DDf – Volume 3, Capítulo 6.2 – Lorde Demônio


Matadora de Familiares, Princesa Imperial, Elizabeth von Habsburg

Calendário Imperial: 03/04/1506

Polles, Planícies de Bruno, Aliança dos Humanos

 

 

— Oh, humanidade, ouça.

 

A voz de uma garota ecoou por toda a planície.

Era uma voz elegante e refinada. Era uma voz que fazia as pessoas se lembrarem do inverno, pois havia poucas emoções no tom da sua fala. Era uma voz treinada com firmeza, bem preparada e bem executada. Era muito provável que foi ensinada por um bom professor. Só de ouvir uma pessoa que havia aprendido a falar de forma apropriada, já passava uma bela impressão.

Com um par de binóculos de em mãos, eu observei a garota que estava em cima do pedregulho. “Esta garota é a Laura de Farnese…?” Murmurei em voz alta. Era a escrava pela qual o Dantalian havia feito uma longa viajem até o Reino de Sardenha para trazer com as bruxas. Sem dúvidas ela era um indivíduo com muitas utilidades.

 

— Toda a história até hoje tem sido a história da luta de classes.

 

Do que ela está falando?

Olhei através dos binóculos. O rosto da garota não possuía emoções. Ela era uma jovem que possuía a beleza da neve e do frio. Decerto que com essa aparência, era óbvio que surgiriam aqueles rumores de que o Dantalian havia adquirido uma prostituta humana por ter sido cativado pela sua beleza. Conforme a sua fala continuava, os nobres ao meu redor começaram a sussurrar uns para os outros.

“O início do discurso de declaração da guerra é um tanto quanto excêntrico.”

“Não importa sobre o que eles matraquem, a união entre nós humanos é inquebrável…”

Cada nobre tinha um par de binóculos pressionado contra seus olhos. O conteúdo do discurso era completamente diferente do que haviam previsto. E claro, os capitães e os soldados começaram a se agitar. Ninguém havia aprendido ou ouvido falar sobre uma guerra gigantesca que rivalizava a guerra santa dos Cruzados.

 

— Esta é a guerra eterna.

 

No entanto.

Conforme as suas palavras continuaram a golpear a planície com firmeza…

Conforme a sua voz continuou a voar e ecoar pelos céus…

 

— Para todas as pessoas sendo oprimidas no mundo, ouçam.

 

As faces dos nobres se contorceram de raiva e as dos soldados se abriram em espanto. As palavras agressivas que saiam da sua linda boca não conheciam limites. Não eram palavras de recusa, nem eram palavras de persuasão. Eram palavras que batiam e quebravam o chão, revelando tudo que estivesse oculto sob o solo congelado, golpeando até desenterrar.

 

— Pelo que foram esses sacrifícios? Pelo que foram essas batalhas?

 

A garota bradou sem se conter. As suas palavras eram muito assustadoras. Como eram palavras que cortavam e criavam divisões, elas eram palavras que separavam e geravam agitação e também eram palavras que teciam e manipulavam. Ela atacou os humanos com palavras mais afiadas do que lâminas.

“…”

Aah.

Aaah!

Eu compreendi a intenção deles. A intenção da garota, a intenção do Dantalian que estava oculto por trás dela espalhando o seu veneno. Esse Dantalian! Esse Lorde Demônio não pretende lutar contra os demônios. Ele está convencendo os humanos a lutar uns contra os outros!

 

— Oh, humanidade, ouça. O que todos precisam fazer para proteger o que é de vocês? O que todos precisam fazer tomar de volta o que é seu desses destes ladrões!?

 

Os soldados estavam cambaleando. A voz dela estava espalhando um veneno. Infectados por este veneno, os soldados olhavam em volta para os rostos dos seus iguais. Os nobres não conseguiram recuperar as suas composturas e começaram a gritar.

“Mas! Mas, mas, mas, meus Deuses!”

“Eu já sabia sobre a deficiência mental desses demônios, mas não imaginava que diriam coisas tão imbecis!”

Mas que pessoas tolas.

Não eram capazes nem de sentir o aroma do veneno que se aproximava de nós por todos os lados. Eu me sentia como se estivesse sufocando. Pela minha mente só passava a ideia prevenir que aquele discurso continuasse… Isso mesmo. Precisamos parar essas palavras de divisão, não importa como. Eu precisava prevenir o caos inevitável e a calamidade que engoliria o continente caso continuasse. Levantei em um instante da minha cadeira e corri em direção aos magos.

“Ativem o feitiço para o nosso discurso agora mesmo.”

“Vossa Alteza?”

“Vocês não me escutaram? Estou ordenando que ativem o feitiço.”

Os magos me olharam com seus rostos aflitos. Um idoso com a testa toda enrugada abaixou a sua cabeça.

“Peço Desculpas, Vossa Alteza. Os preparativos ainda não estão completos.”

“Não estão completos?”

“Como fomos avisados por Vossa Alteza de que nossas forças iriam discursar por segundo, preparamos nosso feitiço para ativar naquele tempo exato.”

“Tudo bem usar só uma magia de ampliamento sonoro. Eu sei como falar a língua dos demônios. Então agora…”

“Vossa Alteza, embora o feitiço de ampliamento sonoro não seja uma técnica incrivelmente difícil, é necessário fazer preparativos para ampliar o volume a um ponto que possa ressoar por toda a planície. Por favor, imploro que entenda que a magia não onipotente.”

“Se é assim, então quanto demorará para que terminem os preparativos?”

“Na estimativa mais rápida, tomará dez minutos.”

“Dez minutos…?”

Suor frio escorreu pelo meu pescoço.

Fazia muito tempo desde a última vez que havia sentido suor frio. Talvez tenha sido no momento em que meu irmão me arrastou para o seu quarto e me obrigou a assistir ele tendo relações sexuais com minhas irmãs? Seria essa a primeira vez desde então? Assim como naquele dia, que arruinou a minha vida, suor frio escorreu pelo meu pescoço. Pude sentir uma gota deslizando desde o meu queixo até o meu busto.

“…”

Virei a minha cabeça devagar e examinei os soldados outra vez. Eles eram todos servos, escravos e ralé. Agitação havia se espalhado pelo rosto de todos eles. Ah, dez minutos seria tarde demais. Se dez minutos passarem, vai ser tarde demais para sempre…

Só sou capaz de escutar em silêncio?

Como na vez que assisti sem reagir ao meu irmão e irmãs se entrelaçando?

Preciso sofrer assim, sem poder fazer coisa alguma, mais uma vez?

 

— Ó, humanidade, o que são os súditos?  Eles são tudo! Só vocês podem ser chamados verdadeiramente de pessoas. Ao longo da história, o que os plebeus foram até hoje? Eles não eram nada! E de hoje em diante, o que vocês, inigualável humanidade, precisam se tornar?

— Tudo!

 

Como se estivessem entorpecidos por uma droga, os soldados olharam para a garota. Mesmo que não conseguissem ver o seu rosto por não possuírem binóculos, com apenas a grandiosidade da sua voz, ela estava emitindo uma presença poderosa. Estremeci.

Então essa é a espada do Dantalian.

Então essas são as palavras do Dantalian.

…É muito provável que esse discurso tenha sido escrito por ele. Aah, sem dúvidas. Pude ouvir a voz daquele homem escondida na daquela jovem. Mesmo que fraca, pude sentir a presença dele nas palavras e nas frases que ela recitava. Independente disso, por que Dantalian não estava proclamando o discurso por si mesmo, e em vez disso, enviou aquela garota como substituta?

A razão para isso foi bem planejada.

As palavras que o Lorde Demônio falou, enquanto apertávamos as mãos hoje, passaram pela minha cabeça. O Dantalian estava dando um grande sorriso.

 

— Oh minha querida Elizabeth. Eu sou Dantalian. E sendo Dantalian, eu digo.

— Se você brilha como o Sol, então eu sempre me escondo sob a Lua Nova. Um dia você se esgotará e apagará, no entanto, sou incapaz de fazer isto. Afinal, eu jamais me revelarei.

 

Meu coração tremeu. Era difícil de admitir a verdade, meu coração tremeu de medo e terror quando compreendi as suas palavras. Aah, então Dantalian planeja se ocultar. Ele planeja permanecer como um manipulador por trás dos panos e nunca se revelar!

Colocando Farnese como substituta, Dantalian se esconderá. É certo que a pessoa que ficará na vanguarda brandindo sua lâmina e dando ordens será ela. Portanto, as pessoas do continente reverenciarão e desprezarão a Farnese. Mesmo que o verdadeiro culpado os incitando seja o Dantalian. Enquanto Farnese se torna o seu veículo e espalha as palavras do Lorde Demônio, Dantalian estará oculto atrás das cortinas da sua peça, jamais sendo pego por quem quer que seja, deixando-o livre para destruir o continente sem ser atrapalhado por ninguém.

Por outro lado.

Eu sou incapaz de fazê-lo.

Sendo a Princesa do Império, é impossível eu fazer isto. Tenho que passar o meu tempo todo com centenas de nobres me cercando. Como sempre há ouvidos ao meu redor, escutam tudo o que eu digo, se eu executar qualquer ação, sempre haverá olhos para ver o que eu faço. Até hoje, eu tratei o meu destino de ter nascido como a Princesa Imperial com gratidão. Nem por um mísero instante algum dia eu teria pensado que a minha posição de Princesa poderia se tornar a minha fraqueza…!

O discurso da jovem atingiu o seu ápice. Ela desembainhou sua espada longa de sua cintura e levantou para o céu. Todos os soldados, sem exceção, prenderam a respiração, absorvidos pela garota.

 

— Eu, Laura de Farnese, nascida como humana e marcada como escrava, como uma mera escória que está aqui para lutar junto a vocês, declaro agora! Sejam humanos, demônios, plebeus ou escória, eu lutarei pelo povo sem discriminar entre qualquer fronteira!

— Vocês também, lutem junto a mim! Descartem todas as fronteiras que os oprimem! Libertem-se, humanidade!

 

Essa garota… então aquela criança é a sucessora do Dantalian.

As pessoas estavam chocadas pela notícia de que ela era uma humana. Esse era o efeito que Dantalian almejava. Ele havia utilizado a garota humana como sua oradora de propósito.

Se a pessoa a dar o discurso fosse, talvez, um Lorde Demônio ou um demônio, os soldados não teriam ficado abalados. Se a pessoa em cima daquela pedra fosse um nobre, então os soldados teriam desprezado o discurso. Porém, Laura de Farnese, que estava em cima daquele palco, não era um Lorde Demônio ou um nobre, era uma simples pessoa livre com sangue humano. Ela era humana. Como eram palavras vindas de um humano, naturalmente elas penetraram nos meus súditos, da mesma raça.

“…Ha.”

O riso me veio à boca quando me aprofundei no desespero?

Acabei deixando um sorriso torto escapar por acidente.

De repente, quem eu era e qual a minha posição ficaram claros para mim.

Eu era a Princesa do Império. Até hoje, eu provei que era a única e absoluta Princesa Imperial.

Contudo, como Dantalian apareceu subitamente naquele local, ele definiu que tipo de destino me aguardava sendo a Princesa Imperial. Como a luz e a sombra se demarcam, ele era uma existência que me definia.

“Dantalian…”

Se eu quiser sobreviver na minha posição, preciso tomar a sua vida.

Se eu quiser sobreviver até o fim, então também preciso tomar a vida daquela garota.

Se eu falhar em fazê-lo, então quem perderá a vida serei eu.

“Lorde Demônio…!”

Do meu coração sendo apertado pelo medo, uma gota de emoção escorreu. Aha, tenho certeza de que estou louca. Embora à minha frente houvesse existências que eu precisasse eliminar para poder sobreviver, isso trazia prazer a minha vida.

“Então você é o meu destino…!”

É provável que ele se esconderá e não se revelará.

As pessoas provavelmente nunca descobrirão quem ele é.

Mas eu sei.

 

Apenas eu estou olhando para você.

 

O universo é uma multidão sem sentido ou direção, e caso ele for um oceano solitário, então uma única ilha flutua sobre ele, e nela eu e você estamos sentados, enfrentando um ao outro. Como quando nos enfrentamos com as pedras brancas e negras, estando no centro da chuva de hoje, nossos futuros serão gastos nos enfrentando. Lorde Demônio, você é meu destino e com certeza eu também serei o seu.

Agitados, os nobres gritaram. Eles intimidaram os soldados dando tapas nos seus rostos.

“Seus imbecis! Para onde vocês estão olhando distraídos!? Vocês não conseguem gritar e provar a eles que são súditos do Império!?”

“Vocês querem se tornar traidores e morrer!?”

Os soldados se ajoelharam de imediato e obedeceram aos nobres. Todavia, eu estava ciente. Os outros soldados ao redor estavam olhando para os nobres com olhares frios. Era esse o cenário que o Lorde Demônio traçou em seus sonhos?

Os aristocratas gritaram e os oficiais e soldados permaneceram em silêncio. Como os gritos de repreensão dos senhores eram potentes, eles subiam e ecoavam rumo ao céu, mas se dispersavam muito rápido, no entanto, o silêncio se espalhava ao longe e com peso. O ar que separava os dois volumes fazia parecer que o mundo seria rasgado em duas partes. Eu, Elizabeth, cairei no abismo criado pelo rasgo.

Mas qual o problema?

A minha se tornou uma grande alegria. Em fim, o meu amanhã não será apenas uma repetição de hoje, em vez disso, será depois de amanhã, um novo dia. Hoje, Dantalian já havia cumprido a promessa que fez para mim.

 

— Lorde Demônio, você não poderia morrer aqui comigo?

— Não tenho nada contra, mas precisamos mesmo morrer neste exato instante?

Para que viver se todo o brilho da vida vai ficar ofuscado depois de hoje? Se for agora, eu posso partir de coração leve.

— Eu te prometo que o número de coisas divertidas aumentará de hoje em diante.

 

Que beleza.

Uma linda voz. Então estas são as palavras do Dantalian.

Então o destino era algo tão brilhante e esplêndido que fazia até mesmo algo como a destruição ser uma coisa radiante.

“…Ah.”

Derramei uma lágrima pela primeira vez na minha vida.

No terceiro dia deste quarto mês, pareceu que finalmente nasci.

Aceitando com alegria que a definição da minha era matar e ser morta por aquele homem, fechei meus olhos. Parecia que aquela garota continuaria a sua melodia para sempre, sendo o único fio de melodia neste mundo escuro. Por um longo tempo, enquanto me deleitava com aquele sentimento, escutei a música daquela jovem que se consistia não de notas, mas sim de palavras…

 

— Todos vocês, se enfureçam em nome de todos, e se enfureçam apenas em nome da humanidade. Ensinem as pessoas no poder sobre quem são os verdadeiros donos. Nós cantaremos. A letra que cantaremos é a da canção dos nossos juramentos de que não vamos mais ser donos e escravos. No momento em que bradarem seu canto e levantarem suas lanças, os Deuses nos concederão a gloriosa vida, o glorioso amanhã!

— Façam-os tremer. Façam aquelas figuras de autoridade tremerem ante a revolução de todos. Além dos seus falsos grilhões, vocês não tem nada a perder nesta revolução.
Apenas o mundo que vocês precisam obter, tudo aquilo que precisam alcançar, está diante vocês—

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Ó, humanidade, lute e revide!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

FIN

 

 

 


Tradutor: Yuere   |   Revisor: Golias (ainda não revisado)



Alguns trechos do discurso são um pouco diferente da parte passada para essa, o da semana passada é o original escrito pelo Dantalian, essa é a leitura e interpretação da Farnese. 

Semana que vem é a intermissão, caso alguém não costume ler achando que é só uma extra, não é não, é um capítulo importante sempre.


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