“Conversar com você… Está fazendo minha cabeça ficar estranha.”

“… Espere, o que você quer dizer com isso?”

A bruxa olhou para o Príncipe Hinoki com um olhar travesso, mas deu de ombros e disse:

“Bem, de alguma forma eu entendo que você deve ter várias pequenas preocupações. Mas veja, apesar de eu saber de tudo isso, eu ainda quero te ajudar. Isso também é pelo bem de toda Ii’Jibro. Então agora, venha, é hora de irmos.”

Ela esticou sua mão novamente.

Hinoki encarou aquela mão por um tempo, mas então silenciosamente balançou a cabeça.

“Eu não posso. No fim, eu não posso me tornar um rei.”

A bruxa ouviu isso com um olhar confuso.

“Eu percebi que você não liga para a minha linhagem. Mas muitas pessoas ligam e elas com certeza viverão ansiosas. Acima de tudo, eu não sirvo para ser rei. Mesmo se… mesmo se eu aceitar a sua ajuda e me tornar o rei, Ii’Jibro certamente acabará em caos e cairá mais cedo ou mais tarde.”

Ele não havia nascido para ser rei, não por causa de sua linhagem, mas por causa de si mesmo. Assim que ele aceitou isso, não havia como mudar sua decisão.

De um lado ele odiava sua própria impotência, sua força deixou suas costas e ele sentiu o ar sendo puxado para fora de seus pulmões.

Ele sentia como se uma pedra atingisse o fundo de seu estômago só de pensar no futuro de Ii’Jibro.

Ele olhou para ela. A bruxa que sempre estava nua por alguma razão, não parecia sentir medo ou vergonha na frente das pessoas e sempre falava com palavras incompreensíveis. Mas talvez, se ele a ouvisse, alguém que estava preocupada até com as correntes de água subterrâneas…

“Bruxa, se você se importa com as pessoas de Ii’Jibro, por favor, ouça o meu pedido.”

Ela parecia estar perdida em pensamentos, ponderando sobre alguma coisa, então ela piscou uma vez e olhou para Hinoki.

“O Rei Huuron é um rei forte. Ele deve parecer ser um rei incrível para as pessoas do seu país. De certa forma, eu quero que as pessoas de Ii’Jibro recebam a mesma benção.”

“Em outras palavras, você está dizendo que quer confiar Ii’Jibro ao Rei Huuron?”

Hinoki assentiu.

“Exatamente. Eu só peço a integridade das propriedades e o status social das pessoas, isso é tudo o que eu quero. Eu pretendo dar tudo para ele agora.”

“Agora?! Isso não pode ser feito mais tarde? Mesmo que você esteja sendo tratado como hóspede agora, não há como garantir que você estará seguro no futuro. E também, você já teve que passar por um ano inteiro de sofrimento, você realmente quer viver desse jeito…”

“Você parece bem insegura. Talvez nós possamos usar a sua moeda de troca para ‘convencê-lo’? Ou aquela moeda de troca que você mencionou era apenas um blefe?”

“Não era um blefe. Eu tenho certeza de que posso convencê-lo. Eu tenho certeza, mas…”

Enquanto a bruxa hesitava, Hinoki começou a sorrir.

Ele deu um sorriso largo, um sorriso que não possuía arrogância, nem medo ou vergonha.

“Então está tudo bem. Essa será minha última ordem como falso rei. Eu não pedirei por mais nada.”

Ela encarou Hinoki fixamente. Dizia-se que os olhos negros de uma bruxa podiam ver através de qualquer mentira. Então, Hinoki a encarou de volta fixamente, sem desviar o olhar.

Depois de um tempo, a bruxa relutantemente assentiu.

“… Certo. Eu não queria isso, mas eu aceito que você não quer se tornar um rei. Eu tentarei convencê-lo assim que puder, apresentarei essas condições e te libertarei.”

“Eu ficarei grato se você fizer isso.”

Hinoki encarou a bruxa e se curvou.

Ele quase sempre foi tratado como um fracote, sua vida em confinamento lentamente minou sua determinação. Quando ele pensou no significado de tudo isso e percebeu que isso nunca acabaria, ele se transformou em alguma coisa completamente diferente.

“Ouça, existe alguma coisa que você queira fazer? O que você pretende fazer após sair daqui e parar de ser um rei?”

Após ouvir tudo isso, a única coisa na qual ele conseguiu pensar foi no mapa que havia visto na torre.

Ele sempre sonhou em ver com seus próprios olhos todos os países sobre os quais ele apenas havia lido nos livros: a aldeia coberta de neve de Triht, o reino do conhecimento de Insen, a terra de Tohji no distante norte e o lugar que era chamado de paraíso, Jebas.

“Você se lembra do mapa que eu te mostrei antes? Se eu puder, eu gostaria de ver… Oh, bem, deixe para lá.”

Ele repentinamente balançou a cabeça para se desvencilhar de seus sonhos.

Não havia como ele ter a permissão de ser tão egoísta.

Ele só poderia viver como seus ancestrais no passado, como uma pessoa normal de Ii’Jibro. E se fosse possível, ele pelo menos seria capaz de ajudar algumas pessoas no caminho.

“O mapa huh. Certo! Isso é um pouco diferente do que eu esperava, mas deve funcionar… A propósito, já faz um tempo que eu estou sentido o cheiro de alguma coisa. O que é esse cheiro de mato? Whoa, isso vem da minha mão. Poderia ser das bolhas verdes no seu braço?”

Ela cheirou suas mãos enquanto franzia as sobrancelhas de nojo.

“Esse é o sabão de Yohk’Zai. Ele de fato cheira mal. Mesmo que eu esteja acostumado a viver em confinamento, eu não consigo me acostumar com esse cheiro.”

Hinoki pegou o jarro com folhas de buffle em pó e mostrou para a bruxa.

“Huh, espere, o que é isso, isso é algum tipo de flag? Eu acabei de erguer mais uma flag? Já não foi o suficiente com a toalha de banho?”

Por um instante a bruxa pareceu estar prestes a derramar lágrimas.

“Ahh, que seja, eu não ligo mais. Fique com isso seu ladrão!”

Por alguma razão, a bruxa forçadamente trocou o sabão feito à mão que ela havia ganhado do príncipe de Jebas pelas folhas de buffle. Hinoki mais uma vez voltou a duvidar da sanidade dela depois disso…

* Ambos estavam usando toalhas durante toda a conversa.


Tradutora: Brinn | Revisor: Ryokusan000



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