Arifureta – Capítulo 151 – O caminho de Hajime


— Está tudo bem? — Na sala de estar da casa de gelo, Suzu murmurou para si mesma com uma voz ansiosa enquanto estava sentada no sofá.

Dessa forma, Kaori, que também estava sentada no sofá, perguntou de forma gentil: — O que “está tudo bem”?

— Mmm? Tudo isso? Nagumo não ficou inconsciente? Podemos voltar ao Japão, de verdade? Kouki vai ficar bem? Essa viagem ao território dos demônios… essa…

Depois de descansar esse período, o corpo pôde relaxar sem mais nada a fazer além de pensar nessas coisas diferentes.

Desde que Hajime começou a fazer o artefato usando a magia conceitual, eles se trancaram no quarto pelas últimas duas horas.

Se você incluísse o tempo que Hajime e Yue haviam desmaiado, onde não tinham nada para fazer, o resto do grupo teve muito tempo para se recuperar. Isso lhes deu tempo para pensar em coisas desnecessárias.

— Suzu-chan… estamos seguros. Hajime vai superar qualquer dificuldade. E com Yue ao seu lado, o impossível se torna possível.

— Kaori…

— Além disso, cabe a Kouki fazer algo sobre si mesmo. É claro que eu vou ajudar o máximo que puder. Assim como Eri, eu acho… sim, precisamos seguir em frente. Não há nada mais a fazer. Pensar demais só a deixará cansada.

Para o encorajamento simples, Suzu respondeu por instinto com surpreendente coragem. — Kaori… se tornou formosa. Você já foi completamente influenciada por Nagumo-kun.

— É diferente, Suzu. Por muito tempo, Kaori só seguia em frente quando podia decidir. As decisões dela, 90% das vezes, são para avançar.

— Suzu-chan, isso é… Shizuku-chan… tão cruel… eu não sou como Ryutaro-kun…

— Ei, Kaori… por que ser igual a mim é considerado cruel? Estou percebendo um abuso casual? — Ryutaro falou com uma expressão amarga, o que não preocupou ninguém.

Embora Kaori estivesse com os lábios um pouco emburrados, ela se lembrou na mesma hora e fixou os olhos em Suzu.

— De qualquer forma, não sei como as coisas vão acontecer com Eri, mas vou te seguir e ajudar. Se as coisas derem errado, precisaremos sair do meio de uma confusão.

Kaori declarou algo assustador de forma suave, mas foi com outra palavra que Suzu se surpreendeu. Piscando pela surpresa, ela respondeu com timidez para confirmar.

— Ó, ó, então Kaori virá comigo?

— Claro, eu não posso negligenciar Shizu e Suzu.

— Mas, Hajime…

— É o mesmo para Shizu-chan, vai demorar um pouco até termos o artefato que nos permitirá retornar. Também precisaremos nos encontrar com Remia e Myuu. Não posso ajudar com o artefato, então acho que o que devo fazer é proteger Suzu…

— Ah… Kaori é… uma boa menina, uma menina muito boa… e, muitíssimo obrigada.

— Suzu-chan, o que há com esse sotaque de Kansai1?

Com as palavras de Kaori, Suzu fez uma piada enquanto limpava uma lágrima. Ela estava com muita vergonha para retribuir seu sentimento com seriedade.

— Se Kaori for, você ficará bem. Hmmm… antes que essa vá para o mundo do Mestre, esta também deve voltar para seu clã.

— Isso mesmo Tio-san. Você é filha do clã dos dragões. Como é que eu fui me esquecer disso?

— Bem, o que posso dizer… será que você gostaria de conhecer os ryujin?

— Bem, temos a magia de transferência espacial configurada para podermos ir imediatamente para lá. Eles estão além das montanhas do norte — do outro lado do continente, em uma ilha solitária.

Tio lançou um olhar confuso, e Shia se lembrou de sua memória. Quando eles deixassem este mundo, a ryujin pensou que talvez não tivesse tempo para visitar sua família.

— Bem… bem, esse com certeza é o caso. Se esta pudesse receber uma punição ciumenta de amor do Mestre antes de partir, isso seria… vamos dobrar a velocidade. Voltar para casa pelo portal!

— … se voltarmos e seus parentes virem sua expressão extasiada no rosto… eles ficarão chocados. Seria bom se isso não se tornasse um caso de pânico generalizado.

Enquanto Tio imaginava o amor de Hajime e exibia um sorriso malicioso, Shia e as outras tinham um sentimento de náusea ao imaginar o desagrado dessa reunião.

Depois de voltar e ver Tio, que se transformou em algo distorcido, que tipo de reação os dragonianos teriam? Como Shia imaginou, Hajime precisaria assumir a responsabilidade. A garota-coelho soltou um suspiro ao imaginar o que deveria ser feito com a família da ryujin.

Nesse ponto, a porta da sala fez um barulho ao se abrir lentamente.

— Desde quando estamos aqui…

— Ó, Kouki. Você acordou, como se sente?

Foi o Herói quem entrou. Parecia que ele acordou para encontrar os outros membros.

Embora o objetivo de Shizuku parecesse indiferente, ela ocultou sua vigilância com um sorriso enquanto perguntava sobre a condição do amigo. Kouki sorriu de volta, da mesma maneira, contudo, parecia que sua expressão estava sombria.

— Eu estou bem, me desculpe, preocupei vocês.

— Está tudo bem, desde que você esteja seguro.

— Parece que eu me recuperei.

— Isso é ótimo.

Shizuku se alegrou com a recuperação de Kouki. O Herói sorriu mais uma vez e olhou ao redor da sala procurando por alguém. Sua expressão endureceu como se ele estivesse ficando nervoso. Kaori, que viu isso, respondeu com um sorriso amargo.

— Se for Hajime-kun, ele está em outra sala agora, ele não está aqui.

— Bem… assim… assim, eu provavelmente preciso me desculpar por ser um incômodo… de várias maneiras, mas…

Ao que tudo indicava, parecia que ele não estava mais furioso com o Sinergista como estava durante o julgamento. Sua condição mental parecia mais calma. Em vez disso, poderia ser mais preciso dizer que ele parecia mais deprimido do que calmo.

— Eu não acho que Hajime-kun se importa, contanto que você não perca mais o controle, ele não exigirá desculpas.

— Shia-san… no fim, talvez seja isso…

Kouki estava com um olhar cheio de amargura. Embora a imprudência dele tenha sido problemática, Hajime não se preocupou, sobretudo porque isso não foi tão inconveniente. Do jeito que as coisas aconteceram, podia-se dizer que foi como uma criança fazendo birra e tendo um ataque de raiva.

Embora tenha sido uma clara intenção assassina o que ele enfrentou, seu comportamento foi estúpido e Hajime deu prioridade a evitar ferir Kaori (e também Shizuku). Pelo menos, ele não precisou de muito tempo e esforço, seu corpo e coração se tornaram fortes o suficiente para suportar esse fardo problemático.

— O sono o livrou de suas ilusões, ou você ainda acha que Nagumo-kun nos fez lavagem cerebral? — Shizuku perguntou com seriedade enquanto estreitava os olhos.

Kouki não se machucando e ele estando no controle eram questões diferentes. Hajime não permitiria que ele ficasse fora de controle uma segunda vez, e era preciso entender que o Sinergista não o matou, apesar de ter essa intenção, por causa de suas amigas.

Depois de ouvir a voz calma e receber o olhar de Shizuku, o Herói logo afastou os olhos. Mas a Espadachim não permitiu um comportamento tão mimado.

— Kouki, não desvie os olhos.

— Bem… ah… eu não acho mais isso. Naquele momento, parecia isso mesmo…

O rosto de Kouki exibia uma expressão sombria, mas ele respondeu com firmeza enquanto olhava para sua amiga. Por um tempo, a Espadachim olhou para o Herói. Era provável que tentando entender seus pensamentos através dos olhos do rapaz. Shia agiu de forma parecida

Eventualmente, embora fosse difícil dizer com certeza, elas estavam convencidas de que viram um assentimento hesitante. Shizuku assentiu com a cabeça.

— Bem, se está tudo bem… Kouki. Há algo que você gostaria de perguntar?

Como a atmosfera estava estranha, para mudar esses sentimentos à deriva, Shizuku virou-se para seu colega.

Esses sentimentos foram transmitidos a Kouki? O Herói mostrou um sorriso um pouco irônico. Ele perguntou o que aconteceu depois que desmaiou.

E… todos os membros, exceto Kouki, completaram o labirinto. Hajime e Yue analisaram o abismo da magia conceitual. E, no momento, eles estavam trancados sozinhos em outro quarto, tentando criar um artefato para seu retorno.

Embora a expressão do Herói não tenha mudado à medida que ele permaneceu em silêncio e escutou, era óbvio que ele queria superar seu próprio eu. Quando ele não conseguiu completar o último desafio, era fácil imaginar que seu coração não estaria calmo.

E sua amiga de infância, Shizuku, hesitou em dizer o que Kouki mais queria ouvir. Em primeiro lugar, foi isso o que fez o Herói se descontrolar. Kouki fez suas próprias interpretações convenientes, desafiando a tentativa de sua amiga de convencê-lo.

A Espadachim esperou o Herói perguntar, mas decidiu que a probabilidade de ele não ouvir o que ela dizia era alta, dada a situação dele.

— … Kouki, eu passei a gostar de Nagumo-kun. Quero que ele me veja como mulher.

— …

Para as palavras de Shizuku, a expressão de Kouki se distorceu por um momento. As palavras foram ditas a ele por sua amiga de infância ao seu lado. No entanto, a realidade levaria muito tempo para ser reconhecer pelo Herói. A Espadachim aparecendo nos ombros de Hajime com um rosto adormecido que parecia feliz e aliviado, surgiu na mente do garoto.

— Com isso, você seguirá Nagumo no futuro? Ele tem uma favorita, e há Kaori também, não há? Você não deveria reconsiderar… Shizuku? É uma espécie de armadilha ruim…

Enquanto prestava muita atenção para não deixar escapar emoções negras que jorraram de seu coração, Shizuku balançou a cabeça para encobrir as palavras do Herói.

— Kouki, não estou pedindo a sua opinião. Estou apenas te contando. Porque você é meu amigo de infância.

— …

Kouki ficou calado com uma expressão azeda sem saber o que falar. Por algum motivo, foram Ryutaro e Suzu quem a cobriram com seus próprios olhares. Com um olhar, Kaori explicou de que elas não lutariam pelo mesmo homem por serem melhores amigas. Foi uma expressão silenciosa de afirmação para os outros três. Claro, eram as palavras de Shizuku que estavam afirmando como ela se sentia.

Percebendo que não havia ninguém para apoiá-lo, Kouki apagou a expressão em seu rosto. Era impossível descartar a realidade que era desfavorável para o Herói. Todos esses sentimentos de irritação, frustração, inveja e ódio começaram a vagar por um ponto falso em busca de algo para se agarrar.

No entanto, não havia nada para fazer com apenas sentimentos. Não se tratava de Hajime como um objeto e, acima de tudo, isso foi esclarecido. Os sentimentos que estagnaram de forma sombria não tinham presas para morder. Esta era uma grande oportunidade…

Embora Suzu simpatizasse com os sentimentos sombrios dos quais Kouki teria que se separar, de qualquer forma, ele tinha que superar isso sozinho, o rapaz precisava enfrentar esses problemas.

Mesmo com essa atitude no coração, o Herói emitiu emoções indesejadas e fez um comentário sarcástico.

— Haha, todos são aliados daquele cara. Uma pessoa que mata os outros e os abandona com facilidade…

— Kouki!

Suzu falou de modo inesperado. Shia e Tio estavam com os olhos semicerrados. O sorriso de Kaori se deteriorou um pouco.

Mas Kouki, cuja mente era como a de uma criança, não conseguia parar os sentimentos que não tinham para onde ir. Assim, ele falou…

— Se é assim, naquele momento, se eu tivesse caído da ponte, estaria tudo bem?

Com essas palavras insensíveis e cruéis, Kaori impediu a fala que machucava seu coração. PASHIN! O tapa da Curandeira fez um barulho chamativo e explodiu na bochecha do Herói.

Embora sua mão também latejasse, Kaori começou a falar com uma expressão que parecia lamentável para o Herói, que estava com a mão na bochecha, surpreso.

— … Kouki. Eu acho que você é um importante amigo de infância… então não me faça parar de gostar de você.

— …

O Herói ficou sem palavras devido ao choque inesperado, mas ainda abriu a boca como se tivesse algo a dizer.

Gou!

Um impacto semelhante à pressão do vento passou. Sua identidade eram ondas enormes de poder mágico. Embora não devesse ser uma “transformação chocante” ou algo parecido, uma enorme quantidade de poder mágico se espalhou pela parede da mansão, de modo que seus corpos reagiram a ela pelo susto.

— Isto é… Hajime-san! Yue!

Para essa situação sem dúvidas anormal, Shia se jogou para fora da sala em uma corrida. Quando Hajime criava um artefato, esse tipo de corrente não era normal.

O movimento das ondas mágicas continuou pulsando de forma intermitente. A magia em cada um dos seus corpos foi atingida de modo severo. Entretanto, Kaori, que foi surpreendida pelas ações de Shia, se endireitou e seguiu a garota-coelho no mesmo instante.

Segundo Shia, o movimento das ondas de poder mágico parecia vir de Hajime e Yue. As ondas de poder mágico pareciam aumentar em densidade quanto mais elas se aproximavam da sala onde as duas pessoas estavam. Era como se um tufão os tivesse atingido de forma direta quando chegaram diante da sala.

A porta já estava aberta quando a garota-coelho verificou que os dois estavam seguros. Depois de entrar, parecia ser esse o caso. Enquanto protegia o rosto da feitiçaria que se seguiu, Kaori se decidiu e entrou.

O que se espalhou a partir daí foi uma cena em que o poder mágico vermelho e dourado se tornaram uma torrente de espirais. A cena explodiu do centro, com Hajime e Yue de joelhos, encarando um ao outro e de mãos dadas. Diante dos dois havia um cristal gigante de alguns minerais que emitiam uma luz pálida.

— O que está acontecendo, Shia… isto…

— Eu não sei, mas eles parecem ter feito algo.

Como ela já havia avaliado a cena, Kaori perguntou a Shia cujas orelhas de coelho dançavam na tempestade de magia. A garota-coelho protegeu o rosto com o braço e uma postura mais baixa, mas conseguiu confirmar as figuras de Hajime e Yue. Quando ela viu que os dois estavam a salvo, deu um suspiro de alívio.

Se você acompanhasse o olhar deles, parecia certo que nem o Sinergista nem a vampira estavam em risco. No entanto, os dois estavam se concentrando com muita força. A entrada de Shia nem foi notada. Uma grande quantidade de suor escorria do casal. Nesse momento, ficou claro que os dois estavam se concentrando em fazer o artefato com magia conceitual.

— … se está tudo seguro, parece melhor sairmos…

— Bem, se esta falhar como amante, deverá ser punida.

— … você não deveria parecer tão feliz com isso, Tio…

Shia recuou em direção à porta para não perturbar o Sinergista.

Enquanto isso, apenas Kouki estava olhando para Hajime. Você não poderia ver a cor da emoção naqueles olhos, mas eles pareciam conter ardor e pareciam perigosos.

— Kouki. — Shizuku o chamou.

O Herói não respondeu. Em vez disso, deu um passo à frente, apenas um passo à frente.

— Kouki!

— Un…

A Espadachim agarrou os braços do Herói na mesma hora. Enquanto seu rabo de cavalo de marca registrada balançava na tempestade mágica, ela olhou para Kouki com um olhar sério. No olhar, como se assustada, ela revelou uma agitação. O Herói deu um passo para trás. Um passo para atrás.

Nesse momento…

— O que é isso?

— Uma imagem?

— Uma caverna… sombria?

De repente, as imagens começaram a aparecer diante de seus olhos. Como uma névoa projetando uma imagem em vez de uma tela, fragmentos de luz mágica se tornaram um meio. Para essa situação estranha, Shia e os outros se esqueceram de sair da sala.

Naquele momento, Suzu murmurou para si mesma.

— De alguma forma, parece Orcus.

— De fato, falando de uma grande caverna iluminada por luz verde, esse seria o Grande Calabouço Orcus.

Tio afirmou o palpite da Mestra de Barreiras. Falando sobre uma caverna iluminada por tênues paredes verdes, esse seria o Grande Calabouço Orcus que foi criado cavando veios da Pedra de Iluminação.

Contudo, como o cenário era diferente da estrutura do labirinto superior que Suzu conhecia, ela não podia dizer com certeza. Esta parecia uma caverna natural que não havia sido criada pela mão humana. A magnitude da altura e largura da caverna era diferente do labirinto que a Mestra de Barreiras conhecia.

A situação repentina e as imagens misteriosas aprofundaram sua perplexidade, mas em pouco tempo, a imagem projetada do ângulo da sombra ao lado de uma rocha em uma grande encruzilhada mostrou cabelos brancos, longas patas traseiras e linhas vermelhas profundas rastejando pelo corpo como vasos sanguíneos, e as verdadeiras cores da imagem foram percebidas quando os sentimentos de serem capturados pelo coelho demoníaca foram transmitidos a eles.

— Isto é angústia? Também há impaciência.

— Também sinto medo. Esta imagem é uma memória.

— É provável que seja do Mestre. A lembrança do lugar infernal sobre o qual esta o ouviu falar.

O palpite de Shia estava correto.

Junto com a imagem, os sentimentos foram transmitidos pela magia que encheu a sala. Angústia, impaciência e medo estavam transbordando devido ao monstro claramente anormal que ele nunca tinha visto antes. Elas não conseguiam entender o que havia levado a uma situação dessas, mas, pelo menos, entendiam que as imagens que viam e os sentimentos que sentiam eram de Hajime.

Além do tempo após conhecer Yue, o Sinergista não falou muito do que aconteceu antes disso. Já havia terminado, e Hajime não tinha o costume de se gabar de seu infortúnio. Era apenas problemático falar sobre isso.

Assim, tendo a oportunidade onde Shia e as outras podiam aprender com o passado do garoto que elas desconheciam, depois de trocarem um olhar, elas olharam para a imagem como se quisessem criar um buraco nela e não saíram da sala. Aprender sobre o início da pessoa que amavam, era impossível que elas saíssem da sala. Da mesma forma, Ryutaro e Kouki começaram a se concentrar na imagem com interesse também.

Então, naquele momento, alguém levantou a voz com um: — Ah. — Na imagem, o demônio liberando uma atmosfera anormal de repente disparou contra ele com um poder incrível.

— Hajime-san!

— Hajime-kun!

Por instinto, Shia e Kaori gritaram um aviso com vozes preocupadas. Enquanto isso, a imagem se movia de forma frenética enquanto os sentimentos de medo e desconforto transmitidos pela magia vermelha brilhante aumentavam.

Elas rangeram os dentes vendo o Sinergista fazer piada com o chute do coelho. E então, quando o braço esquerdo do garoto foi por fim esmagado, os sentimentos de angústia transmitidos a todos fizeram Suzu desviar o olhar.

— Hajime-san foi… uma luta tão unilateral…

— Este é o Nagumo-kun que conhecíamos. Sua força de luta era equivalente a zero…

Ao ver Hajime sendo humilhado com tanta facilidade, a expressão de Shia ficou com lágrimas nos olhos porque ela não podia acreditar. Shizuku disse suas palavras para a garota-coelho enquanto mordia o lábio.

Em pouco tempo, a imagem foi interrompida porque o Sinergista fechou os olhos ao sentir a morte iminente vindo do chute do coelho que se aproximava. Enquanto os sentimentos de terror de Hajime se espalhavam para eles, a imagem apareceu de novo. Desta vez, a imagem do coelho assustado foi vista.

A visão da imagem foi alterada, traçando a linha de visão do coelho chutador, havia um enorme urso branco. Bastava um olhar para entender que o urso não era um monstro normal. Para provar isso, o coelho que brincou com o Hajime na imagem foi cortado em dois com facilidade e depois devorado, enquanto sangue se espalhava no garoto.

O brilho nos olhos do urso atravessou a imagem para chegar até Shia e o resto do grupo. No caso atual delas, o poder do olhar do urso não seria grande coisa, no entanto, devido à sensação que havia nos olhos do monstro que olhava apenas para a comida e não para um inimigo, e o medo fundamental que era guiado através de Hajime, isso as fez tremer de modo inconsciente.

O que aconteceu depois disso foi muito trágico para as meninas que amavam o Sinergista.

Sendo encurralado, o braço esquerdo sendo arrancado e comido na frente dele. Os olhos que o viam como comida e o braço que perdeu sua forma enquanto jorrava sangue, tal realidade lhes foi oferecida, quer elas quisessem ou não.

O grito que não podia ser ouvido foi transmitido a elas pela magia. Olhos que um humano nunca deveria mostrar foram exibidos, tendo parte do corpo arrancada e comida, quebrado pelo terror e a agonia. E sem vergonha ou decoro, ele se arrastou de forma desesperada para se afastar um milímetro que fosse da encarnação do terror.

A imagem refletida já estava sombria. Os sentimentos transmitidos atingiram um ponto de saturação ou já não podiam ser definidos. Apenas… os gritos de Hajime, no entanto, mesmo isso começou a enfraquecer quando a luz da vida desapareceu.

— Haji… me-san…

Shia estava derramando lágrimas. Perto de Kaori e Shizuku… Suzu cobria a boca com a mão. O olhar de Tio era severo. Diante de seus olhos, a intenção assassina de querer arrancar os membros do urso brotou.

Enquanto elas assistiam, o apagão terminou. Hajime, duvidando de sua própria sobrevivência, avançou para o interior da parede e encontrou um estranho cristal que pingava água. O cristal divino e a água sagrada.

Hajime bebeu isso, mantendo sua mente quebrada enquanto se encolhia em uma caverna escura. Enquanto pedia ajuda…

Assim, onde a memória ficou vaga, a imagem foi interrompida. Contudo, para substituir isso, os sentimentos transmitidos aumentaram em densidade.

A solidão avassaladora foi sentida, pois ninguém respondeu, por mais que ele pedisse ajuda. A escuridão em que até sua própria existência parecia ter sido engolida. Fome ao ponto em que parecia que ele ficaria louco. Dor interminável no membro fantasma.

Dia após dia, ele sofria com a dor torturante. No entanto, enquanto estava deitado como se fosse morrer, desejando que ele pudesse morrer, a água sagrada tomada não o permitiria isso, e assim, seus sentimentos de ódio, sem ter para onde ir, foram dirigidos a seus colegas de classe quando ele amaldiçoou a injustiça do mundo.

Ainda assim, ele aos poucos começou a melhorar. O coração de Hajime foi tingido do preto mais escuro. O desejo de viver e a intenção assassina contra existências que eram um obstáculo.

O garoto começou a se mover. Ele começou a coletar água sagrada em uma depressão no chão. Ele começaria comendo o lobo. Sua fome e dor fantasma não mudaram, e apenas sua energia se recuperou, enquanto seus traços refletidos na poça de água já eram os de outra pessoa.

Com o brilho da intenção assassina brilhando em seus olhos… Hajime saiu de sua caverna. Sua única arma, que não poderia ser chamada de arma (a transmutação), foi usada para caçar os monstros.

— … essa é a aparência…

— Eu ouvi sobre isso, mas ele é forte.

Comendo a carne das feras mágicas com as mãos e as roupas manchadas de sangue, a aparência do Sinergista com o rosto sujo era adequada a de um monstro.

E, um grito sem voz foi transmitido de novo. O tamanho de sua agonia não podia ser imaginado. Batendo a cabeça no chão muitas vezes, com o corpo de Hajime se contorcendo, só era possível ver as repetidas quebras e regenerações nas vezes que a cena entrava em seu campo de visão.

Incapazes de suportar assistir ao espetáculo medonho com a transmissão do inferno da tempestade de agonia, Kouki e Ryutaro desviaram os olhares. Suzu parecia que poderia vomitar a qualquer momento, tentando se segurar com desespero.

Em pouco tempo, a transformação terminou. Olhando para a sua aparência na piscina da água sagrada, o reflexo mostrava o Hajime de hoje. Ainda mais do que o Sinergista de hoje, a profunda tenacidade e a intenção assassina transbordaram daquele que obtivera um corpo forte e um novo poder.

E usando o poder de uma transmutação que não poderia se tornar uma arma porque era a habilidade de uma classe comum, ele fez pleno uso das matérias-primas e da pólvora do outro mundo para produzir uma arma após muitas tentativas e erros para que pudesse usar para desafiar o urso, e esmagá-lo provaria sua capacidade de lutar.

No final de uma batalha feroz, onde o urso foi superado e sua carne devorada, Hajime se tornou autoconsciente. Nas profundezas mais íntimas de si mesmo, seu verdadeiro desejo surgiu.

Ou seja…

“Eu quero voltar.”

Respondendo ao desejo, a magia na sala pulsou. Antes que eles percebessem, o corpo do garoto estava coberto pelo poder mágico vermelho brilhante… com Hajime e Yue no centro, o poder mágico disparou.

Entretanto, não era poder mágico disperso de forma indiscriminada. Ele foi focado para que fosse inalado em uma torrente em espiral com as duas pessoas no centro.

“Eu quero voltar.”

Mais uma vez, o desejo puro e forte do Sinergista foi transmitido através do poder mágico. Profundamente tocadas por esse desejo, Shia e as outras apertaram as mãos com força no peito.

O brilho da magia carmesim misturado com a magia dourada. À medida que a torrente de magia se acalmava, luzes brilhantes como as estrelas da Via Láctea começaram a girar ao seu redor.

“Eu quero voltar para minha casa.”

Estava quieto; no entanto, todos não puderam deixar de entender a força da vontade transmitida por esse desejo. Isso devia ser chamado de vontade dos limites mais extremos.

O Hajime na imagem, depois de olhar para o alto uma vez, fechou os olhos em silêncio. Em si mesmo, ele devia ter se assegurado de sua resolução. E quando ele de repente abriu os olhos, encarou sem hesitar o interior do abismo enquanto seguia pela passagem até a profundeza do labirinto.

A luz mágica em que a imagem foi projetada foi absorvida pelo redemoinho em torno de Hajime e Yue.

A reação de Shia e das outras foi a mesma. Elas ficaram pasmas com o processo violento pelo qual Hajime passou e se tornou quem era hoje.

Shia, Kaori, Tio e Shizuku derramaram lágrimas das emoções que nem elas entendiam o quão sério o Sinergista tinha sido, mas, ao mesmo tempo, também sorriram um pouco, sentindo-se orgulhosas de ele poder voltar a se levantar após ter que rastejar.

Suzu e Ryutaro não conseguiam falar como se estivessem apenas impressionados demais, com olhares concordantes em seus rostos enquanto pensavam: “Eu não posso igualar isso”.

Eles pensaram que haviam sobrevivido a batalhas muito difíceis, mas sempre tiveram o apoio de Meld e dos outros cavaleiros experientes da ordem e, acima de tudo, estavam cercados por companheiros com habilidades de trapaça. Quando tentaram imaginar se poderiam realmente, sozinhos, passar por todas aquelas dificuldades e sair do abismo, balançaram a cabeça em negação. Até a cena que eles estavam vendo agora era apenas o começo. Eles não pensaram que seriam capazes de lidar com tudo isso.

E Kouki… olhou para o espaço vazio, como se seu poder o tivesse abandonado. Em seu coração, passou pela sua mente o que ele disse mais cedo: “Se eu tivesse caído no abismo…”

Até agora, o Herói tinha realmente pensado que a força de Hajime era injusta. Embora Shizuku tenha dito que Hajime devesse ter tido uma experiência horrível, a ideia era completamente abstrata para ele. O Herói tinha pensado que o Sinergista era um cara que fazia o que queria e obteve poder com facilidade apenas por cair no abismo.

Mas agora que ele acabara descobrindo a maneira que o colega adquiriu isso, era tão incrível que esses pensamentos desapareceram.

“‘Eu quero voltar’… hum.”

Ele sussurrou em sua mente. Uma dúvida surgiu: “Eu desejo mesmo voltar para casa tanto quanto ele?” Ao mesmo tempo, quando ele comparou seus pensamentos quando declarou que salvaria este mundo como o herói que todos precisavam, com o desejo puro e intenso de Hajime, ele sentiu que sua motivação parecia muito fraca.

“N-não… eu não estou errado. Os sentimentos de Nagumo… eu os entendo, mas… mas, mesmo assim… e, agora, Shizuku também… ele tirou tudo de mim…”

Ele sacudiu as emoções de autocrítica que flutuavam em sua mente com desespero.

Enquanto Kouki engajava-se em um diálogo mental com ele mesmo, uma mudança ocorreu com Hajime e Yue. Para ser mais preciso, com a estrutura cristalina e mineral entre eles.

Ela estava envolta em magia vermelha brilhante. A forma mudou aos poucos, ou melhor, uniu-se como se para provar que estava absorvendo poder mágico.

— Isso é uma chave…?

— Bem, parece uma chave antiga feita de cristal.

Shizuku acrescentou aos resmungos de Kaori. O item foi formado entre Hajime e Yue, com um corpo de cristal dodecaédrico2 regular no lado da mão deles. Era uma chave com uma linha mágica muito sofisticada e complexa desenhada como parte do planejamento da viagem.

Ela foi criada com a fusão do cristal divino e dos outros minerais, terminando como uma chave antiga que capturava as lindas ilustrações que incorporaram muitos poderes mágicos de Hajime e de Yue, decorados em projetos dourados com um cristal vermelho.

E logo após a forma com perfeição ser formada, o Sinergista e a vampira, que não fizeram movimentos até agora, abriram os olhos com as mãos conectadas. Parecia que nada se refletia em seus olhos, que pareciam estar olhando para algo visível apenas para os dois.

De uma maneira estranha, a atmosfera parecia misteriosa, havia um som de alguém engolindo em seco. No momento seguinte, os dois lábios tremeram por um tempo. Então as palavras saíram de uma pequena boca aberta…

— Abra a porta para o lugar que você desejava.

Um momento depois, uma torrente de luz deslumbrante como uma estrela explodiu ao redor dos dois. O fluxo da galáxia, que se acalmou mais em seguida, tingiu a sala de pura luz branca, como se tivesse causado uma explosão de supernova3, e também pintou a consciência de todos com branco.


Tradutor:



Notas

[1] O Kansai-bem, um dos dialetos da região de Kansai, está centrado em torno de Osaka, e é usado nas províncias de Osaka e Kyoto e em toda a área do sudoeste de Honshu. Também é chamada de Kinki hōgen, ou dialeto de Kinki. Neste dialeto existe outras subdivisões tais como Ôsaka-ben e Kyoto-ben. Se caracteriza pela fala rápida e com muito mais entonação. O Ôsaka-ben é comum no meio humorístico, com a cidade de Ôsaka sendo o lar de grande parte dos humoristas do país. Por esse motivo, é bastante comum ver personagens cômicos que usam esse dialeto, principalmente em animes e mangá.

[2] Na geometria, um dodecaedro é qualquer poliedro que tenha doze faces. O mais familiar é o dodecaedro regular, um sólido platônico constituído por doze pentágonos regulares.

[3] Supernova é um evento astronômico que ocorre durante os estágios finais da evolução de algumas estrelas, que é caracterizado por uma explosão muito brilhante. Por um curto espaço de tempo, isto causa um efeito similar ao surgimento de uma estrela nova, antes de desaparecer lentamente ao longo de várias semanas ou meses. Em apenas alguns dias o seu brilho pode intensificar-se em 1 bilhão de vezes a partir de seu estado original, tornando a estrela tão brilhante quanto uma galáxia, mas, com o passar do tempo, sua temperatura e brilho diminuem lentamente.



Fontes
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