DDf – Volume 2, Prólogo


Um filósofo pode fazer boas perguntas.

Mas políticos dão boas respostas.

Eu sou todas as respostas.

 

 

Supere o seu passado.

As pessoas diziam isso facilmente.

Se eu fosse dar um pequeno conselho a essas pessoas otimistas, então seria que existem vários acontecimentos passados neste mundo que não podiam ser superados.

E se a sua própria mãe fosse um lixo humano?

Tudo bem. Você conseguia lidar com isso.

Ou então se o seu próprio pai fosse um lixo de pessoa?

Você também conseguiria lidar com isso com paciência.

Mas, e se você testemunhasse as suas meias-irmãs tremendo de medo porque a sua própria mãe tinha batido nelas, simplesmente pelo único motivo delas serem filhas de outra mulher, enquanto o seu pai apenas assistia ali, bem ao lado, sem falar um ‘A’ sequer– então neste momento, você só podia aceitar a verdade humildemente.

Que a sua vida estava afundada em merda de cachorro.

Eu vagamente assumi que a minha vida tinha chegado a este ponto quando eu tinha 10 anos.

Minhas meias irmãs mais novas estavam se agarrando umas as outras e chorando. O motivo era simples. Minha mãe havia as xingado gritando, “Suas imundas filhas de uma puta!”. É claro, naquela época eu não sabia o que a palavra ‘puta’ significava. O dia em que eu descobri que a existência conhecida como ‘pênis’ podia ser usada para outra coisa se não urinar foi quando eu tinha 11 anos, ou seja, eu precisei esperar mais um ano antes de entrar no mundo da obscenidade.

Estou falando sério.

Até mesmo eu tive uma época em que fui puro.

De volta à história–

Não tinha como crianças de seis e cinco anos conseguirem compreender a palavra ‘puta’, quando nem mesmo uma criança de dez conseguia. Exceto que, era obvio que essas palavras foram proferidas com um significado ofensivo. Como eu sabia? Porque minha mãe tinha as chamado de putas.

Oh. Então vocês duas são as filhas da puta.”

Ela não tinha falado de um jeito agradável assim, mas sim.

“Essas vira-latas filhas de uma puta. Como ousam não saber o seu lugar e–!”

Ao invés, ela tinha explodido em raiva e selvageria.

Até mesmo crianças sabiam quando elas não eram bem-vindas.

Independentemente de serem capaz de compreender as palavras ou não, você ao menos sabia dizer se o adulto a sua frente estava tentando te matar ou te ajudar. Era ainda mais fácil de distinguir este fato quando o adulto havia te estapeado fortemente enquanto dizia “filha de uma puta”.

Então, no momento em que os ombros de minhas meias-irmãs mais novas começaram a tremer.

O momento em que minhas irmãs mais novas, que estavam rindo felizes há um mero segundo, abafaram o som de seus choros porque estavam sinceramente temendo que fossem ser mortas.

Eu tive o pressentimento que se eu não consertasse essa situação de merda, então minha vida também se transformaria em merda.

“Pai. Livre-se da minha mãe.”

“O quê?”

“Não responda com um pergunta sem necessidade. Você ouviu bem. Entre em divórcio com a minha mãe.”

Meu pai piscou.

Até mesmo sua piscada pareceu-me uma desculpa, o que aumentou ainda mais a minha irritação para com ele.

“…O que você está dizendo?”

“Então você vai continuar se acovardando e não tomará atitude? Tudo bem, eu usarei essa chance para deixar isto claro. Minha mãe é louca. Minhas irmãzinhas apenas quebraram um vaso de cerâmica por acidente, mas você sabe o que minha mãe fez?”

Eu estapeei minha própria face. Com força.

Porque eu pensei que deveria fazer uma demonstração para ele.

“Ela deu tapas nelas. Forte o suficiente para fazê-las caírem no chão. Até aqui você ainda pode fazer vista-grossa e trata-la como uma vítima normal de histeria, mas o que ela fez em seguida foi o verdadeiro problema. Minha mãe foi pegar uma faca de cozinha e quase esfregou no rosto delas.”

“……”

“Você entendeu? Uma faca de cozinha. Ela mostrou uma faca para a minha irmãzinha de cinco anos. Minha mãe não é alguém afetada pela histeria. Ela é uma pessoa total e absolutamente insana. Divorcie-se dela imediatamente e a expulse de nossa casa.”

“Filho. Ela ainda é a sua mãe.”

“Sei muito bem disto.”

Eu falei com frieza.

“É por isso que eu estou insistindo e te apressando ainda mais para que você se divorcie dela. Antes que eu despreze mais ainda o pai que afirmou amar essa mulher e a tomou como esposa.”

“……”

“Pai. Ontem você leu partes de Rousseau para mim. Que a diferença entre homens e animais é que os homens possuem arbítrio e razão. Você leu para mim em um tom suave, muito suave. E hoje, eu descobri uma besta contida no rosto da minha mãe.”

“Certamente contratar um professor de retórica para você foi algo bem eficaz. Visto que você é muito mais eloquente do que eu era quanto tinha a sua idade.”

“Eu já havia percebido que era um gênio quando tinha seis anos. Você não me fará perceber isto de novo me elogiando agora.”

“Você pensou que fosse um elogio? Eu estava zombando de você.”

Ha. É você quem precisa assistir às aulas de retórica, pai. Você não sabe nem como zombar de seu próprio filho direito e acha que consegue aguentar a sua esposa? Por favor, se esforce mais em cuidar de si mesmo.”

“Eu vou dizer isto novamente. Ela é a sua mãe.”

A voz de meu pai ficou fria.

“Por nove meses, ela suportou todo tipo de dor mantendo você dentro da barriga para poder te dar a luz. A primeira pessoa a sorrir quando você veio ao mundo foi a sua mãe, a primeira pessoa a chorar quando você se machucou pela primeira vez também foi a sua mãe. Filho. Saiba o seu lugar. Como você ousa dizer algo tão imoral quanto expulsar sua própria mãe de casa.”

Eu dei uma risadinha.

“Mas que sem vergonha.”

“O quê?”

“Isso não é problema meu. Este problema é seu, pai. Devido a uma única mãe, seis de suas crianças estão sendo agredidas. É uma equação simples. Você vai salvar uma, ou vai salvar as outras seis? Jogue fora essas palavras irritantes como ‘imoral’. Não há nenhum humano tão lixo quanto você no quesito de ética, pai. Nenhum.”

“……”

“Essa será a última vez que eu pedirei algo a você sobre este assunto, pai. Definitivamente. Então me dê uma resposta séria. Você se divorciará da minha mãe?”

Meu pai ficou em silêncio.

Ele continuou quieto por mais de 40 minutos.

O motivo para eu me lembrar exatamente do tempo era porque eu ter observado o relógio de pulso que meu pai estava usando. Já eram onze horas da manhã aproximando-se do meio-dia.

“Eu não consigo.”

Desgraça, meio-dia.

A partir daquele momento, eu passei a desprezar aquela hora para sempre. Meu hábito de me recusar a sair da cama de manhã também se originou disto. Eu vou estar me repetindo, mas. Eu absolutamente detesto a manhã e o meio dia.

“……Por que não?”

“Porque eu amo a sua mãe.”

“Essa resposta é realmente, imensamente, decepcionante. Então isso significa que você não ama seus filhos, pai? Você não ligaria se sua esposa matasse todas as suas crianças?”

“Sim.”

E então eu nunca consegui esquecer este momento.

Como um escultor usando um martelo e um cinzel para gravar uma marca no meu cérebro.

Um tipo de trauma foi cravado na minha mente.

“Eu amo a sua mãe a este ponto.”

“……”

“Peço desculpas, filho.”

“……Agora mesmo, pai.”

Eu engoli.

Pode ser que o que eu tinha engolido não fosse só saliva.

“Pai, agora mesmo você perdeu toda a minha confiança.”

“Eu sei.”

“Pai, agora mesmo você arruinou a minha vida.”

“Eu também sei disto.”

Meu pai assentiu.

“Não importa o que você escolha você vai viver uma vida mais difícil do que a minha.”

Esse pai desgraçado.

Eu realmente te detestava.

“……Deixe-me perguntar uma última coisa. Se isso fosse uma pergunta normal… Você obviamente sacrificaria uma pessoa por seis. Esse é o tipo de pessoa que você é, pai. Mas devido a essa coisa chamada ‘amor’, você está me dizendo que você escolhe salvar uma em vez de seis?”

“Isto mesmo.”

“Se este seu ‘amor’, pai, está apenas te enfraquecendo, então qual o significado, o motivo dele?”

Ele não respondeu.

Porque ele não conseguia responder.

Eu mordi meus lábios e xinguei.

“Eu sinto vergonha em olhar para o meu próprio pai fraco. Você entende? Eu estou absolutamente envergonhado. No fim das contas você não conseguiu escolher nada, pai. Você é realmente, realmente desgraçado de tão indeciso.”

Naquela época ‘desgraçado’ era o xingamento mais forte que eu conhecia.

Eu não sabia como usar ofensas mais horríveis do que esta.

Eu já não disse?

Até mesmo eu tive uma época em que fui puro.

“Filho.”

“Não peça desculpas. Eu não estou bravo com você para conseguir um pedido de desculpas. O que poderia mudar se você se desculpasse? Só saiba disto.”

Eu jurei.

Um juramento frio.

Um juramento claro.

“Eu não me tornarei fraco como você, pai.”

“……”

“Nunca.”

E.

E……

 

 

 

 

 

 

 

 

Lorde Demônio mais fraco, 71º rank, Dantalian, Calendário Imperial: 20/09/1505, Niflheim, Praça de Hermes.

 

Slap!

Sinceramente, foi um som bem satisfatório.

O som de pele colidindo contra pele ecoou alto.

As pessoas devem ter ficado alarmadas pela poderosa onda de choque do tapa, já que muitas delas estavam o queixo caído. Cerca de 200 demônios de várias raças estavam olhando para esta direção. Nesta situação, ‘ esta direção’ referia-se muito simplesmente a duas pessoas.

Eu.

E Lapis Lazuli.

“Esta serva está decepcionada.”

“……”

“E pensar que Vossa Alteza não passava de uma pessoa deste nível.”

Com o rosto absolutamente inexpressivo.

E com um tom de voz ainda mais frio, ela falou.

“Se fosse Vossa Alteza, então esta serva pensava que você fosse diferente dos outros Lordes Demônios. Tinha esperanças que o Senhor pudesse mostrar algo de diferente comparado às outras pessoas intoxicadas pelo desejo de autoridade. Mas tudo que consigo ver a minha frente é um suíno ridiculamente gordo.”

Eu cuidadosamente senti a minha bochecha.

Ela doía.

Minha pele estava vermelha e inchada.

Isso não era impressionante?

“…Lapis Lazuli. Por mais que você seja minha amante e minha noiva, você também é minha vassala. A esta hora do dia, no centro da praça, na frente de centenas de cidadãos, você levantou tua mão contra teu senhor. Você sabe o quão desleal este ato é, certo?”

“Sim. Esta serva sabe.”

“Bom.”

Eu assenti.

Seja uma pária ou uma mestiça, alguém assim ousar bater em um inviolável Lorde Demônio. Só isto, por contra própria, já era suficiente para ir para o topo das manchetes do ano. Até mesmo as pessoas na praça estavam olhando abismados para a cena.

Mas ainda não tinha acabado. Permita-me fazê-la ainda mais divertida.

Eu ordenei.

“Eu, Dantalian, por meio desta declaração, dispenso-lhe teus deveres.”

“……”

“Nunca mais apareça a minha frente.”

 

 

 

 

Naquele dia, uma notícia chocante se espalhou pela cidade.

O casal que tinha se tornado o mais famoso no mundo dos demônios por ter superado a barreira social, desfez-se em dois meses.

Se esse não fosse um acontecimento esplêndido, então eu não dizer o que mais seria.


Tradutor: Yuere   |   Editor: Yuere



Notas: Então pessoal, assim começa o 2º Volume de DDf, vou dar praticamente o mesmo aviso que o tradutor gringo deu, não comecem a odiar um ou outro personagem no decorrer deste volume, tem muita revira-voltas no percurso deste grande arco, e lembrem-se quem narra a história é o Dantalian, e ele não é um narrador muito confiável.
Ah, esqueci de perguntar no último post, o que acharam do primeiro volume? Não se esqueçam de comentar o/

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