DDf – Volume 3, Intermissão


Lorde Demônio da Benevolência, Rank 9, Paimon
Calendário Imperial. 03/04/1506
Polles, Planície de Bruno, Forças Aliadas dos Lordes Demônios

 

— Esta dama prendeu o fôlego.

Por um instante a respiração de todos humanos e demônios, sem exceção, ficou presa em suas gargantas. Apesar de ter sido um mero instante, para mim, pareceu ser tão longo quanto a própria eternidade.

Esta dama chegou à uma conclusão. O instante que esta dama havia acabado de presenciar, o instante que todos mortais nestas planícies sentiram passar, não foi um momento qualquer, mas sim um momento histórico. Deste dia em diante, todo livro de história que for escrito não terá outra escolha que não seja dedicar uma página inteira para este instante. Neste único curto espaço de tempo, existiu história.

No entanto.

“…Mas que porra é essa?”

Assim como tudo na vida, como a história é algo que fica soterrada pelo tempo conforme ele passa, ela não é algo que pode ser vista outra vez depois de ter acontecido. Um indivíduo de cada vez, as bocas dos Lordes Demônios, que haviam prendidos suas respirações sem querer, se abriram. As palavras que saíram dos seus lábios não foram de espanto ou de admiração, nem mesmo ofensas, mas sim…

“Por que caralhos o Dantalian deu a autoridade de realizar o discurso para uma garota humana, sendo que demos esse direito para ele? Aquele idiota ficou retardado?”

Apenas insatisfação.

Apenas isso.

“Ei, Marbas velhote. Se a minha memória não virou uma pilha de merda, tenho quase certeza que nunca na história o nosso direito ao discurso foi tomado por um humano.”

“Também acredito que esteja certa… As coisas ficaram preocupantes. Barbatos, estou te perguntando isso apenas por precaução, mas por acaso você permitiu que o Dantalian fizesse isto?”

“E por acaso eu sou louca? Por que eu daria a uma vadiazinha humana de merda o direito sagrado de mobilizar o Exército Crescente…? De qualquer forma, imagino que o motivo pra ele não conseguir saber diferenciar o que é certo do que é errado é por ele ser um novato. Aquele moleque não entende as coisas.”

“A oradora não é a única questão, o conteúdo do discurso também é cheio de problemas. Plantar a semente da divisão entre os humanos é excelente, no entanto, como segregar humanos e demônios poderia ser errado? Apesar do Dantalian ter utilizado uma desertora humana como sua representante para abalar o exército inimigo… Ele foi longe demais. Isso vai contra o que é certo, vai contra os costumes.”

“Sim. Ela está dizendo merdas ridículas.”

Aah.

A cabeça desta dama ficou enevoada por causa da conversa entre a Barbatos e o Marbas. Essa reação não ficou limitada apenas a estes dois Lordes Demônios. Todos os outros da nossa raça que ouviram o discurso também estavam pensando de forma semelhante aos dois. Preconceito e ignorância, ou melhor, um sentimento de desdém que chegava ao nível de cegueira preencheu a atmosfera. Me sentindo sufocada por esta sensação, ficou difícil para eu respirar…

Humanos e demônios são iguais. Plebeus e nobres iguais. Portanto, todas as pessoas, independentemente da sua raça, deveriam viver em harmonia, todos deveriam se respeitar ignorando as suas classes sociais… Os seus olhos cegos não conseguiam enxergar esta pura e simples verdade. De fato, eles não conseguiam ver. Esta dama mal conseguiu abrir seus lábios.

“Companheiros….”

“Hm?”

“Companheiros, vocês não são capazes de compreender o significado deste discurso?”

“Do que é que você está falando?”

Barbatos franziu o cenho. Um mero gesto corporal como este foi mais do que suficiente para provar a ignorância natural da Barbatos. Esta dama desiste de persuadi-la. É impressionante, Barbatos. Você tem a capacidade de fazer com que eu me afaste com um simples movimento das suas sobrancelhas. Gostaria de demonstrar o respeito que tenho pela sua ignorância.

“Primeiro, vamos punir o Dantalian assim que o discurso do lado dos humanos acabar.”

Punir? O que você quer dizer com punição?

Esta dama arregalou os olhos e fitou Marbas. Além dele, Barbatos estava balançando a cabeça, concordando como se fosse algo óbvio.

“Se ele tivesse não tivesse ido tão longe nisso, então teríamos que elogia-lo, mas ele foi longe a ponto de chegar ao fundo do poço, não temos outra escolha. Estamos em guerra, então por formalidade, vamos só sentenciá-lo ao confinamento. E quanto a aquela humana, vamos só chicoteá-la até o ponto dela estar quase morta e deixar por isso mesmo. Se nós a matarmos mesmo, então o Dantalian ficaria em um estado lamentável…”

Confinar?

Chicotear?

Mas que tipo de bobagem eles acabaram de dizer?

…Barbatos havia feito de Dantalian seu concubino. No entanto, estou ciente disto. Estou ciente que, por natureza, Barbatos não é um indivíduo capaz de partilhar amor com outro alguém. Esta dama não demorou à concluir que a Barbatos estava apenas prendendo Dantalian com o seu corpo porque ele era necessário.

Independentemente disso, ela ser capaz de dar essas ordens com tanta facilidade…

Conseguir descartar como se fosse lixo seu companheiro e amante, aquele que havia salvado a vida dela e do seu exército no mês passado…

“…”

O julgamento dela poderia até estar correto de acordo com os estratagemas políticos. No entanto, como não era moralmente correto, também não era podia ser correto de fato no quesito político. Esta dama considera os comandos que não seguem com retidão à justiça e que não foram muito bem pensados, como sendo coisas meramente más. Sim, sem dúvidas, Barbatos é uma mulher má.

Esta dama mordeu o lábio e no mesmo instante começou a ponderar.

…Se a facção desta dama poderia mesmo conseguir vencer em uma situação que se opusesse a de Barbatos e a de Marbas ao mesmo tempo. Se os outros Lordes Demônios, que seguem esta dama, iriam mesmo concordar obedientes caso eu incorporasse o Dantalian na minha Facção das Montanhas depois de sermos hostil a ele por todo este tempo. Todos tipos de hipóteses e cenários se misturaram de forma caótica. E no centro deste nevoeiro sufocante, uma única frase se destacava com naturalidade.

 

Pela primeira vez,

Pela primeira vez na minha vida eu encontrei alguém com a mesma forma de pensamento que a minha.

 

“…”

O silêncio desta dama se intensificou. Não era como um mergulhador nadando rumo ao fundo do mar. Era como um sobrevivente afundando e se afogando por não conseguir diferenciar o que era em cima o que era embaixo. Perdi o meu caminho. Isto é sufocante.

…Paimon, você não deve agir de acordo com suas emoções. Pondere com racionalidade, considere o impacto político que ocorrerá caso você proteja o Dantalian. Além disso, apesar de eu acreditar na igualdade entre os plebeus e os nobres, eu reconheço a necessidade da existência da ralé. As pessoas de nascimento ignóbil existem em todos os lugares. As bruxas são um exemplo disso. Contudo, é provável que o Dantalian abrace até mesmo estas escórias também. A nossa forma de pensar é muito ligeiramente diferente. Em suma, não é necessário que eu me simpatize com ele em um nível emocional. Acalme-se. As emoções irão apenas te arruinar. Acalme-se. Sempre virá uma oportunidade…

“Espere. Agora que eu pensei nisso. Não podemos só arrastar o Dantalian para cá agora mesmo?”

Barbatos falou.

“A oradora é aquela humana mesmo, então podemos só ignorar ela e trazer o Dantalian para cá e puni-lo.”

“Sim, você está certa. Barbatos traga-o para cá.”

Paimon.

Você não pode.

Olhe para si mesma de forma objetiva. Você é a líder da Facção das Montanhas. Você possui a maior facção dentro do exército dos Lordes Demônios. Se você decidir se posicionar em um impulso, então esse posicionamento vai ser tomado diretamente pelos outros Lordes Demônios. Por favor. Se você já viveu por 500 anos, então você já deveria ser sensata. De Lordes Demônios que se comportam como crianças para sempre, já não basta a Barbatos? Isto mesmo Paimon. Acalme-se. A razão para você sempre se sentir sufocada é por achar que está sofrendo de angina. Se você respirar bem devagar, então tudo vai ficar cert…

“Ei, sua vagabunda.”

“Ah?”

“Por que você está aí quietinha tapando o meu caminho, sua vaca?”

Barbatos estava olhando para o meu rosto do seu ponto de vista inferior. Esse rosto vulgar, que parecia prestes a cuspir neste mesmo instante, certificava o quão Barbatesca ela era.

…Oi?

Quando foi que esta dama andou até aqui?

Não me recordo de ter andando para cá. Claramente, há um segundo atrás eu estava parada do outro lado. Mas agora, esta dama estava bloqueando o caminho da Barbatos rumo ao Dantalian. Isso é estranho. Isso é realmente estranho. Se eu não voltar rápido…

“Sua porca, por que você não tenta tirar um pouco de banha do seu peito? Como você enfia a gordura da sua barriga diretamente na suas tetas, elas estão vazando um cheiro de merda. É mesmo um cheiro que dá muita ânsia de vomito, já que é o odor das suas tetas de vaca e da sua banha se misturando.”

“…”

Se eu não voltar rápido.

“Oh? Você não vai vazar daqui? O que você quer fazer ficando me encarando? Nossa, você realmente faz jus ao seu nome de cadela mais arrombada entre as súcubos, até o seu olhar é de puta. Existe um número incontável de demônios que querem meter a rola no buraco do seu olho, mas mesmo assim como você conseguiu sobreviver sem ficar caolha? Você quer que eu te apresente alguém? Ou você vai desviar os olhos da minha cara antes que eu o faça?”

“…”

Por favor.

Com racionalidade.

Não emocionalmente.

“Ei. Ei. Se mexe. Você não vai sair daí? Essa chupadora de canavial de rola ficou louca? Caralho—. ”

“A pessoa que está com os seios fedendo não é você, Barbatos? Eu pensei não conseguia te enxergar por você ser tão baixa, mas depois de olhar bem, reparei que não só você é pequena, seus seios são tão minúsculos que pensei que fosse um homem. Que tal colocar alguma indicação clara que em algum lugar do seu corpo para as pessoas conseguirem identificar que você é uma garota? Ah sim. Algo do tipo escrever ‘eu sou uma putinha’ com letras vermelhas garrafais na sua testa, tente algo assim. Não seria bom? É bem distinto.”

Ah.

Aaaaah.

E-eu não estou dizendo isso!

Não estou proferindo estas palavras por querer!

Meu corpo, o mesmo corpo que se moveu por contra própria um segundo atrás, agora está controlando a minha boca e movendo a minha língua como bem quer. Sim. Isso é verdade. Não é a minha intenção, mas—.

“Mas que merda você está falando? A putinha é você, sua porca arrombada. Dizem que o número de demônios desaparecidos, que entraram no seu buraco e não conseguirem encontrar mais o caminho de volta, chegou a duzentos só esse ano. É por isso que a sua barriga é tão flácida? Por você ter duzentas pessoas nela? As putas saem por aí dizendo que elas ‘devoram os homens’, mas você está mesmo se saindo bem, já que sai por aí comendo eles literalmente, em?”

 

—Essa garota esquelética.

Ela está querendo morrer?

 

“Por que é que essa criança, que não conseguiria nem saciar o apetite nem mesmo de um goblin caso ele arrancasse todos os seus ossos e tutanos, está começando uma briga com essa dama e dando um chilique quase epilético? Hm? Como o seu peito já é liso, não deveríamos raspar o seu cabelo pra deixar a sua cabeça lisa também? Parece que o fato de eu não ter corrigido direito as suas palhaçadas infantis está voltando para me atormentar, apesar de eu já ter raspando a sua cabeça trezentos anos atrás quando você enlouqueceu. Como você sabe que seu peito é feio, então deveria ao menos arrancar os seus lábios e colar nos seus mamilos para fingir que tem seios. Você parece estar vivendo consideravelmente bem, levando em consideração que tem uma tábua de passar vergonhosa no lugar dos peitos. Bem, como seu subordinados são corpos que voltaram a vida, é muito provável que eles não possuam nada lá embaixo. Os seus subordinados não têm nada embaixo e você não tem nada em cima, o seu acordo e equilíbrio mútuo entre vocês é muito maravilhoso. Olha, estou te falando isso só porque considero a cena de você brincando com os seus cadáveres muito bonita: já que os seus amiguinhos são corpos mortos mesmo, você não poderia morrer um pouquinho também?”

“Aaaaaaannn–?”

“O que você vai fazer me encarando assim?”

Barbatos e eu nos encaramos com ferocidade. Você acha que alguns indivíduos não usam palavrões porque eles não sabem utilizar? É por que eles tem dignidade e racionalidade, eles estão se contendo. São indivíduos completamente diferentes de você, que não possui nem honra nem inteligência.

Naquele momento, ouviu-se o som de passos. Era Dantalian. Percebendo que estávamos fazendo uma confusão, ele se aproximou de nós com cuidado.

“Peço desculpas. Mas os discursos dos dois lados ainda não se encerraram, então se a Barbatos e a Senhorita Paimon puderem fazer silêncio por um instante…”

“Ei, Dantalian. Você chegou em uma boa hora.”

Barbatos ficou na ponta dos pés e olhou para ele. Provavelmente ela pretende agarra-lo agora mesmo para executar a punição. Apesar de eles terem dito que não passaria de uma punição realizada por formalidade, é sempre por causa da formalidade que as verdadeiras punições acontecem. Vocês acham que esta dama vai deixar isto acontecer assim tão fácil?

“Por que você está fazendo o seu discurso desse jeito tão escroto? Vem cá apanhar um pouquinho. Por enquanto, só entre em uma jaula e fique repensando a sua vida—.”

“Cale-se, Barbatos.”

“… O quê?”

“Eu disse para você se calar.”

Esta dama estendeu o seu braço direito e o colocou entre Barbatos e Dantalian. Sim, eu a obstruí. No fim das contas, eu a bloqueei.

Racionalidade? Ponderamento político? Jogue tudo isso fora. Esta dama vive seguindo as suas emoções já faz muitos anos. E as seguindo, ela foi capaz de formar a maior facção do exército dos Lordes Demônios. Ou seja, quanto mais esta dama age de acordo com suas emoções, mais sorte vem à ela. Terminei esta dissertação. Não aceitarei qualquer contra-argumento.

Por hora, se eu puder ver esta criança à minha frente contorcendo o rosto, já me darei por satisfeita.

“Deste momento em diante, Dantalian não será mais um aliado da Facção das Planícies, mas sim, um Lorde Demônio que recebe suporte da Facção das Montanhas, liderada por mim, Paimon. Se você deseja punir Dantalian, então ou deve obter o consentimento da Facção das Montanhas ou executar uma votação formal durante uma Noite de Walpurgis.”

“…Hã?”

“Oh minha cara. Agora que pensei nisto, o procedimento para realizar uma Noite de Walpurgis durante uma guerra é incrivelmente complexo e intrincado. Mas isso é mesmo uma pena, Barbatos. Só lhe resta aceitar isto com seu peitinho pequeno e amargo.”

“Você… Paimon. O quê é que você está falando?”

“Você ainda não entendeu?”

Dei um sorrisinho com o canto da boca. Na verdade, muito sangue subiu a cabeça desta dama e ela estava falando de forma descontrolada tudo o que lhe vinha à mente. Não consigo nem compreender apropriadamente o que estou dizendo no momento. É a natureza desta dama ficar assim sempre que ela fica com raiva.

“Aquele homem não é propriedade sua.”

Esta dama apontou para Dantalian com a ponta do leque.

“Agora ele é meu.”

“…”

Pouco a pouco, o rosto da Barbatos começou a se contorcer.

Está certo. É isto mesmo. Se eu puder ver o rosto da Barbatos assim, então posso lidar até torturas e agressões. Aaah, sim. Senti-me revigorada por dentro. Por que alguém com tão pouca habilidade iria contra esta dama, exibindo para o mundo todo a sua própria estupidez, ignorância e imprudência? De fato, até que a Barbatos entenda….

…Oi?

Olhei em volta. Por alguma razão, os Lordes Demônios ao meu redor estavam congelados como estátuas. Parecia até que o próprio ar havia congelado.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

…O que foi que esta dama acabou de dizer?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

FIN.

 

 


Tradutor: Yuere   |   Revisor: Golias (ainda não revisado)


 


Alguém esperava por essa?

Semana que vêm tem o posfácio do autor e + um post especial de autoria minha, aguardem ^^. (aguardem com expectativas baixas, não é nada de mais).


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