DDf – Volume 3, Capítulo 5.2 – Palavras sem sons


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Antes de começar o capítulo, leiam isso bem rápido pra ter contexto:
Go é um jogo milenar, ganha quem domina mais do tabuleiro, caso suas peças sejam totalmente cercadas elas são retiradas do tabuleiro.
Não precisam saber muito das regras pra entender nada do capítulo, só queria dar um pouco de contexto pra melhorar a leitura.

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O Rei da Escória, 71º Rank, Dantalian,

Calendário Imperial: 02/04/1506

Polles, Planícies de Bruno

 

As Forças Aliadas dos Lordes Demônios e a Aliança dos Humanos enviaram e receberam ultimatos. Foi decidido que seriam enviados um emissário de cada exército. Eles discutiriam se iriam mesmo à guerra, ou se entrariam em negociações de conciliação. Claro, as chances de uma trégua acontecer eram quase nulas.

O número de vidas perdidas já havia chegado aos milhares. Tal como o trovão ressoa quando o relâmpago cai, e, a este ponto, ir à guerra seria o fluxo natural das coisas. Até mesmo todos os Lordes Demônios —exceto Paimon— estavam se preparando para essa batalha. Só havia um único problema.

Quem seria escolhido como emissário.

“Por que só não escolhemos o Dantalian de uma vez?”

Barbatos tomou a iniciativa.

“Ele é a pessoa com o maior número de contribuições nessa guerra, não é? E a sua lábia também não é nada mal, e já que ele tem o rank baixo, vai servir como um perfeito de garoto de recados. Nós vamos mandar um emissário só por formalidade, não? Então não precisamos nos rebaixar e mandar alguém muito importante, certo? Vamos usá-lo de capacho.”

De fato, foi uma boa ideia.

Bem no centro entre os dois exércitos, uma tenda branca sem teto foi montada. Era naquele local que os emissários se encontrariam e discutiriam. Já que vários riachos corriam pelas planícies, o som de vira-latas no cio podia ser escutado enquanto cruzavam perto da água. Não havia preocupação com pedigree entre os vira-latas, um cachorro negro estava atracado com uma cadela branca. Enquanto andava até a tenda, parei por um tempo para observar os cachorros cruzando.

“Eles parecem ser melhores que eu nisso…”

Murmurei para mim mesmo. Seguindo uma antiga tradição, emissários com a tarefa de declarar guerra não poderiam trazer acompanhantes ou escolta.

Quando me virei e olhei para trás, ao longe, pude ver milhares de bandeiras tremulando ao vento. Aquele local parecia ser uma ilha feita de demônios. Olhando para o lado oposto, também havia milhares de bandeiras ao vento lá, e dezenas de milhares de humanos estavam alinhados, fazendo parecer que também eram uma grande ilha. Como parecia que eu tinha posse exclusiva do oceano entre essas duas ilhas, me senti muito afortunado.

Não havia quase nada dentro da tenda. Duas cadeiras de madeira pintadas de branco, e uma única mesa que, é claro, também era branca. Apenas esses três objetos colocados aqui, mais nada. Sentei em uma das cadeiras e esperei em silêncio pelo emissário dos humanos.

Como a brisa da primavera, a enviada dos humanos entrou no local.

“…”

“…”

Nossos olhos se encontraram. Movi a minha cabeça e assenti primeiro. A garota respondeu também balançando um pouco a cabeça. A jovem de cabelos prateados sentou na cadeira do lado oposto da mesa. Com um único olhar, eu sabia que ela era Elizabeth Atanaxia Evatriae von Habsburg, a Princesa Imperial.

Ela trouxe um pacote para a tenda. Eu realmente não estava esperando o que ela tirou de lá. Era um tabuleiro de Go. Neste mundo, era um jogo de tabuleiro às vezes chamado de ‘Bandeiras Pretas e Brancas’. Depois de tirar uma pequena sacola com as peças e o tabuleiro, a Princesa as colocou sobre a mesa.

“…”

Com o rosto inexpressivo, olhei para a nobre.

Ela pegou um punhado de peças brancas e gesticulou com a cabeça na minha direção. A Princesa Imperial queria determinar quem iria começar a partida.

— Mas olha só isso!

Ri dentro da minha mente. A intenção por trás deste gesto bem-humorado era evidente. Neste momento ela estava tentando testar minha inteligência. Caso demonstrasse habilidades inferiores às expectativas dela, então a Princesa Imperial, era muito provável que esta nobre desprezaria a minha presença e não consideraria alguém no meu nível como apropriado para se negociar. Mesmo que a intimidasse gritando, ‘Mas que idiotice é essa?’, chegaria no mesmo resultado.

Mas que coisa divertida.

Mas que coisa extremamente divertida.

Peguei uma única peça negra e a coloquei sobre o tabuleiro de Go. Isso representava um número ímpar. A Princesa Imperial mostrou o número de peças na sua mão. Três. Ou seja, um número ímpar. Como adivinhei se o número de peças com ela era par ou ímpar, ganhei a iniciativa. Nesse mundo também existia a mesma regra do meu, as peças negras têm o primeiro movimento e as brancas o segundo. No entanto, aqui não havia komi, a compensação de pontos por ser o segundo. Quem possuir as peças pretas ganha a iniciativa e ganha a vantagem absoluta.

 

E, diga-se de passagem.

Era muito raro eu perder quando pegava as peças negras.

 

— Tack.

 

Fiz meu primeiro movimento.

A peça negra fez um leve barulho.

Vendo quão lisa era a superfície deste tabuleiro, era evidente que este era um artefato que a Princesa Imperial gostava de usar. É muito provável que ele tenha sido feito com madeira bastante luxuosa. O som das peças sendo colocadas dava satisfação.

“……”

Em silêncio, a Princesa observou o tabuleiro de Go.

A minha primeira peça foi colocada no canto superior esquerdo dele.

Colocar o primeiro movimento no canto superior esquerdo do campo, era o mesmo que mostrar descaradamente o dedo do meio para o oponente. No jogo de Go, que se destaca por colocar muita ênfase na etiqueta, esta jogada era uma extremamente difícil de se tolerar. Podia-se dizer que essa foi a minha declaração de guerra.

Movendo as peças em sua mão, a Princesa Imperial fez a sua primeira jogada.

 

— Tuck.

 

Desta vez fui eu quem tive que ficar em silêncio.

O local onde ela colocou a sua peça, foi no centro exato do tabuleiro de Go, um cheonwon.

Se fosse para decifrar o significado, então seria certo afirmar que em resposta ao meu dedo do meio, a Princesa Imperial havia me mostrado os dois dela.

“…”

Minha cabeça esfriou. Apesar de que seria completamente diferente se fosse um cheonwon com uma peça negra. Um cheonwon com uma peça branca? Mesmo que um profissional jogasse contra uma criança de sete anos, ele nunca faria uma jogada tão ignorante assim. Eu nunca fui tão desrespeitado assim, nem mesmo pelo meu pai.

Tudo bem.

Então essa vai ser uma briga de cães.

A primeira jogada foi no topo esquerdo, e a segunda foi um cheonwon. Esta empolgação não era mesmo maravilhosa? Essas coisas de ‘cortesia e contemplação’ no tabuleiro Go deveriam ser jogadas no esterco de uma porca.

 

— Tack.

 

Desta vez, no terceiro turno, de propósito, coloquei minha terceira peça de forma silenciosa. A minha cabeça fica mais fria conforme minha raiva aumenta, era um hábito instintivo meu. A Princesa Imperial também devia ser assim, já que a peça que colocou no quarto turno foi silenciosa e o local selecionado também foi lógico. O confronto infantil havia acabado. Em um instante, estávamos imersos no campo de batalha do tabuleiro.

 

— Tack.

— Tuck.

 

A guerra começou no topo direito do tabuleiro e se espalhou lentamente para o centro. Eu dava prioridade à ofensiva, enquanto a Princesa Imperial se dedicava a defesa. Enquanto eu atacava para perfurar pelo centro, a Princesa Imperial construía uma fortaleza no centro e a defendia para garantir o território ao seu redor. Eu, que estava tentando começar uma briga, não recuei, já ela, que estava sendo alvo disto, não se deixou recuar. Uma luta intensa ocorreu com naturalidade.

Enquanto pressionava na luta pelo topo esquerdo do tabuleiro, vez ou outra, eu atacava em ondas, vindo de diferentes direções. Cada vez que fazia isso, a Princesa Imperial enfrentava as minhas investidas com calma. Vez ou outra, quando utilizava técnicas modernas de Go para fazer minhas jogadas, ela pendia a cabeça, demonstrando confusão.

“…”

De tempos em tempos, a cada dez ou vinte turnos, a sua mão parava e repousava no seu queixo. Toda vez que isso acontecia, a Princesa Imperial encarava o tabuleiro por um tempo assustadoramente longo. Como não havia qualquer regulamento de tempo, ela poderia ficar pensando por tanto tempo quanto quisesse.

Enfim, depois de passados cerca de trinta a cinquenta minutos, a Princesa Imperial respondia à minha jogada. Apesar de não ter certeza de que isso fazia parte do estilo passado de Go ou não, ao menos eu estava certo de que aquele movimento não era uma tática moderna do jogo. Mesmo estando em conformidade com a razão, ele ainda possuía um princípio obscuro

Ela reviveu a peça que eu havia matado, cercou a outra que eu estava almejando, e utilizou a que eu havia descartado. Roubei a que ela tentou proteger, invadi o território que a Princesa havia cercado como sua base de apoio, e saqueei a retaguarda que havia feito. Não cedemos nem um milímetro sequer. Nada foi renunciado e nenhuma concessão foi feita.

De tempos em tempos, quando a Princesa Imperial colocava sua peça branca, parecia estar fazendo uma pergunta silenciosa sobre o seu movimento.

 

— Comigo fazendo tudo isto, já não é o suficiente para te fazer recuar?

 

Nestes momentos —com o rosto estoico—, eu colocava uma peça negra ao lado de outra. Toda vez que a minha oponente fazia um pedido sutil para criar distância, eu avançava imediatamente. Mesmo que acabasse sendo prejudicado por essas ações.

Apesar disto tudo ser uma questão de vencer ou perder, também era, ao mesmo tempo, uma espécie de diálogo. Eu desejava respondê-la.

 

— Afaste-se.

 

De fato, a Princesa Imperial me respondia com o rosto também sem emoções. Ela repetiu a mesma sugestão duas vezes, e não a alentei. No turno seguinte, e no próximo, conforme a batalha continuava, nós sondávamos o que o outro queria dizer.

 

— Bem, não será o meu lado que ficará em desvantagem por isso, então…

— Isso é o que você pensa. Eu quero esse local.

— Pessoas normais não conseguem conquistar todos os locais que elas querem. Desista.

— Normalmente é assim que uma pessoa incompetente consola outra.

— Lamento te informar, mas não sou uma pessoa incompetente.

— Do mesmo modo, lamento. Não sou uma pessoa normal.

 

Agora na segunda metade do jogo.

Minha mão parou no ar com uma peça entre meus dedos.

“…”

Até agora, eu havia conquistado pequenas vantagens utilizando as táticas modernas de Go. Contudo, a Princesa Imperial criava novas contramedidas na hora e combatia meus movimentos. Em certo ponto, pouco a pouco, comecei a perder os caminhos em que poderia prosseguir. Um combate que nunca havia visto antes em um livro de Go estava se desenrolando diante dos meus olhos.

Sem dúvidas, eu havia ganho na porção inicial até o meio da partida. Havia lutado e vencido. Apesar disso, ao chegarmos no meio da partida, a Princesa arrastou o jogo até um nevoeiro. A dificuldade não vinha da sua experiência, mas sim, puramente da sua mente, da sua criatividade, e acima de tudo, era a sua intuição que conseguiu arrastar a partida para esse atoleiro. A Princesa Imperial, que não sabia quem era Go Seigen, não fazia ideia de quem era ‘Bambuzal’, e também não conhecia Lee Chang-Ho, ou qualquer outro jogador de Go famoso, conseguiu me arrastar para um lamaçal.

 

Após passarmos da metade da partida, comecei a parar com frequência para pensar profundamente. A minha respiração foi ficando mais descontrolada conforme a lama subia. Para acalmar minha respiração errática, prendi o fôlego por um longo tempo e exalei todo o ar dos meus pulmões. Eu precisava investir mais do que o dobro, o triplo do tempo que ela gastava para fazer o meu próximo movimento.

 

— Qual o problema?

 

Sem nem um segundo de hesitação, a Princesa Imperial fez a sua próxima jogada no exato instante em que soltei minha peça. Ela estava me pressionando com vigor. Me provocando e ridicularizando.

 

— Parece que seu espírito diminuiu de repente. Onde foram parar todos seus ataques? Para onde foi toda a sua confiança que você tinha antes? Acabaram suas estratégias? Seus esquemas inteligentes se esgotaram? Que decepcionante. Você é um gênio que possui única e exclusivamente uma inteligência brilhante. O número de ‘gênios’ iguais a você nos livros de história é infindável.

— ・・・・・・

 

Não respondi as provocações.

Eu me encurvei, e me encurvei mais ainda.

Mesmo que ela fizesse sua jogada em menos de um segundo, mesmo que interferisse com meu território, não me preocupei com nada disso, me concentrando em mais nada além da visão do tabuleiro em si. Não havia qualquer restrição de tempo mesmo. Meu código moral dizia para me aproveitar de alguma condição que pudesse ser aproveitada.

 

— Mas que insípido.

— ・・・・・・

— Tente dar uma resposta mais divertida. Passado tanto tempo de jogo, ele não está ficando interessante para nós dois? Venha, ó Lorde Demônio. O seu espírito e o meu, vamos determinar quem entre nós dois é o mais forte. Isso não seria, também, o que torna Go divertido?

— ・・・・・・

— Olhe para cá.

 

Eu me encurvei. Apenas me encurvei.

Tudo bem me xingar e dizer que sou entediante. Ria de mim o quanto quiser.

Não há barqueiro que vá contra as ondas furiosas. Um barqueiro apenas alinha o sacudir das ondas com o tremor da proa e evita a ameaça imediata. A razão para isso é simples. Barqueiros cruzam o oceano para chegar a terra, eles não vão ao mar para lutar contra ele. No fim das contas, uma pessoa com um objetivo, uma pessoa com um direcionamento na vida, não seria derrubada quando confrontada por provocações. Elas meramente fluem.

Até que por fim…

 

— ・・・・・・

— ・・・・・・

 

As palavras desapareceram, tanto as minhas quanto as dela.

Provocações, escárnios e nem mesmo o confronto entre nós existia mais. Aguentei o período em que fiquei retraído, e de mesmo modo, a Princesa Imperial aguentou o tempo que ficou encolhida. Nós dois passamos por períodos angustiantes. Não se tratava mais de talento ou intuição, nem mesmo de experiência ou lógica. O que restava era o tempo, o tempo que teríamos que aguentar. Fomos puxados por ele. O tempo não mais fluía, agora ele se agarrava e arrastava junto a si.

O motivo para continuarmos colocando as peças?

Havia só um.

Vencer.

Quando a luta no tabuleiro, que uma vez foi uma competição e também um tipo de diálogo, alcançou seu momento final, apenas a disputa para determinar o vencedor restou. O significado por trás de todas as conversas silenciosas que compartilhamos havia se perdido. Não, agora, já não éramos nem capazes de nos lembrar daquilo direito. Diante dos nossos olhos restava somente o tabuleiro de Go.

Este era o fim.

Era um fim de jogo sem glória ou perturbação.

A conclusão de tudo foi uma sequência de jogadas que pareceram seguir de acordo com uma trama premeditada.

 

— Tack.

— Tuck.

— Tack.

 

“…”

A mão da Princesa Imperial parou.

No 252º turno.

Seus dedos esguios, que seguravam a peça branca, flutuavam no ar. Como se o próprio tempo tivesse se enredado em torno dos seus dedos, eles mantiveram sua posição. Um longo tempo se passou. A Princesa Imperial assentiu sua cabeça, e então, moveu suas mãos em direção ao recipiente das peças.

Clack clack clack.

Então soltou cerca de três peças sobre o tabuleiro de uma só vez.

Bulgye(不計), ou seja, ‘bom jogo’.

 

Era uma declaração que representava rendição.

“…”

Peguei duas peças negras e as coloquei sobre o tabuleiro.

“…”

Assim que o fiz, a Princesa pegou duas brancas e também as colocou. Eu havia lhe feito uma pergunta. Se havia vencido por dois pontos. A Princesa então confirmou que, de fato, vencido por esta diferença de pontos. Com educação, mexi a cabeça concordando. Então venci por dois pontos, huh?

Depois de recolher todas as peças, nós reencenamos a guerra desde o seu princípio. Estávamos revendo as jogadas que havíamos feito. Apesar de ser óbvio, a Princesa Imperial e eu lembrávamos com clareza de cada movimento que havíamos feito, do início ao fim. Não havia dificuldades em reencenar tudo.

“Por que você colocou dessa forma aqui?” [Elizabeth]

“Como você continuava muito próxima a mim, distorci as jogadas para te confundir.” [Dantalian]

“Aah, então você estava mesmo tentando fazer isso. Eu estava em dúvida, já que parecia ser um movimento tão aleatório. Me assustei um pouco porque assumi que talvez você estivesse procurando a chance de executar um ataque decisivo.”[Elizabeth]

“E você? Por que você espalhou suas peças aqui assim? Pelo que posso ver, conquistar a parte inferior direita não seria uma decisão mais sábia…?” [Dantalian]

“Não é óbvio? Se eu colocasse uma peça ali, então o formato do tabuleiro iria começar a se transformar assim…”[Elizabeth]

“Aah. Você estava preocupada que todas as suas peças na parte de baixo fossem desaparecer.” [Dantalian]

“Isto mesmo. Se possível, eu gostaria de deixar aquele local intocado.”[Elizabeth]

“Espera. Se eu colocasse uma peça aqui, então o que teria acontecido?”[Dantalian]

“Mm. Isso não seria um movimento mal pensado?”[Elizabeth]

“Mal pensado? Espera um segundo. Se eu cortar aqui, então…”[Dantalian]

“Eu te disse, essa é mesmo uma jogada ruim. Olha bem, a peça tem dificuldade em sobreviver aqui no meio…”[Elizabeth]

Mais ou menos quando a nossa revisão havia acabado.

Por acaso, olhei para o céu e percebi que estava todo negro. Foi algo bizarro. Era uma situação em que nós não sabíamos dizer quando foi que o Sol se pôs. Assim que percebi nossos arredores, notei que estávamos observando o tabuleiro de Go utilizando apenas o luar. Franzindo as sobrancelhas, olhei para a Princesa Imperial. Como esperado, ela também estava franzindo o cenho. Éramos estranhos um para o outro, mas ainda assim, nos sentíamos tão familiares. Sentíamos como se tivéssemos morrido e voltado à vida.

“…”

“…”

Nós dois levantamos das cadeiras. Assim como quando entramos na tenda, saímos também sem dizer uma palavra sequer. O próprio fato de termos discutido tantas coisas enquanto revíamos a partida era duvidoso.

Houve um alvoroço quando retornei ao acampamento das Forças Aliadas dos Lordes Demônios. Eles estavam curiosos sobre que tipo de negociação me requeria ficar preso em uma tenda do amanhecer ao entardecer. Eu não podia dar qualquer tipo de resposta para os Lordes Demônios que me questionavam se a guerra havia sido determinada, ou se havíamos chegado a um acordo de paz. Barbatos, com o rosto de quem estava encarando a pessoa mais bizarra do mundo, me perguntou:

“O que aconteceu? Que tipo de conversa vocês tiveram lá?”

“…Não, nada foi decidido ainda. Te contarei quando as coisas estiverem decididas.”

“Então quando vai ser isso? Amanhã?”

Balancei a cabeça.

“Certamente depois de amanhã, talvez? Próximo disso.”

“Quer dizer, é bom que você está discutindo isto a sério, mas por que vocês precisam discutir por três dias seguidos sendo que estamos em uma situação em que não resta outra opção além da guerra?”

“Eu não tenho certeza ainda, então não pergunte.”

Os Lordes Demônios pareciam estar estressados. Independente disso, como, de fato, eu não sabia, não tinha como dar uma resposta apropriada. Por fim, foi oficialmente decidido que a negociação continuaria no dia seguinte e no dia subsequente.

Evitei as perguntas dos outros Lordes Demônios e voltei aos meus aposentos. Como de costume, Lapis estava educando a Farnese lá. A garota estava aprendendo como discursar enquanto lia, em voz alta, frases escritas em um pedaço de papel. Ela possuía uma cabeça bem decente, então conseguia memorizar as frases em si com facilidade, mas a sua entonação enquanto discursava e outros aspectos relacionados ainda não estavam perfeitos. Bem, é muito provável que nada era perfeito aos olhos da Lapis. Fiz elas pararem a aula por um momento e falei:

“Farnese, por acaso você sabe como jogar Bandeiras Pretas e Brancas?”

“Você quer dizer Go? Apesar desta jovem senhorita poder ter lido vários registros de partidas, ela mesma nunca jogou Go de fato. Na maioria das vezes, esta jovem apenas se divertia lendo os registros sozinha.”

“Mm. E você, Lapis?”

“Esta serva também não possui nenhuma experiência nisto. Há algum problema?”

“Não, não é nada. Podem continuar praticando.”

Sentei-me em um canto do quarto e fiquei encarando o espaço vazio continuamente. A partida que joguei mais cedo continuou repassando pela minha cabeça. Aquela experiência não foi algo criado pela simples colocação das peças. Naquele tabuleiro, era claro que uma certa atmosfera, ou um certo clima, havia se formado. Porém, não importava quantas vezes tentasse relembrar aquilo, não conseguia nada muito preciso.

De vez em quando quando eu conseguia escutar o som da Lapis repreendendo a Farnese. Fechei meus olhos e fiz um retrospecto do ar em torno daquele tabuleiro de Go. Entretanto, a única coisa que apareceu na minha cabeça eram os dedos esguios da Princesa Imperial, Elizabeth. Apesar de sentir que, de alguma forma, eles eram um ponto chave nisso tudo, era difícil de acreditar que havia mesmo algum tipo de segredo por trás daqueles dedos…

‘De fato, o mundo está cheio de coisas estranhas.’

Murmurei para mim mesmo.

Como jogarei por segundo, é provável que amanhã a Princesa ganhe a iniciativa.

É provável que eu perca.

Este foi o último pensamento que cruzou minha mente antes de dormir.

 

 

 

 O Rei da Escória, 71º Rank, Dantalian,

Calendário Imperial: 02/04/1506

Polles, Planícies de Bruno

 

 

 

Assim que o primeiro galo cantou na madrugada, caminhei rumo às planícies.

Na tenda, a Princesa já havia chegado e estava sentada na cadeira.

“…”

Nos cumprimentamos com gestos simples novamente, todavia, diferente do primeiro dia em que paramos ao mexer de leve nossas cabeças, desta vez nos curvamos de forma apropriada. Não fizemos isso com a intenção exata de mostrar respeito um para o outro. Foi só que a cortesia aconteceu de maneira natural. Assim que levantei minha cabeça, vi que Elizabeth também estava franzindo o cenho, como se houvesse algo estranho.

“…”

De repente, ela se levantou e agarrou meu pulso. Virando minha mão para cima e para baixo, examinando-a, mas quanto mais a olhava, mais suas sobrancelhas franziam. Não a impedi, já que graças a seu ato excêntrico, também pude observar com cuidado os seus dedos.

A mão da Elizabeth era áspera. Aquela rispidez fez com que minha mente se tranquilizasse. Eu estava ciente do fato de que a suavidade da mente de uma pessoa era proporcional ao quão calejada eram as suas mãos. Este era um fato surpreendente. Mas mesmo que eu já soubesse dele, neste momento pareceu ser algo totalmente inédito para mim. Enquanto nossas mão estavam ocupadas segurando e sendo seguradas, nós nos olhamos.

“…”

“…”

De fato, havia algo de peculiar. Apesar de não saber o que exatamente era estranho, com certeza havia algo.

Assim como ontem, um tabuleiro de Go estava montado sobre a mesa. Obviamente, peguei as peças brancas enquanto, é claro, a Princesa Imperial pegou as negras.

O resultado da partida foi a minha derrota.

No 232º turno, declarei Bulgye, ou seja, ‘bom jogo’. Não importava o quanto eu calculasse, fiquei com um ponto de desvantagem. Sem rodeios, murmurei.

“Foi um ponto de diferença?”

“Um ponto de diferença, creio eu.”

“Hm.”

“Você deseja revisar a partida?”

“Apesar de eu estar ansioso para fazer isso…”

Olhei para o céu. Claramente havíamos começado a partida no amanhecer, mas agora, por algum motivo, o céu estava sendo iluminado pelo Sol poente. Foi gasto mais tempo na partida de hoje do que na de ontem. Tanto eu quanto a Elizabeth, não provocamos ou ridicularizamos um ao outro nem uma vez sequer, na verdade, fizemos nossas jogadas seriamente do início ao fim. Era uma partida justa que requeria habilidades excelentes de ambas partes. Além do mais, como os seus costumes eram muito antigos para mim, eu não os conhecia, e como os meus eram misteriosos do ponto de vista dela, ela também não os compreendia. Como minhas jogadas normais pareciam ser armadilhas para ela, e as suas excelentes habilidades eram estranhas para mim, a partida ficava ainda mais complexa. Portanto, era inevitável que muito tempo fosse gasto.

“… Seguindo nesse ritmo, parece que as negociações de hoje também serão infrutíferas. Isto é preocupante, os outros Lordes Demônios vão me interrogar para saber o que exatamente eu fiz para que demorasse tanto assim.”

“O mesmo acontece do meu lado. Apesar de ter vindo no amanhecer com a intenção de entrarmos em negociações com bastante tempo depois de jogarmos uma partida, eu não esperava que ela fosse tomar tanto tempo assim…”

“Ah, peço desculpas. Eu devo ter chegado um pouco atrasado.”

“Não há motivos para você pedir desculpas. Afinal, cheguei muito pouco antes de você. O tempo que precisei ficar aguardando provavelmente nem sequer chegou aos vinte minutos.”

“Hm.”

“Mm…”

Nossos olhos ficaram vagando entre o tabuleiro de Go e o rosto um do outro. Não expressamos isso em voz alta, mas estávamos pensando na mesma coisa. Como fui derrotado na partida de hoje, aparentemente seria educado que eu fosse a primeira pessoa a falar.

“Princesa Imperial, você não tem qualquer intenção de entrar em trégua, não é mesmo?”

“Ah, não tenho. Nenhuma mesmo.”

Uma resposta imediata.

Nós dois balançamos a cabeça concordando ao mesmo tempo.

 

“Então acredito que o armistício acabou.”

“Bom. Encerramos o acordo.”

 

E com isso, as negociações se encerraram.

Isso não gerou nem um pouco de insatisfação, nem em mim, nem na Princesa. Uma negociação de paz que se finalizou em menos de cinco segundos depois de começada, será que por acaso, essa não seria a primeira vez na história que uma ruptura destas aconteceu? Sendo ou não, pouco importava. Havia algo muito mais relevante para nós agora.

“Vamos rever o jogo.”

“Vamos.”

Nós revisamos a partida até pouco antes da meia-noite. No meio do processo, pequenos mini-jogos aconteciam sempre que surgia uma pergunta do tipo: ‘o que teria acontecido se eu tivesse colocado essa peça aqui?’. Por curiosidade, tentamos descobrir como continuar e fundamentar até o meio do jogo os efeitos de um cheonwon. Infelizmente, não chegamos a uma resposta, nem conseguimos chegar perto de uma solução.

Hoje também os Lordes Demônios me esperaram, todos bem acordados. Em resposta aos questionamentos sobre o que aconteceu durante as negociações, eu disse.

“A emissária dos humanos e eu determinamos que nos encontraríamos daqui quatro horas, ao amanhecer. Amanhã antes do fim do dia, com toda certeza, eu pretendo decidir se ocorrerá ruptura das negociações ou chegaremos à um acordo.”

Os outros Lordes Demônios ficaram surpresos por eu dizer que continuaria as negociações as quatro da manhã amanhã, apesar de já ter negociado desde o amanhecer de hoje. Dentre eles, alguns até mesmo me elogiaram, dizendo que estava me comportando de maneira muito rara de ser vista, sincera e dedicada.

É claro, as negociações já haviam acabado. Nós dois não tínhamos a mínima intenção de parar a guerra. Simplesmente precisávamos fazer uma partida final, já que o nosso placar estava empatado, um a um. Aconteça o que acontecer, precisávamos jogar essa partida.

Temendo que pudesse ser derrotado por falta de sono, fui dormir assim que entrei nos meus aposentos. Apesar da Farnese ter se agarrado em mim e pedido por favor, que eu fizesse alguma coisa sobre a Lapis, eu a ignorei. Se vire com a sua educação e professora.

Criança, neste exato momento este senhor está diante da partida da vida dele. Não o perturbe.

 

 

 

 

 

O Rei da Escória, 71º Rank, Dantalian,

Calendário Imperial: 03/04/1506

Polles, Planícies de Bruno

 

 

Tirei um cochilo de três horas. Como não havia razão para esperar por um hora, andei rumo à planície. Neste dia, faz um ano desde que eu caí neste mundo.

As planícies estavam tomadas pelo cheiro podre vindo da água. Toda aquela umidade fazia parecer que o orvalho estava prestes a se formar, ou que talvez uma tempestade súbita fosse cair. Ignorando todos estes fenômenos naturais, minhas pálpebras sonolentas continuaram piscando vagarosamente sob o ar úmido da planície. A caminhada até a tenda foi agradável. Dez minutos depois de eu ter chegado, a Princesa Imperial entrou.

“…”

“…”

Nos cumprimentamos. Abaixamos a cabeça ainda mais do que ontem.

A partida final havia começado. Comecei jogando com as peças negras, e a Elizabeth jogou por segundo, com as brancas. Prosseguindo a de ontem e a do dia anterior, a partida mais magnífica se desenrolou hoje.

Assim como na primeira, nós nos provocamos sem hesitar. Mas, desta vez não caçoamos um do outro. Mesmo que ela avançasse em menos de um instante, minhas peças não estavam correndo perigo, já que minha base continuava segura. Nos locais de risco, como havia perigo para mim, as peças brancas e as negras estavam uniformemente misturadas. Apesar do combate durante os turnos ser tão intenso que fazia a minha cabeça ficar zonza, como não havia contador de tempo, eu conseguia recuperar a minha compostura mental… Aha, uma luta sem limite de tempo é mesmo esplêndida, não é mesmo? Entendo, uma rosa com espinhos pode ser admirada como sendo só uma rosa.

Uma chuva caiu ao amanhecer.

As gotas que caíram no chão continham o cheiro das nuvens. As pessoas dizem que se alguém quer ser verdadeiramente belo, antes ele precisa ser quebrado e sofrer muito. Os pingos de chuva fizeram questão de se quebrarem e emanarem o seu belo cheiro. Enquanto éramos tomados pelo som das gotas se quebrando e pelo cheiro nauseante que emanava da água da chuva, continuamos a nossa partida de Go. Como nossas roupas eram mais incômodas do que a chuva, tiramos algumas peças. Como meu corpo já estava encharcado de água, agora pelo menos eu estava sendo molhado com mais conforto.

Muitas gotas de chuva também caíram no tabuleiro de Go. Os pingos caíam nas peças negras e se espalhavam, e os que caíam sobre as brancas desciam com suavidade pelas curvas das pedras. O tabuleiro formou uma poça d’água. Fossem as pedras negras ou as brancas, todas estavam afundadas ao menos até a metade sob a água. Parecia que as próprias pedras haviam se colocado ali, não que nós mesmos havíamos às colocado lá. A chuva fazia parecer que tudo era uma coincidência, não uma necessidade. Às vezes, eu colocava as peças sem pensar, fazendo parecer que as gotas estavam pensando por mim, e que as próprias pedras estavam calculando tudo em meu lugar.  Se alguém observasse bem a jogada, veria que foi um movimento excelente e muito prudente. Contudo, se essa mesma pessoa me perguntasse se fiz aquela jogada excelente de propósito, minha única opção seria balançar a cabeça negando. Para mim, esses movimentos eram decentes.

A chuva também caiu sobre a planície. Conforme ela pingava no solo ao nosso redor, ela fazia tudo ficar tranquilo. Para prevenir que as distrações se aproximassem de nós, o som da chuva abafava todo os outros barulhos. Apesar de estar encharcado, eu tinha a impressão que a chuva estava desviando de nós e caindo nas bordas das planícies. Agora eu não pensava mais que os exércitos dos demônios e dos humanos nas laterais da planície eram como ilhas, na verdade, acreditava que a verdadeira ilha era a tenda em que estávamos. O tabuleiro era outra ilha dentro da primeira. Portanto, nós dois que a cercávamos estávamos tranquilos como o oceano.

 

 

Antes que eu percebesse, já não estava lutando para vencer, mas sim para não cometer nenhum deslize.

Este dia não deve ser maculado por um erro. Seria algo completamente diferente se eu cometesse um engano por não conseguir perceber uma jogada bem pensada da minha oponente, porém eu absolutamente não perdoaria um erro cometido por preguiça ou falta de seriedade. Fazer isto seria algo vergonhoso e deplorável.

Como havia bastante tempo para pensar e especular, a velocidade das minhas jogadas era lenta. A Princesa Imperial também estava assim. Estávamos letárgicos. Nossos corpos molhados pela chuva estavam pesados. No instante em que a chuva parou de cair do céu, seguramos o fôlego. A água havia saído do tabuleiro. A partida havia sido decidida.

“…”

“…”

313 turnos.

Bulgye.

Um ponto de diferença.

Vitória das peças negras.

Elizabeth, a Princesa Imperial, murmurou.

“…Acredito que eu me banhei em toda a beleza que poderia ter me banhado em toda a minha vida.”

“De fato.”

“Lorde Demônio, você não poderia morrer aqui comigo?”

Balancei a cabeça devagar, concordando.

“Não tenho nada contra, mas precisamos mesmo morrer neste exato instante?”

“Para que viver se todo o brilho da vida será ofuscado depois de hoje? Se for agora, eu posso partir de coração leve.”

“Eu te prometo que o número de coisas divertidas aumentará de hoje em diante.”

“…”

Elizabeth repousou sua mão em seu queixo e começou a pensar profundamente.

“Entendo. Confiarei em suas palavras, Lorde Demônio, e continuarei vivendo. Mesmo que a vida seja ter esperanças e ter essas mesmas esperanças traídas, realmente acredito que você não decepcionará minhas expectativas, Lorde Demônio.”

“Farei o meu melhor… Ah, não vamos revisar a partida de hoje.”

“Mm. Também quero deixar as coisas como estão.”

Abaixei a minha cabeça.

“Eu sou Dantalian. Estarei sob seus cuidados.”

“Eu sou Elizabeth. Também estarei sob os seus.”

A Princesa Imperial também se curvou, abaixando a cabeça.

Nós nos apresentamos no terceiro dia depois de nos conhecermos.

Falei.

“Princesa Imperial, no local onde eu residia, nós tiramos de seis a sete pontos das peças negras por elas terem o primeiro turno. Se estivéssemos lá, a vitória teria sido sua.”

“Como poderíamos julgar essas partidas com uma regra estrangeira? Por favor, retire as suas palavras. Quero aceitar isto assim, uma derrota é uma derrota.”

“Como eu poderia descartar o meu lar e mentir para mim mesmo, sendo que o meu coração continua lá apesar do meu corpo estar aqui? Para mim, isso é o mesmo que perder para você, Princesa Imperial. Não é algo que eu possa ser convencido do contrário.”

“Então nós dois perdemos.”

“Nós dois vencemos.”

Acenamos com a cabeça concordando. Nós observamos o tabuleiro com água empoçada por um longo tempo. Apesar de toda a chuva no céu já ter caído, a água no chão ainda precisava de tempo para fluir. Várias gotas formaram uma pequena correnteza e fluíram gentilmente. Falei.

“Acredito que possamos conversar agora. Por favor, considere essa uma reunião secreta entre nós, Princesa Imperial. Por acaso, seria possível confirmar se você não carrega um artefato semelhante a um Tocador de Memórias? Se isso não for descortês da minha parte, é claro…”

“Ah, sem problemas.”

Elizabeth se levantou e tirou uma peça de roupa de cada vez. Eu as recebi e procurei nos seus bolsos internos e externos. Não havia nada. Algumas gotas de chuva se grudaram no seu corpo nu, branco como a neve. Devolvi todas as suas roupas.

“Obrigado.”

“Seria um problema se eu também checasse…?”

“Mas é claro que não.”

Tirei todas as minhas roupas e as entreguei para a Princesa Imperial. Assim como eu havia feito, Elizabeth checou até os mesmo os cantos das minhas vestes. Então ela anuiu e as devolveu.

“Peço desculpas pela inconveniência.”

“Não se preocupe.”

Colocamos de volta nossas roupas molhadas. Sentados frente a frente nas cadeiras, finalmente conseguimos abordar o assunto principal. A primeira pessoa a falar foi a Princesa.

“Foi um engano seu ter poupado o Marquês de Rosenberg e tê-lo enviado para mim, Lorde Demônio. Embora pareça que você estava esperando que o Rosenberg e eu entrássemos em um conflito interno por poder militar, ele era velho demais para conseguir isso.”

“Também considero este fato como algo lamentável.”

Era verdade. Eu pensava que o Marquês de Rosenberg fosse resistir um pouco mais à Princesa Imperial. Eu não esperava que ele fosse se tornar um escudo de carne no campo de batalha com tanta obediência. Na história original, ele era um indivíduo que tinha colocado o Império em crise, pois quase havia começado uma revolta contra a Princesa.

“Como você o persuadiu a fazer aquilo?”

“Ele me obedeceu docilmente depois de eu esfregar ele um pouco uma vez. Ele era um velho bobo.”

Dei risada. Ela era uma garota que sabia como desfrutar de boas piadas.

“Entendo, a Princesa Imperial é boa com piadas.”

“É mesmo?… É a primeira vez que escuto esse elogio desde de quando eu nasci.”

A Princesa Imperial deu um pequeno sorriso. Era um sorriso que combinava com ela. Descansei meu corpo de forma confortável contra a cadeira e falei.

“Você me criticou por ter cometido um equívoco, mas Princesa Imperial, o mesmo se aplica a você. Parece que você enviou o Príncipe Herdeiro junto com o Marquês. Mas que infelicidade. Se ele tivesse morrido durante aquele combate acirrado, então você se tornaria a única sucessora ao trono. Embora, é provável que você colocasse a responsabilidade da morte do Príncipe sobre o Marquês…”

Elizabeth deixou escapar um suspiro.

“O meu irmão foi capturado?”

“Nós o pegamos vivo. No momento o Príncipe Herdeiro é meu prisioneiro.”

“… Nunca durante toda a sua vida aquele meu irmão foi útil para mim. Tentei envenená-lo e assassiná-lo antes, mas ele é estranhamente esperto, então foi capaz de sobreviver até hoje. Eu havia ao menos dado a ele a oportunidade de morrer de forma honrada, mas ainda assim, ele conseguiu ser pego como prisioneiro…”

“Tive algumas conversas bem particulares e frequentes com ele. Graças a isso, aprendi sobre boa parte do seu passado. É mesmo muito inspirador.”

Com gentileza, os cantos da minha boca se levantaram.

“Ao que parece, você assassinou duas das suas irmãs e dois dos seus irmãos.”

“…”

Os suspiros da Princesa Imperial ficaram mais profundos.

“…Vejo que meu irmão realmente te contou tudo. Oh Lorde Demônio, o meu irmão te contou mesmo toda a verdade sobre o motivo para eu ter matado meus próprios parentes de sangue?”

“Sim.”

Persuadindo o Príncipe Herdeiro, eu arranquei tudo que pudesse ser utilizado como uma fraqueza contra a Elizabeth. A história familiar que envolvia o Príncipe e a Princesa era bem ridícula. Do que consegui juntar, apesar de ter várias que já havia descoberto através do jogo, a quantidade de informação que não foi revelada lá, ou que só foi sugerida, mas não revelada de fato, era excepcional. Comecei a falar.

“A princípio, a sua família de primeiro grau consistia de duas irmãs e três irmãos… apesar destes números não serem pequenos para manter a Família Imperial, depois de terem ocorrido várias mortes misteriosas seguidas, apenas a Princesa Imperial e o Príncipe Herdeiro sobreviveram, só restaram vocês dois.”

“…”

“A quantidade de rumores sobre essas mortes trágicas é abundante. O Príncipe Herdeiro os assassinou, não, eles tiveram uma disputa secreta que resultou na morte de todos os lados. Eles foram sacrificados por causa de uma conspiração de vários nobres…”

Mas todos estavam errados.

Todos.

Encarei a Princesa Imperial direto nos olhos.

“Agora de acordo com o que o Príncipe Herdeiro me afirmou, na verdade você, a Princesa Imperial, assassinou todos seus irmãos e irmãs. Isso é verídico?”

A Princesa Imperial assentiu.

“É verdade. Eu matei todos eles.”

“Mesmo que tivesse um irmãozinho de seis anos entre eles…”

“Isto mesmo. Tem algum problema com isso?”

“…”

Deixei escapar um riso amargo.

“Apesar disso tudo, você não sente nem um pouco de tristeza, Princesa?”

“É claro que eu sinto pesar. Porém, qual o problema de senti-lo? Assim como uma pessoa deve se entristecer diante de algo triste, ela também deve tomar a vida daqueles que precisam ser mortos. Este é minha maneira de viver. E por acaso, a sua forma de viver é diferente, Lorde Demônio?”

Sem qualquer mudança, o rosto da Elizabeth continuou frio. A sua face permaneceu a mesma desde o momento em que ela entrou na tenda e durante todas as partida de Go. Não parecia que ela estava se preocupando com conter as suas expressões faciais. Era provável que ela estivesse me perguntando com honestidade.

‘Tem algum problema com isso?’

Cocei minha cabeça e respondi.

“Não. Eu também vivo de forma similar.”

“Por algum motivo eu já imaginava isso. A sua vida é bem lamentável…”

“Isso é mesmo algo que você deveria me dizer…?”

O vento finalmente soprou depois de um bom tempo parado. Foi uma lufada úmida. O tecido branco da tenda balançou como cortinas e bloqueou por um momento a nossa visão entre nós. Assim que a brisa se acalmou, conseguimos ver o rosto um do outro de novo. A Princesa Imperial falou.

“Não sei se meu irmão te contou isso ou não, mas ele havia tomado a minha primeira e minha segunda irmã como amantes em segredo. Eles estavam cometendo incesto.”

“Eu ouvi.”

“Se eles estavam tendo uma relação incestuosa ou não, pouco me importava. Entretanto, como no futuro eu teria que competir contra meu irmão pelo trono, quando isso acontecesse, imaginei que seria um pouco incômodo e irritante se elas o apoiassem. Logo, quando meu irmão e minhas irmãs estavam exaustos depois de compartilharem a cama, usei aquela oportunidade para matá-las.”

“…”

“Ele não conseguiu se opor. Minhas irmãs foram assassinadas na cama dele, nuas. Se outras pessoas ficassem sabendo desse incidente, então, de imediato, o Príncipe Herdeiro seria alvo de suspeitas. Ele teve relações sexuais com suas irmãs de sangue? Ele as matou depois de se deitar com elas…? Como resultado disso, ele ficou desesperado para esconder os corpos delas. Meu irmão é um homem patético.”

“Mm. Uma abordagem limpa.”

“Também é o que penso.”

A Princesa Imperial soltou outro suspiro.

“Lidei com o resto dos meus irmãos sempre que surgiu a oportunidade. Todavia, eu me certificava de não deixar nenhuma evidência em qualquer um desses incidentes. Apenas o meu irmão tinha crença de que eu era a culpada. Contudo, ele era um homem que não tinha coragem para revelar essa crença para outras pessoas… Lorde Demônio, você foi capaz de convencer aquele covarde.”

“Não estou ciente dos detalhes exatos, mas a animosidade dele contra você é bem impressionante. Assim que jurei que me tornaria inimigo da Princesa Imperial, não demorou um instante para que ele abrisse a boca. Bem, é graças a essa animosidade que eu consegui tantas informações sem ter que passar por muitas complicações.”

“Conseguiu alguma evidência?”

Dei de ombros.

Nenhuma.

Eu só possuía o testemunho do Príncipe Herdeiro alcoólatra.

Depois de examinar meu rosto, Elizabeth fechou seus olhos.

“Isso é um alívio. Pode-se dizer que foi por pouco. Se, por um acaso, você tivesse evidências, então eu seria derrubada por você sem conseguir exercer qualquer resistência, Lorde Demônio. Longe de unificar o continente, e pensar que quase fui desqualificada antes mesmo de conseguir ascender a imperatriz…”

“Mas eu tenho o testemunho do Príncipe Herdeiro. Seria bem problemático se ele saísse falando em público sobre os seus crimes. A sua honra e reputação sofreriam um grande impacto…”

“Quem acreditaria no testemunho de um Príncipe que foi capturado pelo exército de um Lorde Demônio? No máximo, as pessoas o ignorariam, pensando que foi, ou ameaçado, ou sofreu lavagem cerebral pelos Lordes Demônios. Além disso, aquele homem pode ser meu irmão, mas ele não possui nem um pouco de confiança dos nobres. Essa é uma tentativa vã, Dantalian.”

“Será mesmo em vão?”

“…”

“Você gostaria de testar, Elizabeth?”

A Princesa Imperial tamborilou na sua testa com seus dedos. Não importa quão incompetente o Príncipe fosse, ele ainda era o Herdeiro. Mesmo sem evidências, ainda conseguiria gerar agitações na sociedade imperial só com suas afirmações e crenças.

Como Elizabeth apontou, esses distúrbios poderiam acabar sendo pequenos.

Ou talvez, eles pudessem se tornar incrivelmente consideráveis.

Não havia 100% de certeza.

Bem devagar, a Princesa Imperial moveu seus lábios.

“Quais são suas condições?”

“Meu castelo foi destruído por causa do Marquês de Rosenberg. Embora eu esteja sobrevivendo sem lar viajando de um lugar para outro, isso está começando a ficar cansativo. Ajude-me a procurar uma nova casa.”

“…Você está me dizendo para te presentear com o território do Marquês?”

“Mm. Já que a pessoa que acabou com o meu lar foi o Marquês, então não seria apropriado que eu pegasse o dele?”

“…”

Tap tap tap.

O tamborilar dos dedos dela ficou mais intenso.

Era possível escutar o som de cavalos na planície. Quando os cavalos de um lado da planície começavam a relinchar, os outros do acampamento oposto, no outro lado da planície também desatavam a relinchar. O som dos relinchos viajaram baixinho até a tenda e se aquietaram ao chegar em nós. A Princesa Imperial e eu nos encaramos até que o som dos cavalos passasse.

“Tudo bem. Eu aceito.”

“Então voltarei momentaneamente ao meu acampamento.”

“Também irei.”

Nós voltamos a tenda depois de trinta minutos. Eu trouxe o Príncipe Herdeiro comigo, enquanto ela trouxe um certo homem no auge da juventude e um garotinho, ambos presos por uma corda. Os dois estavam com um tecido enrolado no rosto. Ela havia feito isso com eles para prevenir que os outros percebessem quem eles eram. Entreguei o Príncipe para a Elizabeth primeiro.

“Aqui. É o seu irmão.”

“É muito comovente ter essa oportunidade de me reunir com minha família.”

Com a sua voz neutra, a Princesa falou sobre suas emoções. Ela tirou o pano do rosto do Príncipe Herdeiro. Arfando, rapidamente ele olhou em volta, observando seus arredores.

“O-Onde estou?… Elizabeth? O que você está…?”

“Eu te mandei para morrer, mas parece que você voltou vivo, irmão.”

A Princesa continuou respirando com leveza.

“Você dificultou as coisas para mim. É muito provável que essa seja a maior conquista que você alcançou durante toda a sua vida, irmão.”

“O quê…? Sua vadia, como um ser diabólico como você pode estar bem…”

O Príncipe Herdeiro não conseguiu continuar falando. Elizabeth brandiu sua lâmina e cortou o pescoço o seu pescoço, deixando um rastro vermelho. Gorgolejando sangue, ele caiu no chão.

A Princesa se ajoelhou e esfolou o rosto de seu irmão. Antes que ele pudesse morrer de fato, ainda respirando, ele teve seu rosto arrancado enquanto vivia seus últimos e lentos momentos. Elizabeth enfiou a pele do rosto do seu irmão dentro de uma bolsa.

“Obrigado, Lorde Demônio. Vendo que a aparência dele não mudou apesar de ter morrido, com certeza ele era o meu irmão, e não um falso substituto.”

“As promessas são preciosas, não?”

“Mm. Promessas são importantes.”

A Princesa gesticulou em direção aos dois humanos que trouxe cativos.

“Este homem aqui, no auge da sua vida, é o único filho do Marquês de Rosenberg. Depois de começar a suspeitar que o Marquês estava tentando começar uma conspiração, eu mantive este homem preso.”

“E quem é o garoto?”

“É o neto do Marquês. Parece que ele é um filho ilegítimo deste homem, então não é de descendência oficial. Passei por algumas dificuldades para conseguir capturá-lo. Essa é toda a linhagem restante do Marquês neste mundo.”

Arranquei o tecido em volta da face dos dois prisioneiros. Os dois estavam com as bocas tapadas por um pano. ‘Uh, uuh, uub…!’ Os reféns arregalaram seus olhos e observaram os arredores. Eu estudei atentamente o relatório que a Lapis havia pesquisado, portanto, conhecia a descrição da aparência tanto do filho do Marquês quanto do seu neto. Os prisioneiros diante de mim eram reais.

“São eles mesmos.”

“Você quer que eu esfole o rosto deles por você, Lorde Demônio?”

“Está tudo bem. Apesar de ser a minha primeira vez arrancando a pele de uma pessoa, sempre tem uma primeira vez para tudo…”

“Um comportamento esplêndido.”

“Então…”

Lidei com o filho e com o neto seguindo os movimento de faca que a Princesa Imperial havia demonstrado segundos atrás. Ela se abaixou ao meu lado e apontou os erros que estava cometendo enquanto fazia o corte.

“Espere um segundo, Lorde Demônio. Você não deveria deixar a lâmina parada assim.”

“Mas isso não deixa mais uniforme?”

“Pode até parecer agora, mas quando você for olhar o produto final depois… não tem jeito. Eu não consigo só assistir. Me passe a faca.”

“Tsk tsk. Isso é um transtorno obsessivo compulsivo…”

“Mas que impertinente. Se nós vamos fazer isso, então é melhor fazermos com eficiência.”

“Mas vamos queimar tudo de qualquer jeito…”

Discutimos enquanto trabalhávamos. Arruinamos os corpos a ponto de que ninguém mais poderia reconhecer as suas identidades.

Levantando os baldes de óleo que trouxemos conosco, derramamos sobre todos os corpos e na tenda. Então saímos dela e ateamos fogo. Era um velho costume queimar a tenda caso as negociações fossem quebradas. Quando a fumaça negra subiu, ela notificou os dois exércitos que a guerra iria começar agora. Em um mero instante a tenda branca foi completamente engolida pelas chamas. Assistindo o fogo, falei.

“É um pouco triste que o tabuleiro de Go tenha que queimar também…”

“Não é magnífico queimá-lo depois de tudo? De qualquer forma, o registro das partidas está nas nossas cabeças, então podemos vê-lo de novo sempre que quisermos.”

“Mm.”

Apertei a sua mão.

“De um jeito ou de outro, essa foi uma boa negociação, Princesa Imperial.”

“Também estou satisfeita. A propósito, Lorde Demônio. Eu lhe darei metade do mundo, então você não se tornaria meu subordinado? Se nós dois combinarmos nossas forças, então podemos acelerar a unificação do continente em uma década.”

“Eu concordo.”

Segurei a mão calejada da Elizabeth com firmeza.

“No entanto, Princesa Imperial. Você já escutou sobre essa história? No passado, havia um grande conquistador, o segundo maior de toda a história. O Rei dos Conquistadores possuía tudo no mundo. Um dia, este conquistador visitou um sábio. O filósofo, como um ancião que se distanciava dos bens materiais, não tinha nada que podia ser considerado como propriedade. O rei o questionou. ‘Diga-me o que você deseja. Presentearei-lhe com o que quiser.’ Naquele momento, o sábio apontou para cima do conquistador e respondeu. ‘Saia do meu caminho. Você está bloqueando a luz do Sol em que me banho.’ O conquistador lamentou por um longo tempo e saiu de lá. De acordo com a lenda, o grande monarca disse isto: ‘Se eu não tivesse nascido como conquistador, então gostaria de ter nascido como este sábio…’.”

As sobrancelhas da Elizabeth se arquearam, como se estivesse maravilhada.

“Este é um conto interessante… não, de fato um conto muito interessante. É uma história cuja fragrância só se aprofunda quanto mais se medita sobre ela. Estou comovida.”

“Ficou encantado por ela ter te agradado. Princesa Imperial, você sabe qual a moral dessa história?”

“Qual é?”

Eu sorri.

“É bem simples. Ou se conquista tudo, ou não se conquista nada. Elizabeth, você me pedir para obedecer os seus comandos, isso é uma grande piada. Em vez disso, é você que deveria se tornar minha subordinada. Eu lhe presentearei com metade do mundo.”

 

 

“…”

Com o rosto inexpressivo, a Princesa Imperial olhou para mim.

“… Entendo, não há como chegar a um acordo entre você e eu.”

“Infelizmente também acredito nisto. No entanto, sentir pesar pelas coisas que são tristes e executar o que precisa ser executado não é a nossa maneira de viver?”

“De fato, está certo, Dantalian. Eu realmente desejo fazer você se curvar para mim mais cedo ou mais tarde. Rezo para que o dia em que você lamberá o meu pé não tarde.”

“Oh minha querida Elizabeth. Pode ter certeza de que você perderá. Eu sou Dantalian. E sendo Dantalian, lhe digo. Se você brilha como o Sol, então eu sempre me escondo sob a Lua Nova. Um dia você se esgotará e apagará, no entanto, sou incapaz de fazer isto. Afinal, jamais me revelarei.”

“Fico mais do que feliz em permitir que você tenha essa sua arrogância. Você tem a liberdade de ser orgulhoso. Mas isso só até alguém esmagar esta sua liberdade. Por favor, banhe-se nela o máximo possível, enquanto você ainda pode.”

“…”

“…”

Soltamos a mão um do outro.

Deixando a tenda ardente atrás de nós, cada um caminhou na direção em que deveria seguir. Aquela ilha branca flutuou sobre este oceano por três dias. Muito provavelmente ela nunca mais retornará depois de ser afundada assim.

“Ah, certo. Dantalian.”

Ouvi uma voz atrás de mim. No momento em que me virei, algo veio voando na minha direção. Sem pensar, apanhei o objeto que estava voando para mim com as duas mãos. Era um velho relógio de bolso. Confuso, eu olhei ao longe, rumo a Elizabeth, e ela deu de ombros.

“Pensei nisto com mais cuidado. Não importa o quanto ele seja um completo pedaço de lixo incompetente, o meu irmão ainda era o Príncipe Herdeiro. O Herdeiro do Império. Não seria muito educado da minha parte trocar uma figura destas por um mero filho e um neto de um Marquês. Pense nisso como uma pequena demonstração de boa vontade minha. Também pode considerar como sendo o pagamento por perder no nosso jogo.”

“Do que é que você está falando?”

“Habsburgo concede a sua fé uma única vez.”

A Princesa Imperial sorriu.

“— E Habsburgo acaba de lhe conceder a sua única fé.”

Então Elizabeth se virou e caminhou em direção ao outro lado da planície. Passei um longo tempo a observando partir. Coloquei o relógio de bolso no meu casaco e voltei para o Acampamento das Forças Aliadas dos Lordes Demônios.

Os Lordes Demônios estavam alinhados em frente ao portão do acampamento, esperando a minha chegada. Eles haviam visto a fumaça subindo da tenda queimada. Começando no outono passado e atravessando o inverno, a fumaça finalmente chegou até aqui. Em outras palavras, este era o último sinal de fumaça. O fumo havia começado nas cadeias de montanhas, voou até o Palácio do Governador em Niflheim, atravessou o território dos demônios, rompeu os portões das Fortalezas Negra e Branca, e por fim, queimou sobre as Planícies de Bruno. Era assim. Isto era guerra. Qualquer um conseguia saber que a guerra havia sido declarada. Apesar disto, eu, olhando para os Lordes Demônios ao meu redor, rugi como um trovão que ecoava depois de um grande raio.

“Ruptura!”

Os Lordes Demônios levantaram seus punhos ao ar. Todos bradaram em uma só voz.

 

— Guerra!

 

Neste momento, não haviam defensores da guerra ou defensores da paz. Existiam apenas animais que saltariam para o campo de batalha. Guerra! Guerra! A Guerra…! Dos Lordes Demônios aos capitães, dos capitães para os soldados, os rugidos destas bestas foram transmitidos para todos. O urro de um exército gigantesco de centenas de milhares de soldados atingiu os céus. Como o céu havia derramado água na forma de chuva antes, agora era a vez da terra sangrar.

Venha, ó doce guerra.

Ninguém está lhe rejeitando

 

 

 

 

O Rei da Escória, 71º Rank, Dantalian,

Calendário Imperial: 03/04/1506

Polles, Planícies de Bruno

 

Havia um tipo de cerimônia realizada em uma guerra em que dezenas de milhares enfrentariam outras dezenas de milhares de soldados. Era a proclamação da guerra. Neste mundo, como as pessoas consideravam as palavras faladas como sendo mais sagradas do que o texto escrito, a declaração da guerra também deveria ser pronunciada diretamente por alguém, afinal esta guerra gigantesca deveria ser a mais divina das batalhas.

No instante em que o orador terminar o seu discurso de proclamação da guerra na frente dos milhares de soldados, as Forças Aliadas dos Lordes Demônios deixarão de ser simples ‘Forças Aliadas’ e passarão a ser chamadas de ‘O Exército da Aliança Crescente’. Os demônios reverenciavam a lua e a noite. Fazendo uso da figura da natureza que eles mais respeitavam e admiravam, eles colocavam parte do seu nome no título da aliança.

No momento em que o discurso acabar, os humanos não serão mais conhecidos como ‘A Aliança dos Humanos.’, mas sim como ‘Os Soldados da Cruz’. A cruz era um símbolo que representava a luz do Sol. Como os humanos reverenciavam o Sol, mesmo que a noite chegasse imediatamente, o símbolo deles afirmava que a ela não passava de um prenúncio para a manhã.

A guerra entre a Aliança Crescente e os Cruzados não era mais uma disputa trivial por terras. Agora era uma ordem comandada pelos próprios céus e pela natureza. Essa era a história dos Deuses. Nos 1500 anos de história desde que esse continente surgiu e a civilização foi estabelecida, os gritos de carnificina e o sangue de massacres ocorressem sob permissão e em nome dos Deuses 7 vezes.

No 3º dia do 4º mês do 1506º ano do Calendário Imperial. Mais uma vez, os deuses ordenaram que um oitavo livro de história carmesim fosse escrito com uma tinta feita de sangue.

Como o emissário que executou a negociação final, por padrão fui nominado como o orador da proclamação de guerra. Era uma grande honra. Ao menos os outros Lordes Demônios esperavam que consideraria isso como sendo uma grande honra. Eu estava bem ciente do fato que eles estavam jogando tudo para mim pois não desejavam que a culpa fosse passada para eles caso tomassem à frente.

Seja para propagar a história dos Deuses ou por qualquer outro motivo, se exibir continua sendo se exibir, e a nós, seres terrenos, só resta obedecer.

Oh, Deuses, vocês são de fato poderosos. Quem é que poderia rejeitar a divina oferta de proclamar a santidade deste massacre? Além disso, como os Deuses adorados pela Aliança Crescente e os dos Cruzados são os mesmos, então tudo isso não passa só de uma briga doméstica? Aceitarei a gloriosa incumbência de proclamar essa briga doméstica…

Tudo bem, pode me chamar de blasfemo. Eu sou a blasfêmia em pessoa.

Tudo bem, pode me chamar de atroz. Eu sou a atrocidade em pessoa.

Eu desejo que o mundo se torne mais blasfemo e que as pessoas fiquem mais atrozes. Meu plano é adquirir meus desejos de dentro do lamaçal em que as pessoas blasfemas e que as atrozes sangravam.

Pura e simplesmente, meu objetivo é salvar o mundo que será destruído. Várias vezes quase fiquei mortificado por este paradoxo. Mesmo agora, eu mal conseguia suportar o anseio de ficar embasbacado.

Quem poderia negar este objetivo?

Se ao todo, os incêndios, as carnificinas, e as tragédias que causei, tinham como objetivo salvar o mundo no final, então meu caro senhor, quem pode dizer que estou errado?

Quão desesperadas serão as vozes me negando? E quão dignas de penas elas soarão? Estas vozes com certeza começarão falando ‘mas… porém… apesar disso…’ .

O fato delas começaram suas frases com uma conjunção adversativa. Esta era a tragédia delas. Elas têm que se dobrar, se distorcer, ajustar suas frases. Eu, por outro lado, falo como uma pessoa de poder.

‘Salvar o mundo é o certo’.

Quão simples e direto isso é?

Quero viver assim ao menos uma vez.

Utilizando a minha autoridade como e quando bem quiser, segurando graciosamente uma taça de vinho, eu gostaria de dizer ‘Acalmem-se meus amigos, estou apenas tentando salvar o mundo’. Quero apenas aproveitar a minha autoridade sem parar. Meu desejo estava sendo alcançado.

Com meus vassalos me seguindo, os guiei rumo ao topo de uma colina rochosa. Os outros Lordes Demônios estavam no meu caminho até o alto. Mas eles se apressaram para abrir caminho conforme me aproximava. Deste momento em diante, eu era o Oficial que havia recebido as palavras dos Deuses. Ninguém podia falar com rispidez comigo. Até mesmo os Lordes Demônios, que eram comandantes dos exército, Barbatos, Paimon e Marbas, todos estavam em silêncio.

Finalmente, meus vassalos e eu chegamos ao topo da rocha.

Este local ficava nas planícies.

Um campo liso se espalhava à nossa frente. Imagino se era porque a chuva havia caído durante o amanhecer, mas uma névoa havia se espalhado e estagnado sobre a planície. Além do nevoeiro, era possível enxergar relances de bandeiras balançando. Cada vez que o vento soprava, milhares de bandeiras e estandartes ruflavam.

“…”

Parecia que tudo estava quieto.

Um perfeito silêncio.

Como não havia classes sociais altas ou baixas em um mundo envolto pela névoa, também não haviam nobres abusivos, nem bruxas sofrendo agressões, nem soldados massacrando, nem súditos sendo massacrados, ao invés disso, toda a existência era encoberta pelo nevoeiro.

As bruxas olharam em minha direção. Elas estavam me notificando que as preparações para a declaração da guerra estavam completas. Agora a voz do orador ressoará por toda a planície com o feitiço de ampliamento sonoro.

Humbaba levantou os dedos de suas duas mãos. Como o dedo anelar da sua mão esquerda havia sido cortado, ela começou a contar não do 10, mas do 9. A contagem regressiva começou.

9, 8, 7・・・・・・

A pessoa que fizer o discurso se tornará o inimigo público do continente.

Os soldados humanos o amaldiçoarão quando morrerem e os soldados demônios vão culpá-lo quando caírem. Este era o papel da pessoa inocente responsável pelo anúncio. A razão para eu, o Lorde Demônio de ranking mais baixo, ter recebido a autoridade para realizar o assim chamado ‘glorioso e divino discurso’ era porque ninguém mais queria tomar responsabilidade por esta guerra. Paimon, é claro que não queria, e nem mesmo Barbatos o desejava.

6, 5, 4・・・・・・

Além disto, eu também, de fato, não desejava.

Não gosto de assumir papéis de responsabilidade inutilmente. Essa não é uma posição perfeita para você ser bem tratado só até o momento em que se torna inútil para eles? É válido ressaltar que um nobre deve se certificar de evitar posições perigosas.

Portanto.

“Farnese.”

“Aah.”

Eu ficava mais do que feliz em ceder a minha autoridade divina para minha subordinada.

Para a garota que apreciava avidamente ter seu nome marcado na história.

Eu ficava mais do que feliz em passar para ela a honra de ser tornar uma celebridade sem precedentes e instaurar a anarquia.

“Boa viagem.”

Farnese deu um leve aceno com a cabeça e foi à frente. Apesar de ter ouvido o som dos Lordes Demônios que estavam nos assistindo demonstrando seus choques, eu os ignorei. O feitiço de ampliamento sonoro já havia sido executado. Não havia nenhuma desordem ou obscenidade grande o suficiente para interromper este discurso depois de começado.

Perversamente, Humbaba omitiu os três últimos segundos e ativou a magia. As bruxas e eu recuamos e demos grandes sorrisos. Aah, estávamos todos tão alegres que chegava a ser obsceno.

Até mesmo a educação e as aulas de discurso que a Lapis ensinou ao modelo espartano para a Farnese foram para este instante. Agora, o momento e território de autoridade mais sagrado seria maculado não por um Lorde Demônio ou pelos demônios, mas por uma humana. O solo mais sagrado de autoridade será difamado por uma mera filha bastarda. Como Lapis havia feito no Palácio do Governador em Niflheim, agora era a vez da Farnese macular as coisas.

 

Agora, minha filha.

Espalhe veneno pelo mundo.

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— Oh, humanidade, ouça.

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Toda a história até hoje tem sido a história da luta de classes.

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Tradutor: Yuere   |   Revisor: Ryoukusan000 |   TLC/QC: BatataYacon e Heilong


CAPÍTULO ANTERIOR

 


Notas: Junto com o capítulo da Noite de Walpurgis no volume 1, esse é o que eu mais gosto de DDf.

Sobre o finalzinho do capítulo e começo do discurso da Laura, sem entrar em spoilers, só pelo que o Dantalian fala antes , não vai ser defendido o comunismo, só oposição a aristocracia, ao sistema de nobreza. E a ideia é ‘espalhar veneno’
Dito isto, sem discussão política nos comentários, seja você de centro, esquerda, baixo, direita, soco, hadouken, façam isso no discord da novel mania.

Aliás obrigados especiais:
Ao Ryokusan que aceitou revisar esse cap de última hora (e um pedido de desculpas pela demora).
Ao BatataYacon por ter um trabalho gigantesco fazendo translation check.
Ao Heilong por todo o trabalho de QC e seus comentários e gentis e sutis como um machadada no peito.

Brincadeiras aparte, comentem. :3


Fontes
Cores