DDf – Volume 3, Capítulo 5.1 – Palavras sem sons



Minha castidade estava em perigo.

Extremamente, aliás.

Isso não foi uma piada.

Eu conseguia sentir as bruxas salivando, olhando para mim.

Mesmo não tendo acontecido nada, as bruxas me convidavam para o distrito da luz vermelha que elas chamavam de tenda, falando: ‘Mestre, aconteceu uma coisa importante.’  ‘Mestre aconteceu uma coisa não tão importante assim.’ Se eu fosse lá, aquelas garotas começavam a fumar ópio e me olhar maliciosamente. Elas ficavam todas nuas. Elas realmente eram garotas selvagens. Então é por isso que as bruxas viviam sofrendo maus-tratos. Meus olhos ficavam turvos devido à tentação descontrolada.

“Vocês ficaram loucas?“

“Aha. O mestre está dizendo que ele quer transar com todas nós ao mesmo tempo?”

“Por que mesmo quando eu falo diretamente nos seus ouvidos, vocês parecem escutar através das suas bundas?”

“Oi? Está dizendo que para o senhor seria melhor utilizar nossos orifícios traseiros?”

“Nós estamos mesmo conversando na mesma língua?”

“Só feche seus olhos um pouquinho e—aiai.”

Eu bati de leve no topo da cabeça da Humbaba com meu punho.

“Escutem bem, meninas com peitos escassos. Eu não considero indivíduos como vocês como possíveis parceiras sexuais. Se vocês tem peitos pobres, então deveriam viver de acordo e serem mais humildes, mas mesmo assim, vocês ficam querendo mais e mais. Sendo tão mirradas, vocês não estão em posição de serem desejadas ou aceitas pelo mundo, na verdade, nas circunstâncias de vocês, deveriam aceitar o mundo como ele é.”

“Ahahah? Você sabe o quanto nos preocupa quando o nosso mestre, que foi devorado submissamente pela Senhorita Barbatos, tenta usar peitos pequenos como um argumento?”

“…”

Essas garotas mal-educadas. Elas fazem mesmo questão de enfiar o dedo nas feridas das pessoas.

Sempre que as bruxas iam para fora, elas vestiam uma grossa camada de roupas. Mesmo durante o fim do inverno, em que o cheiro de água podre emanava de todos os lados, ou no começo da primavera, em que esse mesmo cheiro já havia até penetrado em todos lugares, as bruxas continuavam com suas roupas pesadas, ignorando as estações. Humbaba disse que isso se devia ao fato de um corpo sem alma ser algo amaldiçoado e ofensivo, então não deveriam mostrar para outras pessoas. Todas as vezes que elas abaixavam os seus chapéus de cone escondendo seus rostos, eu me lembrava das luvas brancas que a Lapis sempre vestia. A origem dos chapéus das bruxas e das luvas da Lapis era a mesma. Elas eram todas iguais neste aspecto.

E vendo como de todos os lugares possíveis, elas vieram justamente para junto de mim, ficava claro que não foi algo proposital. Aqui era o local onde elas todas chegaram depois de fugirem a vida toda, sendo perseguidas e condenadas pelos outros. O destino é algo inevitável, e a estrada que as pessoas percorrem durante as suas vidas é bela. No entanto, o caminho rumo ao exílio, percorrido por uma pessoa presa a um destino inevitável, não era algo exatamente maravilhoso. Mas neste local de exílio, eu acreditava que deveria ao menos eliminar os seus status sociais baixos e permitir que todos sejam plebeus.

Durante a noite, eu desenhei um símbolo branco. Eram três círculos brancos em um fundo negro. Mostrando-o para as bruxas, eu falei:

“Deste em dia em diante, este será o símbolo do Lorde Demônio Dantalian. Já que vocês são a minha guarda real, é natural que vocês vivam carregando a minha marca em suas vestes.”

Para as bruxas, as roupas eram uma prisão, sempre acorrentadas em torno dos seus corpos. Sendo pessoas que foram rejeitadas, não tendo nenhuma afiliação ou lar, para elas, as roupas eram também um lugar de exílio. Ao colocar meu emblema nelas, eu estava libertando-as do seu banimento. As bruxas entenderam a minha intenção. No primeiro momento, elas não conseguiram abrir suas bocas, até que finalmente, seus olhos se encheram de lágrimas.

“M-Meeeestreeeeee-…..”

“Fiquem quietas. Se não quiserem usar, então não usem.”

“Aconteça o que acontecer, nós só vamos ficar nuas na frente do nosso mestre!”

Enquanto choravam, as bruxas se agarraram em mim. Sheesh. Eu só podia suspirar. Se possível, eu gostaria de pedir que elas não ficassem peladas na minha frente, mas o que eu poderia fazer nessa situação? Eu coloquei minhas mãos sobre as costas delas… eu tenho que conviver com essas garotas, entendo. No fim das contas, estou destinado a viver com elas. Maldito destino.

“Sniff. Mas então, mestre, quando você vai tirar as nossas roupas de baixo?”

“…”

Já podem parar de sonhar acordadas, bando de sem peitos.

Fora as bruxas, as únicas outras pessoas autorizadas a carregar meu emblema eram a Lapis e a Farnese. Com mantos negros sobre nossos ombros, nós andávamos frequentemente pelo acampamento militar das Forças Aliadas dos Lordes Demônios. Nos vendo de longe, os soldados murmuravam uns para os outros:

 

— O Rei da Escória…

—  A prostituta do Rei e suas escravas.

— Por que ele teria servas tão vulgares…

 

Nós considerávamos os sussurros dos soldados como sendo ainda mais corriqueiro do que o canto dos galos. Soltando gritinhos ‘kya— kya—’, as bruxas se penduravam nos meus ombros. Parecia que meus ombros eram um parque de diversão para elas. Mesmo enquanto andava, a Farnese lia um livro com uma mão, enquanto segurava furtivamente a borda das minhas roupas com a outra. Eu gritava para aquele bando de problemáticas sair de cima de mim. Lapis seguia silenciosamente este mesmo bando problemático.

De repente, eu me senti como se tivesse criado uma família ao vir para este mundo.

 

 

O solo, que havia congelado no inverno, começou a amolecer.

O chão duro do inverno começou a descongelar parte a parte. A luz do Sol abraçava a terra descongelada mais facilmente. Como se estivessem tentando receber ainda mais os raios solares, a neve que cobria os campos foi desaparecendo pouco a pouco. Já era possível ver pedaços de terra em meio aos vãos na neve. As partes derretidas nas camadas de neve pareciam com guelras em um peixe branco. A terra respirava intensamente através dessas guelras, recebendo ainda mais luz, até que finalmente, os campos de neve sumiram completamente, transformando-se em um riacho. Apesar de peixes de água doce, insetos e outros seres não conseguirem viver nele por ainda estar frio demais, o novo som de água corrente passou a atrair outros seres vivos. Um dia, uma rena com grandes chifres veio a ele, e colocou seus cascos dentro da água. Depois de me notar, o animal pulou rapidamente para fora do córrego e fugiu. O local onde o cervo havia se banhado era uma prova viva da chegada da primavera.

Enquanto aguentavam o inverno, as Forças Aliadas dos Lordes Demônios aumentaram seus números.

O rumor de que havíamos queimado as Montanhas Negras e cortado a cabeça do Marquês de Rosenberg espalhou-se pelo continente dos demônios. As pessoas da nossa raça sussurravam entre elas que talvez, desta vez, poderíamos… Desta vez, neste local onde o inverno é curto, nós podemos expulsar os humanos e retomar nossos lares… Os demônios pegaram suas lanças. Os soldados mercenários se reuniram. Exércitos de voluntários foram formados. Vários Lordes Demônios, que antes estavam céticos sobre esta guerra, levantaram suas bundas gordas. Durante a primavera, a estação em que tudo ganha vida, os demônios se preparavam para guerrear e tomar vidas inimigas. Neste ano a primavera será uma estação brutal.

Os humanos se deslocaram rapidamente no decorrer do inverno. Assim que ficou certo que a batalha curta havia se transformado em uma guerra prolongada, todos os reinos governados por humanos decretaram uma ordem de alistamento. Os jovens, que estavam se preparando para a primeira lavra do ano nas suas fazendas, foram ao campo de batalha. Ocasionalmente, sempre que os rumores sobre os exércitos humanos chegavam a nós, eram sempre sobre os Lordes Demônios, que viviam próximos aos territórios inimigos, sofrendo derrotas desastrosas.

 

— Sua Alteza, Crocell de Rank 49, perdeu seu Castelo de Lorde Demônio e está requisitando asilo em Niflheim…

— Dizem que o Rank 70, Lorde Demônio Seere, morreu em batalha.

— Estes humanos, filhos da puta desgraçados.

 

Os sons das vozes eram descontrolados. Enquanto as Forças Aliadas dos Lordes Demônios estavam se reorganizando, a Aliança dos Humanos estava se desenvolvendo, os membros da Aliança se comunicavam apressadamente enviando mensageiros entre si.

Um certo rei humano enviou uma mensagem afirmando que os demônios atravessaram as Montanhas Negras primeiro, entrando em território humano, e que isso era considerado uma invasão.

‘Já que quem saqueou e invadiu o Castelo de Lorde Demônio do Dantalian foi o Marquês de Rosenberg, e já que o Rosenberg é humano, foram vocês que invadiram primeiro. Nós não somos os invasores, nós somos as vítimas.’ Foi a mensagem que os Lordes Demônios enviaram de volta.

Em primeiro lugar, foram vocês demônios que espalharam a Peste Negra pelo mundo, e como o Rosenberg atacou aquele castelo com a simples intenção de curar o seu povo da doença, oh, se nós organizarmos a ordem dos acontecimentos, então não são vocês demônios, que merecem morrer? O rei humano enviou uma mensagem um pouco mais agressiva.

‘Vendo que vocês humanos não tem uma prova sequer que nós espalhamos a praga, e mesmo assim, continuam insistindo tão fervorosamente nisso, me leva a crer que as cabeças de todos vocês sofrem de retardo.’ Foi a resposta que a Barbatos escreveu. Entretanto, os outros Lordes Demônios a impediram veementemente de enviar aquilo, então, escreveram as palavras dela de forma mais branda.

Assim que começaram a discutir sobre quem havia transgredido primeiro, um número infindável de acusações desfundadas começou a surgir. As cartas não tinham nenhuma evidência concreta, contudo, os argumentos eram sustentados por meio de retórica rebuscada. Durante o inverno, apesar das Forças Aliadas dos Lordes Demônios e a Aliança dos Humanos discutirem quem foi iniciador da guerra, na verdade, todos os lados já estavam bem cientes do fato que, à essa altura, quem começou já não importava nada. Apesar de todos já terem percebido isso, ninguém demonstrou nenhum sinal disso. De acordo com as mensagens transmitidas pelos enviados, os humanos eram vítimas e os demônios também, fazendo com que o universo ficasse cheio de pobres lesados. Portanto, todos com certeza sabiam que em um mundo que até os céus e a terra haviam se tornado vítimas, ninguém no mundo poderia estar verdadeiramente correto. Era uma verdade óbvia. Se por acaso alguém se desse ao trabalho de falar essa obviedade, então ela se tornaria tangível, as pessoas iriam manipulá-la,  distorcê-la, lixar ela com todos os mortos da guerra, até que finalmente, a verdade óbvia se tornasse uma coberta de sujeira, portanto, os nobres não a falaram. O primeiro que a dissesse estaria perdendo.

E ninguém quer perder.

Ninguém.

 

 

Eu contratei mais mercenários e aumentei o número do meu exército para 7.000 homens.

Tendo ouvido o rumor que ‘Sua Alteza Dantalian paga bons salários‘, os capitães mercenários vieram me procurar por conta própria. Os capitães me observavam quando próximos a mim.

“Estão se espalhando rumores que uma guerra gigantesca está prestes a explodir…”

“Os rumores estão corretos. Todos vocês também irão para a vanguarda comigo?”

“Na verdade, se nós mercenários humildes irmos para a vanguarda, isso não seria vergonhoso para Vossa Excelência…?”

“Essa não é uma guerra motivada por uma causa grandiosa, é uma batalha em que lutamos aproveitando o momento de miséria do inimigo. O que poderia ser mais vergonhoso que isso?”

“Derrotar os humanos não seria uma causa grandiosa?”

“Mesmo que essa fosse uma causa grandiosa, ela seria a sua causa? Mesmo que nós eliminemos o império dos humanos e estabeleçamos uma sociedade milenar no local, esse novo reino seria verdadeiramente seu?”

“O valor de suas palavras é imensurável, Vossa Excelência. Por favor, peço que me elucide .”

“O pagamento é feito a cada dez dias no meu exército. Soldados de infantaria recebem uma moeda de ouro, cavalaria três. Quanto a comida, seria bom deixar metade do seu salário comigo e cuidaremos disso, ou você pode comprar dos mascates que seguem as nossas tropas. Como nós não provemos equipamentos separadamente, manejem isso por conta própria. As coisas são assim, então as entenda como são. Não se preocupe com uma causa grandiosa, considere apenas o lucro pessoal que você pode ganhar. Eu vou ser a pessoa responsável por me preocupar com a grande causa.”

Os capitães assentiram. Seus olhos demonstravam que eles haviam entendido o que eu disse.

“Por favor, instrua nós, humildes militares, das regras que devemos seguir.”

“Não discriminem ninguém pela sua raça ou local de nascimento, apenas sigam a hierarquia militar.”

Os capitães se levantaram e curvaram suas cabeças em direção ao solo.

“Vossa Excelência, compreendemos suas ordens.”

No fim do inverno, Farnese treinou os soldados recém contratados mais uma vez. Como havia uma grande quantidade de soldados que já eram leais a ela, não foi tão difícil quanto treinar os novos recrutas como foi anteriormente. Dois soldados espancaram uma prostituta até a morte, um ameaçou um mercador e quatro praticaram agiotagem. Todos eles foram capturados e forçados a cortar a própria barriga. Farnese arrancou seus órgãos internos pessoalmente e ferveu uma sopa de sangue. Depois de cuspir um pedaço de intestino, ela falou:

“Até as entranhas desses imbecis são podres, o gosto da carne está horrível. Eles realmente eram uns lixos com quem não deveríamos conviver. Arranquem as cabeças e joguem os corpos para os cães.”

Mesmo que o inverno tivesse passado e a primavera se aproximasse, para os soldados, Farnese continuaria sendo a encarnação do inverno, então sempre que viam o rosto da general, seus ombros tremiam. Apesar do calor ter descongelado o solo endurecido pelo inverno, a disciplina do exército continuou fria e rígida como uma lâmina.

Os soldados não relaxaram por causa do Sol da primavera, na verdade, continuaram treinando vigorosamente. Gritando, eles ajustavam suas formações e levantavam suas lanças. O suor deles caía no local onde a neve havia derretido.

Assim que o quarto mês do ano chegou, as Forças Aliadas dos Lordes Demônios se moveram rumo ao sul, e a Aliança dos Humanos marchou paro o norte, como se tivessem combinado de fazer isso previamente, os dois exércitos montaram acampamento nos lados opostos de uma planície localizada na divisa entre os territórios dos humanos e dos demônios.

 

 

 

 

 

 


Tradutor: Yuere   |   Revisor: Ryoukusan000


 


Gravem isso aqui, é importante:

“Mesmo que essa fosse uma causa grandiosa, ela seria a sua causa? Mesmo se nós eliminarmos o império dos humanos e criarmos uma nova era, esse novo reino será verdadeiramente seu?”

Agora repetindo o aviso do post: Sem ddf semana que vem \o/ . O capítulo seguinte é gigantesco, então vai demorar pra traduzir.  Mas se você é uma pessoa do futuro, pode ignorar esse aviso, só siga em frente e lembre-se de comentar ^^


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