VM – Capítulo 158.2 – O conto dos comuns. #1


Dreas ficou triste por não ter mais o que fazer, mas tudo mudou quando seu irmão Jintas chegou naquela tarde.

— Pirralho, eu arrumei um trabalho para você lá na madeireira!

Dreas sempre odiava quando seu irmão lhe chamava de pirralho, ele era apenas 3 anos mais velho, para que se gabar tanto? Normalmente ele reclamaria, contudo hoje ele estava contente demais para reclamar.

— Como, quando, o que eu tenho que fazer? — Ele perguntou excitado, ele tinha tentado trabalhar na madeireira, mas como não era forte, não conseguiu o emprego.

— Existe uma vaga lá, ela paga por produção ao invés de salário fixo. — O irmão explicou. — É por isso que ficou vaga.

— Sim, mas o que eu tenho que fazer? — Para Dreas, aquele emprego já era seu.

— Quando serramos fica muita serragem solta por lá, é uma montanha tão grande que fica atrapalhando nosso trabalho, nós juntamos tudo em um canto. Acho que você vai ter que dar um jeito nela.

— Eu só tenho que tocar fogo nela? — Na cabeça dele a serragem era algo inútil, podia até ser usada como cama de galinhas, contudo se fosse como seu irmão falou não existiam galinhas no reino suficientes para usar toda essa serragem.

— Fogo? — Jintas riu. — Se disser algo assim lá eles vão brigar com você. Eu também pensei que seria mais fácil apenas tocar fogo nelas, entretanto parece ser ordens vindas direto do príncipe que não toquem fogo em nada, mesmo as madeiras que sobram quando estamos serrando estão sendo guardadas.

— Entendo.

— De qualquer forma você não está fazendo nada e mesmo se não ganhar um salário todo, ainda será muito dinheiro.

Naquela noite, Dreas quase não pregou o olho de tanta expectativa.

***

A balsa partia pouco depois do amanhecer, Dreas apressou seus irmãos e subiu nela primeiro que todos.

Ele já tinha visto os barcos que Vossa Alteza trouxe, mas subir em cima de um era totalmente diferente. Quando ele chegou no porto algo lhe chamou atenção, era uma coisa no meio do rio, uma roda que girava na correnteza sem sair do lugar.

— O que é aquilo? — Dreas perguntou.

— O príncipe colocou ontem, ele chama de roda d’água, ela tira água do rio e coloca naquele tanque alto ali. — Semes falou e apontou.

Dreas viu um grande cilindro de pedra, não, não era pedra, era feito da mesma massa que tinha sido construído o porto, ela se erguia muito mais alto que qualquer árvore por perto.

— Como a água sobe lá em cima? — Ele perguntou confuso.

— Aquilo gira e a água sobe por tubos, depois que está cheia ela desce para pequenos tanques espalhados por aqui, basta você girar uma chave e tem água à vontade.

— Nossa! — Dreas estava cada vez mais impressionado. Após chegar, ele foi se apresentar para o capataz responsável pelas madeiras.

— Você é bem jovem, não é? — O capataz notou enquanto pegava as informações dele e anotava em um papel.

— Eu tenho 16 anos, mas trabalho desde cedo e sou muito responsável. Eu cuidava do rebanho da minha família.

— Sei, sei. — O capataz continuou anotando. — O trabalho não é pesado, mas tem que ser feito com muita responsabilidade, tome essas roupas e depois do café me siga que eu vou lhe ensinar.

Quando Dreas recebeu sua farda quase pulou de alegria, de alguma forma deram a ele uma que cabia perfeitamente nele, nem grande, nem justo. Ele era o filho mais novo então recebia as roupas usadas dos seus irmãos, sem contar que sempre eram maiores, pois tinha que ter espaço para ele crescer.

Depois de se vestir, saiu de perto dos outro e foi até um tanque de água para se ver. Nesse momento ele ficou muito orgulhoso de si, agora ele era um trabalhador, alguém que ganhava seu próprio dinheiro, um sentimento diferente brotou dentro dele depois que ele notou um pequeno símbolo azul no lado esquerdo do seu peito.

Ele sabia muito bem o que significava aquilo, era o novo brasão do reino. Dois dias antes, uma enorme bandeira foi hasteada, ela era azul e tinha essa mesma figura no centro, segundo seu pai o reino mudou de nome, não era mais Reino Leste, era Império de Atlantis.

Durante toda a sua vida isolada ele nunca teve amor por seu rei ou país, todavia, hoje, ao se ver naquela roupa, ele sentiu que era parte desse Império.

O café era um grande tigela de sopa com carne e batatas, Dreas nunca tinha visto tanta carne dentro de uma sopa antes. Após comer, o capataz o levou até uma pequena coberta longe das máquinas, esse era o lugar onde toda a serragem estava estocada, e como seu irmão havia lhe dito, era uma verdadeira montanha.

— Certo rapaz, eu quero que você preste muita atenção ao que eu vou lhe mostrar. — O capataz falou e Dreas redobrou sua atenção para não perder nenhum detalhe. — Está vendo esse tanque? — Ele apontou para um tanque seco do lado da pilha de serragem.

— Sim. — O jovem assentiu.

— Isso aqui libera a água para encher. — O homem abriu a torneira. — Pegue a pá e jogue a serragem dentro.

Dreas, sem demora, começou a jogar pás e mais pás dentro do tanque.

— Ótimo, agora com essa vasilha pegue essa serragem molhada e coloque nessa fôrma.

Os olhos de Dreas seguiram o homem pegar uma vasilha, enchendo daquela papa encharcada e colocar em uma grande fôrma de metal. A fôrma era estranha, cheia de furos e compartimentos.

— Isso é muito importante, isso foi dado e ensinado pelo príncipe em pessoa. — O capataz avisou novamente. — Uma vez que despeje todo esse caldo aqui e encher as fôrmas, tampe e puxe esta alavanca.

O Homem começou a apertar uma alavanca de ferro tão comprida quanto ele e espremeu a papa de madeira. Dreas viu a água sair dos furos até que não restasse mais quase nada. — Depois que a água para de sair você gira essa trava e empurra essa outra alavanca.

Quando o homem terminou de falar, muitos bloquinhos foram expulsos de forma delicada das fôrmas. Dreas contou e tinham exatamente 20 deles.

— Aqui, pegue. — Ele entregou um.

Ainda estava um pouco molhado, mas estava firme ao toque. — O que é isso? — Ele perguntou perdido, não se parecia com nada que ele já tivesse visto antes, o bloquinho tinha o mesmo formato dos favos das abelhas, só que havia um furo no meio.

— Segundo sua majestade isso se chama briquete, isso depois de seco queima melhor que a lenha e é mais fácil de armazenar. Seu trabalho será fazer esses briquetes e deixá-los naquelas estantes para secar no sol.

— É só isso? — Dreas ficou confuso, um serviço tão fácil assim não tinha como dar errado.

— Só, a cada 100 desses você receberá 2 moedas de bronze.

O coração dele afundou. “Tão pouco?” quantos desses ele tinha que fazer para ganhar igual aos seus irmãos?

— Não fique triste. — O homem notou o semblante do jovem. — É um trabalho no qual sua majestade tem uma atenção especial, ele mesmo fez os cálculos e disse que se uma pessoa trabalhar firme pode até ganhar mais que um trabalhador comum.

— Mesmo? — Dreas renovou seu ânimo.

— Sim, agora dê o seu melhor. No final do dia vou contar quantos você fez e te pagar.

Quando Dreas ficou sozinho, ele encheu o tanque com serragem até transbordar e ligou a água. No primeiro dia ele conseguiu 1 moeda de prata, no segundo dia foi 1 prata e 70 bronzes até que no final da semana ele conseguia mais de 2 pratas por dia.

Hehehehe!!! — Dreas era só sorrisos, depois que ele pegou o ritmo da coisa, ele era uma máquina. Os pátios ao redor estavam lotados por seus bloquinhos, depois de secos ele os empilhava em grandes montes bem organizados. — Quem está rindo agora? — Seus irmãos acharam estranho o tanto que o menino ganhava todos os dias e depois de alguns cálculos eles perceberam que dentre eles, ele era o que mais ganhava.


Autor: Lion | Editor: Bczeulli | QC: Delongas



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