VM – Capítulo 62 – Gram



‘Tá certo que não era exatamente “o melhor”, mas não necessariamente é ruim.’ Tyler pensou quando viu a espada.

Mesmo à primeira vista qualquer um poderia notar que as espadas tinham sido feitas com muito empenho e dedicação.

“Será que a produtora vai gostar?” Denys perguntou.

“Que produtora?” Tyler não entendeu.

“A do programa de TV, não é para um programa de TV que eu estou fazendo essas coisas?” O rapaz perguntou confuso.

“Ah… sim, claro. Eu só me distrai por um instante, eles vão amar, me fale mais sobre essa espada.” Tyler suou frio, ele estava tão entretido com todas essas novidades e nem se tocou que devia sustentar uma mentira.

“Tio, eu coloquei muito esforço nessa espada, o nome dela é Gram!”

Quando ouviu o nome da espada Tyler pegou imediatamente a referência. Segundo a mitologia nórdica, Gram era uma espada feita pelo ferreiro Wayland, e o herói Siegfried matou um dragão com ela.

Essa espada era um fino trabalho de arte, ela era a perfeita junção de engenharia e tecnologia! Medindo 90 centímetros de comprimento, ela já poderia ser considerada uma Longsword(exceto as katanas).

Por classificação toda espada de dois gumes que tenha mais de 85 centímetros é uma Longsword, elas são assim pois necessariamente precisam de duas mãos para empunhá-las. Empunhar uma espada com as duas mão é algo que requer muita coragem, pois automaticamente o guerreiro terá que abrir mão de usar um escudo para se defender, espadas desse tipo só começaram a ser usadas a partir do século XIII quando os soldados usavam armaduras completas!

Antes disso as espadas tinham uma média de 40 até 70 centímetros, o gládio romano, por exemplo, tinha 60 centímetros. Essa também era a média das espadas do outro mundo, Tyler já havia notado essa similaridade, isso não queria dizer que havia uma ligação direta entre aquele povo e os romanos. Era apenas uma questão de necessidade, veja bem, em um caótico campo de batalha, não há grandes espaços para balançar a lâmina, muitas vezes os soldados lutam “ombro a ombro”.

Na maior parte dos casos as mortes não eram por cortes, mas sim por perfurações! Segurando um escudo na mão é mais razoável você desferir uma estocada do que atacar com um golpe cortante! Esse fato não queria dizer que os golpes cortantes não eram impossíveis ou nem existiam, mas eles não eram a principal finalidade dessas armas. Armas destinadas a cortar e separar tem uma geometria diferente!

As katanas são um exemplo clássico, o fio curvado é perfeito para isso! Toda lâmina com fio de corte curvo tem como objetivo cortar, separar e desmembrar. A egípcia khopesh, a nepalesa kukri, a árabe cimitarra e muitas outras tinham esse objetivo quando foram desenhadas.

As longswords eram diferentes pois faziam as duas coisas, perfuravam e estocavam. Elas só não tinham um desenho curvo pois com o seu tamanho grande o arco final da curva também seria grande e assim a espada perderia o equilíbrio!

Com as cores preto e dourado na lâmina, a Gram combinava perfeitamente com a Infinity. Tyler a pegou nas mãos e testou o seu balanço.

Vrrrr… Vrrrr… o ar envolta era cortado a cada golpe!

Embora Tyler não fosse um espadachim, ele já tinha usado espadas uma vez ou outra, as suas aulas de kendo lhe deram uma boa base, mesmo que o estilo de luta fosse diferente.

“O equilíbrio é perfeito!” Tyler elogiou.

“Na verdade é perfeito mesmo, veja!” Denys a pegou e pôs o dedo poucos centímetros depois da guarda. A espada ficou perfeitamente estável! “Eu usei um software de distribuição de massa, não há uma grama sequer fora do esquadro!”

“Meu jovem, eu realmente fiquei sem palavras!” Tyler elogiou com a maior sinceridade.

“Não é apenas o desenho dela, todos os materiais são de ponta! O corpo dela é de uma liga metálica nova, ela usa uma mistura de titânio, aço e irídio, da armadura, porém nas bordas eu usei uma liga diferente de titânio-tungstênio!”

‘Assombroso!’ Tyler pensou. Ele entendeu perfeitamente o uso de cada um desses materiais, embora ele não soubesse como aquele menino tinha feito tal liga, ele sabia muito bem com cada material agia. O titânio daria leveza e força, o aço daria flexibilidade e peso e o irídio daria resistência a corrosão, ácidos e coisas assim, na verdade esse era o principal uso do irídio, esse metal é o melhor quando se trata de resistência a corrosão, seja de qual tipo for!

A borda, onde o fio de corte fica tem que ser de um material muito mais duro, o tungstênio é perfeito para essa tarefa, é principalmente usado para fazer vidias na indústria metalúrgica. As vidias nada mais são do que os dentes de toda ferramenta de corte.

Um disco de corte por exemplo, tem pequenos dentes feitos de um material, diferente do usado no disco em si.

“Menino você é um gênio!” Tyler teve que elogiar novamente.

“Nem tanto…” Ele riu, mas, no fundo, gostou muito da aprovação de Tyler, afinal quem não gostaria de ser rotulado de gênio por um homem do calibre de Tyler? “Gostou do design?”

Tyler foi prestar atenção em cada um deles agora. Do punho até a guarda era o corpo de um dragão dourado escuro, ele era bem trabalhado e no fim de sua boca saía a lâmina, com a boca do dragão “mordendo” o metal ele ficava dividido em dois, isso dava um ar de poder e força, os olhos emitem um brilho realista e intimidador. “Esses olhos?” Tyler perguntou.

“É trítio, eu pensei nesse toque artístico só depois, não tem nenhum uso prático, é apenas estético mesmo.” Denys respondeu.

“Ficou bom.” Tyler falou enquanto olhava o resto.

Como o punho e a guarda eram dourado do preto, a lâmina seguia cores opostas, o corpo era de um preto fosco com linhas em estilo nórdico em dourado, havia até algumas runas.

“O flagelo dos dragões.” Tyler leu, ele naturalmente não sabia ler essa runas, contudo desde aquele episódio do pergaminho ele tinha virado fluente em qualquer idioma.

“Não sabia que o tio sabia ler essas runas, eu mesmo tive que pedir ajuda a alguns historiadores linguistas para poder escrever isso!” Dessa vez foi Denys quem se impressionou, só ele sabia o quão foi difícil conseguir alguém para escrever essas palavras corretamente, mas para sua surpresa Tyler pode ler em um simples olhar… ‘monstro!’ ele pensou.

“Eu li um ou dois livros sobre mitologia, acho que decorei esses símbolos!” Tyler disfarçou. “E essas outras?” Tyler apontou para uma estante.

“Elas são um hobby à parte, elas não são de titânio ou nada, são tipo só de aço damasco, mas um de ótima qualidade!”

Tyler não tinha nada contra o aço, na verdade um aço comum de hoje em dia é muito superior a qualquer trabalho de grandes ferreiros antigos, o aço damasco é um “plus” em qualquer espada.

O aço damasco, é uma técnica de forja muito avançada, nela o ferreiro pega dois ou mais diferentes tipos de aço e os une. Normalmente é usado um com baixo teor de carbono e um com alto teor de carbono, o de baixo teor de carbono é duro, resistente e inflexível, essas qualidades são boas até certo ponto, pois quando uma espada é dura demais ela pode quebrar com facilidade, e o aço com muito carbono é macio e entorta com facilidade.

O damasco é a união perfeita desses dois mundos, o metal não vira um aço de médio teor de carbono, o metal fica mesclado com os dois aços! Qualquer um pode ver os metais se entrelaçando e formando um lindo padrão, é quase como duas tintas se misturando em uma tigela.

A espada formada dessa técnica é forte, resistente e flexível! Ela pode se deformar no golpe, contudo volta ao formato depois, isso é importante pois dissipa parte da energia e impede que o usuário receba um coice quando a usa.

“Está com tempo livre para fazer mais dessas?” Tyler quis saber.

“Quantas?” ele perguntou.

“Sei lá, 2.000.” Tyler jogou um número ao acaso.

“Eu poderia fazer algumas e terceirizar o resto, por quê?”

“Marketing, acho que depois do programa esse tipo de coisa vai fazer sucesso.”

“Verdade, eu vou me empenhar, tenho vários conhecidos que topariam em fazer espadas”

“Desde que sejam de qualidade eu não me importo.”

“Tio Ty, eu queria sua opinião sobre o capacete.” Denys levou Tyler para outra sala.

Como a inspiração da espada e a da armadura tinham a ver com dragões, o capacete não poderia fugir do tema.

As linhas nórdicas eram muito mais abundantes nele, os dragões desenhados davam uma aparência feroz e intimidante, a face era sem expressão clara, havia olhos, nariz e boca, todavia não havia um rosto para fixar uma imagem clara.

Muitas forças policiais usavam máscaras deste tipo em missões, isso era importante pois mesmo que por poucos segundos o foco do adversário é desviado, e assim criando uma lacuna.

“Esse é o modelo básico, tem filtro de ar, lentes de policarbonato, rádio e lanternas LED incorporadas.” Denys explicou.

“Ficou muito bem-feita, gostei do design!”

“Olhe para os detalhes, a armadura tem um protetor de coluna bem reforçado e esse capacete se encaixa, protegendo o pescoço e a cabeça! Tomei um cuidado extra aqui, afinal os golpes na cabeça geralmente são muito fortes.”

“Tenho que falar, toda a armadura é perfeita nos mínimos detalhes!”

“Quero lhe mostrar uma última coisa, tio.” Denys falou com um tom de voz inseguro.

“Mais uma?”

“Não é nada pronto, eu só tenho um esboço.” O rapaz confessou.

“Não têm problemas eu adoraria ver.”

Denys caminhou até o computador e abriu um arquivo, era o desenho tridimensional de um capacete muito parecido com o atual equipado na armadura.

“Qual a diferença entre esse e o outro?” Tyler quis saber.

“Esse têm câmeras com visão noturna e térmica.”

“Quanto vai custar?” Tyler franziu o cenho.

“Cada câmera custa 5.000 dólares e para dar um ângulo de visão satisfatório precisamos de 4, eu também tenho que encomendar uma empresa para fazer um software capaz de reunir as quatro visões diferentes em uma só, depois tem a bateria e o design da estrutura. Enfim acho que 30.000 cada sem contar com o programa que deve ser uns 10.000.”

“Tem certeza de que vai funcionar?”

“Fora o software, não há nada de novo para se fazer, é só o preço alto que me assusta.”

“Faça 4 unidades, e fechamos nos 100.000, correto?”

“Sim, muito obrigado por acreditar nos meus projetos!” Denys estava grato do fundo do coração, Tyler não somente tinha tirado sua empresa da falência como também tinha lhe dado um novo rumo fazendo aquilo que ele mais gostava.

“De nada rapaz, continue me surpreendendo!”


Autor: Lion | Editor: Bczeulli | QC: Delongas


[1] Para quem não se lembra dos pergaminho ele aconteceu no capítulo 3.
[2] Quem não sabe o quê é aço damasco, olha aqui!





 


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