VM – Capítulo 44 – Lagarta de ferro.



Depois de despedir-se do rei, Tyler pensou em ir descansar e planejar bem os seus futuros passos, mas nem sempre as coisas saem como planejado. Parece que a notícia de sua chegada já havia percorrido toda a cidade.

Originalmente os sábios eram pessoas reclusas e orgulhosas, eles raramente conversavam com pessoas de fora do instituto. Entretanto agora na frente da casa de Tyler havia uma multidão, não eram duas ou três pessoas, mas sim mais de quarenta deles.

Pode-se dizer que não só os jovens estudantes estavam lá, como também os anciãos mais velhos. Era até certo arriscar que eles eram os mais entusiasmados.

“Há algo de errado na casa?” Tyler disse assim que saiu do carro.

Macal tomou a frente do grupo e falou. “Oh… mestre Tyler é bom ver que retornou em segurança. Desculpe-nos por estar tumultuando aqui em sua residência, nós só viemos ver se estava bem.”  

“Não se preocupem, eu estou bem, como pode ver retornei em segurança da missão.”

“Já cumpriu?” Macal falou atônito.

“Sim, e você estava certo, era um ogro que estava fazendo toda aquela bagunça por lá.”

Macal abriu um sorriso e disse. “Não sabe o quanto estou feliz em ter ajudado!”

“Eu também, suas outras suposições também estavam corretas, porém acho melhor falarmos sobre isso depois.”

De imediato as pupilas do homem se expandiram mostrando um misto de espanto e descrença, por muitos anos ele fez várias teorias sobre a existência das fadas. Ele logo entendeu que Tyler realmente as tinha visto. Ele queria expulsar toda essa gente agora mesmo, só para poder falar a sós com Tyler.

Tyler ia pedir para eles serem breves e tentar de alguma forma poder ficar sozinho com seus pensamentos, quando ele viu alguns mais jovens se comportarem de forma estranha. Eles se empurravam uns aos outros e discutiam baixinho.

“Querem, falar algo?” Tyler perguntou.

Finalmente uma moça foi empurrada para frente e decidiu falar. “Gra… Grande mestre Newman, nós gostamos muito de ver aquelas pinturas que se movem, será possível ver novamente?” Tão rubra quanto uma pessoa poderia ficar, ela ficou. Tyler estava decidido a ficar sozinho essa noite, mas ele não teve um coração forte para negar esse pedido.

“Todos querem ver novamente?” Tyler perguntou para a multidão.

Todos balançaram a cabeça assentindo.

“Está certo, venham comigo.”

Como já estava escurecendo Tyler decidiu fazer a exibição do lado de fora mesmo, animados com o filme, em menos de cinco minutos tudo já estava pronto, um grande lençol branco para a tela e as dezenas de cadeiras para a plateia.

Fazer essa exibição de cinema iria afastá-los dele nessa noite. Tyler estava se perguntando quais filmes poderia mostrar, contudo a barreira linguística era intransponível agora, sua escolha recaiu novamente ao cinema mudo dos anos 20, e claro o escolhido foi Chaplin.

Tyler achou que isso era até óbvio, Chaplin foi um dos maiores gênios de todo o mundo. Qualquer um dos seus filmes seria uma boa escolha, e como ele tinha certeza de que ninguém iria sair cedo dali ele também selecionou vários desenhos mudos muito antigos.

A história relata que quando o primeiro filme foi exibido em Paris, era um filme gravando uma locomotiva se mexendo. Assustados com o movimento do trem andando em sua direção a plateia entrou em pânico e fugiu da sala.  

Infelizmente ninguém correu quando Tyler mostrou o mesmo filme. As pessoas deste mundo sabem que a magia é real e esperar o inesperado está fixo em suas mentes, é claro que muitos poucos dali já viram algo mágico, entretanto todos já ouviram alguém relatar uma experiência que viveu, e esses contos passados de boca em boca amortizaram os impactos.

Tyler já tinha passado dois filmes de Chaplin e alguns outros vídeos, ele decidiu dar uma pausa para que todos fossem ao banheiro ou comerem.

“Grande mestre Newman, o que era aquela carruagem de ferro?” Um sábio perguntou.

“Qual, era uma que se parecia com a minha?”

“Não, ele era comprido como uma lagarta e saia uma fumaça branca de sua cabeça.”

“Hum??? Ahh!! Um trem.” Tyler demorou para entender que veículo era com aquela descrição. “Aquilo se chama trem, ele é uma carruagem gigante que pode levar centenas de pessoas e milhares de cargas de carruagens em uma única viagem.”

“O quê???” O sábio ficou assombrado. “Como é possível, como ela se move?”

“Ela basicamente está dividida em duas partes, a locomotiva e os vagões, as locomotivas são as carruagens que possuem força própria e puxam os vagões. Os vagões podem ser divididos em vários tipos de carga, passageiros, cozinha, combustível e etc.”

“E como ela se move?” O sábio curioso perguntou novamente.

“Eu ia chegar lá, ela se move com vapor de água.”

“Minha nossa!!!” O sábio ficou espantado com a notícia. “É água com o que mais?”

“Mais nada, só ela quente mesmo, o que  muda é a fonte de aquecimento, carvão ou lenha.”

“Mestre, eu sei que os rios têm força para mover rodas d’águas, contudo eu não consigo compreender como a água parada vai ter força para mover algo tão grande, e só de olhar seu corpo de ferro posso imaginar que seu peso deve ser gigantesco.”

“É verdade, só o peso do trem vazio deve pesar o mesmo que milhares de cavalos, para explicar como ela se move eu tenho que começar do zero com você.”

Tyler pegou uma garrafa de metal de acampar e fez um pequeno furo perto da boca no topo, depois colocou uma mangueira bem fina no furo, vedando-a com massa epóxi.

Ele colocou a garrafa no fogareiro de acampar e depois fez um pequeno cata-vento feito de garrafa pet.

“Como é seu nome mesmo?” Tyler perguntou.

“É Ezau, grande mestre.” O sábio falou.

“Bom, Ezau, para começar a matéria, ou seja, todas as coisas têm três estados físicos, sólido, líquido e gasoso.”

“…” Ezau claramente não estava entendendo.

“Eu vou simplificar, a água pode ser encontrada nesses três estados básicos na natureza, o gasoso é como as nuvens do céu, o líquido é como os rios, lagos e mares, já o sólido é como o gelo e a neve!”

“Entendo.”

“Tudo é feito de pequenos grãos, eles são chamados de átomos. Os átomos são muito menores que os grãos de areia. Quanto mais perto uns dos outros eles estão, mais dura a matéria vai ser e quanto mais longe eles estiverem uns dos outros mais macia ela será. O calor do fogo é que faz a água passar de gelo para nuvem.”

Como era difícil essa explicação e como Tyler não estava falando tudo corretamente, ele achou melhor mostrar algumas imagens básicas que ele tinha em seu computador.

“Entendeu agora?” Tyler perguntou depois de um bom tempo mostrando as figuras.

“Eu entendi, mas como isso vai mover algo?” Ezau estava confuso.

“Existe uma diferença de espaço que água líquida e o vapor ocupam, um copo de água líquida pode encher cem copos com vapor.”

Quando ele terminou de falar a garrafa começou a apitar.

“Traga isso para perto da mangueira!” Tyler disse apontando para o cata-vento.

Obedecendo ao pedido o sábio trouxe, um sorriso logo se espalhou pelo seu rosto quando o cata-vento começou a girar.

Tyler procurou uma pequena animação que recriavam os movimentos de pistão a vapor e mostrou ao velho.

“É assim que funciona, o princípio é o mesmo, apenas maior e mais preciso.”

“Is.. isso é simplesmente magnífico! É tão simples, mas ao mesmo tempo é fabuloso! Quais coisas podem ser movidas por essa força?”

“São tantas que eu não sei, mas pode ser moinhos, teares, brocas, forjas, martelos, serras e muito mais.”

“É realmente fantástico, o mestre planeja fazer algum desses?”

“Sim, acho que seria muito bom um trem.”

“Seria maravilhoso, o que é necessário para construir?”

“Primeiro as minas de ferro teriam que aumentar dezenas de vezes suas produções, e o ferro teria que ser purificado até se tornar muito mais forte do que qualquer outro que vocês conheçam, depois os próprios ferreiros tem que aprender técnicas muito mais superiores às usadas agora.”

“Eu irei aguardar ansiosamente para ver essa máquina funcionando!”

Quando Tyler se deu conta todos já haviam voltado e estavam escutando atentamente a conversa.

Ele lamentou-se por ter a língua grande, pois depois de explicar tudo aquilo, não houve uma só pessoa que não tivesse alguma questão para discutir com ele. Assim seus planos de sossego foram arruinados.

Durante a noite Tyler soltou diversas indiretas de que estava cansado, como bocejar ou se espreguiçar, porém nada adiantou. Quando foi quatro horas da madrugada Tyler já não tinha mais nenhuma delicadeza e expulsou a todos.

Agora ele estava realmente exausto, tinha dado atenção a tantas pessoas que ele nem lembrava mais quantas eram, ele tinha certeza de que o número de pessoa aumentou durante a noite.

Com apenas mais três horas de sono ele saiu da capital antes que outra multidão se formasse.

Mantendo uma boa velocidade ele ainda demorou outros três dias para voltar, em seu tempo dirigindo conseguiu finalmente pensar em tudo o que precisava.

Ele teria que fazer uma viagem novamente, e não uma que cruzasse o país como tinha feito a poucas semanas. Ele teria que cruzar todo o globo! E várias vezes!

China, Japão, Coréia do Sul, França, Inglaterra, Brasil, Rússia, Suécia e Suíça. Esses eram os alvos de Tyler de imediato, ele tinha que comprar muitas coisas nesses locais.

A preocupação dele não era em só comprar equipamentos, mas comprar peças de reposição e equipamentos que pudessem fazer outros equipamentos.

Tornos mecânicos estavam no topo da sua lista, Tyler tinha que fazer e muito bem feito, um embrião tecnológico de tudo. Não adiantava levar um carro, ele tinha que levar pneus, óleos lubrificantes, combustível e peças sobressalentes. Ou então arrumar um jeito de fazer essas coisas lá!

Muitas máquinas são movidas a combustível, Tyler podia amenizar a dependência da gasolina com gás natural e etanol, esses dois podem ser feitos basicamente em qualquer local.

Sua aposta inicial era o gás natural, seria muito mais fácil de se produzir no primeiro momento. Isso pode até parecer incoerente, mas é totalmente verdade! Tyler queria extrair o gás através de biodigestão!  

A biodigestão é quando a matéria orgânica apodrece e libera gases, normalmente butano e propano. Pode ser obtido de comidas podres ou fezes. O caminho mais fácil eram as fezes, e fezes humanas!

Tyler iria unir o útil ao agradável, ele lembrou-se do fedor que sentiu a primeira vez que entrou na capital, a cidade fedia por dois motivos, primeiro ela não ficava a margem de nenhum rio, ou seja, não existe água em abundância lá, os banhos devem ser regrados e toda água economizada, o segundo motivo é que não tem saneamento básico, então todo o excremento é feito em baldes e jogados onde convém.

Tyler levou seus pensamentos até a Roma antiga e matou dois coelhos com a mesma cajadada. Era costume romano ter grandes banheiros públicos onde toda a população ia fazer suas necessidades e se refrescar com uma água limpa.

Ele ia fazer o mesmo, furando poços artesianos e depois grandes banhos públicos, toda a “matéria orgânica” seria coletada e armazenada em grandes tanques infláveis próprios para isso. Com essa ideia ele ia ter mais gás do que precisava.

Quando chegou nas proximidades de Nil, ele não acreditou no que viu!


Autor: Lion | Editor: Bczeulli



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