VM – Capítulo 75 – Planos para o futuro.



Tyler estava sozinho com o rei naquele mesmo gabinete onde se encontram na primeira vez.

“Obrigado.” Tyler falou.

“Pelo quê?”

“Eu sei que toda essa competição foi um modo fácil de me passar a coroa.”

Otaviano riu. “Quando se vive por muitos anos você começa a perceber que a vida é feita de ciclos, e as águas estão começando a ficarem turvas de novo.”

“Por que está me dizendo isso?” Tyler quis saber.

“O reino Central está inquieto, os anões ao norte se fecharam em suas montanhas e as feras estão cada vez mais perto das nossas cidades, sabe o que tudo isso quer dizer?”

“Guerra.”

“Sim, mas fico feliz que tenha mostrado seu poder hoje, os que querem te derrubar vão pensar duas vezes antes de agir!” Otaviano elogiou.

“Detesto fazer isso, quero fazer isso o mínimo possível.” Tyler desabafou.

“Se você não fizer isso, ninguém vai lhe respeitar.”

“Isso não é respeitar, é temer. Eu não quero isso!”

“É a mesma coisa.” O rei deu de ombros.

“Se você respeita alguém, o segue de livre vontade. Se teme, você faz porque tem medo.”

“Um líder tem que se impor rapaz.”

“No meu mundo existiu uma grande mulher que comandava uma grande nação, certa vez ela falou o seguinte: Ser líder é como ser uma dama. Se você tiver que lembrar às pessoas que você é, você não é.”

Otaviano ficou pensando nas palavras de Tyler por um bom tempo antes de poder formular uma frase. “E como pensa em governar?”

“Com mais autoridade do que poder.” Tyler explicou.

“Qual a diferença?” Otaviano estava confuso.

“Autoridade é a habilidade de levar as pessoas a fazerem de boa vontade o que você quer por causa de sua influência pessoal. Poder é a faculdade de forçar ou coagir alguém a fazer sua vontade, por causa de sua posição ou força, mesmo que a pessoa preferisse não o fazer. Já vi diversos tipos de governos diferentes e nenhum dos que são baseados no poder sobrevivem por muito tempo, eu quero fazer algo que dure por eras.”

“As pessoas não sabem o que querem.” Otaviano balançou a cabeça discordando.

“Por agora, mas no futuro saberão. No meu país cada pessoa tem um poder de voto, ele é igual para todos, sejam elas ricas ou pobres, a cada 4 anos escolhemos as pessoas que governarão as cidades, estados e o país, quem tem mais votos ganha, ou seja, de certa forma o povo é quem governa.”

O rei sentiu um arrepio na coluna, ele estaria no poder se os cidadãos pudessem escolher? “Você vai fazer isso aqui?” Ele perguntou com medo.

“Não, não acho que essa seja a melhor solução e mesmo que fosse teria que ser feito em um processo lento e gradual, se amanhã o povo fosse livre para votar, todos os nobres continuariam no poder, afinal você nunca vota em qualquer pessoa, mas sim num pequeno número de candidatos escolhidos por certas organizações.”

“E como seria então?”

“Um modelo chamado de monarquia parlamentarista. De qualquer forma as pessoas só conhecem os seus governantes mais próximos que são os das suas cidades, e é deles que é fácil cobrar, mas quem pode cobrar de um governador?”

“O que é um governador?” Otaviano interrompeu perguntando.

“Quando várias cidades se juntam sobre um mesmo líder elas viram um estado, o governador é quem gerencia elas.” Tyler explicou.

“Entendo.” O rei falou, haviam muitos nobres que tinham outras cidades sobre suas jurisdições, esse conceito foi fácil de entender.

“Bem, como eu ia dizendo, quanto mais se sobe nas esferas de poder, menos o povo tem autonomia sobre seu voto, ele ainda é capaz de escolher, mas sempre são três ou quatro candidatos escolhidos por outros. No sistema que eu proporia haveria a figura de um rei soberano que teria como princípio fundamental o bem-estar do país e dos seus cidadãos, tudo o que ele quer é o progresso seguro. Sendo um exemplo de retidão, honestidade, poder e autoridade, ele manobra e equilibra os candidatos escolhidos, e se necessário ele tem poder de veto, assim certos grupos com ideias más nunca chegam ao poder.”

“Isso funciona?” Otaviano franziu o cenho.

“Sim, existem muitos bons exemplos disso no meu mundo, lá são centenas de países diferentes, contudo 8 dos 10 países com maior liberdade e mais desenvolvidos seguem esse estilo de governo.”

“Como você faria isso?” Ele quis saber.

“Como disse antes, teria que ser um processo lento e gradual, primeiro vamos seguir como estamos agora, meu primeiro alvo é cuidar das crianças do reino, vou dar-lhes ensino e capacidade de compreender o mundo ao seu redor, talvez não elas, mas seus filhos terão capacidade de escolher sabiamente.”

“E como vai impedir de outros aparecerem e objetivarem tomar seu trono.”

“O rei é o poder moderador, ele é quem evita que esses pensamentos surjam no meio do povo, se ele fizer certo não há problema.”

“Você diz isso como se todos fossem honestos e bondosos. Vou te avisar, não são.”

“Eu sei muito bem disso, porém deixe-me explicar de um jeito fácil, se um capitão é corrupto e faz coisas más, os soldados vão ser honestos e farão coisas boas?”

“É claro que não.” Ele respondeu.

“Mas se o capitão for honesto e reto, os seus soldados serão corruptos?” Tyler perguntou.

“Não…” O rei falou depois de finalmente entender.

“O exemplo vem de cima para baixo, quando o rei é correto ele evoca um sentimento de retidão até no mais simples soldado, não vou me iludir pensando que nunca haverão pessoas ruins que querem ganhar em cima dos outros, mas eles não serão maioria, eles serão párias mal vistos pela sociedade e quando descobertos não serão mais aceitos em seu meio.” Tyler explicou.

O rei ficou calado por um longo tempo apenas batendo os dedos no descanso da cadeira. “Você me deu muito o que pensar, devemos conversar mais sobre isso depois.”

“Estarei sempre a disposição, hoje eu ouvi falar de uma maré alta, é verdade?” Tyler mudou de assunto.

“Quem lhe disse isso?”

“Recentemente eu me tornei próximo de Rafir, filho do seu general Larir.”

“Bom homem, boa família, é bom que esteja próximo deles, eles serão de grande ajuda no futuro.” Otaviano aconselhou.

“Eu percebi.”

“Poucos anos depois que eu virei rei, veio essa onda de monstros subindo do mar, essas terras não tinham nenhum rei antes, eram só tribos que viviam aqui, eu as reuni e formei esse reino, sendo assim, eles não tinham ninguém que anotava os acontecimentos e se esqueceram que a cada 70 anos essas feras emergem do mar e devoram tudo o que veem pela frente. Eu fui avisado muito tarde e quase não tive tempo de montar uma defesa eficiente, agora que o tempo está se passando eu quero estar preparado.”

“É comum ter feras atacando em massa as cidades?” Tyler ficou curioso.

“Sim e não, embora elas aconteçam, elas vêm em espaços longos de tempo. O período mais próximo do qual tenho notícia é o ataque de vermes nos desertos do sul, eles são a cada 10 anos.”

Tyler já tinha lido sobre esses vermes nos livros de aventureiros, eles eram grandes vermes tão grossos quanto um boi, além de terem uma pele extremamente difícil de perfurar, eles ainda têm uma cabeça praticamente blindada, suas presas podem partir um homem como se fosse nada, eles fazem túneis nas rochas como se tivessem andando na areia solta, era comum pastores perderem seus rebanhos em uma única noite.

“E como sabe que a maré alta vai chegar?”

“Além do tempo estar chegando, as mesmas coisas de antes já estão acontecendo, os pescadores reclamam que os peixes estão diminuindo, algumas carapaças foram encontradas nas praias e uma espuma rosa sobe do fundo do mar.”

“Tem ideia de quanto tempo temos?” Tyler quis saber.

“Pelo tamanho das carapaças temos menos de um ano.”

“Posso ver uma dessas?”

“Não há nenhuma aqui, pedirei para que tragam.”

“Quero fazer um pedido.” Tyler falou.

“Quer a poção?” O rei perguntou.

“Hã? Não, não é isso, eu ainda tenho mais ou menos uns 4 meses antes do portal se fechar, depois eu vou fazer uma instituição como a casa dos sábios, mas ela será para todos, principalmente os jovens, queria que o rei começasse a separar jovens promissores para estudar lá.” Tyler falou, ele até já tinha se esquecido da poção, ele até poderia tomar agora, mas causaria muitos transtornos ele aparecer jovem do nada.

“Isso é fácil, onde você vai fazer essa escola?”

“Ainda não sei, meus planos não são só de parar por aqui, não descarto a opção de assimilar todos os reinos vizinhos e transformar em um só, e se esse for o caso, essa cidade continuar como capital pode não ser tão vantajoso.”

“Desistir dessa cidade como capital?” Otaviano tinha uma expressão estranha.

“Não seja tão bitolado, se quisermos assumir todos os reinos, aqui ficaria muito afastado e talvez seja melhor construir tudo do zero, não quero parecer arrogante, mas nada do que tem aqui presta para o novo mundo que vai vir, os soldados serão treinados por métodos diferentes, os agricultores, os ferreiros e até os funcionários públicos serão diferentes.”

“Vou pensar em um local melhor, pensando dessa forma é mais fácil gerenciar os outros reinos se estivermos mais perto deles.”

“Eu agradeço.”

“Soube do seu jantar, parece-me que foi um sucesso.”

“Soube é? Talvez eu deva fazer outro para comemorar.”

“Sim seria ótimo, aliás sobrou alguma coisa? Não pude ir, pois você ainda estava competindo e isso mostraria que eu era favorável a você, mas agora…”

“Sobrou um pouco sim, quer jantar hoje?” Tyler perguntou.

“Sim, ouvi dizer que você tem uma bebida doce e gelada que faz as pessoas arrotarem!”

Tyler riu, isso não deixava de ser verdade.

Naquela noite ele comeu algumas pizzas com o rei e eles trocaram várias experiências de

vida, como estavam a sós Tyler teve oportunidade de mostrar alguns vídeos sobre o mundo moderno. Alguns deles eram de guerra, outros mostravam ferrovias, autoestradas, portos, indústrias, aeroportos e coisas do tipo.

Aos poucos Otaviano entendeu parte dos planos de Tyler, e como seu povo poderia crescer se ele desse as ferramentas certas para ele se desenvolver.

Depois de uma noite inteira conversando, Tyler decidiu voltar, afinal quando ele voltasse Calie já teria passado mais de uma semana sozinha, esse período de luto era o mais difícil.


Autor: Lion | Editor: Bczeulli | QC: Delongas



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