VM – Capítulo 65 – Contatos antigos.



“Foi você?” Calie tinha chamado Tyler para os corredores do hospital, e agora estava lhe interrogando.

“Eu o quê?” Tyler fingiu.

“Por favor, não se faça de burro, porque você pode ser tudo, menos burro!” Calie falou à flor da pele.

Tyler não sabia o motivo, mas percebeu um nervosismo gigantesco vindo da moça. “Sim, fui eu.” Ele respondeu.

Por uns três ou quatro segundos Calie não esboçou nenhuma reação, mas depois as lágrimas começaram a rolar soltas. “Obrigada!” Ela abraçou Tyler sem reservas.

“Você está bem?” Tyler ficou confuso com a moça em seus braços.

“Você não tem noção de quantas noites eu passei em claro! Eu tinha pesquisado cada tratamento, cada valor e cada forma de pagar, eu não tinha mais nenhuma saída!” A moça chorou mais uma vez.

Nesse momento sua admiração por ela foi renovada, uma pessoa em situação extrema quase sempre requer a saídas extremas. Calie era uma mulher muito bonita e também trabalhava em uma empresa que lhe dava muitas “alternativas” diferentes, seja se relacionar com homens só por dinheiro ou traficar coisas ilícitas de um país para outro.

Não ceder a esse tipo de oportunidade, que certamente deve ter ocorrido, demonstra um nível de caráter muito alto! Isso com certeza era digno de nota.

“Calie, eu não tenho muito tempo sobrando por aqui, e também tenho dinheiro, você sabe, as vezes a vida dá oportunidades às pessoas boas.” Tyler respondeu, contudo nem mesmo ele sabia o real motivo de ter ajudado ela. Ele estava em um momento complicado, todo dinheiro era importante para ele e sem muitos motivos ele já gastou algumas centenas de milhares de dólares com uma mulher estranha.

“Nunca tive esse tipo de “sorte” na vida.” Ela respondeu.

“Devia estar acumulada.” Tyler brincou.

“Minha mãe… ela tem alguma chance?” Calie perguntou esperançosa.

Como médico, Tyler já tinha se encontrado nessa mesma situação mais de uma vez, embora nunca tenha clinicado ativamente, ele ainda sim tinha ajudado algumas pessoas em suas viagens. Sempre era uma experiência terrível. “Lamento, ela não tem muito tempo sobrando…”

Ao contrário do que ele esperava, ela não derramou mais nenhuma lágrima. “Dias?” Ela perguntou.

“Sim, não mais que uma semana…”

“Obrigada, você foi mais sincero que o resto dos médicos, me diga o que devo fazer?” Ela estava angustiada.

“Eu perdi meus pais de uma forma muito repentina, acho que eu só queria um tempo melhor para me despedir, se quer um conselho, aproveite cada segundo, fale tudo que tiver vontade, tire fotos e faça vídeos, tenha uma boa lembrança desses últimos momentos, principalmente para a pequena Mel.”

“Obrigada, eu vou fazer.” Ela assentiu.

Tyler voltou para o quarto com Calie, ela estava conversando baixinho com a mãe enquanto a pequena Mel estava comendo cereal na sala de estar. Não querendo interromper os assuntos particulares das duas mulheres, ele se distanciou e foi ficar com a criança.

“Olá.” Ele falou.

“Oi.” Ela respondeu tímida.

“Está gostoso?” Tyler perguntou.

Mel apenas balançou a cabeça afirmando.

“Vou comer um pouco também, se não se importa.”

Novamente ela apenas mexeu a cabeça.

“Aqui tem desenho? Eu queria ver um pouco.” Tyler suspirou.

“Não, tem uma TV, mas só fica desligada.” A menina lamentou.

“Oh, vamos ligar então.” Tyler fingiu estar animado, ele ligou a televisão e colocou em um canal infantil. “Eu gosto do Hora de aventura.” Tyler falou.

“Eu também.” Ela respondeu mais animada.

Os dois ficaram vendo desenhos juntos por mais uma meia hora, até Calie aparecer.

“Obrigada por tudo!”

“Não há de quê.”

“Vai ficar aqui por quanto tempo?” Calie quis saber, ela sabia que Tyler tinha muitas empresas e era muito ocupado.

“Posso ficar aqui por mais algumas horas, depois tenho que voltar para a empresa.” Ele respondeu.

“Minha mãe quer falar um pouco com você.” Calie disse.

“Certo, eu vou lá.” Tyler se levantou e foi até o leito. “Está sentindo-se bem, tem alguma dor?” Ele quis saber.

“Só tenho sono, sono e sede.” Ela respondeu.

“É o efeito do remédio, queria me dizer algo?” Ele perguntou.

“Você gosta da Calie?”

Tyler tinha que admitir, Clare era bem direta.

“Não.” Ele respondeu.

“E por que fez tudo isso por nós?” Clare quis saber.

“Não sei.” Tyler deu os ombros.

“Que tipo de resposta é essa?”

“Não sei, é não sei. Você me fez uma pergunta séria, e eu acho que devo responder da forma mais sincera que eu puder, eu conheci sua filha em uma viagem, paguei para ela passear enquanto estávamos lá pois também tinha meus motivos, mas depois que eu soube que você estava internada simplesmente agi da forma que achei correto.” Tyler deu de ombros.

“Não tem nenhuma segunda intenção?” Clare quis saber.

“Não.”

“Acho difícil de acreditar.” Ela falou.

“Ou vocês duas são muito desconfiadas, ou eu tenho cara de suspeito.” Tyler brincou franzindo o cenho.

“Acho que deve ser um pouco dos dois, senhor Newman minha família nunca foi das mais sortudas, eu fiquei viúva cedo e criei Calie sozinha, ela é tão bonita, mas parece que na vida dela essa beleza foi uma maldição, o senhor não deve saber, porém depois que Dylan o pai da Melanie abandonou as duas, Calie ficou com uma repulsa de todos os homens, mesmo ela parecendo ser cordial no trabalho e falando com todo mundo, ela nunca interagia com ninguém mais do que precisava, com você é diferente, eu a vi confortável, confortável como nunca tinha visto antes.”

“Lamento que tudo isso tenha acontecido com ambas, eu também me sinto estranhamente confortável perto dela, mas não tenho esse tipo de sentimentos.”

“Sabe o que eu amava no meu marido?” Clare perguntou para Tyler.

“Não.”

“O jeito que ele me olhava, era um olhar doce, eu não precisava perguntar se ele me amava, só em vê-lo já sabia a resposta.” Clare tinha um olhar tranquilo enquanto falava tais palavras, parecia que mesmo após tantos anos ela ainda amava o marido.

“Isso é lindo.”

“Eu vi esse olhar novamente Tyler.”

“É mesmo?” Tyler ficou curioso.

“Sim, você olha dessa forma para Calie.”

“Clare, eu não quero parecer rude, mas eu não amo sua filha. Posso não saber os motivos de ter ajudado vocês, mas sei do que não sinto. Não tenho sentimentos por ela.” Tyler falou da forma mais gentil que pôde.

“Escute quem é mais experiente.”

“Clare, eu sou mais velho que você!”

“Sim, mais velho, mas não mais experiente. Já se casou senhor Newman, tem filhos, amou de verdade?” Clare estava sendo incisiva.

“Não.” Ele disse sem forças.

“Então escute quem sabe mais, eu acreditei quando você falou que não tem esse tipo de sentimentos românticos por ela, contudo não pode negar que tem uma certa vontade de protegê-la e cuidá-la, esse é um bom começo. Eu vou morrer em breve senhor Newman, minha filha e neta são tudo para mim, é só com elas que eu me importo, mesmo se o senhor não quiser nada com ela, me prometa que vai cuidar dela.” Clare que há muito tempo tinha parado de chorar, voltou a derramar lágrimas.

“Está bem, vou fazer o meu melhor.” Tyler prometeu.

Os dois conversaram por mais alguns minutos e Tyler não pôde deixar de admirar novamente Clare, nesse momento ela nem mais ligava para si, toda a conversa e perguntas eram sobre sua filha e neta, ela queria de alguma forma que Tyler se comprometesse em cuidar da sua filha.

Se qualquer pessoa olhasse de fora veria que essa era uma conversa louca e sem sentido, afinal, eram dois completos estranhos com um pedindo para que o outro prometesse cuidar de sua filha, a qual também era uma estranha.

Contudo nem Tyler e nem Clare pensavam assim, ela já havia visto uma emoção diferente em Tyler quando ele olhava para sua filha e por incrível que pareça sua filha parecia gostar dele. Ela não estava apostando que eles virariam um casal e vivessem felizes para sempre, até porque Tyler não tinha muitos anos de sobra, mas ela sabia que ele podia garantir proteção e carinho para elas.

Vale também notar que Tyler não achou que essa conversa era errada, quando Clare pediu para que ele cuidasse da sua família, ele aceitou a missão sem questionar, na verdade ele já havia pensado em fazer isso, mesmo sem que ela pedisse.

Quando Tyler se levantou para ir embora a médica responsável entrou. Ela era uma ruiva alta perto dos 40. “Olá como tem passado?” Ela perguntou para Clare.

“Eu só tenho um pouco de sono e sede, mas não sinto mais dor.” Ela respondeu.

“É efeito do remédio.” A médica disse.

“Me desculpe, mas qual é o seu nome?” Tyler perguntou curioso, havia algo familiar nessa mulher.

“Sara, Dra Sara Johnson.” A mulher respondeu depois de perceber aquele senhor ao lado do leito.

“Há alguma chance de você ser parente de Lyana Parker?” Tyler perguntou.

A médica ficou sem ação, como esse senhor conhecia sua mãe, quase ninguém podia relacionar as duas agora, pois Sara era casada e havia mudado seu sobrenome. “Ela é minha mãe, o senhor a conhece?”

“Bem que eu reconheci, seu cabelo é um pouco mais escuro que o dela, mas os olhos são iguais! Eu fiz medicina com ela!” Tyler respondeu.

“Oh… que coincidência!”

“Sim, muita! Como ela está?”

“Está bem, agora ela não trabalha mais, e fica só mimando os netos.”

“Que bom, quando vê-la diga que Tyler Newman mandou lembranças.”

“Sim, eu direi.”

Pelo visto a sorte tinha sorrido para a família de Calie. Em todas as profissões existe uma regra não oficial, ela diz que se algum parente de um colega de trabalho estiver precisando de ajuda você tem a obrigação de dar preferência a eles.

Os policiais por exemplo, se verem o filho ou a esposa de um colega seu em apuros, vão imediatamente protegê-los, isso não é exclusividade de policiais, bombeiros ou médicos. Cada profissão tenta proteger os seus, quando a profissão tem um certo risco de morte esse acordo ganha novas proporções.

Quando um médico recebe o parente de um colega ele dá o seu melhor, pois quem sabe se no futuro, seus entes queridos também precisem de ajuda.

Tyler se despediu das mulheres e foi embora, afinal ele ainda tinha muito trabalho a fazer, contudo ele não saiu do hospital sem ter uma conversa com Sara.

Ele esperou no saguão por mais uns 10 minutos até que ela terminasse sua ronda.

“Dra Jonhson.” Tyler a chamou.

“Dr Newman.” Ela respondeu.

“Eu queria uma palavrinha rápida com a senhora, se não fosse incômodo, claro!”

“De forma alguma, vamos ao refeitório.”

Os dois se sentaram em uma mesa vazia. “Eu li os relatórios sobre o estado da senhora Evans, e sei o quanto é grave, ela não tem muito tempo sobrando e eu queria lhe pedir como colega de profissão que cuidasse bem dela, ela já está bem ciente do seu quadro e também está conformada, quero apenas que a senhora cuide para que ela tenha um fim digno e tranquilo. Eu a considero como se fosse da minha família.”

“Eu entendo, farei o meu melhor, mas não precisava se preocupar eu tenho o hábito de sempre dar o meu melhor em cada paciente!”

“Fico feliz em saber, sua mãe deve estar bastante orgulhosa em saber que a filha é uma profissional tão competente, se bem que era de se esperar dada a dedicação com que ela trabalhava.”

“Obrigada.”

“Desculpe por tomar seu tempo, mas sabe como é, quando se é alguém mais próximo ficamos mais preocupados que o normal.” Tyler falou.

“Sim, eu sei, não se preocupe.” Ela o tranquilizou.

“Qualquer coisa que precisar pode me ligar nesse número.” Tyler deu um cartão e saiu.

 

Pouco tempo depois de Tyler sair, Sara ligou para a mãe, ela ficou surpresa em saber que não só ela se lembrava desse senhor como também tinha muito boas recordações a seu respeito, e como se não bastasse, ela lhe deu um demorado sermão para que ela fizesse tudo ao seu alcance para cuidar bem da família dele.


Autor: Lion | Editor: Bczeulli | QC: Delongas



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