Arifureta – Capítulo 130 – Demônio negro


Nota do Autor (Ryo Shirakome)

Não leia enquanto está comendo. Assim você não passará mal, escolha ler antes ou após sua refeição.


A barreira da “Interrupção Divina” enfim se dissipou quando as chamas do exterior consumiram o resto do piche e se extinguiram. A única vegetação restante grudou em um chão estranhamente metálico coberto por cinzas. Parecia um cenário apocalíptico.

— … hmm?

— Como estão todos?

— Ó?

Hajime sentou no meio do deserto incinerado com Yue, Shia e Kaori o segurando com força e seus olhos fechados. Cada uma delas abriu seus olhos e inclinou sua cabeça.

— Ó? Qual o problema?

Hajime perguntou com uma voz preocupada quando notou um olhar estranho em Yue. A vampira e as outras garotas se entreolharam, reconhecendo que todas se recuperaram antes de concordarem e se voltarem para o garoto.

— … nn, nós resistimos.

— Sim, o prazer parece ter desaparecido.

— Eu também não sinto nada, estou de volta ao normal.

Parecia estar tudo certo.

Elas pareciam ter suportado o efeito afrodisíaco do slime leitoso que tomou a sanidade de todos com suas forças mentais. Prazer excessivo não era tão diferente da dor. Hajime não poderia imaginar o quanto Yue e as outras sofreram com um ataque diferente de qualquer outros que elas enfrentaram.

O Sinergista elogiou as três por fazerem um bom trabalho ao passar pela provação do calabouço.

— Como esperado, vocês três fizeram um bom trabalho. Eu fiquei um pouco preocupado, mas estou feliz por vocês estarem bem.

— Nn… kufufu.

— Ehehehe, é constrangedor ouvir isso tão diretamente.

— Foi graças a Hajime-kun. Foi sua ajuda que me permitiu resistir.

Hajime não tinha mais que abraçar as três já que elas não estavam mais sob o efeito do afrodisíaco. Entretanto, elas não o soltaram enquanto ficavam sorridentes ao serem elogiadas pelo garoto.

Hajime tentou diminuir seu aperto assumindo que já estava tudo bem, mas Yue respondeu ao abraça-lo com ainda mais força.

Elas precisavam de mais elogios? As três garotas olharam para Hajime com bochechas coradas enquanto se agarram a ele com ainda mais agressividade. Elas não estavam com expressões que sugeriam que perderam a sanidade. Contudo, essas expressões possuíam uma certa atração própria.

Quando as três estavam sob o efeito do afrodisíaco, foi fácil para Hajime rejeitar a aproximação delas, mas era um pouco mais difícil resistir ao charme de Yue quando ela agia por vontade própria. Ele desistiu de tentar retirar seus braços.

Assim…

Coff! Desculpe interromper vocês, mas como já estamos melhores agora, estava me perguntando se você poderia desamarrar Kouki e os outro?

— Ó, é verdade? Você também se saiu bem. Você conseguiu superar isso sem ajuda. Uma verdadeira espadachim, não é? Esta é uma daquelas técnicas de unificação espiritual?

— Ó, Shizuku. Ehehe, sinto muito, ao mesmo tempo… minha Shizuku-chan!

Após tudo estar acabado, parecia que Shizuku conseguiu escapar do inferno de prazer ao mesmo tempo que Yue e as outras, mas ela estava com uma expressão abatida quando viu o espaço rosa que o grupo fez ao lado dela. A interrupção conseguiu interromper o clima e fez os quatro voltarem ao normal.

As garotas, que estavam se deliciando com o elogio de Hajime, se afastaram, um pouco constrangidas.

— Ó, obrigada. Bom, fui capaz de me manter calma porque meu pai martelou autocontrole em mim desde pequena durante as aulas de esgrima. Mas isso foi um pouco perigoso. Quer dizer, me pergunto se as coisas teriam terminado assim se Kouki e os outros dois não tivessem sido presos. Eu sobrevivi porque tive a chance de me concentrar sem ter que me preocupar em me defender. Obrigada Nagumo-kun.

— É bom ouvir isso. O prazer poderia ter te deixado inconsciente. Resistir ao prazer no lugar da dor poderia funcionar. Enquanto me preparo, Yaegashi, você pode querer ajeitar suas roupas e essa situação suja.

— Roupas? Sujeira? Ó… sim. Entendi.

A princípio, Shizuku não entendeu o que Hajime queria dizer, mas quando ela encarou seu próprio estado, a garota notou que uma mudança de roupas seria necessária. “Isso é suor, estou coberta de suor!”. Ela corou com o comentário, concordando com força.

Hajime usou sua transmutação para criar vários vestiários simples construídos com uma parede de solo. A “Caixa do Tesouro” também tinha mudas de roupa para Kouki e Ryutaro (roupas compradas na cidade). Ele as pegou e as jogou para Shizuku. Hajime coletou as Boleadeiras do grupo de Kouki, os libertando.

O grupo na mesma hora caiu. Shizuku conseguiu pegar Suzu antes de ela atingir o chão, mas Kouki e Ryutaro caíram com um barulho bastante doloroso. Mas era apenas o Herói e seu parceiro, então Hajime não se preocupou.

Enquanto as colegas usavam magia de água para limpar e trocarem suas roupas, o Sinergista se concentrou em coletar todos os golens-aranha.

Eles terminaram de destruir o solo ao redor da vizinhança imediata. Não haveria mais Slimes Brancos aparecendo do chão para surpreende-los. Essas medidas extras pareciam necessárias após a quantidade de tempo que os slimes leitosos tomaram anteriormente.

— Você… Mestre. Esta não se incomodaria se você olhasse para esta. Não há necessidade para um vestiário. — Nesse momento, uma voz tímida surgiu atrás do garoto.

Tio superou o efeito do afrodisíaco prontamente, mesmo ela tendo recebido a maior parte dos slimes.

Hajime se lembrou desse fato e a encarou.

— Você ainda está aí Srta. Clarce?

— !? Por favor Mestre! Você ainda está fazendo isso? No começo, foi com certeza agradável, mas você pode voltar a forma usual de chamar esta!

— Mas, do que você poderia estar falando? Como sempre, Srta. Clarce é a Srta. Clarce. Por favor, não se aproxime mais de mim.

— !?!?!?!? Por favor, Mestre. Esta está ficando muito excitada. Esta se arrepende, por favor, volte ao normal!

— …

Enquanto Tio rastejava até os pés do garoto e arranhava seus sapatos, Hajime olhou para longe e a ignorou. A atitude distante ao chama-la por seu sobrenome e trata-la como se fosse invisível era insuportável para Tio. O garoto estava feliz com isto, mas a mulher parecia genuinamente triste com este tratamento, parecia que ele tinha encontrado uma punição efetiva sempre que ela se empolgasse.

Tio estava tremendo enquanto observava o Sinergista. Será que Hajime foi longe demais? O olhar dela estava ficando mais e mais marejado

— Isto é terrível Mestre. Esta pede… chame esta de Tio.

Hajime desferiu um golpe para retardar o comportamento anormal de Tio; essa foi uma sensação muito satisfatória.

Entretanto, a aparição pesarosa da mulher não era a transformação que o Sinergista estava esperando, destruindo sua bela figura em seu quimono deteriorado. O coração desonesto de Hajime considerou as coisas um pouco mais, puni-la de forma objetiva, esse parecia ser o papel de um mestre. Contente ou não, ela não estava consciente disso.

— É inútil Tio. Já é tarde demais para você mudar o tipo de pessoa que você é, portanto, pelo menos seja um pouco mais prudente.

Enquanto Hajime encolhia seus ombros dizendo isso, Tio ficou perplexa. Sua expressão se iluminou e ela mostrou um sorriso que parecia pertencer a uma jovem e doce garota. Esse sorriso era lindo o bastante para tocar profundamente os sentimentos de Hajime.

Elas era instruída e podia ter alguns pensamentos profundos e entendimento das sutilezas da mente humana. Entender alguém e fazer um esforço quando ela poderia ter perdido sua compostura. Ela tinha coragem e determinação, tinha força de combate incomparável. Ela era afetuosa e mantinha sua palavra. E sua aparência era incrível. Se não fosse por sua anormalidade, você poderia dizer que ela era uma “mulher perfeita”.

— É mesmo uma pena… porque, de certa forma, eu…

— ???

Parecia que Hajime abriu uma nova porta para Tio. Ele se sentia um pouco responsável por essa anomalia, mas era impotente para enfrentar isso.

— O que foi? Mestre…

— … não, não foi nada.  Vá se trocar e se limpar.

— Ihhh, isso é… então está tudo bem Mestre? Para esta se trocar bem aqui no canto?

Quando Hajime planejou que ela usasse o vestiário improvisado, Tio mostrou um olhar de expectativa e disse tal coisa.

As bochechas do garoto se contorceram enquanto ele pensava: “Como isso é prudência?”, e puxou uma granada.

— … que tal isto? Esse é um presente especial para você. Ela vai explodir a sujeira junto com sua pele!

— !? Entendi. Vou trocar minhas roupas imediatamente!

Tio acenou com sua mão e pulou dentro do vestiário. Enquanto observava as costas dela, uma Ryujin que caiu de forma lamentável e estava além de qualquer reparo, por algum motivo, a palavra “responsabilidade” surgiu na mente do garoto. Ele sacudiu sua cabeça para se livrar dessa palavra de sua mente.

Outros começaram a emergir do vestiário após se limparem. Com toda certeza, Kouki, Suzu e, acima de tudo, Ryutaro saíram com olhares impotentes. Eles todos estavam curvados como se sobrecarregados por pedras insuportavelmente pesadas, e a atmosfera estava envolta por nuvens escuras como se magia estivesse sendo usada.

Apesar de eles terem perdidos suas sanidades durante o efeito do afrodisíaco, eles pareciam se lembrar do que fizeram. Prazer seguido do inferno, parecia que Tio estava certa quando previu que isto seria um teste aos vínculos dos relacionamentos, o grupo de Kouki era a prova disso.

Ryutaro e Kouki não podiam olhar nos olhos das garotas e Suzu parecia determinada a manter sua distância. Os três se mantiveram nas sombras com suas cabeças abaixadas e orelhas vermelhas. Hajime temeu que precisaria fazer um acompanhamento com Suzu se eles não conseguissem superar as coisas por conta própria.

Como eles quase se atacaram sexualmente, isso os deixou desconfortáveis e gerou um senso de culpa que não poderia ser ignorado. Em especial, Suzu era uma garota. O fato de que ela poderia começar esse tipo de relacionamento com sua colega causou um certo tipo de dano em seu espírito.

— Vamos apenas esquecer disso Suzu. Isso era inevitável. As coisas não chegaram tão longe… então… há uma ou duas memórias que ninguém quer se lembrar, provavelmente…

— … Shizu, Shizu.

— Veja! Lembra daquela vez que eu estava distraída na seção de jogos pervertidos sem perceber o que estava à venda? Foi algo sério, os clientes homens ao meu redor me olharam com olhos julgadores… e eu fiquei deprimida…

— Hã… Shizu tem interesse em jogos sujos?

— Não é isso! Foi só um acidente infeliz!

— Shizu investigando jogos sujos… kufufu, com um olhar sério… pukuku.

— É terrível rir disso Suzu.

Shizuku parecia um pouco aliviada agora que sua colega estava rindo.

Parecia que qualquer conforto funcionaria para superar a história sombria selada nas memórias deles, e a “simpatia do constrangimento” era um ingrediente autotorturante para ajudar o espírito de Suzu a se recuperar um pouco.

Como esperado de Shizuku; ela estava disposta a se sacrificar. Era admirável!

Kouki estava com sua cabeça abaixada, então Suzu o observou.

— Nagumo se preocupou com todos. Devemos ser gratos por ele ter nos parado.

— Sim, você está certa. Fomos salvos por Nagumo. Estou falando sério. Muitíssimo obrigado. — Ryutaro, que parecia desconfortável seguindo Kouki, voltou seus olhos para Hajime e expressou sua gratidão.

— Sejam gratos. Tenham certeza de se lembrarem disso. Sempre tenham consciência de seu débito. Assim, quando vocês estiverem melhor, vocês podem me pagar ao se determinarem a se tornar escudos de carne apropriados. Se eu cometer um erro, vai ficar tudo bem. Porque irei até os confins da Terra para garantir que vocês me recompensem por isso.

Hajime se mostrou muito mais um Yakuza emprestando dinheiro a uma taxa de 11 para 1. Quando alguém fugia de um pagamento, essa pessoa realmente teria que fazer qualquer coisa para pagar os juros. Um “obrigado” não parecia ser o tipo de pagamento que ele estava procurando.

A igreja ou alguém como Nointo poderia querer fazer o grupo de Kouki se tornar inimigo do Sinergista (não importava quão desesperado fosse isso). Então ele queria mantê-los conscientes desse débito, só por precaução.

Mas sem saber o que estava se passando na mente do Sinergista, o grupo de Kouki estava com as bochechas se contorcendo e com expressões preocupadas como as de vítimas de golpes que acabaram de descobrir que adquiriram um débito injusto.

Essa com certeza era uma grande dívida, a menos que eles pudessem parar de depender de Hajime. Eles reconheceram isso e trocaram acenos com as cabeças em silêncio.

Entretanto, o desconforto parecia ter sumido após o discurso de Hajime, que esmagou o senso comum.

Mesmo com o cobrador de dívidas aparecendo para fazer exigências excessivas, parecia que isso inspirou Kouki e Ryutaro, e, ao que tudo indicava, Suzu e Shizuku também. De certa forma, eles sentiram unidade por não quererem ser consumidos pela dívida, se enterrando nela.

Sem serem atacados por mais nenhum slime leitoso, eles avançaram pelo deserto com facilidade e por fim chegaram na árvore gigante. Eles se reuniram na entrada e pisaram no círculo mágico próximo.


O lugar para onde Hajime e companhia apareceram era o esperado. Contudo, a luz sendo emitida do lugar era diferente do usual. Havia uma porta levando para o exterior e ela estava aberta desde o começo.

Hajime olhou ao redor, confirmando que não estava faltando ninguém. O olho mágico não detectou a presença de nenhuma falsificação. Em outras palavras, eles precisavam apenas prosseguir.

O Sinergista cuidadosamente se moveu para frente, na direção da saída banhada em luz enquanto ele dava a todos os demais um aceno de cabeça.

— Isto é… como Faea Belgaen. — Hajime olhou adiante e fez esse comentário.

Yue e os outros tinham impressões similares e concordaram.

À frente da saída da caverna havia uma passagem, ou melhor, um enorme galho que poderia ser confundido por uma passagem. Quando o garoto olhou para trás, ele podia ver um enorme tronco de madeira que seguia para trás tão longe que ele não poderia ver o fim. Em outras palavras, a caverna vazia surgia da raiz de um galho em que Hajime e os outros estavam.

A árvore era tão grande que o galho formava um corredor com cinco metros de ponta a ponta. Outros galhos enormes projetavam-se da árvore e se entrelaçaram em vários lugares. Era um corredor aéreo da mesma forma que os de Faea Belgaen.

Mas diferente dos da nação dos Demi-Humanos, esse era um único galho da árvore que se entrelaçava para formar o espaço aéreo, ao contrário de vários grupos de galhos.

Se você olhasse para cima, havia um teto de pedra, então eles definitivamente ainda estavam no subterrâneo. Este galho de árvore devia ser parte da Grande Árvore, já que Hajime não podia imaginar que havia outras árvores gigantes como esta.

— … Grande Árvore?

— Este deve ser um espaço sob a Grande Árvore.

— Mas a Grande Árvore é visível do chão.

— Bom, ela parece ter criado galhos embaixo do solo. As verdadeiras raízes devem estar muito mais fundo no subsolo. Nós só vimos a ponta do que está visível, isso pode ser apenas uma pequena parte.

— Quão grande a Grande Árvore é?

Superados pela alucinante grandiosidade da Grande Árvore, ela era quase grande demais para ser contemplada. O teto obstruía a visão, mas Hajime ainda imaginava a árvore se agigantando acima deles.

As orelhas de coelho de Shia se contorceram e começaram a se mover. Ela parecia ter detectado algum tipo de som. Shia se perguntou: “O que é esse som?”, e partiu para verificar a identidade enquanto caminhava para longe do galho.

O som sutil era semelhante a couro e seus ouvidos se debateram com desgosto. A garota-coelho franziu o cenho quando suas orelhas de coelho captaram o som, um som imperceptível que causou arrepios em sua pele. Ela espiou por sobre a beirada com cautela.

— ? Sombrio e invisível, é claro.

— Qual o problema?

— Estou ouvindo um som desagradável, mas está escuro demais para meus olhos…

— Você quer que eu olhe por você?

— Sim, obrigada. O que é aquilo? O som dessa sensação, como algo se contorcendo.

— Entendi, algo que parece repugnante?

Hajime encarou por sobre a borda esquerda da passagem após Shia o chamar. Certamente, a escuridão não poderia ser transpassada nesta altura particular, mas com a “Visão Noturna” e “Visão de Longo Alcance”, não haveria nenhum problema para o Sinergista.

— … !?

A princípio, Hajime não podia ver nada, mas assim que ele apertou seus olhos com dúvida, ele suprimiu um grito. Ele olhou para cima, seu rosto azul e sua expressão entregando o perigo.

— Ha-Hajime!? Qual o problema? Para ver você reagindo assim. O que exatamente você viu?

— … Hajime, tudo bem?

Hajime era o cúmulo da arrogância, audácia e ousadia. Para o rosto do garoto mostrar medo, isso era algo muito difícil de imaginar. Yue esfregou as costas do Sinergista com apreensão. Shia estava segurando sua mão com gentileza.

Hajime por fim se recuperou com um pouco do calor e murmurou enquanto tremia e olhava para todos com um olhar sério.

— … o demônio está ali…

— Demônio?

— Demônio?

— Demônio?

— Demônio?

— Demônio?

Todos inclinaram seus pescoços com as palavras sem sentido do garoto. Kouki e Ryutaro voltaram seus olhos para Hajime, quem eles consideravam ser o próprio diabo, para ele declarar que algo era um demônio, eles ficaram com olhos cheios de lágrimas.

— Sim, é um demônio. Ele é negro e vocês o conhecem bem…

Quando ele disse isso, Hajime puxou uma Broca de Cruz e a enviou para baixo. Um pequeno cristal foi colocado para que todos pudessem ver.

As coisas que foram refletidas na luz diante de Yue e os outros eram…

— !?

— !?

— !?

— !?

— !?

Se você encontra uma, há pelo menos mais trinta. Ela possui o nome do demônio negro, sendo temida com a inicial B. Sempre rastejando, sussurrando com o caos, com força vital que a faz sobreviver de modo persistente, lutando nas sombras e se movendo em alta velocidade. Na Terra, são inimigas poderosas que causam anormalidades e um estado de confusão e pânico em restaurantes, elas são soldados com uma magia única.

Seu nome é… barata.

As baratas estavam no fundo deste espaço subterrâneo, milhões, várias dezenas de milhões, não, sua inquietação não podia ser medida. Era um mar incomparável de baratas. O som desagradável de couro era o barulho das baratas se esfregando umas contra as outras.

— Essas coisas… olhem…

— É, são muitas, tantas e tantas.

Com rostos azuis, Suzu e Shizuku olharam para longe também. As duas estavam com arrepios em seus braços. Os outros estavam basicamente na mesma. Em especial, as orelhas de coelho de Shia estavam agora abaixadas, ela estava desesperada para tapar o som que ela agora sabia de onde vinha. Ela enterrou sua cabeça em suas mãos e se agachou, seus olhos marejados.

— … Hajime, vou queima-las.

Yue estranhamente disse algo perigoso, mas Tio e Kaori pareciam já estar com a mesma intenção. O desejo delas em ver as coisas destruídas estava indicado pelo olhar em seus rostos e arrepios em suas peles.

— Pode ser melhor não fazer isso… com esse número? Há um problema… e se elas voarem em enormes quantidades?

— …

— …

— …

Milhares de baratas voando contra eles de uma vez, era esse o cenário que Hajime imaginou. Yue perdeu seu espírito de luta e seu rosto mudou para uma expressão complicada. Ao que parecia, seu coração foi quebrado em um instante.

— Se não cairmos, acho que ficará tudo bem. Eu acho… assim… vou ir na frente e deter qualquer uma que subir rapidamente. Elas devem atacar apenas quando paramos.

Todos estavam com expressões mais sérias do que as anteriores com as palavras do Sinergista; eles concordaram com firmeza.

Hajime avançou para o topo da passagem formada pelo imenso galho. Por ora, só havia o objetivo de avançar pela estrada, mas como o local era um enorme andaime, parecia existir um galho integrado a passagem ao longe, o que ele supôs ser o local que eles deveriam seguir.

Pelo caminho, as baratas não subiram nem ficaram assustadas e o grupo chegou ao galho para o próximo corredor. As coisas pareciam estar indo bem, e então…

O som temido foi ouvido.

Vu… vuvuvuvuvuvuvuvuvuvu!!!

Era o som de batidas de asas, em uma enorme quantidade.

— !?

Hajime confirmou com um olhar para baixo. Com toda certeza, um tsunami marrom estava chegando se esticando e aumentando enquanto hordas de baratas emergiam com um espetáculo furioso.

— Uo… está  tudo coberto!!

— Ei, ó, ó-ó!!

— Hyiii!!

— Agora não, ó, ó!

— … !!

Todos estavam soltando gritos de repulsa enquanto se preparavam para o maior ataque de suas vidas.

Hajime lançou foguetes com Orkan. Yue usou seu “Dragão do Trovão”, Shia lutou com a munição explosiva de Drücken, Tio invocou seu sopro, e Kaori liberou a Decomposição enquanto o grupo de Kouki usava quaisquer ataques de longa distância que pudessem.

Flores florescendo de carmesim surgiram embaixo deles, junto de rugidos de relâmpagos. Ondulações de azul-claro se espalharam, com clarões de preto e prata. Não seria exagero declarar isso como uma aniquilação devastadora. Se esta força fosse posta diante do reino e do exército imperial, com certeza, o grupo seria obrigado a deixar este mundo.

Contudo, o ataque não abalou a montanha florescente do tsunami negro indo na direção deles. Atacar o próprio mar era inútil. O tsunami de baratas pulou e se espalhou pelo espaço como pássaros fazem com ordem perfeita.

— Isso é terrível! “Escudo Sagrado”!

Já quase chorando, Suzu criou uma barreira.

Pouco depois, o “Zaa aaaa” continuou a se mover para cima. Uma onda de baratas desceu atraída pela gravidade e se lançou contra o grupo de Hajime.

As baratas atingiram as paredes, criando vários “bash” e esguicharam seus fluidos enquanto as sobreviventes rastejavam por cima da barreira.

— Não, riii…

A barreira de Suzu se esticou sob o peso e ela começou a perder a consciência. Kouki resistiu para não perder a coragem e tentou dar um encorajamento nessa situação de desespero.

— Suzu, não desmaie. Se você ficar inconsciente, vamos todos morrer. Mantenha seu espírito!

Isso era parte do ataque do inimigo. Ser engolido pela onda de baratas em carne e osso, mas esse era um ataque no espírito, assim como um ataque mágico. Esse tipo de anormalidade não poderia ser evitado. Pelo contrário, eles poderiam ficar traumatizados pelo resto da vida.

— Yue, assuma a defesa!

— … nn, não irei ceder.

Yue lançou seu Escudo Sagrado para sobrepor o de Suzu com um braço para cobrir os arrepios. O exterior da barreira estava tingido de preto com baratas rastejando e se esfregando.

— Por algum motivo, tem sido assim desde que viemos para este calabouço.

— Calabouço extremamente bagunçado e enorme. Bem, este aqui assume que nós completamos vários dos outros e obtivemos nossas trapaças, então ele aumenta a dificuldade em vários níveis.

— Seria muito difícil se você não tivesse tempo para analisar as coisas com tanta calma.

— Kaori, está tudo bem, não há nenhum problema. Aquilo ali fora é apenas gergelim preto. Pudim de gergelim preto ou furikake1 de gergelim preto, e eu gosto muito disso. Especialmente o tempero de furikake de gergelim preto com sabor de molho de soja. Isso é delicioso. Arroz é ótimo.

— Shizuku-chan! Ah não! Eu quebrei a já frágil Shizuku-chan.

Kaori deu um grito de partir o coração quando as pupilas de Shizuku ficaram sem vida. Enquanto isso, Hajime usou a “Caixa do Tesouro” e começou a se preparar para o extermínio enquanto ficava com arrepios em seus braços.

Contudo, antes de isso acontecer.

As baratas que se juntaram na barreira se moveram em uníssono. A onda de baratas diante de todos se moveu em uma esfera de ar, produzindo um anel circular para cercar o centro.

Sobrepondo mais anéis na periferia externa da forma de anel gigante. A próxima coluna de baratas começou a cercar o anel. Gradualmente, a cena começou a formar um padrão geométrico criado no ar. As bochechas de Hajime se contraíram.

— Ei, ei, ei, isso é sério? Elas estão formando um círculo mágico?

Antes, um círculo mágico foi formado por Nointo manipulando e alinhando suas penas de prata no ar2. As incontáveis baratas estavam agora fazendo a mesma coisa. Hajime e seu grupo declararam: — Que nojento! —, e continuaram seus ataques ao mesmo tempo.

No entanto, a onda de baratas se pôs à frente, assim, o centro do círculo mágico foi protegido.

Era literalmente uma parede de carne, e os ataques do grupo foram obstruídos. Os corpos das baratas que eram destruídas caíam como uma chuva torrencial nas partes inferiores, mas isto não parecia diminuir o número de inimigos.

Enquanto continuavam a lutar desta forma, o círculo mágico foi completado. Cerca de quinze metros de diâmetro flutuando no ar, um círculo mágico emitindo luzes intensas de vermelho e preto. E quando ele explodiu no momento seguinte, uma esfera central que consistia de baratas começou a crescer e tomar forma. Era uma barata enorme com cerca de três metros, no mínimo.

Mas ao invés de assumir a forma oval como as baratas a seu redor, ela surgiu com uma cauda em forma de agulha e um torso parecido com o de uma centopeia, complementado com dez pernas. Seus pés da frente tinham formas afiadas parecidas com facas. O rosto tinha olhos pretos, um queixo afiado, junto de seis asas totalmente translúcidas. Talvez este fosse um monstro na classe de chefão.

Gigi Chchichichichichichi chip!!!

A barata-chefão estava revestida por uma cor vermelha fosforescente e emitia gritos desagradáveis. Assim, as baratas se reuniram ao seu redor, começando a fazer outro círculo mágico. Ao que parecia, o chefão podia controlar as outras baratas. Uma esfera menor começou a ser formada, no meio de um novo círculo mágico. Não era a mesma barata-chefão, mas estava evidente que uma bem grande apareceu.

Tch… o que fazer?

— … nn!?

De repente, uma torrente de magia foi gerada de seus pés no momento que Hajime e Yue tentaram realizar um ataque no círculo mágico.

Ambos voltaram seus olhos para baixo na mesma hora, mas não havia nada para se ver no galho. Contudo, seu olho mágico enxergou muito além do galho, do outro lado da passagem, fora de cena, as baratas estavam formando outro círculo mágico.

Devia ser uma tentativa para desviar a atenção deles, criando um clarão de magia para esconder o outro círculo. Hajime falhou! O círculo agiu no momento que o Sinergista o percebeu.

Magia vermelha e preta foi transmitida através da passagem formada pelo galho. O garoto protegeu seu rosto da luz intensa. Após o clarão explodir, ele envolveu a região e desapareceu. Hajime e os outros pareciam intactos.

O que diabos foi isso? O garoto olhou para Yue perto dele enquanto ficava desconfiado.

— …

O sentimento que estava brotando dentro de Hajime nesse momento não era alívio pela segurança de sua amada e nem era o costumeiro amor, isso era…

… isso era ódio.


Tradutor:



Notas

[1] Furikake é um condimento seco da culinária do Japão que deve ser colocado em cima do arroz. Ele consiste, tipicamente, de uma mistura de peixes secos e moídos, sementes de gergelim, algas picadas, açúcar, sal e glutamato monossódico. Outros ingredientes saborosos como o katsuobushi (às vezes indicado no pacote como bonito), ou okaka (flocos de bonito molhados com shoyu e secados novamente), salmão, shiso, ovos, miso em pó, vegetais, entre outros, são frequentemente adicionados à mistura.

[2] Eventos do capítulo 103.



Fontes
Cores