BG – Capítulo 12



Eu já sei. Eu acho que eu vou me matar.

A ideia veio a sua mente enquanto Cornou estava escovando seus dentes após o jantar.

Já fazia dez anos desde que ele havia se tornado o Rei. Durante todo esse tempo, ele havia escondido seu verdadeiro eu e feito o seu melhor para manter a máscara de um esplendido governante.

A nação estava lutando contra a fome quando ele sucedeu ao trono.

Quando ele o fez, ele começou a abaixar os impostos.

Cultivando as terras, tentando controlar as inundações, preparando um sistema de irrigação, ajustando e arrumando as leis… Sete anos de luta contra os problemas enfrentados pela nação até finalmente os impostos gerarem lucros de novo. Até agora ele ainda estava lutando para dar suporte a educação.

A nação finalmente viu a luz do dia.

Os cidadãos proferiram elogios para ele. Recentemente, até pessoas de países vizinhos o estavam elogiando como um rei sábio.

Mais! Me elogiem mais!

Essa havia sido sua reação até apenas três dias atrás.

Mas agora, até os elogios pareciam irritantes.

Para ser honesto, Cornou na verdade odiava problemas. Não, não apenas problemas. Coisas que machucavam, coisas que eram difíceis, coisas que eram tristes. Ter que se esforçar, ter que aguentar, ter que trabalhar. Ter que sair da cama, ter que se concentrar, ter que treinar. Todas essas coisas ele detestava. Ele detestava até montar no ooma quando percorria o país pelo céu e ele achava que falar com as pessoas também era cansativo.

Se ele pudesse, ele preferiria se enfiar em seu quarto e se devotar aos seus hobbies.

Um homem como ele havia encarado os astutos velhos políticos em nauseantes batalhas de inteligência e coisas do tipo. Ele havia gastado dez anos inteiros reformando o país e a razão era bem simples, para que a mulher que ele amava olhasse para ele.

Mesmo agora, ele se lembrava daquele dia, quinze anos atrás, quando os dois se conheceram pela primeira vez.

Naquele tempo, Cornou havia acabado de fazer treze e ela tinha apenas cinco anos.

A menina havia subido em uma árvore sem pensar e estava morrendo de medo porque não conseguia descer.

Com seu brilhante cabelo vermelho como fogo e seus brilhantes olhos azuis como um lago, suas estonteantes feições deixavam uma forte impressão.

Naquele tempo ela era uma criança enérgica, condizente com a cor de seu cabelo e era o completo oposto do inteligente, mas recluso Cornou.

Os pais dos dois brincaram que se eles apenas pudessem dividir a inteligência de Cornou e a energia da menina entre eles, eles seriam perfeitos.

Ele a veria de poucos em poucos anos e a cada vez ela ficava ainda mais bonita, permanecendo vivaz como sempre e, à medida que o tempo passou, seus sentimentos para com ela também mudaram. De uma irritante e barulhenta criança, para uma menina que ele considerava como irmã e então de uma irmã mais nova para a menina por quem ele estava apaixonado.

Ele queria combinar com ela.

Ele queria ser digno dela.

Ele queria melhorar o país para que ele pudesse trazê-la ali com orgulho.

Com isso em mente, Cornou colocou o seu odiado ‘esforço’ em esconder seu verdadeiro eu e atuou como o rei perfeito.

Depois de pouco tempo, seus esforços renderam resultados e quando Hitow fez dezesseis, ele enviou uma proposta de casamento, a qual o pai dela, o Rei de Sunayu, aceitou com prazer.

O Rei Sunayu queria casá-los exatamente naquele instante, mas foi o próprio Cornou quem pediu para esperar.

Hitow estava ficando mais bela a cada dia e por medo de tê-la roubada, Cornou havia enviado uma proposta. Ainda assim, sua nação ainda não era adequada para ela.

Nos quatro anos até seu casamento, ele iria restaurar e desenvolver ainda mais sua nação.

Quando ele imaginava a vida que eles viveriam juntos, seus passos ficavam leves e até ir para fora se transformava de um inferno para um paraíso. Os velhos barbados de merda que não faziam nada além de reclamar até se transformavam em estúpidas, porém adoráveis crianças para ele.

E então finalmente, finalmente, quando tudo já estava pronto para recebê-la…

‘Eu gostaria de adiar nosso casamento. Tendo dito isso, você já está na idade certa para se casar. Eu tenho certeza de que você tem pressa para conseguir um sucessor. Seria contra a minha consciência atrasar o nascimento do seu herdeiro devido a circunstâncias dentro da minha própria nação. Se você desejar anular nosso noivado, também estará bem.’

Quando ele enviou uma mensagem para informá-la de que o dia do casamento deles estava chegando, a resposta que ele recebeu fez o sangue ser drenado de sua face. Ou melhor, tanto sangue deixou sua cabeça que ele desmaiou.

A carta dizia que ela desejava adiar as coisas e ainda assim, ela não deu razões. Em outras palavras, ela simplesmente queria anular o noivado deles.

O que ele fez, o que ele comeu, como ele gastou os últimos três dias, ele honestamente não se lembrava.

Por três dias ele havia estado em uma concha e apenas agora, enquanto escovava seus dentes, ele voltou aos seus sentidos.

Repentinamente, nada mais parecia ter importância.

Sair agora não era nada mais do que doloroso e os velhos barbudos voltaram a ser assustadores.

Ele estava cansado disso.

Ele estava cansado de tudo isso.

Ele estava cansado de dar tudo de si e de aguentar tudo.

Um vento ocidental começou a soprar. As décadas de calmaria estavam acabadas. A brisa havia finalmente se transformado numa tempestade e Cornou sentiu, não, ele sabia que um redemoinho estava se aproximando.

Ele não achava que seria capaz de resistir à tempestade sem a Princesa Hitow.

Então ele decidiu que iria desaparecer antes que a tempestade sequer chegasse.

Cornou preparou uma corda resistente.

Após puxá-la algumas vezes para testar sua força, ele a jogou sobre uma viga e fez um laço.

Subindo em cima de uma cadeira, ele passou seu pescoço pelo anel formado pela corda.

Tudo o que ele precisava fazer era chutar a cadeira para longe e tudo ficaria bem. Ele ficaria livre de todos os problemas.

Cornou fechou seus olhos.

“O que você está fazendo!” Uma voz grave soou.

Ela pertencia a um homem que conhecia o verdadeiro eu de Cornou; Baz, seu confiável subordinado.

Baz era a única pessoa com permissão para entrar nos aposentos de Cornou.

Por que raios ele estava aqui? Cornou havia claramente lhe dito que ele precisava pensar e que ele queria ficar sozinho.

“Por favor, pare com isso! Você precisa parar com isso, por favor!”

Cornou não se virou para encará-lo.

Ele não queria acabar com sua própria vida na frente de seu amigo, mas ao mesmo tempo, fazer isso livraria Baz desse problemático senhor dele.

Quando era mais novo, Baz secretamente comia as cenouras dele. Ele ajudava a limpar sua cama molhada, o que continuou acontecendo até Cornou ter dez anos. Após Cornou se tornar o Rei, ele iria pacientemente acordar seu senhor que odiava as manhãs e quando Cornou tomava decisões que ele pessoalmente odiava, Baz iria ouvir suas reclamações até tarde da noite.

Adeus Baz. Por favor, viva para si de agora em diante.

Cornou respirou fundo.

-clang-

Quando de repente um brilhante retângulo de luz apareceu com um ruído.

Cornou prendeu a respiração.

Era um espaço retangular bem iluminado, que parecia estar suspenso no ar. E dentro dele, uma mulher. Seu cabelo negro e molhado estava grudado em sua face e seus olhos mais escuros do que a noite mais profunda o observaram.

“Hii-!”

Um pequeno grito escapou de sua garganta.

“Que tim’ing¹ péssimo.” Gemeu a voz baixa da mulher.

Havia espuma branca sobre todo seu cabelo e ombros nus.

No momento em que viu isso, Cornou já sabia quem ela era. Ela era uma mulher que havia rastejado de dentro da terra dos mortos, nas profundezas da terra. Ela era um espectro. E julgando pela espuma, ela havia vindo do Pântano de Espuma do Inferno, onde os pecadores se afogavam pela eternidade.

Suicídio era proibido. Dizia-se que aqueles que acabavam com suas próprias vidas jamais se juntariam ao círculo da vida de novo, condenados à prisão nas profundezas da terra. Cornou sempre havia considerado isso como uma velha e ridícula superstição, mas agora ele detestava a si mesmo por sua estupidez.

“Eu vou ir colocar o meu rou’pão de ba’nho², então apenas espere aqui. Ouça-me, certo? Você não pode se mover daí de forma alguma!”

Em outras palavras: “É melhor você não fugir de mim.”

Esse espectro estava aqui para arrastá-lo para dentro do abismo.

Seus joelhos fraquejaram e então a força deixou suas pernas. Seus dentes não ficavam fechados e tremiam apesar de contra sua própria vontade.

A tremedeira alcançou seu corpo inteiro ― e assim ele perdeu o equilíbrio.

A cadeira começou a se inclinar e o laço a se tencionar ao redor do seu pescoço.

“Rei!”

Ele havia se esquecido de Baz devido ao seu terror.

“Aahhh! Eu te disse! Eu te disse para não se mover! Aahh, geeezz, como eu poderei me vestir enquanto você está assim!? Umm, ummm, O QUE EU FAÇO!? AH-, EU JÁ SEI!”

A mulher deslizou pela entrada do submundo.

Suas mãos agarraram uma enorme tesoura, que tinha o comprimento do seu braço.

“HIIIIIIII!”

Cornou tentou desesperadamente endireitar a cadeira, mas suas pernas tremulantes não o obedeciam e o laço apenas se apertou.

-pechan-

-pechan-

Água pingava da mulher enquanto ela se aproximava.

Espuma escorreu de seu cabelo e corpo nu, molhando o chão embaixo dela.

A tesoura brilhou sob a luz.

Cornou estava prestes a se molhar.

Os braços encharcados encontraram o caminho para as pernas de Cornou.

Estava acabado.

Cornou achava assustador quando aqueles velhotes gritavam. Mas eles não eram nada quando comparados ao horror que ele sentia dessa mulher espectral.

Ele teria continuado a viver mesmo se isso levasse à rejeição da Princesa Hitow se ele soubesse que as coisas acabariam desse jeito.

Cornou sentiu lágrimas se juntarem em seus olhos.

A mulher colocou uma perna sobre a cadeira inclinada e se ergueu na direção dele.

As pernas da cadeira endireitada bateram ruidosamente contra o chão.

“GAHAH-!”

Por um instante o laço se afrouxou e o ar entrou em sua garganta.

A mulher subiu mais, quase grudada à pele de Cornou enquanto erguia a tesoura em suas mãos.

Era impossível até mesmo gritar.

Cornou se encontrou completamente congelado.

O corpo cor de mel estava pressionado contra o dele, sua figura era magra o suficiente para que ele pudesse facilmente empurrá-la para longe. Mas apesar disso, ele não conseguiu impor a menor resistência.

As lâminas agora apontavam para cima de sua cabeça.

-snip-

Assim que ele registrou o som, a corda caiu de cima dele. Tendo perdido seu suporte, Cornou caiu da cadeira.

Por tê-la coberto rapidamente, não houve nenhum ferimento em sua cabeça.

Ainda assim, seu corpo havia atingido o solo.

A dor o fez fazer uma careta enquanto ele começava a se sentar, quando repentinamente alguma coisa macia caiu sobre ele.

“Owowow…”

Era a mulher espectro.

“Ah-…”

Por reflexo ele havia a suportado com seu braço, mas a sensação que foi transmitida a sua pele era surpreendentemente macia.

Cornou corou.

Era lamentável que mesmo por um momento um espectro o fez se sentir dessa forma. O fato de que ele havia há muito tempo se comprometido com a Princesa Hitow era ainda mais importante.

Ele empurrou o corpo macio para longe dele.

E quando ele o fez, a mulher piscou e então…

“GYAAAAAAAAAH!”

Gritou.

“RO-, ROUPAS! ROUPAS!”

A mulher empalideceu enquanto olhava para seu próprio corpo.

Ela é um espectro, mas ainda é uma mulher, eu acho. Cornou pensou em transe.

Enquanto se sentava ali vagamente, ele a viu se levantar pelo canto de seus olhos e voltar para o portão do submundo.

Mas após apenas dois ou três passos, ela deu meia volta e andou de volta até Cornou.

Colocando as mãos sobre o laço ao redor de seu pescoço, ela olhou para ele ressentidamente e disse:

“Eu estou confiscando isso! Eu não sei o que aconteceu, mas você ainda é jovem, então o que você acha de tentar por um pouco mais de tempo?”

Ainda sentado no chão, Cornou simplesmente assentiu.

Ele não tinha ideia do porquê, mas aparentemente ela havia desistido de levá-lo para o submundo.

A mulher correu pelo chão molhado antes de pular de volta para dentro da porta retangular.

Segurando a corda perto de seus seios, a mulher agora completamente vermelha, falou para Cornou:

“Isso não irá acontecer de novo, entendido! Isso é demais para as minhas emoções, então você terá que dar um jeito em si mesmo.”

Novamente, Cornou assentiu.

Com um ruído, a porta desapareceu.

Cornou lentamente fechou os olhos e então os abriu de novo.

Paredes brancas acinzentadas e uma janela construída nelas. Pela janela, folhas verdes farfalhavam com o vento.

As coisas estavam de volta ao normal.

O espectro havia partido.

Cornou olhou ao redor do quarto familiar.

Havia um ditado que dizia ‘quando às margens chegar, pare de orar’.

Talvez ele poderia normalmente se esquecer do terror e imaginar que isso tudo foi um sonho, mas as afiadas lâminas da grande tesoura ao lado pareciam lhe alertar e a espuma também não havia desaparecido do chão.

Falando nisso…

Cornou se virou e encontrou Baz caído sobre a parede da soleira da porta. Aparentemente suas pernas haviam cedido. Ele estava sentado ali encarando na direção do agora desaparecido espectro, se esquecendo até de piscar.

“Você não precisava de alguma coisa?” Perguntou Cornou.

“Si-. Sim. Certo. Isso mesmo.”

Ainda parecendo atordoado, Baz se virou para encarar Cornou.

“A Princesa Hitow está aqui.”

Cornou duvidou de seus ouvidos.

Embora eles se conhecessem há muito tempo, quando a realeza visitava uma a outra, eles sempre enviavam um mensageiro com dias de antecedência.

Mas essa precipitação era um pouco a cara dela.

Sem pensar, os cantos de sua boca se ergueram num sorriso.

Ela provavelmente estava aqui por causa do casamento.

Cornou se levantou.

Ele levemente bateu em suas roupas para endireitá-las.

Talvez a Princesa Hitow estivesse aqui para cancelar o casamento. Se esse fosse o caso, talvez ela fosse cuspir duras palavras de rejeição sobre ele. Mas misteriosamente ele não pensou em fugir.

Se houvesse alguma coisa nele que ela não gostava, então tudo o que ele teria que fazer seria corrigir isso.

Se o problema na verdade fosse com ela, então tudo o que eles precisariam fazer seria trabalhar juntos para resolvê-lo

Contanto que ela estivesse ali, esforço, resistência, ele daria seu máximo.

Assim que ele imaginava se encontrar com aquele assustador espectro de novo, parecia que não havia nada que ele não pudesse fazer.

Seguindo para a porta, ele esticou seu braço para Baz.

Após erguê-lo, ele viu a boca de Baz se torcer num sorriso.

“Eu tenho certeza de que são boas notícias.”


Tradutora: Brinn | Revisor: Ryokusan000



1 – Aqui ela diz literalmente ‘timing’ (taimingu) que é uma palavra emprestada do inglês para o japonês, por isso ele não conseguiu entendê-la. ‘Timing’: hora, tempo.

2 – Mesmo caso do “Timing”, nesse caso a palavra é Bathrobe (baasuroobu).


Fontes
Cores