BG – Capítulo 18



Mira nasceu em uma aldeia pacífica.

Situada longe da Capital, o solo era fértil e as estações eram lindas.

Se você seguisse para a ponta leste do Reino de Insen, você encontraria algumas montanhas e após cruzá-las, você chegaria na terra de areia.

Ela não ficava apenas situada em uma base formada por essas montanhas, seus verões também eram abafados e seus invernos congelantes, mas ela não era incomodada nem por enchentes, nem por neve.

Quase todos os aldeões sobreviviam com plantações de zhaltkane¹. E de forma alguma esse era um estilo de vida fácil. Quando chegavam as colheitas, havia tanta coisa para fazer que você gostaria até mesmo da ajuda de um khat². Ainda assim, o tempo que eles gastavam ali era relaxante e caloroso.

O preço do zhaltkane era estável há muito tempo. Mesmo se eles não pudessem viver com luxo, era possível viver de zhaltkane sem faltar comida ou roupas. Talvez esse fosse o motivo de todos os aldeões serem tão gentis e despreocupados.

Mira pensava que se ela tivesse nascido em algum outro lugar, ela certamente teria tido uma vida sofrida.

Mira era grata por sua família. Ela queria agradecer a todos os aldeões. E ela também era grata ao zhaltkane.

A vida estável deu aos aldeões paz mental e deu origem a um lugar que aceitava até mesmo uma pessoa como ela.

Mira sabia que era estranha.

Desde a infância, Mira sempre pareceu ter alguns parafusos soltos. Ela sempre estava encarando o céu sem expressão e mesmo quando você a chamava, ela não respondia. Ela também tinha problemas para ficar em um único lugar e frequentemente desaparecia antes que qualquer um pudesse perceber. E no fim, ela sempre era encontrada em lugares bizarros.

Não foi apenas uma vez que os aldeões tiveram que procurá-la. Ainda assim, nenhum deles a rejeitou e eles simplesmente cuidavam dela de forma gentil.

Todos a viam como uma criança que eles precisavam proteger.

E quando ela fez oito anos, sua avaliação repentinamente mudou.

A razão pela qual ela encarava inexpressivamente o céu era porque ela estava encontrando perguntas de todo o mundo e pensando sobre suas respostas. A razão pela qual ela nunca respondia era porque as perguntas exigiam toda sua atenção e ela nem mesmo percebia que você estava falando com ela para começar. A razão pela qual ela nunca ficava no mesmo lugar era porque assim que ela se interessava por alguma coisa, ela perderia de vista todo o resto.

O professor que percebeu seu talento também era um estranho. Embora ele tivesse se formado em uma universidade de elite na Capital, ele virou as costas para o caminho de se tornar um oficial e, ao invés disso, veio ensinar na escola da pacata aldeia em que Mira vivia.

Uma vez Mira havia lhe perguntado o porquê de ele vir para a aldeia dela.

Ele deu um sorriso como se estivesse zombando de si mesmo e murmurou:

“Porque eu descobri que era como um ribitt em um poço. Então eu fugi.”

“Mas você…” O professor disse enquanto colocava suas mãos sobre a cabeça de Mira.

Não muito tempo depois, ele aconselhou os pais dela a deixá-la atender a uma escola na Capital.

De início eles duvidaram das palavras dele, quando ele alegou que a filha deles era incontestavelmente uma gênia.

Mas após eles verem Mira se destacando com seus ensinamentos, eles começaram a seriamente considerar isso.

Porém a própria Mira se recusou.

Cultivar zhaltkane garantia um estilo de vida estável. Mas sustentar um filho vivendo na capital com isso não era tão fácil.

Não apenas isso, Mira era uma menina. Mesmo se ela se tornasse uma excelente estudante com notas fantásticas, longe de se tornar uma oficial de alto nível, era incerto até se ela conseguiria entrar numa universidade.

Não havia sentido em forçar um fardo sobre seus pais e seus dois irmãos se ela não poderia restituí-los.

O professor lamentou por seu talento, mas Mira não tinha arrependimentos.

Mira sabia que havia muitas coisas para aprender, mesmo sem ir para uma universidade chique na Capital.

As flores nos campos, os insetos que rastejavam pela terra, a lua e as estrelas que brilhavam no céu noturno; perguntas sobre o mundo eram infindáveis e jamais lhe faltariam coisas sobre as quais ponderar. Para Mira, tudo ao seu redor também podia ser um professor.

E assim, o valor de Mira havia mudado completamente após o professor se mudar para a aldeia.

Até os oito, ela havia recebido a mesma preocupação dada a uma criança distraída, mas após isso ela passou a ser elogiada como uma prodígio.

Agora que ela tinha vinte anos, seu valor havia mudado mais uma vez.

― A diferença entre um gênio e um idiota é tão fina quanto uma folha de papel.

Às vezes em descrença e às vezes por pura zombaria, essa frase havia começado a ser usada para descrevê-la.

Embora ela fosse mais velha agora, nem sua ocasional distração, nem seu hábito de desaparecer haviam sido realmente consertados. Ela estava dolorosamente consciente de que isso era um problema.

Mira sabia melhor do que ninguém que essa nova avaliação se encaixava perfeitamente nela.

E agora, considerando a situação em que ela atualmente se encontrava…

“…Eu realmente devo ser uma idiota.”

Ela murmurou enquanto soltava um longo suspiro.

Por que as coisas haviam chegado nesse ponto…?

Tudo começou com o lago na borda da aldeia. Ela havia decidido observar os ovos de um inseto que fazia seus ninhos em folhas de asch, encontradas nas margens do lago. Foi então que ela percebeu a mudança.

Embora não tivesse chovido, o nível da água havia aumentado.

Nesse ponto ela deveria ter corrido de volta para a aldeia e discutido isso com os aldeões e seu professor.

A água do lago era usada para irrigação, assim como para os campos. Uma mudança no lago era um assunto sério para a aldeia.

Mas o hábito ruim de Mira mostrou a cara nesse instante.

Com uma nova pergunta em sua mente, todo o resto foi deixado de lado.

Era como se todos os sons nos seus arredores desaparecessem e sua visão se estreitasse até ela conseguir ver apenas uma coisa.

Tudo o que ela sabia era que isso tinha a ver com lago.

Mira deu a volta no lago e percebeu que um dos córregos que o alimentava havia se aprofundado. Assim ela começou a seguir rio acima.

Ela continuou a observar enquanto andava, atenta ao terreno sob seus pés. Quando a noite caía, ela construía uma fogueira e descansava, e quando o dia amanhecia, ela voltava a sua caminhada.

Mira continuou a andar, enquanto agradecia a sua mãe, que havia preparado comida e uma pederneira por causa do seu hábito de perambular e finalmente, ela chegou no que ela acreditava ser a fonte.

Ela estava em uma floresta agora.

Uma floresta comum de zuki onde os aldeões frequentemente vinham para procurar por madeira.

Mas havia uma mudança clara. O chão estava lamacento em uma grande área da floresta.

O rio continuava além do rio, mas a lama parava por ali. Era provável que aquele lugar fosse a causa então.

Com um galho, Mira cavou o chão aqui e ali. Apenas cavar um pouco já era o suficiente para encontrar água.

Árvores zuki preferiam um ambiente mais seco. Encontrar esse tanto de água aqui significaria que as mais saudáveis árvores dali iriam apodrecer e morrer um dia.

Quanto à causa, primeiro Mira considerou as mudanças no clima, fazendo o pico de uma montanha em algum lugar descongelar e alagar o lugar.

Mas que estranho seria então, já que apenas esse lugar estava molhado.

Nesse caso, a ideia seguinte que ela formulou foi uma mudança nas correntes do lençol freático.

Considerando que mais água escapava quanto mais ela cavava, isso parecia estar correto.

Nesse momento, o aumento do volume de água era apenas o suficiente para cobrir a floresta. Mas se ele continuasse a aumentar, ou talvez se as correntes da água subterrânea mudassem de novo, então o zhaltkane sem dúvidas também seria afetado.

Dessa vez ocorreu-lhe a ideia de voltar para a aldeia.

Ela andou ao redor do atoleiro, medindo sua extensão, assim como o nível da água nas árvores molhadas.

Então, quando ela estava prestes a pensar em voltar e estava limpando suas mãos enlameadas nas roupas, aquilo aconteceu.

Dois pequenos animais com orelhas longas nunca vistos antes apareceram diante dela.

O animal pulou para fora de um buraco do tamanho de aproximadamente duas mãos fechadas e então começou a coçar a base de suas orelhas com as patas traseiras.

Seus olhos eram redondos e embaixo da lama, havia pelo branco. Após sacudir a lama de seu pelo, ele percebeu Mira e então pulou para dentro da floresta.

Nesse momento a ideia de voltar para a aldeia desapareceu de sua mente.

Ela seguiu atrás dos leves animais saltitantes. Ela estava sem fôlego e suas pernas estavam sujas de respingos de lama, mas Mira não se importou com isso.

Após uma longa, longa perseguição, ela repentinamente acabou.

Foi quando ela deixou a floresta e havia acabado de chegar num campo de grama.

O animal soltou um grito e então repentinamente suas longas orelhas não podiam mais ser vistas por cima da grama.

Ela correu até onde eles estavam em pânico e descobriu que os dois animais jaziam ali, sangrando.

Se perguntando o que raios havia acontecido, ela olhou ao redor, mas viu apenas grama, sendo soprada pelo vento.

Embora Mira sentisse que havia algo de errado, ela pegou os dois animais, planejando levá-los de volta para estudá-los.

Pensando nisso, isso havia sido um erro.

Assim que ela registrou dois lustrosos bastões negros, se erguendo da terra ensanguentada, aqueles bastões acabaram por se tornar um gigantesco inseto que apareceu diante dela.

Vendo ele estalar aqueles órgãos que pareciam com antenas sensoriais, Mira imediatamente colocou os animais em sua bolsa e correu.

Enquanto corria, ela olhou para trás e descobriu que o inseto havia desaparecido… No seu lugar, uma protuberância no chão parecia a seguir.

Isso era ainda mais assustador do que ter o inseto a perseguindo a céu aberto.

“Gyaaaaaaaaaaaaaaaahhhh! Fique longee! Por favor, fique longee! Eu sou apenas pele e ossoss! Eu não sou deliciosa de verdadee!”

O enorme inseto respondeu sua súplica desesperada saindo de debaixo da terra.

Mira se agarrou a uma árvore solitária na planície, desesperadamente tentando subir nela.

Subir em árvores não era seu ponto forte, mas seu desespero de alguma forma a fez subir.

Mas ela não podia relaxar. Embora as seis patas ossudas do inseto não parecessem adequadas para subir em árvores, se ele de fato conseguisse escalar, seria o fim da linha para ela.

Com a face suja de muco e lágrimas, Mira rezou para que ele não fosse capaz de alcançá-la.

Mas a oração de Mira foi respondida de uma forma misteriosa.

Um menino e então, por alguma razão, uma mulher seminua. Dois fantasmas apareceram para salvá-la.

Ordenada pelo menino fantasma, ela jogou as bestas de orelhas longas ― aparentemente chamadas de sunarabi ― para longe dela.

A dupla de fantasmas imediatamente desapareceu, mas o inseto ― chamado de arrijighock pelos fantasmas ― ficou ali por um tempo, perto do sangue do sunarabi.

Suas mãos, ainda tremendo de terror, esfregaram a roupa molhada do menino fantasma em sua pele.

Apenas depois de ter certeza de que o forte cheiro havia sido transferido para sua pele, ela finalmente pôde se sentir aliviada.

Assim como o menino sugeriu, Mira forçou sua mente assustada a voltar a funcionar e percebeu que o arrijighock estava se afastando do cheiro.

Ela então esperou pacientemente.

O arrijighock perambulou pesarosamente ao redor das manchas de sangue antes de, eventualmente, desaparecer para dentro da terra.

Assim que o sol havia se posto totalmente, ela enrolou as roupas do menino fantasma ao redor de suas pernas e desceu da árvore.

Então ela correu.

Ela correu e correu e correu.

Ela havia relutantemente deixado para trás a bolsa manchada de sangue.

Graças a isso, a pederneira, a pequena capa de couro ensopada de óleos para repelir a chuva, assim como seus alimentos de viagem haviam sido perdidos.

Foi apenas quando seus joelhos começaram a tremer, quando suas pernas começaram a ficar fracas e quando ela estava certa de que não conseguiria correr mais nenhum passo, ela finalmente encontrou um pedregulho para subir.

Ela molhou sua garganta dolorida com a saliva e então deitou sobre a pedra. Olhando para o céu estrelado, ela finalmente se acalmou.

Havia muitas coisas sobre o que pensar. Uma mudança nas correntes do lençol freático, os sunarabi e o arrijighock. Ela tinha várias perguntas sobre os fantasmas também, mas considerar isso também teria excedido a capacidade de Mira.

Ela decidiu esquecer disso por enquanto.

Mira apenas pretendia usar isso para se acalmar, mas enquanto traçava cada constelação, uma de cada vez, eventualmente ela acabou absorvida nisso.

Após traçar mais de cinquenta constelações, suas pálpebras começaram a ficar pesadas.

Um pouco antes de ela finalmente adormecer, uma vontade que suprimiu até mesmo o sono a assaltou.

― Meu estômago… Dói…

Era porque ela havia sido exposta a muito medo, ou era porque ela havia se deitado nesse pedregulho frio sem secar o suor?

Impelida pela dor intensa, Mira rolou para fora da pedra, cavou um buraco e então se agachou sobre ele e removeu as roupas.

Em algum ponto, seu suor havia ficado frio.

Depois de fazer isso a tempo e se aliviar da dor, ela olhou ao redor e então empalideceu.

Quanto ao motivo, era porque aquele lugar estava cercado por nada além de árvores urcyn, com sua seiva venenosa.

Se ela não tivesse estado tão obcecada em contar as estrelas, se ela tivesse cuidado da questão do frio, se ela tivesse observado a vegetação ao redor, se ela não tivesse perseguido o sunarabi e se ela tivesse simplesmente voltado diretamente do lago para começar…

O arrependimento a atormentou infinitamente.

Com apenas uma esperança restando, ela checou seus bolsos. Dentro de sua jaqueta, ela encontrou apenas um cilindro duro ao toque e ficou abatida. Era um zhaltkane. Antes de ir para o lago, ela havia ido para os campos tirar um pedaço para ver o quão bem as coisas estavam indo. Naturalmente ela não podia usar isso para se limpar.

Ela desistiria de se limpar ou iria lidar com as brotoejas?

Lamentavelmente presa entre essas duas escolhas terríveis, ela soltou um longo suspiro e murmurou para si mesma:

Eu sabia…

“… Eu posso realmente ser uma idiota.”

“Eh? Uma idiota?”

Embora ninguém deveria ter respondido, uma voz confusa alcançou seus ouvidos.

“Isso é estranho. Eu pedi para a janela me conectar a alguém inteligente.”

Os murmúrios vieram da voz de uma mulher jovem.

Mira virou a cabeça em confusão. Ainda havia um longo caminho até a aldeia e ela se lembrou de que não havia nem mesmo uma cabana ao redor. Esse não era um lugar para uma mulher estar vagueando no meio da noite.

“Bem, que seja.”

Mira pôde ouvir a voz perplexa da mulher do outro lado da pedra.

“Ummmm, você por algum acaso está com algum problema? Ou melhor, onde raios você está?”

“Eu-, eu estou aqui! Na verdade eu estou com um sério problema agora…!”

Era impossível para ela não suspeitar de uma voz no meio do nada. Mas você não poderia escapar de uma emergência sem se comprometer e, ainda mais importante do que qualquer outra coisa, o fato de ser uma mulher a havia encorajado a buscar ajuda.

“Hum? Do outro lado da pedra? Você poderia vir até aqui?”

“Isso é, umm, eu estou meio que presa aqui no momento…”

“Então apenas espere um pouco, certo? Eu vou pegar algumas roupas e sapatos e vou ai assim que estiver vestida.”

Mira ficou em silêncio.

Se ela precisava pegar roupas, então isso não significava que essa mulher estava nua no momento?

Mira havia checado várias vezes. Não havia nenhum sinal de qualquer ser humano nessa floresta. O que uma mulher estava fazendo andando nua por aqui!?

― Po-, poderia ser que ela está em um encontro amoroso…?

Apenas pensar nisso fez Mira ficar completamente vermelha.

E então o vermelho brilhante se tornou um branco mortal.

Se ela estava em um encontrou com um amante, então é claro que isso significava que havia um homem por perto. Se os dois viessem até ali, eles a veriam abaixada com toda sua bunda a mostra. Não, mesmo se fosse apenas a mulher, isso não mudaria o fato de que isso seria constrangedor.

Mira freneticamente a chamou para pará-la.

“P-pare, por favor. Será um pouco problemático se você vier aqui agora…”

“Oh. Mesmo? Isso é um problema. Eu na verdade queria te pedir um favor, mas… Ah, já sei!”

Aparentemente a mulher havia pensado em alguma coisa.

Mira esperou pacientemente.

Após um tempo, a voz da mulher soou de novo.

“Eu vou jogá-lo até ai. Pegue ele, certo?”

Eh? Pegar o que?

Antes que Mira pudesse perguntar, alguma coisa deslizou gentilmente pelo ar, pousando diante de seus olhos.

Quando Mira primeiramente viu isso flutuar pelo ar, ela pensou que era uma pipa de papel.

De fato, seu mestre era um entusiasta de pipas. Seu sonho era criar uma pipa grande o suficiente para carregá-lo. Para apoiá-lo, ela havia o ajudado com os esquemas e com os materiais, mas por alguma razão, os aldeões os impediram em pânico.

Por ela ter lido vários livros sobre a fabricação de pipas de papel da capital, ela tinha um pouco de confiança em seu conhecimento sobre elas.

Mas quando ela se esticou para pegar o papel, ela descobriu que ele era diferente de qualquer pipa de papel que ela conhecia.

A coisa em suas mãos havia sido criada com dobraduras.

Com uma cabeça pontuda e um par de asas, ele trouxe a imagem de um pássaro a sua mente.

A cabeça repetidamente dobrada e o peso adicionado a ele foram feitos para modificar seu centro de gravidade e aumentar o poder?

Curiosa sobre como ele havia sido feito, ela o desdobrou e ele se tornou um pedaço de papel em suas mãos.

Mira prendeu a respiração.

Dizia-se que os mercadores ricos da Capital usavam não folhas, mas papel, para limpar suas bundas!

A mulher com certeza devia saber do problema de Mira e enviou isso para ajudá-la, enquanto delicadamente fingia não saber de nada.

Embora Mira sentisse que era um desperdício fazer isso com uma pipa tão curiosamente dobrada, a mulher disse que ela também precisava lhe pedir um favor.

“Ei, ele te alcançou?” A mulher a instigou.

Mira se decidiu. Ela precisava devolver esse favor.

Um pouco antes de limpar sua bunda, algumas palavras se tornaram visíveis sob a luz da lua, mas ela não prestou atenção nelas e se limpou, antes de jogar o papel dentro do buraco e então enterrá-lo. Após ajeitar suas roupas, ela subiu na pedra. Como esperado a mulher estava do outro lado dela e, como esperado, ela estava completamente nua.

O inesperado foi que a mulher não era apenas uma mulher comum.

Mira se lembrou desse misterioso veículo retangular com suas luzes brilhantes.

A mulher era a fantasma que havia salvado Mira do arrijighock.

Quando ela viu um fantasma pela primeira vez, algo que ela sempre pensou ser imaginário, ela foi atingida por choque e então por medo.

Mas agora que um a havia salvado de uma crise, não uma, mas duas vezes, até aquele terror havia se suavizado um pouco.

“Muito obrigada. Você me salvou.”

Quando Mira saiu detrás da pedra, ela encontrou a mulher olhando para ela com surpresa.

“Eh? Te salvei?… Ou melhor, você não é aquela pessoa que foi atacada pelo arrijighock?”

“Sim. Muito obrigada por me ajudar naquela hora.”

“Você pode agradecer ao Roten. Eu não particularmente…”

Mira supôs que Roten era o nome do menino fantasma.

“Um, essa pode ser uma pergunta estranha, mas aquele inseto era seu familiar, Senhora Fantasma?”

Agora que havia encontrado com um fantasma pela primeira vez, ela sentiu sua curiosidade brotando.

“Ah, não, eu não sou um fantasma ou algo do tipo. Roten também não, é claro. Ah, mas a tribo do Roten, a tribo Ottko Yu pode se comunicar com os arrijighocks, então talvez, chamá-los de familiares não esteja inteiramente errado.”

“A tribo Ottko Yu. Eu já ouvi falar deles. A azarada tribo expulsa da terra da areia. Se eu me lembro corretamente, eles sobrevivem cavando poços ou algo do tipo…”

“O que… Então você realmente é inteligente.”

A fantasma… Ou melhor, a mulher nua, sorriu alegremente para ela.

“Me desculpe por ser tão direta, mas você pode me dizer o que a carta de antes dizia?”

Mira quase desmaiou ao tentar engolir seu grito.

Aquele papel não foi dado a ela para limpar sua bunda!?

“Após você terminar com isso, você pode fazer o que quiser com ela. É apenas uma hipótese, mas eu acho que ela será muito útil para você no futuro.”

Ela já foi útil…

“De qualquer forma, onde ela está?”

Talvez sentindo um pouco de dúvida sobre como Mira ficou tensa e silenciosa, a mulher olhou para ela como se procurasse algo.

“Eh? ….Ummm …Isso… Ummm…”

Suor frio escorreu por todo seu corpo.

A mulher disse que ela não era um fantasma, mas ela definitivamente era uma existência com poderes inumanos e transcendentes.

Se Mira ganhasse sua ira, ela poderia até perder sua vida.

“Oh? Ela não lhe alcançou? Talvez eu não devesse ter usado um aviaoum de papel…” A mulher murmurou enquanto coçava a cabeça.

Mira não conseguiu mais aguentar isso e se jogou no chão.

“Minhas profundas desculpas! Meu estômago estava mal e após eu terminar meus negócios, eu a usei para me limpar. Eu a enterrei com o refugo, m-mas havia algo importante escrito nela, não havia!? Eu vou desenterrá-la. Porém, como meu estômago estava mal, havia bastante líquido e… se algo ainda puder ser lido é…”

Ela realmente era uma idiota. A maior idiota em toda a terra. Apesar de ter acabado de sobreviver por um triz, ela havia acabado de jogar sua vida fora de novo. Ela não pôde evitar sentir arrependimento por não ser capaz de viver para ver seu mestre realizar seus sonhos de voar no céu.

“Aaahhhhhhhhhhhhhhh~~~ Não, isso é culpa minha…”

Ouvindo a voz perplexa, Mira olhou para cima e encontrou a mulher em seu juízo final.

“Então era isso que você queria dizer quando você não quis que eu fosse até você, huh.”

“Você não está irritada?” Mira perguntou timidamente.

A mulher simplesmente deu um sorriso autodepreciativo.

“Sem saber o que estava acontecendo, eu até mesmo fui e te pedi um favor. Isso foi culpa minha.”

“Eu realmente sinto muito…”

Mira abaixou a cabeça. A mulher supreendentemente era uma boa pessoa, o que fez Mira se sentir ainda mais patética por falhar em ajudá-la.

Ela tentou pelo menos se lembrar do que havia visto sob a luz da lua. Não era uma linguagem usada no Reino de Insen, mas ela se lembrava do seu mestre a ensinando no passado.

“Umm, pelo que eu posso dizer, eu acho que eu vi algo como “pepino” e “paródia”³ ou algo do tipo. Isso foi realmente tudo o que eu vi. Como eu possivelmente poderia me desculpar…”

“Ummm, não fique tão para baixo, certo? Ah-, Já sei! Eu na verdade tenho mais um favor para pedir, então talvez você possa me ajudar com isso? Por favor, me empreste o seu conhecimento. Eu estava procurando por alguém para ler aquela carta da flecha e me responder uma pergunta, você vê.”

“Eu vou fazer o que eu puder para ser útil.” Respondeu Mira, sua face agora se abriu em um sorriso brilhante.

“Graças a deus. Você vê, houve uma cerimônia para determinar o próximo chefe da tribo Ottko Yu e eu estava pensando sobre as palavras do arrijighock que o Roten ouviu enquanto nós estávamos lá.”

“As palavras do arrijighock?”

“Sim, eles ficavam dizendo: “Nós não podemos ficar aqui” e “Ele não está aqui” e “Vamos ir atrás dele” e eles estavam procurando pelos sunarabi. E também a Yuataree, ah, Yuataree é a irmã mais velha do Roten, você vê. Ela também é a nova chefe da tribo e disse que os insetos estavam murmurando alguma coisa de novo e de novo. Então, isso é apenas uma ideia, certo? Se todos os sunarabis tiverem desaparecido para algum lugar, então os arrijighock devem estar mortos de fome, certo? Então isso não significa que a tribo Ottko Yu também acabará em uma crise? Afinal, eles dependem uns dos outros, a tribo e os arrijighock.”

“Isso faz sentido.”

“E então o que eu queria perguntar é, para onde exatamente os sunarabi foram?  ― Na verdade, agora que você mencionou isso, você estava segurando um sunarabi na outra vez em que nós nos encontramos, não estava? …Onde foi isso?”

Mira podia gabar-se do seu descuido. Mas a mulher diante dela parecia ser uma boa oponente quanto a isso.

“Esse é o Reino de Insen. Nós estamos situados ao oeste-noroeste da terra da areia, Yohk’Zai.”

“…Então isso significa que nós estamos um pouco longe da tribo Ottko Yu?”

“Eu não sei exatamente onde a tribo Ottko Yu vive, mas eu suspeito de que nós estamos um pouco longe deles.”

“Eu suponho que nós estaríamos. Aah, geez, por que os sunarabi foram para tão longe. Não há nenhuma forma de nós fazermos eles voltarem? Nós poderíamos usar os arrijighock para conduzi-los de volta ou algo do tipo?”

Mira colocou a mão em seu queixo pensando por um tempo, antes de balançar a cabeça.

“Mesmo se nós fizermos eles voltarem, eu não acredito que será possivel levá-los de volta para onde a tribo Ottko Yu está vivendo. Primeiro, vamos pensar no motivo de os sunarabi terem se mudado para começar.”

Mira firmemente acreditava que tudo tinha uma razão.

Das mudanças na forma da lua até a razão pela qual macas caíam das árvores, nada disso acontecia ‘apenas porque sim’. Sempre havia uma razão.

Houve um incidente que ocorreu meio ano após seu professor se mudar para a aldeia. As baabaas da família de Mira, assim como das casas vizinhas, de repente começaram a ter problemas para produzir leite.

Os adultos todos ignoraram o problema e dispensaram isso com a razão de que “Bem, isso acontece de vez em quando”.

As vezes haveria muito leite e as vezes haveria pouco. Um dia, as baabaas começariam a produzir leite de novo, eles raciocinaram e deixaram isso de lado.

Mas Mira não pôde evitar pensar sobre isso. As baabaas da sua família eram todas jovens e comiam bastante também, então ela não conseguia entender o motivo de elas não produziriam mais leite.

Mira não pôde evitar desejar descobrir o motivo. Então ela faltou a aula e passou o dia inteiro as seguindo por ai. Ela esperou até sua família cair no sono e então, com um travesseiro em uma mão, ela esperou durante toda a noite ao lado das baabaas e finalmente descobriu a razão.

― Havia pulgas nas camas das baabaas.

As baabaas estavam sendo mordidas por muitas pulgas e por causa do desconforto, haviam parado de produzir leite.

Além da resposta, Mira também ficou com coceiras por todo seu corpo e ganhou um golpe do punho de seu pai na cabeça, assim como seus agradecimentos pelas dificuldades que ela passou.

Os aldeões imediatamente queimaram todas as camas e depois disso começaram passar veneno para pulgas.

Esse incidente deu confiança e aumentou a convicção de Mira.

Tudo acontecia por uma razão.

Os sunarabi não haviam simplesmente deixado sua morada anterior ‘apenas porque sim’. Eles não haviam simplesmente vindo para o Reino de Insen ‘apenas porque sim’.

Os arrijighock vieram atrás dos sunarabi.

Então do que os sunarabi vieram atrás, o que os trouxe por todo o caminho até aqui?

Os pensamentos de Mira imediatamente a levaram para um mundo de silêncio.

As anomalias no lago. A floresta enlameada. Os sunarabi que apareceram do buraco e os arrijighock que faziam túneis debaixo da terra.

― Finalmente a antiga profissão de Ottko Yu.

Os vários fios soltos se juntaram em uma única corda.

“Os sunarabi estão atrás de água!”

“Eh? Água?”

“Isso mesmo. As correntes da água subterrânea mudaram. Os sunarabi que eu encontrei provavelmente se movem entre a superfície e os lençóis freáticos. A razão pela qual a tribo Ottko Yu era capaz de cavar poços no passado era porque os arrijighock caçavam os sunarabi e a tribo podia usá-los para determinar o fluxo da água subterrânea!”

“Oohh!” A mulher exclamou enquanto batia palmas. “Nesse caso, a tribo Ottko Yu provavelmente não vai poder continuar a morar onde eles estão agora, huh.”

Mira assentiu.

O problema se estenderia além da tribo Ottko Yu. Se as correntes da água subterrânea haviam mudado, isso iria afetar as terras em todos os lugares. Em Insen também.

Mira tirou o zhaltkane de seu bolso.

“O que é isso?”

Zhaltkane. Você me faria o favor de olhar para ele?”

Mira entregou o zhaltkane e a mulher o examinou com curiosidade de vários ângulos.

“Esse é um condimento que a minha aldeia cultiva, mas por causa das mudanças no lençol freático, nós podemos não ser mais capazes de continuar…”

A voz de Mira estava sombria. Como ela iria dar essa notícia chocante para os aldeões que dependiam disso para seu sustento?

“Eu vejo. Então não são apenas os de Ottko Yu que estão com problemas. Hummm… Para ser honesta, eu acho que eu já ultrapassei bastante o apenas ‘me intrometer’ agora…” A mulher murmurou impotentemente. “Eu deveria deixar o Roten saber primeiro? Mas então…”

A mulher gemeu.

“Hahh, eu acho que eu vou apenas descansar por hoje. Amanhã eu tenho que acordar cedo. Isso é, uh, zhaltkane, certo? Eu posso ficar com ele? Se eu não levar alguma coisa daqui, eu posso não ser capaz de me conectar com a próxima pessoa.”

Mira não entendeu do que ela estava falando, mas não era nada perder um zhaltkane ou dois. Ela imediatamente assentiu.

A mulher ergueu os braços de forma cansada e colocou as mãos sobre a borda do veículo.

Um pouco antes de a mulher desaparecer, Mira se lembrou.

Não era “pepino”, era “menino”. E não era “paródia”, era “custódia”.

“A carta! Ela dizia “menino” e “custódia”!”

Mira rapidamente gritou um pouco antes, longe de apenas a mulher, até o veículo desapareceu sem deixar um único traço ―

Oh Deus. Eu ainda não lavei minhas mãos…


Tradutora: Brinn | Revisor: Ryokusan000



1 – Se parece com a palavra “sugarcane”, que é cana-de-açúcar em inglês, provavelmente deve ser parecido com isso em vista da descrição mais para frente.

2 – “Havia tanta coisa para fazer que você gostaria até mesmo da ajuda de um khat.” Se você trocar ‘khat’ por ‘gato’, você tem um ditado japonês que significa ‘muito ocupado’.

3 – Essas não são as palavras originais, mas era preciso usar algo com sílabas similares às palavras reais, então eu escolhi essas. Na tradução estava “toy” e “custard”, respectivamente “brinquedo” e “creme”.


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