VM – Capítulo 98 – Decisões.



Quando Tyler acordou já era madrugada, mas ele não sabia exatamente que horas eram. Com Calie aninhada em seu peito ele só conseguia pensar, ‘Que merda eu fiz?’.

Isso não era só um acidente de percurso, era um desvio total! Se desvencilhando dos braços dela, ele sentou-se na beira da cama.

Sem saber por quanto tempo, ele ficou ali. Apenas parado e pensando, ele se orgulhava da sua idade. Não porque tinha 70 anos, mas porque quando se fica mais velho a pessoa se torna senhor de si, e nessa noite ele tinha agido igual a um garoto de 18 anos. Quando ele tentou impedir Calie, ele estava suplicando interiormente que ela não fizesse.

“Tyler…” Calie o chamou.

“Oi.” Ele respondeu sem muita força.

“Está tudo bem?” Ela quis saber.

“Isso não vai dar certo.” Tyler suspirou.

Calie não respondeu de imediato. Depois de alguns minutos ela se moveu e o abraçou por trás. “Tyler… e… eu…” Ela tentou falar, mas não conseguia formular nenhuma frase com coerência suficiente.

“Calie, você tem a vida toda pela frente, eu não sou o bom partido que você pensa.” Tyler disse interrompendo-a.

“E eu sou um bom partido?” Calie soou fraca.

“Eu sou um velho que tem a idade de ser seu avô, vagabundeei minha vida inteira por faculdades, nunca tive um relacionamento sério, sem falar das minhas claras “excentricidades” de velho.” Ele riu no final.

“Esse é um clássico, o problema sou eu e não você?” Ela perguntou.

“Mas dessa vez não é um jogo de mal gosto.” Tyler falou, virando-se para encará-la.

“Eu sou uma mãe solteira, não tenho nenhum diploma, estava desempregada e afundada em dívidas até recentemente, acho que eu sou o problema aqui.” Calie tentou ser sincera.

“Me desculpa, eu não devia ter deixado que as coisas chegassem a esse ponto.”

“Achei que eu tinha tomado a iniciativa?” Calie falou.

“Sim, foi” Ele concordou. “Porém eu sou o mais velho aqui, eu devia tentar evitar esse final.” Ele suspirou.

“E por que não me evitou?” Ela ficou curiosa.

“Isso é sério?” Tyler franziu o cenho.

“Sim, muito.”

“Pode ser difícil para você imaginar, mas aparentemente eu não sou muito resistente quando uma modelo da Victoria’s Secret me beija.”

“Modelo da Victoria’ Secret?” Dessa vez foi Calie quem riu. “É a primeira vez que escuto essa.”

“Acredite, muita gente deve ter dito isso pelas suas costas.” Ele confessou.

“Bom, então você é modelo de quê?” Calie quis saber.

“De fraldas geriátricas?”

“Phuffff!” Calie não aguentou e gargalhou. “Gosto como você brinca consigo mesmo.”

“Só falo a verdade.” Tyler deu de ombros.

“Por falar nisso, você tomou remédio?” Calie perguntou corando.

“Não, faz um tempo que não preciso mais tomar remédios para a pressão.” Tyler confessou.

“Não quis dizer isso, falo de outro tipo…” Ela corou mais ainda.

“De osteoporose? Eu sempre me alimentei bem, por isso não os tomo sempre.”

“Esses não, aqueles azuis… para ajudar, sabe…”

“Quê??!!!” Ele quase deu um pulo. “Eu não tomo viagra.” Tyler foi firme.

“Desculpa, é que você foi tão enérgico que eu fiquei preocupada, não queria que você passasse mal tentando me impressionar. Quando eu trabalhava como comissária eu ouvi muitos casos com as outras funcionárias, algumas delas tinham casos com esses ricões e era comum alguns deles pararem no hospital por causa de princípios de infartos. Um deles até morreu!” Calie se explicou.

“Ahhh…” Tyler tentou falar.

“Que foi, te magoei?” Ela ainda estava preocupada pensando se tinha magoado ele.

“Eu estou pensando se isso foi bom ou ruim para o meu ego.” Tyler sorriu sem jeito.

“Como assim?”

“Estou me decidindo em acreditar se eu fui tão viril para que você pense que aquilo só poderia ser feito através de remédios ou eu pareço tão fraco que só poderia ter um bom desempenho se tomasse drogas. Para o meu bem vou ficar com a primeira opção!” Tyler apertou o punho e tentou parecer resoluto.

“Todo homem é bobo assim?” Calie sorriu aliviada.

“Não sei, nunca dormi com um homem.” Tyler respondeu.

“Idiota!” Calie riu e o beliscou.

“Olha quem fala, pelo menos de nós dois, não sou eu quem tem fetiche por velhinhos indefesos.” Ele a provocou.

“Fetiche, eu?” Calie gargalhou com a provocação.

“Sim, eu sou completamente normal. Todo homem quer uma modelo de lingerie, mas não são muitas mulheres que querem pobres velhinhos.”

Ela o beliscou de novo, mas depois o abraçou. “Sabe que é a primeira vez que eu noto a sua idade? Não havia pensado nisso até agora.” Calie falou.

“Sério? Geralmente é a primeira coisa que se nota.”

“Bom, não é assim.” Ela começou a se explicar. “Você é sempre tão enérgico e disposto, que depois de um tempo me passou despercebido.”

“O que vamos fazer agora?” Tyler perguntou.

“Não sei, eu tive coragem de dar o primeiro passo, mas sinceramente estou assustada.” Calie confessou.

“Você gosta de mim?” Ele quis saber.

“Sabe, depois da decepção com o pai da Mel, eu passei muito tempo tendo repulsa dos homens. Contudo você foi tão diferente que quebrou todas as barreiras que eu tinha construído ao longo do tempo, sempre sendo gentil e me ajudando, nunca pedindo nada em troca. Quando vi, já tinha sentimentos diferentes por você.” Calie começou a falar, mas no final das frases teve que esconder o rosto com vergonha.

“Sabe que é errado tentar me agradecer ou retribuir o que eu faço por você dessa forma, eu não preciso disso. Não fiz querendo algo em troca, você tem sido uma excelente ajuda na empresa, muito mais do que eu podia prever.”

“Eu sei, e talvez por você nunca ter ultrapassado os limites comigo, me fez gostar de você.”

“Quanto você gosta de mim.” Tyler quis saber.

“Não sei, é um sentimento diferente do qual eu pensava que tinha com Dylan. É mais forte em muitas áreas, eu me sinto segura com você e quando te vejo com a Mel… é reconfortante.”

“Isso é bom, mas e fisicamente, tudo o que você disse pode, de certa forma, ser descrito como uma amizade.” Ele sondou.

Calie ficou calada por alguns segundos, Tyler até pensou que tinha falado alguma coisa errada, quando ele ia se desculpar ela o beijou.

“Não sei ao certo o que eu sinto agora, mas com certeza me sinto muito atraída.” Ela o beijou novamente. “E você?”

“É… sabe, eu me sinto bastante atraído por você, mas também não consigo parar de pensar que não sou a melhor escolha para você.” Tyler suspirou e deitou-se de costas com Calie ainda abraçada nele.

“Por que você pensa tanto nisso?”

“Pense bem, eu sou fim de carreira, não posso te dar uma família que você merece. Sua vida está só começando, acho que você tem opções bem melhores.”

“Onde essas opções bem melhores estavam por todo esse tempo? Sabe quantos homens deram em cima de mim? Quantos homens casados me deram seus cartões? Você não é só um homem decente, é alguém que eu nunca vou poder achar igual!”

“Está certo.” Tyler não quis discutir sobre essa opinião dela. “E o que vamos fazer agora?” Ele perguntou de novo.

“Que tal tentarmos passar um tempo juntos e depois ver no que dá?” Calie sugeriu, de certa forma ela também tinha medo de se entregar de cabeça em um relacionamento.

“Por mim tudo bem.” Tyler cedeu, ele também não sabia ao certo o que fazer agora, seus planos com o outro mundo estavam muito bem alicerçados. Qualquer mudança agora seria ruim. “Já que estamos aqui, deixe-me provar que não preciso de remédio nenhum!” Tyler virou-se e a beijou com afinco.

***

Calie:

Ao acordar ela percebeu que Tyler não estava mais na cama. Talvez fosse melhor assim, ela tinha que admitir que eles dois tinham passado um bom momento juntos, não, um ótimo momento. Mas o que fazer agora?

Ela mesma estava confusa, contudo ainda queria seguir em frente.

“O cheiro parece bom.” Calie falou, ela pensou que Tyler tinha ido embora, mas pelo visto ele estava fazendo seu café da manhã.

“Panqueca, waffles ou ovos com torrada e bacon?” Tyler quis saber.

“Parece que você já fez as três opções.” Calie notou a pilha de comida.

“Acordei disposto e quando vi já tinha feito.” Ele deu de ombros.

“Deixa eu tomar um café primeiro ainda estou com sono.” Calei quis corar quando se lembrou do motivo.

“Não faz mal, coma quando sentir vontade.” Tyler falou e a serviu com uma xícara fumegante.

“Obrigada.” Calie agradeceu e ficou observando Tyler terminar de assar algumas torradas, depois disso ele ficou mexendo no notebook enquanto bebia seu café.

“Está vendo o quê?” Calie puxou assunto.

“Estou olhando coisas como solo-cimento, hiperadobe e esse tipo de coisa, faz um tempo que não olho sobre essas técnicas.” Tyler respondeu.

“E isso seria?”

“São formas de construções ecológicas, muitas vezes usando os materiais disponíveis no local para fazer as próprias casa, além de ter uma pegada ecológica bem maior a construção, é bem mais barata.”

“Quer isso para quê?”

“Isso é bom para países pobres que não têm muitos recursos, estava pensando se era um bom negócio.” Tyler respondeu como se não fosse muita coisa.

“Posso ver?” Calie perguntou.

“Claro, essa aqui é uma máquina que faz tijolos com areia e cimento.” Tyler virou o notebook.

Calie viu um vídeo de dois homens trabalhando em uma pequena prensa manual, um colocava a terra e o outro puxava uma alavanca. Depois de prensada a terra virava um pequeno tijolinho e era retirada pelo homem que colocava o barro. “Isso funciona?” Calie parecia incrédula.

“A Nasa quer usar uma técnica bem parecida com essa para fazer as estruturas em Marte, quando os humanos forem colonizar.”

“Sério?” Calie ficou impressionada.

“Sim, não usamos muito aqui, pois é muito mais cômodo mandar construir com as empreiteiras, já temos o costume de usar madeira e Drywall, pois ajuda no isolamento térmico, mas em países quentes uma casa feita com tijolos de barro, é melhor para se manter fresca no calor.” Tyler explicou.

“Entendo, mas fazemos isso aqui, digo nos EUA?”

“Sim, não em grande quantidade, mas sempre tem alguém que tenta fazer.”

“Legal, quem inventou isso é muito inteligente.” Calie elogiou.

“Isso é tão velho que ninguém sabe quem inventou, cada cultura tem sua versão, parte da muralha da China que se estendia sobre o deserto foi construída com essa técnica.”

“Sabia que você fica sexy quando explica essas coisas?” Calie deu com a língua nos dentes.

“Sério?” Tyler riu e avançou para beijá-la.

De repente quando estavam totalmente imersos na ação eles escutaram uma voz infantil ao lado. “Mãe?”

 


Autor: Lion | Editor: Bczeulli | QC: Delongas



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