KotB – Capítulo 39 – Asura (3)


As pessoas examinaram o chão com olhos em chamas.

No entanto, não importa o quão bom seus olhos eram, não era fácil para eles se acostumarem com a claridade e escuridão quando ela mudava a cada 3 segundos.

Mesmo que eles fossem capazes de se adaptar, não era possível eles pegarem todas as Sombras em movimento.

“Eaaah!!”

“Duas Sombras! O que eu devo fazer? Matá-las?”

O caos se espalhou.

Era a primeira vez que eles enfrentavam uma Provação como esta.

Este não era um ataque normal de monstros, uma pessoa ao lado de outra poderia ser possuída por uma Sombra e atacá-los.

A única maneira de saber se uma pessoa foi possuída ou não era verificando se a pessoa tinha uma ou duas sombras.

No entanto, ninguém entendeu completamente como eles deveriam suprimi-las.

‘Nós pegamos uma Provação difícil.’

Era muito raro as pessoas pegarem uma Provação com Espíritos na qual era difícil fazer alguma coisa.

Eles tinham que completar a Provação usando continuamente sua inteligência e agilidade, já que ataques físicos não funcionavam.

Scrunch!¹

Suzy agarrou as roupas de Muyoung.

Ela parecia assustada com os Espíritos dos mortos enquanto seu corpo tremia levemente.

Ela estava acostumada com monstros e pessoas morrendo, mas os Espíritos estavam em um nível ligeiramente diferente do que eles.

No momento em que o olhar de Muyoung chegou a Suzy, ela endireitou as costas.

“Eu não estou com medo. Mas eu posso ficar assim por um momento?”

“Use a sua Espada da Alvorada.”

“A-agora?”

Muyoung acenou com a cabeça.

Suzy usou a outra mão para convocar a Espada da Alvorada.

A Espada da Alvorada foi criada usando o poder mágico como sua fundação.

As propriedades da luz da Valquíria da Alvorada contrastavam com as propriedades das trevas dos Espíritos.

Havia uma chance de que isso funcionaria.

“Uma sombra está se aproximando. Quando eu lhe der um sinal, corte-a.”

“Entendido.”

Uma sombra estava imprudentemente avançando furiosamente em direção a eles.

Os olhos de Muyoung eram capazes de penetrar na profunda escuridão com mais clareza do que qualquer outra pessoa.

“Agora.”

“Ha….!”

Slash!

A Espada da Alvorada partiu direto para a cabeça da Sombra.

No entanto, a Sombra só cambaleou por um momento, não parou sua aproximação.

Muyoung agarrou a parte de trás do pescoço de Suzy e a levantou.

Como um gato que movia um gatinho mordendo a nuca de seu pescoço, Muyoung afastou-se rapidamente da área onde as Sombras estavam antes de soltar Suzy.

‘Funcionou, mas suas habilidades não eram suficientes para cortá-la.’

Era a decisão provisória de Muyoung.

Era difícil parar os Espíritos com o poder de Suzy.

Isso significava que ele precisava encontrar outro plano.

Já que o método de completar as Provações Espirituais era sempre diferente, era sensato pensar em todas as possibilidades enquanto se movia.

“El-eles realmente devem ser fantasmas. Meus ataques não funcionam.”

Todo o corpo de Suzy estremeceu.

Suas ações eram como as de um esquilo pequeno.

Naquele momento, o menino que usava o capacete de sol gritou no meio do caos.

“Luz! Tem que haver um dispositivo para acender as luzes da biblioteca! Encontrem-no!”

 

 

Era irônico, mas animais sempre seguiriam o mais forte.

Não importava quantas vezes a Guilda Solar agisse cruelmente, atualmente eles só podiam confiar no menino com o capacete de sol.

“O que você está dizendo? Você está dizendo que há um interruptor de luz?”

“Rápido, rápido!”

Seguindo o grito do menino, as pessoas moviam suas pernas.

Muyoung estalou sua língua silenciosamente enquanto ele observava a cena.

‘O pior cenário.’

Havia uma maneira de ninguém morrer e de escapar deste lugar se tivessem analisado calmamente a situação.

Se as 300 pessoas prendessem e amarrassem as 12 que estavam possuídas e as deixassem sozinhas, a situação poderia ter sido resolvida.

No entanto, quando um foi possuído a situação se tornou um caos.

Ele não poderia garantir que todos que tinham objetivos diferentes se manteriam juntos, agora que alguém já tinha morrido, seria difícil fazer com que as pessoas ficassem juntas.

Apesar de tudo, ele tinha esperanças no menino que tinha a confiança do povo, mas de todas as escolhas, ele escolheu o pior cenário.

Se eles pudessem encontrar rapidamente o dispositivo que poderia iluminar a escuridão, seria afortunado, mas…

Para fazer algo assim, a biblioteca era muito grande.

 

 

‘Quanto mais nos espalhamos, mais pessoas morrerão.’

As pessoas já começaram a se espalhar como um tumor maligno.

Em um instante, as pessoas dividiram-se e o caos da situação tinha aumentado.

“Qual lado você quer se juntar?”

“E-eu não quero ir a lugar nenhum.”

Quando Muyoung perguntou, Suzy respondeu imediatamente.

Ela agarrou firmemente nas roupas de Muyoung.

Suzy tinha um senso de sobrevivência que era melhor do que de qualquer outra pessoa.

Em outras palavras, isso significava que onde quer que ela fosse, seria o mesmo resultado.

‘Se for esse o caso…’

Se ele pudesse, ele queria ir para a próxima sala sozinho, mas devido às características da Biblioteca Celeste, ele precisava completar a primeira Provação para passar para a próxima sala.

Quando eles terminarem a Provação, a próxima decisão seria completamente deles.

Passar para a próxima Provação ou parar lá e esperar a porta abrir em 3 dias.

Muyoung olhou para o menino usando o capacete de sol.

Uma estrela ascendente enviada pela Guilda Solar.

Ele provavelmente não entrou aqui para obter uma Habilidade medíocre.

No entanto, sua inexperiência se expôs.

Ele parecia ter o orgulho exclusivo que somente os membros de uma grande Guilda tinham.

‘Parece melhor mover-me sozinho.’

Muyoung encolheu os ombros.

Era uma preocupação inútil.

Era como se já tivesse sido decidido anteriormente.

Ele silenciosamente caminhou em frente.

Permanecer juntos era a maneira mais fácil, mas já que tudo estava instável desde o início, parecia mais sábio olhar ao redor do que apenas ficar lá.

 

 

Hórus², o menino que usa o capacete de sol, cerrou seus dentes.

Ele era um talento famoso que foi até mesmo nomeado com o nome do Deus do Sol Egípcio.

A partir da lista de candidatos para o próximo mestre da Guilda, ele era definitivamente um dos poucos que se destacavam e tinha uma forte força militar.

Até mesmo o próprio Hórus estava confiante de que ele não perderia para ninguém na mesma faixa etária que ele.

No entanto, Hórus não era o primeiro da fila para ser o próximo mestre da Guilda.

Ele sempre foi considerado o segundo da fila e ele não entendia o por quê.

Por que era um cara mais fraco que ele?

Havia uma grande lacuna entre os dois, se eles lutassem, ele iria vencer 99 vezes das 100.

No entanto, o cara fraco era considerado o primeiro da fila para ser o próximo mestre da Guilda.

Ele não podia aceitar isso.

Uma vez, Alexandro Quintart tinha dito algo a Hórus que era assim:

Você não pode ter as qualificações para ser um soberano só porque você é forte’.

‘Não seja ridículo.’

Não seja ridículo.

Força era poder.

A autoridade para ter tudo era apenas para os fortes.

No entanto, Alexandro Quintart era da primeira geração.

Ele era alguém que chegou ao Submundo passando por um portão.

Por outro lado, Hórus era da segunda geração, que nasceu no Submundo.

Ele deu seu primeiro choro nesta terra estéril, onde os fracos e os pobres não podiam sobreviver.

Ele acreditava que seus valores só podiam ser diferentes.

Portanto, ele tinha se voluntariado para entrar na Biblioteca Celeste para provar a Alexandro que sua crença era verdadeira, que ‘força’ era tudo.

 

 

‘Eu certamente obterei a Habilidade Linhagem da Luz.’

Claro, ele se voluntariou para outro propósito além deste.

Quando ele coincidentemente entrou em uma sala cheia de segredos ultrassecretos da Guilda Solar, ele descobriu que havia uma Habilidade chamada ‘Linhagem da Luz’, que existia em algum lugar na Biblioteca Celeste.

No que ele encontrou afirmava que eles só sabiam de sua existência e não sabiam a localização específica. Mas a parte surpreendente era que a Linhagem da Luz era uma das maneiras de obter o ‘Trono do Sol’.

O Trono do Sol.

O ápice final que a Guilda Solar estava esforçando-se para conseguir.

O objetivo da Guilda era se tornar um Hélios³, quem conduziria uma Carruagem Solar.

Se ele pudesse alcançar o ápice final, não haveria ninguém que o desrespeitaria.

Até mesmo Alexandro o daria calmamente a posição de próximo mestre da Guilda sem pronunciar uma palavra.

No entanto… na realidade, ele estava perdido desde o início.

‘Eu nunca pensei que

Os Espíritos possuídos começaram lentamente a ganhar uma consciência.

Eles aproximavam-se de forma amigável e apunhalavam suas costas.

Era uma capacidade que os Espíritos normais não possuíam.

Depois de possuir alguém, eles absorviam o conhecimento da vítima e se comportavam como essa pessoa.

Para piorar as coisas, o tempo que ficava escuro aumentou.

A única maneira de eles exporem quem estava possuído era olhando para o número de Sombras que a pessoa tinha, mas eles não podiam nem mesmo fazer isso corretamente.

“Tenham cuidado com as pessoas que se aproximam de vocês. Precisamos nos mover juntos.”

Cerca de 50 pessoas se reuniram em torno de Hórus.

Se ele pudesse, ele queria matar todos e se mover por conta própria, mas esta não era a única Provação.

Ele precisava reunir quantas pessoas ele pudesse para seguir em frente.

“Merda, quantas pessoas já morreram…”

“30 pessoas eu acho?”

Era fácil ver que os cadáveres estavam espalhados por toda a volta.

No entanto, era muito difícil distinguir quem estava possuído de quem não estava.

Eventualmente, tornou-se uma situação na qual era difícil dizer quantos Espíritos restavam.

“Tem livro pra caralho.”

“Eu só queria poder sair ao escolher uma Habilidade aleatória.”

Enquanto se moviam entre os corpos, as pessoas olhavam as prateleiras.

Cada livro era uma Habilidade e parecia que havia milhares de livros atualmente organizados.

Enquanto eles observavam, com um baque, alguém acidentalmente tocou um cadáver deitado no chão com o pé. Naquele momento, o cadáver de repente abriu os olhos e agarrou o tornozelo do homem.

“Eaahhh! O qu-o que é… Gahhh!”

O cadáver pelo qual ele passou e que ele achava que estava morto, mordeu o seu tornozelo. Em seguida, levantou-se, pegou uma espada e cortou o corpo do homem na diagonal.

Swoosh!

Hórus ergueu sua espada e investiu furiosamente.

Em um instante, ele reduziu a distância, entre o Espírito e cortou o pescoço da pessoa possuída.

No entanto, sem tempo para ficar aliviado, o homem ao lado dele atacou.

Eram duas?

Não, não eram.

‘De fingir de morto até se mover entre os corpos.’

Logo antes de morrer, a Sombra separou-se e moveu-se para a pessoa ao lado.

Aconteceu num instante.

Blaze!

No entanto, asas ardentes apareceram das costas de Hórus e queimaram o homem.

Um cheiro fumegante espalhou por toda parte e as asas ardentes esconderam sua existência como se elas não existissem desde o início.

‘Merda.’

Hórus praguejou em seu coração.

Ele ouviu histórias sobre Provações Espirituais, mas aquela que ele precisava completar parecia ser o pior entre elas.

Ele precisava acender as luzes rapidamente.

Para uma Provação como esta, tinha que haver um dispositivo em algum lugar para iluminar o local.

Tick-

Foi naquele momento.

Como se elas estivessem sendo acesas, as luzes ao seu redor cintilaram enquanto elas ficavam mais brilhantes.

Hórus franziu a testa fortemente.

‘Mas quem?’

Ele estava planejando começar a procurar pelo interruptor, mas parecia que alguém já tinha o encontrado.

Foi mais rápido do que ele imaginou.

Não era ruim, mas por alguma razão, ele se sentiu desconfortável com isso.

 

◈Você concluiu a ‘Sala de Rank Baixo’. ◈

◈Agora as portas para a ‘Sala de Rank Médio’ serão abertas. ◈

 

Creeack-!

Thummp! Thummp!

Ele podia ouvir as portas abrindo aqui e ali.

No entanto, a expressão de Hórus não relaxou.


Muyoung moveu-se de acordo com a direção que os Espíritos entraram.

Os Espíritos estavam espalhados, e parecia que todos estavam indo para uma mesma direção.

Nem mesmo os Espíritos podiam pegar Muyoung quando ele se movia na escuridão.

Muyoung foi capaz de chegar a um local, seguindo uma regra simples.

‘Está escondido em um lugar mais fácil do que eu pensei.’

Uma estante.

Ao contrário das outras estantes, os livros nesta estante estavam desorganizados.

No momento em que ele organizou os livros naquela estante, a luz acendeu na Biblioteca Celeste.

“Uau, ficou mais claro.”

Satisfeito, Muyoung seguiu em frente.

Suzy seguiu-o apressadamente.

 

 

Muyoung parou por um momento e falou.

“Você está pensando em entrar na próxima sala?”

“Eu não posso segui-lo?”

“Se você for escolher uma Habilidade, você pode ficar aqui.”

“Hum, é que… Eu não quero ficar aqui sozinha.”

Suzy era do tipo que facilmente se sentia sozinha.

Era muito provável porque ela era nova, mas ela não era um incômodo nesta situação atual.

Além disso, a ‘premonição’ de Suzy era bastante útil.

Encontrar esta estante foi em parte devido à Suzy.

Além disso, Muyoung pensou que se Suzy pudesse obter uma boa Habilidade, a Habilidade poderia ajudar Taehwan a se estabelecer como um soberano.

Foi por que ele matou inúmeros heróis no passado?

Muyoung queria ter até mesmo um vislumbre de uma pessoa que pudesse ser considerada como um verdadeiro herói, trilhar o seu caminho até topo a partir do fundo.

Mesmo que seus caminhos fossem diferentes do caminho pelo qual Muyoung trilhou.

“Não me incomode e apenas siga.”

“Aceito as suas ordens.”

Suzy riu tolamente e continuou.

“No passado, meu pai costumava dizer isso para minha mãe.”

“Não diga palavras inúteis.”

“Sim…”

Suzy fez beicinho e Muyoung, com o coração frio, virou seu corpo.

Infelizmente, Muyoung não era um adversário com que se podia fazer piadas.


Tradutores: Wolf e Heilong   |   Revisora: Ana Paula   |   QC: BravoEd



1 – É o som de ‘amassar’, no caso a roupa do Muyoung foi amassada quando a Suzy agarrou ela.⤴

2 – Hórus era um deus solar, filho de Osíris e Ísis, considerado como a manifestação do poder do Sol. Era considerado o “Deus dos Céus”. Hórus, para os antigos egípcios, é considerado a encarnação de Rá na Terra, a manifestação solar no plano material, o princípio do fogo. Hórus era a “encarnação do dia”, aquele que venceu o deus Seth (representação do mal) heroicamente, na luta entre o bem e o mal, fazendo vencer a luz. ⤴

Origem:
Existem várias lendas sobre a origem do deus Hórus, mas há duas em particular que são mais conhecidas e difundidas. Em ambas ele possuía a forma de um falcão. A lenda não chegou até nós através de documentos egípcios, a não ser por fragmentos de textos, vinhetas e algumas cenas em tumbas, mas já relacionadas às histórias de algum personagem. Quem nos revela a lenda de Osíris é Plutarco, beócio da Queronéia (Grécia), nascido por volta da primeira metade do século I d.C. Essa lenda, mais que qualquer outra, exerceu uma enorme influência no espírito egípcio.

A primeira história conta que o deus Hórus era filho primogênito da deusa Hathor e era chamado de “O Distante”. Mais tarde ele tornou-se filho de Geb e Nut, o irmão de Ísis e Osíris. A lenda de Hórus, filho de Osíris e Ísis é uma das mais importantes de toda mitologia egípcia, pois faz parte da “tríade sagrada” (pai, mãe e filho). Hórus tornou-se um dos deuses de maior importância da vasta cosmologia egípcia.
Essa lenda conta na íntegra toda a vida do deus Hórus, desde seu primeiro nascimento no Céu (nascido do ventre de Nut) e posteriormente nascido de novo na Terra (nascido de Ísis). Nela consta a famosa batalha entre Hórus e Seth, que retrata a eterna batalha entre o bem e o mal, entre a luz e as trevas, entre o dia e a noite, entre a vida e a morte. É uma disputa que envolve todos os poderes do Universo, todos os deuses e deusas do Céu e da Terra. Na lenda de Hórus, constatamos as emoções mais primitivas, como o ciúme, a trapaça, a inveja, a sensualidade, a amargura, o amor puro, a fidelidade e a compaixão. Este mito representa a luta entre a fertilidade do vale do Nilo (Osíris) e a aridez do deserto (Seth). ⤴

História de Hórus:
Hórus, o duas vezes nascido: No início dos tempos, Nut, a deusa do Céu, e Geb, o deus da Terra apaixonaram-se, e desse amor nasceram Rá, o deus do Sol e Thot, o deus da Lua.
Algum tempo depois, Nut engravidou novamente, despertando o ciúme feroz de Rá, que temia perder seu lugar como primogênito e herdeiro. Por ser o Sol quem determinava o dia e a noite, assim como a duração dos dias, meses e anos, Rá decidiu “parar” o tempo, para que seus irmãos (Nut esperava quíntuplos) não pudessem nascer e dessa forma, ele reinaria absoluto.

Muitas eras se passaram assim, e os pequenos bebês dentro do ventre de Nut cresceram, tornando-se adultos. Devido à essa razão, já tinham entendimento e sentimentos de pessoas adultas. Foi então que, ali mesmo, dentro da barriga de sua mãe, Osíris e Ísis se apaixonaram. O filósofo grego Plutarco nos conta que, antes mesmo de nascerem, Ísis e Osíris, enamorados um do outro, uniram-se dentro do ventre de Nut e dessa união nasceu Haroéris, conhecido como Hórus (ali mesmo dentro do ventre de Nut). Assim, esse deus seria filho de Ísis, nascido dentro do ventre de Nut a qual, por seu turno, deu-lhe à luz pela segunda vez. Desta maneira, Haroéris é filho de Nut e, portanto, irmão de Ísis e Osíris, ao mesmo tempo em que é filho de Ísis e Osíris.

Muitas eras se passaram assim, até que Thot, compadecido do sofrimento de sua mãe, usou um artifício contra Rá para enganá-lo: ele venceu Rá num jogo de damas e exigiu como prêmio cinco dias do ano, para que seus irmãos pudessem nascer E assim vieram ao mundo Osíris, Hórus, Seth, Ísis e Néftis, respectivamente. Primeiro nasceu Osíris.

Depois veio Hórus. Esse foi o primeiro nascimento de Hórus. Porém, assim que Hórus nasceu ele se agarrou ao ventre do Céu. Era um falcão de ouro, cujas garras nunca sentiram a Terra. Tinha olhos aguçados e uma visão ampla. Hórus voou até os confins do Universo e voltou. Das alturas, observava como se formavam as leis do Céu e da Terra, quão profunda era a noite, quão radiante o dia, quão fresca a sombra e quão belos o anoitecer e a aurora.

Seth nasceu revoltado contra a crueldade de Rá e jurou vingança. Seu ódio fez com que nascesse deformado e feio. Depois vieram Ísis e Néftis. Ísis casou-se com Osíris e Néftis casou-se com Seth. Os deuses ocultos decretaram que a Osíris, o primogênito, seriam dadas as terras negras (férteis) do Egito, situadas dos dois lados do Nilo. Era onde cresciam os grãos e pastavam os animais, onde se plantava e se colhia. Seth recebeu toda a terra vermelha, onde habitavam os cães selvagens, os javalis e os animais do deserto. Era o deserto, a morada dos beduínos.

Com inveja de Osíris, Seth jurou a si mesmo que tomaria o trono do irmão. Anos depois, durante a ausência de Ísis que havia viajado para realizar os partos das mulheres grávidas da região, Osíris, se sentindo muito triste e só, resolveu dar uma festa para comemorar os 28 anos da sua chegada ao Egito. Seth, sabendo disso, elaborou um plano: modelou uma bela caixa de cedro do tamanho de Osíris e revestiu-a com ouro e pedras preciosas. Ele conhecia uma rainha e feiticeira etíope chamada Aso e pediu a ela que lançasse um sortilégio maligno sobre a caixa. Ela então lançou o sortilégio da eternidade, do sono e do confinamento.

No meio da festa, Seth chegou acompanhado de 72 homens, companheiros de sua tribo no deserto. Osíris o abraçou e ficou contente em ver que Seth deixara de lado as divergências entre ambos. Seth trouxe então o seu “presente” e disse que daria aquele “troféu” ao homem que coubesse deitado em seu interior. Um a um, todos os convidados deitaram dentro da caixa, mas nenhum deles cabia nela com exatidão. Somente Osíris coube nela com perfeição. Aí então, os companheiros de Seth fecharam o esquife com Osíris dentro, soldaram as beiradas com chumbo e o lançaram no Nilo. Vitorioso, Seth voltou ao palácio e tomou posse do trono de Osíris.

Logo a notícia se espalhou pelo Egito, chegando aos ouvidos de Ísis. Esta, ao saber da morte do marido, enlouqueceu, e passou a perambular pelas ruas em desespero total. Depois resolveu sair em busca do corpo de Osíris. Durante semanas a fio ela percorreu o Egito perguntando a cada um que encontrava se havia visto o caixão de Osíris. Somente em Biblos, na costa da Síria, foi que algumas crianças disseram que haviam visto o caixão, mas que quando este tocou a terra, subitamente brotou uma tamargueira que prendeu em seu tronco a arca cravejada de joias. Ísis então saiu em busca da árvore e finalmente a encontrou. Após muitos contratempos e dificuldades, ela conseguiu trazer o corpo de Osíris de volta ao Egito.

Inconsolável com a perda do homem amado, num momento de profundo desespero e desalento, Ísis resolve usar sua magia (pois Ísis era uma grande feiticeira) para tentar ressuscitar Osíris. E ela conseguiu, não por completo, mas de maneira suficiente para que, movida pela dor e pela emoção, transformou-se num falcão e uniu-se fisicamente ao marido, concebendo assim seu divino filho Hórus, a criança dourada. Quando tudo terminou, Ísis adormeceu sobre o esquife de Osíris. Ela então teve um sonho com o ovo azul do mundo, do qual nasceu um falcão de ouro, brilhante e de penas azuis, com asas enormes, que cobriam todo Egito. Sonhou com as pegadas do falcão na areia, na lama do rio, e com uma cobra subindo ao céu, presa nas garras do falcão. Os deuses colocaram uma dupla coroa sobre a cabeça do falcão. Ela então acordou, e sentiu a vida que pulsava dentro do seu ventre. Emocionada, Ísis disse: “ Eu sou Ísis, irmã e esposa de Osíris, mãe de um deus. Agora não sofro nem choro mais, pois carrego a semente de Osíris. Darei à luz a um deus, à criança que vingará o pai e compensará as tristezas da mãe. A criança em meu ventre não é outro senão Hórus, meu filho, meu irmão, aquele que mata os inimigos. Duas vezes nascido, emergiu outrora no Céu e agora na Terra. Será conhecido como “rei de ouro” no coração do povo. Enquanto viver, Osíris viverá!”

Ísis então ficou mais que nunca determinada a ressuscitar Osíris completamente. Mas para isso precisava de tempo para fazer sua magia agir totalmente e também da ajuda de um guardião para o corpo de Osíris enquanto não terminasse o ritual. Então ela escondeu o corpo numa caverna e saiu em busca de sua irmã Néftis e de seu sobrinho Anúbis para ajudá-la a proteger Osíris da fúria de Seth. Porém, naquela mesma noite, Seth caçava ali perto e com a ajuda dos cães selvagens do deserto que farejaram o cheiro do corpo, ele encontrou o esconderijo onde estava Osíris. Furioso, Seth percebeu que Osíris respirava, que estava vivo e adormecido. Transtornado de ódio, ele apunhalou Osíris no peito, causando sua segunda morte. Fora de si, Seth o golpeou várias vezes, esquartejando-o em 14 pedaços. Quando acabou, juntou todos os pedaços num saco de couro e atirou no Nilo.

O Nilo ficou vermelho com o sangue e os pedaços do corpo foram levados pela correnteza, chegando depois às margens do rio. Todos, menos o falo, que foi devorado por um peixe. No instante da morte de Osíris, Ísis ouviu seu grito. Desesperada, correu ao local onde havia escondido o corpo do marido. Foi então que ela viu sua cabeça cortada nas margens do Nilo. Porém, Ísis não estava disposta a entregar Osíris para a morte. Com a ajuda de Néfits e Anúbis, ela escondeu a cabeça de Osíris numa caverna e saiu em busca das outras partes de seu corpo espalhadas ao longo do Nilo. Ela pretendia reunir os membros do corpo de Osíris e assim restaurar o reinado divino do marido através de sua magia.

Vinte e oito dias após ter encontrado e juntado todos os pedaços do corpo (menos o falo, que ela substituiu por um pedaço de cedro de ouro), Ísis iniciou seu ritual de magia e ressuscitou Osíris. Porém agora, ele não voltou a viver no mundo dos vivos, mas sim passou a governar e reinar no mundo dos mortos, o Duat. Osíris retornou ao reino dos mortos, mas já tinha deixado a sua semente em Ísis. ⤴

Hórus, filho de Osíris e Ísis:
Tempos depois, nos pântanos do delta, num lugar chamado Chemnis, perto da cidade de Buto, Ísis deu à luz à Hórus, num campo de papiros. Esse foi o segundo nascimento de Hórus. Hórus foi criado ali, no campo de papiros, escondido de Seth, que o procurava para matá-lo e se apoderar em definitivo do trono do Egito. Esse foi o segundo nascimento de Hórus.

Embora a natureza inóspita desta região fosse segura, visto que Seth jamais se aventuraria por uma região tão desértica, a mesma comprometia sua subsistência, dada a escassez de alimentos característica daquele local. Para assegurar sua sobrevivência e a de seu filho, Ísis foi obrigada a mendigar, pelo que, todas as madrugadas, escondia Hórus entre os papiros e saía pelos campos, disfarçada de mendiga, afim de obter o tão necessário alimento.

Enquanto ela estava ausente, Hórus era amamentado pela vaca Hathor e protegido pelas deusas-serpente Wadjet e Renenutet, que se revezavam tomando conta dele. Hórus cresceu na companhia de 7 najas, 7 vacas e 7 escorpiões que o protegiam e o ensinavam sobre as coisas do mundo. Dois anos depois, Seth enviou um de seus espiões à cidade e conseguiu descobrir onde era o esconderijo de Hórus.

Então, numa manhã durante a ausência de Ísis, um escorpião entrou no berço de Hórus e o picou. Nesse instante, um falcão soltou um grito agudo no céu e depois caiu como uma pedra. Ísis teve um mau pressentimento e correu para ver o que houve com o filho. Chegando lá, encontrou Hórus rígido como uma pedra, sem respiração, com os olhos fechados e uma espuma branca saindo de sua boca. Ouvindo os lamentos de Ísis, a deusa-escorpião Selket foi até ela e disse: “Reze para Thot. A criança viverá enquanto o Sol permanecer no céu.”

Ísis então levantou os braços para o céu e pediu:” Thot, parai o tempo. Parai o Sol. Parai a Barca de Milhões de Anos”.

Dessa forma, Ísis rogava a Rá que suspendesse o seu percurso usual até que Hórus convalescesse integralmente. Compadecido com as suplicas de uma mãe, o deus solar ordenou assim a Thot que salvasse a criança.

Thoth então desceu do céu e ajoelhou-se ao lado de Ísis. Hórus não respirava e seu coração havia parado; ele jazia, inerte. Thot declarou então: “ Nada temas, Ísis! Venho até ti, armado do sopro vital que curará a criança. Coragem, Hórus! Aquele que habita o disco solar protege-te e a proteção de que gozas é eterna”.

Thot então sussurrou as palavras de poder para Ísis e ela as sussurrou no ouvido de Hórus. Instantes depois, ele voltava a respirar e abriu os olhos, pedindo água. Após haver banido, com a sua magia divina, o letal veneno que estava prestes a levar Hórus à morte, Thot pediu aos habitantes da região que velassem pela criança, sempre que a sua mãe tivesse necessidade de se ausentar. Muitos outros sortilégios se abateram sobre Hórus no decorrer da sua infância (males intestinais, febres inexplicáveis, mutilações), apenas para serem vencidos logo em seguida pelo poder da magia das sublimes divindades do panteão egípcio.

Por essa razão, as estelas (pedras com imagens) de Hórus eram consideradas curativas de mordeduras de serpentes e picadas de escorpião, comuns nestas regiões, dado representarem o deus na sua infância vencendo os crocodilos e os escorpiões e estrangulando as serpentes. Sorver a água que qualquer devotado lhe houvesse deixado sobre a cabeça, significava a obtenção da proteção que Ísis proporcionava ao filho. Nestas estelas surgia, frequentemente, o deus Bes, que mostra a língua aos maus espíritos. Os feitiços cobrem os lados externos das estelas. Encontramos nelas uma poderosa proteção, como salienta a famosa Estela de Mettenich: “Sobe veneno, vem e cai por terra. Hórus fala-te, aniquila-te, esmaga-te; tu não te levantas, tu cais, tu és fraco, tu não és forte; tu és cego, tu não vês; a tua cabeça cai para baixo e não se levanta mais, pois eu sou Hórus, o grande Mágico”. Quando Seth soube do milagre, amaldiçoou mãe e filho e voltou a persegui-los. Devido aos riscos que sua presença trazia ao filho, Ísis o deixou aos cuidados das amas de Buto. Hórus tinha cinco anos de idade. Hórus cresceu como o Sol nascente. Ele próprio era um grande falcão que cortava os céus.

Quando ela retornou para sua companhia, Hórus já havia se tornado um homem. As aventuras da deusa a levaram além da compreensão do filho. Através do sofrimento, ela havia se tornado uma mulher sábia, uma xamã. Já era hora de ensinar ao filho a verdadeira missão de sua alma. Ela então lhe ensinou os caminhos do guerreiro e o significado de ser herói, amante e mago. Ísis ensinou-lhe a magia, as palavras de poder, os nomes secretos dos deuses e mostrou-lhe todos os templos sagrados. Porém, por ser uma mulher, ela não tinha familiaridade com os caminhos do guerreiro. Então ensinou Hórus a entrar em contato com seu pai Osíris em sonhos. Através do plano psíquico e intuitivo, Hórus recebeu a benção do pai e sua orientação espiritual. Em sonho, Hórus soube da morte do pai e de como tudo aconteceu. Viu sua própria concepção mágica e pode sentir o dilaceramento do corpo do pai quando foi esquartejado por Seth.

Osíris então orientou o filho: “Erguei minha alma, Hórus. Espalhai a palavra da minha autoridade. Em meu nome, defende os portões do Amentet e não permita que Seth se aproxime de novo. Eu, Osíris, me manifesto e ressurjo através de vós. Eu me deterioro e cresço em vós. Eu me prostro e me levanto em vós. A partir de amanhã eu vos ensinarei a usar o arco, as flechas, a faca e a maça”. Osíris então voltou à Terra para fazer dele um guerreiro. Hórus era visitado frequentemente por seu pai Osíris, que lhe ensinava tudo sobre Seth para que vingasse a sua morte.

Assim, Hórus passou parte de sua vida no deserto, longe da mãe e perto do pai. Durante o dia ele viajava para os mundos superiores como um falcão sobre a planície. À noite, descia em sonho para fazer o trabalho do pai. Finalmente, quando se tornou um guerreiro, Hórus pôde deixar o deserto e apareceu nas ruas de Hieracômpolis no esplendor da glória, preparado para a luta, os braços musculosos ornados com as braçadeiras douradas do guerreiro, o disco solar brilhando em sua cabeça. Hórus então passou a cuidar do povo, trazendo de volta a alegria e prosperidade a todos.

Hórus formou um exército ao qual se uniram muitos egípcios, todos seguidores fiéis a Osíris e partiu em busca de Seth para vingar a morte do pai. Os comparsas de Seth, que observavam os passos de Hórus de longe, ficaram cansados da vida no deserto e resolveram se juntar a Hórus, empunhando suas espadas a seu favor. Hórus, por sua vez, lhes ensinou a usar as armas de ferro, a lealdade do leão e a velocidade do cavalo. Tauret, a deusa-hipopótamo, que era concubina de Seth, assim que soube da beleza e virilidade de Hórus, decidiu procurá-lo e fazer dele seu marido, abandonando Seth. Essa foi a gota d’água para Seth, que já não se conformava por Hórus ter sobrevivido, crescido, exaltado o nome de Osíris, ter sido abandonado por seus comparsas e agora era abandonado por sua concubina por causa dele. Era demais. Seth, enfurecido, pôs a coroa de guerra e foi atrás de Hórus, armado com uma faca.

Porém, ao invés de lutar, Hórus levantou voo na forma de um falcão e foi para o Céu, onde o Conselho dos Deuses estava reunido. Thot disse: “Chegou a hora. Que a justiça prevaleça sobre a força”. Hórus era herdeiro do reino terrestre do seu pai. Hórus então falou: “Meu pai está morto. É desejo dele que eu governe a Terra Negra, mas Seth roubou a terra fértil de meu pai. Venho em nome de minha mãe e de meu pai para receber a coroa de Osíris”.

Ao convocar o tribunal dos deuses, presidido por Rá, Hórus afirmou o seu desejo de que Seth deixasse, definitivamente, a regência do país, encontrando o apoio de Thot, deus da sabedoria, e de Shu, deus do ar. Todavia, Rá contestou-os, veementemente, alegando que a força devastadora de Seth, talvez lhe concedesse melhores aptidões para reinar, uma vez que somente ele fora capaz de dominar o caos, sob a forma da serpente Apópis, que invadia, durante a noite, a barca do deus- Sol, com o intuito de extinguir, para toda a eternidade, a luz do dia. Os deuses, porém, divergiram entre si sobre quem teria o direito ao reino do Egito: se Hórus, por ser filho e herdeiro de Osíris ou Seth, por ser filho de Nut, mãe de Osíris e Seth. Sendo assim, recorreram à própria Nut e ela respondeu: “Daí a Terra Negra de Osíris a seu filho Hórus. Duplicai o tamanho da Terra Vermelha de Seth e lhe dêem duas outras concubinas para compensar a partida de Tauret: Anat e Astarte”.

Rá, porém, não concordou com a decisão da mãe e decidiu que Hórus e Seth deveriam disputar o reino numa batalha. Hórus então reuniu todos os fiéis a Osíris e partiu em busca de Seth para vingar a morte do pai. ⤴

A Batalha de Hórus e Seth:
A luta entre Seth e Hórus foi longa e angustiante; uma briga que parecia não ter fim. Eles infligiram um ao outro feridas horríveis. Eles mudavam de forma e combatiam sem parar, como homens ou na forma de hipopótamos, leões, ursos, cobras e até criaturas míticas nunca vistas antes. E eles lutaram durante 80 anos. Depois de combates árduos, a última batalha aconteceu em Edfu.

Rá, que podia ver o futuro refletido nos olhos dos homens, olhando fixamente no olho de Hórus, viu o Grande Mar Verde, mas Seth estava observando Rá e se transformou em um grande javali, que passou por ele, distraindo-o. Nem Rá nem Hórus o reconheceram, e Seth, em sua forma animal, disparou um sopro de fogo nos olhos de Hórus, fazendo-o emitir um grande grito de dor. Nesse momento viu-se que o javali não era outro a não ser Seth. Rá foi até Hórus, que se recuperou da perda da visão e reuniu novamente um exército que iria lutar contra Seth. Na guerra houveram muitas batalhas mas a última e a maior foi em Edfú, onde se encontra o grande templo que recorda esse dia.

Seth e os seus fiéis transformaram-se nos mais terríveis e estranhos animais para vencer Hórus. Seth sugeriu que ele próprio e o seu adversário tomassem a forma de hipopótamos, com o intuito de verificar qual dos dois resistiria mais tempo, mantendo-se submersos dentro de água. Hórus, então, durante o combate, mutilou e esterilizou Seth. Ísis, angustiada com aquela batalha sem fim, resolveu ajudar seu filho . Quando Hórus e Seth lutavam no fundo do Nilo sob a forma de dois hipopótamos, ela atirou um arpão no local onde ambos haviam desaparecido. Porém, ao golpear Seth, este apelou aos laços de fraternidade que os uniam, coagindo Ísis a salvá-lo, logo em seguida.

E Seth gritou: “ Ísis, minha irmã, o que fizestes? Não te lembras mais do teu irmão? Tirai a vossa arma de mim!”. O coração de Ísis se compadeceu de aflição e amor pelo irmão, e ela puxou o arpão de volta, retirando-o. No fim, Seth estava prestes a sucumbir, quando Ísis interveio suplicando ao filho que desse fim ao massacre, pois afinal Seth era seu irmão e marido de sua irmã predileta, Néftis.

Ao ouvir a voz da mãe na margem, Hórus ficou furioso. Por que ela estava libertando Seth quando finalmente ele o tinha dominado e vencido?
Por que ela libertou o assassino de seu pai e usurpador do trono? Hórus então, num ímpeto de ódio e totalmente dominado pela fúria, saiu da água como uma pantera selvagem e correu atrás de sua mãe, que fugiu como uma gazela apavorada. Mas ele conseguiu apanhá-la e, erguendo sua faca num golpe certeiro, ele cortou fora a cabeça de sua mãe.

Nesse instante Hórus caiu em si sobre o que havia feito, e deixando cair a faca ensangüentada, fugiu para as montanhas perto de deserto, com a intenção de nunca mais voltar, pois não poderia encarar mais ninguém depois de cometer um crime tão cruel. Enquanto isso, Thot, que testemunhara tudo, correu em socorro de Ísis, e usando de sua magia e das palavras de poder, colocou sobre seus ombros uma cabeça de vaca. ⤴

O Olho de Hórus:
Ao tomar conhecimento de tão hediondo ato, Rá, irado, vociferou que Hórus deveria ser encontrado e punido severamente. Prontamente, Seth ofereceu-se para capturá-lo. Seth seguiu Hórus até as montanhas e o encontrou adormecido no oásis, sob o luar, embaixo de uma árvore. Seth então, transformou-se num grande porco negro e arrancou o olho esquerdo de Hórus, jogando-o bem longe. E, assim, a Lua parou de iluminar.

O olho que Hórus perdeu (o olho esquerdo) é o olho da Lua, o outro é o olho do Sol. Esta é uma explicação dos egípcios para as fases da Lua, que seria o olho ferido de Hórus. A crença egípcia refere igualmente que, em memória desta disputa feroz, a Lua surge, constantemente, fragmentada, tal como se encontrava, antes que Hórus fosse curado.

Seu olho esquerdo foi então substituído por um amuleto que simbolizava proteção e poder. Hórus ofereceu um de seus olhos a seu pai, como símbolo de vida, retomando apenas um dos olhos para si mesmo. Ele dedicou o olho perdido a Osíris, passando a usar uma serpente sobre a cabeça para substituí-lo. Mais uma vez Thot veio em socorro de Hórus, encontrando o olho perdido e restituindo-lhe a visão. E então a Lua voltou a brilhar no Céu.
Hórus, já curado, foi para o Céu, na sala do Conselho dos Deuses. Seth já estava lá, bebendo vinho e sussurrando mentiras no ouvido de Rá. Hórus então disse: “ Seth arrancou meu olho, mas Thot me curou. Seth respondeu: “ É mentira! Nem me aproximei dele! Seth acusou Hórus de não ser filho de Osíris, tendo nascido depois da morte do pai. Hórus refutou a acusação, tachando Seth de má fé e o acusou pelo assassinato do pai.

Rá perdeu a paciência: “ Estou farto disso, das brigas intermináveis de vocês! Meus cabelos ficaram brancos por vossa causa. Fizestes de mim um velho! ”, e saiu cheio de raiva. Os outros deuses gritaram: “ A luta deve terminar. Vão para casa, comam e bebam juntos, façam uma festa só para vocês, mas deixem os deuses em paz!” Por fim os deuses decidiram que Hórus ficaria como rei do Baixo Egito e Seth como rei do Alto Egito. Seth sorriu e convidou Hórus para uma festa em sua casa para comemorar a divisão dos reinos. Foram embora juntos, como os deuses ordenaram.

Na festa, eles comeram e beberam. Depois, sonolentos e cansados, trocaram palavras generosas sobre como as Duas Terras poderiam viver. Seth disse que se quisessem conviver em harmonia, deveriam encarnar a terra dos dois reinos e dormirem um próximo ao outro, como a terra negra e a areia vermelha. Cansado demais para discordar, Hórus deitou-se perto de Seth e de costas para ele. Porém, no meio da noite Hórus acordou e viu que Seth tentava desonrá-lo. Hórus, embora precavido, não conseguiu impedir que uma gota de esperma do seu rival tombasse em suas mãos. Desesperado, Hórus foi ao encontro de sua mãe, a fim de suplicar-lhe que o socorresse. Ficou extremamente surpreso ao encontrá-la com uma cabeça de vaca sobre os ombros. Pedindo perdão à mãe, ele encontrou e trouxe de volta a cabeça de Ísis e colocou-a sobre seus ombros. Deu-lhe de presente um diadema reluzente com uma coroa de chifres, fazendo dela novamente a rainha do Céu e da Terra.

Partilhando do horror que inundava Hórus, Ísis decepou as mãos do filho, e arremessou-as de seguida à água, onde graças à magia suprema da deusa, elas desaparecem no lodo. Todavia, esta situação tornou-se insustentável para Hórus, que tomou então a resolução de recorrer ao auxílio do Senhor Universal, cuja extrema bondade o levou a compreender o sofrimento do deus- falcão e, por conseguinte, a ordenar ao deus- crocodilo Sobek, que resgatasse as mãos perdidas. Embora tal diligência tenha sido coroada de êxito, Hórus deparou-se com mais um imprevisto: as suas mãos tinham sido abençoadas por uma curiosa autonomia.

Novamente evocado, Sobek é incumbido da tarefa de capturar as mãos que teimavam em desaparecer e levá-las até junto do Senhor Universal, que, para evitar o caos de mais uma querela, tomou a resolução de duplicá-las. O primeiro par é oferecido à cidade de Nekhen, sob a forma de uma relíquia, enquanto que o segundo é restituído a Hórus. ⤴

O Triunfo de Hórus:
Na manhã seguinte, Seth convocou novamente o Conselho dos Deuses, exigindo uma decisão definitiva sobre quem ocuparia o trono de Osíris e pediu a Rá por uma última batalha contra Hórus. Rá, porém, não concordou, pois estava farto de lutas. Perguntou a Thot qual deus ainda não havia sido ouvido no conselho e ele lhe respondeu: “ Osíris. O trono é dele. Eles são seu filho e seu irmão. Deixe que Osíris decida”.

Rá propôs então que ambos revelassem aquilo que tinham para oferecer à Terra, de forma a que os deuses pudessem avaliar as suas aptidões para governar. Sem hesitar, Osíris alimentou os deuses com trigo e cevada, enquanto que Seth limitou-se a executar uma demonstração de força. Quando conquistou o apoio de Rá, Osíris persuadiu então os outros deuses dos poderes inerentes à sua posição, ao recordar que todos percorriam o horizonte ocidental, alcançando o seu reino, no culminar dos seus caminhos.

Osíris reafirmou sua importância e supremacia no mundo dos mortos, lembrando a Rá que sua própria barca solar só poderia navegar com a sua proteção, pois era ele, Osíris, quem a protegia dos monstros selvagens que queriam devorá-la no mundo subterrâneo. Também afirmou que Maat, a deusa da justiça, vivia lá com ele e era ele, Osíris, quem segurava a balança de Maat e pesava os corações dos mortos. Lembrou ainda que Geb, pai de ambos, determinou que ele, Osíris, prevaleceria até o final dos tempos. Até bem depois dos homens e dos deuses, e que esse era o seu julgamento final. Por fim, Osíris ameaçou mandar levantar todos os mortos se a justiça não fosse feita.

Então Rá e o tribunal dos deuses estabeleceram que a sucessão fosse hereditária, sentenciando que, na causa entre Seth e Osíris, seria Osíris quem deveria recuperar o reino que teve em vida, e acrescentou à sua coroa a parte do país que originalmente correspondeu ao seu irmão e assassino. Na longa e controversa vista da briga entre Seth e Hórus, que durou nada menos que oitenta anos, os juízes celestiais terminaram por sentenciar o pleito sobre os direitos sucessórios a favor de Hórus. O filho póstumo de Osíris recuperava o que lhe correspondia pela sua linhagem: a sucessão no trono de Egito. Assim, o filho era reconhecido pela divindade como soberano indiscutível.

Portanto, foi concedida finalmente ao deus- falcão a tão cobiçada herança, o que lhe valeu o título de “Hor-paneb-taui” ou “Horsamtaui/Horsomtus”, ou seja, “Hórus, senhor das Duas Terras”. Rá então tomou a decisão de deixar o comando do mundo, pois estava velho e cansado. Tomou Seth sob sua proteção e o encarregou de ficar na proa da barca solar quando essa penetrava nas águas escuras do Duat (reino dos mortos), matando as serpentes das trevas. Como compensação, Rá concedeu a Seth um lugar no céu, onde este poderia desfrutar da sua posição de deus das tempestades e trovões, que o permitia assustar os demais.

Rá deixou o comando do mundo de cima para Thot, o mundo de baixo nas mãos de Osíris e a Terra nas mãos de Hórus. Hórus tornou-se deus de todo o Egito, enquanto Seth era deus do deserto e dos povos estrangeiros. Hórus triunfou e sua recompensa foi o governo do Egito. Hórus foi triunfalmente proclamado o rei eterno e universal da terra.

Ísis foi designada rainha do Céu, do mundo subterrâneo (pois estava em comunhão com os deuses de cima e de baixo) e da Terra. Em tempos subsequentes, de acordo com as representações encontradas no templo de Edfu, Hórus conquistou o mundo para Rá. Ele vencera o inimigo, que era nada mais, nada menos que Seth. Rá era basicamente o deus dos vivos, enquanto que Osíris era essencialmente o deus dos mortos. Posteriormente, Hórus deixou o governo aos reis míticos, denominados “Shemsu Hor”(companheiros de Hórus), segundo a tradição.

Assim, a profunda veneração que os egípcios dedicam a Hórus, só se iguala, ao terror que lhes inspira Seth. Como o pai, Hórus governou com sabedoria, e depois dele, reinaram seus descendentes, a começar por Menés, o faraó que inaugurou a I Dinastia.
Segundo Mâneto, sacerdote egípcio e historiador que viveu no século III a.C., tudo isso teria ocorrido 13.500 anos antes do primeiro faraó da primeira dinastia egípcia.
Este mito parece sintetizar e representar os antagonismos políticos vividos na era pré-dinástica, surgindo Hórus como deus tutelar do Baixo Egito e Seth, seu oponente, como protetor do Alto Egito, numa clara disputa pela supremacia política no território egípcio. ⤴

3 – Hélio é a personificação do Sol na mitologia grega. Hélios era muito conhecido na Grécia antiga pois ele era titã do enorme sol que ilumina e aquece nossos dias. A sua cabeça é coroada por uma auréola solar. Circula a terra com a carruagem do sol atravessando o céu para chegar, à noite, ao oceano onde os seus cavalos se banham. Nada do que se passa no universo escapa ao seu olhar, sendo frequentemente convocado por outros deuses para servir como testemunha.
Colosso de Rodes – O famoso Colosso de Rodes, escultura em bronze erguida no século III a.C. e considerada uma das sete maravilhas do mundo antigo, era uma estátua de Hélio, representado como um belo jovem coroado de raios resplandecentes. Hélio, na mitologia grega, era a representação divina do Sol. ⤴

História:
Filho dos Titãs Hiperião e Téia, era neto de Urano e de Gaia (o Céu e a Terra), irmão de Eos, a Aurora, e de Selene, a Lua. Percorria o céu todos os dias, de leste para oeste, num carro flamejante puxado por quatro corcéis, para levar luz e calor aos homens. Faetonte, filho de Hélio e de Clímene, morreu ao tentar conduzir o carro do Sol, quando buscava provar sua ascendência divina.

Narra a mitologia que a ninfa Clítia, apaixonada por Hélio e por ele desprezada, foi transformada por Apolo em heliotrópio, flor que gira ao longo do dia sobre seu caule, voltada sempre para o Sol, ou a conhecida flor Girassol.
Na Grécia clássica, Hélio foi cultuado em Corinto e sobretudo em Rodes, ilha que lhe pertencia e onde era considerado o deus principal, honrado anualmente com uma grande festa. O mito grego de Helios conta que esse deus tinha a função de trazer luz e calor aos homens.

Percorria o céu num carro de fogo puxado por 4 cavalos brancos, soltando fogo por suas narinas. Todas as manhãs, depois que a Aurora aparecia de madrugada no horizonte no seu carro dourado, Helios saia do Oriente com seu carro e subia até o ponto mais alto do Meio-Dia.
Então começava a descer para o Ocidente e mergulhava no oceano ou descansava atrás das montanhas. Foi-lhe dado de presente a ilha de Rhodes.

Mais tarde, o deus Apolo, com outros atributos, um deles o dom da adivinhação, substituiu o deus Helios. Porém, é do deus Hélios que derivou a palavra ‘heliocêntrico’, isto é, o sistema que concebia o Sol como o centro do Universo (precedeu o sistema geocêntrico, que tinha a Terra como o centro do Universo). ⤴

Origem:
Hélio – Colosso de Rodes (Rhodes)
O Sol é personificado em várias mitologias:os gregos o chamavam de Helios e os romanos o chamavam de Sol.
Sendo deus do Sol Helios era imaginado passear em uma carruagem puxada por cavalos através do céu, trazendo luz para a Terra. A jornada do Sol, naturalmente, começava no Leste e terminava no Oeste, local onde Helios completava sua ronda diária e flutuava de volta para o seu palácio no Leste em uma taça dourada.
Detalhes desta descrição do papel de Helios como o deus Sol aparecem na mitologia, literatura, poesia e arte. De acordo com o poeta grego Hesiodo, Helios era o filho de dois Titãs – Theia e Hyperion. Na Teogonia de Hesiodo, por conseguinte, Helios era também o irmão de Eos (a deusa da alvorada) e Selene (a deusa da Lua). É interessante notar que a deusa da alvorada, Eos, começa o cortejo da manhã, seguida atentamente pelo seu irmão Helios.
Existem vários mitos nos quais Helios toma parte.
Um dos mais memóráveis entre estes contos é a lenda de Phaethon. O Sol também aparece na triste história da infortunada ninfa Clytie. Entretanto, Helios é, na melhor das hipóteses, um tipo de espião celestial, de quem não muita coisa pode ser mantida em segredo.

No Hino a Demeter feito por Homero, a deusa Demeter pede a Helios ajuda para localizar sua filha Persephone. Do mesmo modo, é o deus Sol que primeiro nota o caso amoroso que está ocorrendo entre os deuses Olimpicos Aphrodite e Ares, na Odisséia. Como é o único deus que pode ver toda a Terra do alto do céu, é o único que tudo sabe, e informa aos outros sobre certos segredos; e foi justamente por ter revelado a Hefaístos que Afrodite o traía com Ares que a deusa se vingou dele, inspirando paixões funestas em seus descendentes: em sua filha Pasifaé e suas netas Ariadne e Fedra.
Helios também era o pai de alguns importantes personagens mitológicos. Com sua esposa, a Oceanid Perseis, Helios teve tres filhos lendários – Circe, Pasiphae e Aeetes.

É bom lembrar que o casal teve vários outros filhos menos ilustres. O deus também teve numerosos relacionamentos com mulheres que resultaram no nascimento de descendentes. A já mencionada Phaethon, por exemplo, era o produto de uma destas uniões. Estes “filhos do Sol” foram, algumas vezes, citados como Heliades na mitologia e literatura.⤴

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