VM – Capítulo 167 – Clareira celeste, a morada da deusa.


— Estamos perto? — Nº1 perguntou para Heron enquanto lhe dava água, essa cena tinha se repetido muitas vezes nos últimos dois dias. A força do elfo se esvaía cada vez mais, antes ele conseguia andar, mas agora precisava ser carregado, mesmo assim a cada poucos minutos uma parada para descanso deveria ser feita.

— Não. — O elfo tomou um pequeno gole de água e disse. — Daqui a pouco chegaremos.

Assim como o velho disse, não demorou nem meia hora até que eles alcançassem a Clareira celeste. Foi muito simples descobrir o significado do nome, a floresta toda tinha o nome por causa das nuvens que cobriam toda a sua extensão, mas essa clareira era chamada assim por causa do efeito contrário. 

Havia um halo perfeito nas nuvens, depois de muitos dias sem ver de forma alguma o céu, ver aquele esplendor azul era uma coisa linda. 

O frescor do vento e o calor do sol era algo maravilhoso de sentir depois de tanto tempo, pena que Tyler não teve tempo de aproveitar. — Mas que diabos é isso? — Tyler cuspiu descaradamente.

— O templo da sua deusa. — O elfo falou.

— Tá, tá, tá… — Tyler balançou as mãos e começou a esfregar as têmporas, ele não estava preocupado se esse era ou não o templo da deusa, ele ficou sem palavras com o seu formato.

Ele era estupidamente parecido com Stonehenge! Claro que haviam pequenas mudanças aqui e ali, mas não havia como negar. Esse monumento de pedras era mais conservado, no centro do seu círculo mais interno existia um pequeno templo de pedras, ele parecia muito com o panteão grego, só que de tamanho bem menor.

“Seria o Stonehenge britânico o local onde a deusa tinha sido adorada muitos anos atrás?” Esse pensamento corria na cabeça de Tyler.

— Criança, vá em frente. — O elfo falou com dificuldade. — Apenas você pode entrar, nós vamos esperar aqui.

— Ela pode me levar de volta? — Tyler perguntou, agora que ele poderia ter sua amada, ele temeu secretamente.

— Não sei, tudo que sei é que ela pode te dar as respostas. — O elfo respondeu.

Tyler retirou todos os seus equipamentos, exceto suas pistolas e chamou Nº1. — Garota, venha aqui. 

Narja obedeceu com os olhos marejados. — Mestre…

Tyler puxou do bolso um pen-drive e disse. — Se eu não voltar, eu quero que entregue isso para o Rei, mostre para ele como se usa e depois espere. Independente do que aconteça ele vai cuidar de você.

Narja não respondeu com palavras, ela apenas abraçou Tyler tão firme quanto podia. Com o rosto enterrado no peito dele, ninguém podia ver as inúmeras lágrimas que saíam.

Depois de alguns minutos ela relutantemente se afastou, contudo foi impossível esconder seu olhos vermelhos. Ela não disse uma palavra, os únicos sons que saíam dela eram fungadas ocasionais.

— Obrigado. — Tyler virou para os dois rapazes que o acompanhava e os saudou com uma continência.

— Foi um prazer. — Ambos retornaram a saudação, mas não proferiram mais nada. Talvez fosse uma espécie de orgulho masculino que evitava uma maior comoção por parte deles, porém seus olhos os traíam.

Por fim, Tyler apenas acenou para o velho elfo e caminhou em direção a formação de pedras, ele sentiu uma sensação estranha no peito, depois de um ano e dois meses depois de atravessar o portal pela última vez, agora finalmente ele poderia voltar para casa.

O mini panteão estava erguido imponente no centro, ele não sentiu nada especial ao caminhar. Nem mesmo aquela aura esquisita que sentiu quando entrou pela primeira vez no território das fadas, a sensação era quase como a de estar em casa…

A entrada era muito bonita, por assim dizer, não haviam tantos adornos quanto ele imaginara, na verdade o que mais lhe chamava a atenção eram as grandes portas duplas feitas de bronze. Não havia nenhuma maçaneta ou fechaduras, no entanto duas grandes aldravas feitas de ouro estavam no meio de cada porta.

Tyler parou na frente da porta, pelo seu tamanho ela parecia ter sido feita para um gigante. Ele esticou a mão para a aldrava dourada que tinha o formato da cabeça de um leão e bateu.

Phaa!!! Phaa!!! Phaa!!!

O som do metal contra metal reverberou seco no ambiente e ecoou no interior do templo. Tyler não sabia o que esperar e quando se preparava para bater novamente ela abriu-se, sem rangido ou barulho, apenas uma corrente fria de ar vinda do interior o envolveu. 

O chão estava coberto por uma espessa camada de névoa, Tyler poderia dizer que a atmosfera era bem sinistra e assustadora, porém ele nem percebeu. Nesse momento, seus olhos estavam vidrados nas gravuras das paredes.

Era uma espécie de síntese de toda a história humana, nas paredes que se erguiam por quase 10 metros, milhares de cenas retratavam a vida dos homens. Algumas delas mostravam coisas corriqueiras do dia a dia como pessoas cultivando ou construindo cidades, já outras mostravam coisas inéditas para ele.

Eram exércitos gigantes que se estendiam até onde a vista alcançava, três raças diferentes de homens, elfos e anões estavam lado a lado lutando contra uma horda de monstros. Trolls, ogros, goblins, feras monstruosas e outros seres que ele nem conhecia.

Apenas o painel dessa batalha tinha mais de 10 metros de largura por 2 de altura, a batalha final era um homem contra um dragão, a luta era feroz e titânica. Tyler não sabia se o painel retratava com fidelidade ou se exagerava os feitos do homem, mas se fosse real, o homem com certeza tinha poderes mágicos! Ele partia a chama do dragão ao meio e lutava com força quase igual, a luta entre os dois foi grande e tomou quase a metade de toda a gravura, no final o homem venceu e ergueu-se sobre uma pilha de cadáveres, como um ato final ele reivindicava uma coroa que ficava na cabeça do dragão.

Após esse feito uma luz brilhava sobre ele, no quadro final apenas mostrava ele sentado em um trono com inúmeros seres de diferentes raças ajoelhadas sob seus pés.

Depois que essa cena aconteceu, os murais começavam a se tornar mais “comuns” mostrando vários estágios diferentes da história da humanidade: Grécia antiga, Império romano, expansões marítimas, cruzadas, guerras napoleônicas, I guerra mundial, II guerra mundial, guerra fria, ida do homem à lua, Vietnã, guerra do golfo, 11 de setembro, invasão do Iraque…

Tudo seguia uma linha cronológica, muitas delas mostravam pontos específicos da história humana que definitivamente foram decisivos para o mundo ser o que é hoje.

Tyler caminhou pelo corredor, sempre olhando para o mural. Quando o mural que ele julgava ser o da história da Terra acabou, outro recomeçou. 

O começo onde um mundo repleto de seres e raças diferentes lutava era igual. Um homem triunfava sobre uma grande fera, dessa vez era um monstro gigante como um verme gigante, mas onde deveria ser a cabeça era a metade superior de uma mulher. O guerreiro humano vencia tal monstro e arrancava a coroa que ela usava e colocava sobre si, depois de tudo isso houve outra cerimônia de coroação com representantes de várias raças se curvando e então o mural seguia o curso de evolução normal da raça humana.

Tyler não reconheceu nenhum marco histórico dessa vez, ele viu grandes similaridades com a Terra, porém ele podia dizer que não se tratava do mesmo planeta.

Balançando a cabeça ele quase não pôde acreditar no que via, eram dezenas, senão centenas de murais como esses. Havia pouca diferença entre eles, mas todos contavam a mesma história.

Atordoado com as implicações históricas de tudo isso, ele caminhou até o fim do corredor.

— O bom filho à casa torna… — Uma voz feminina soou em seus ouvidos, ela era quente, rouca e suave. Tyler instantaneamente sentiu seus pelos ficarem em pé. 


Autor: Lion | Editor: Bczeulli | QC: Delongas



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