VM – Capítulo 123 – Lei de Murphy. Parte 4.



“Fogo!” Tyler gritou.

Apesar do som alto tocando, os soldados ainda puderam ouvir o brado de seu imperador os chamando para a guerra.

Primeiro um único e solitário caranguejo, depois dois, cinco, doze, até que não se podia mais contar quantos eram, movendo-se como uma multidão, as feras avançavam para fora das águas.

Organizados aos pares, os homens trabalhavam com calma, eles centram seus disparos no meio do corpo do bicho, exatamente onde Tyler tinha lhes dito que seria o coração.

Aos poucos os disparos combinados deram lugar a uma cacofonia inconfundível de guerra. A tão conhecida ópera do diabo.

Quando o caos tomou conta, Tyler estava imerso na batalha. Muitas feras caíam abatidas depois de andar poucos metros na areia, mas incontáveis outras simplesmente passavam por cima dos seus corpos e avançavam quase que imparáveis.

“Metralhadoras!” Tyler ordenou.

Logo depois da sua ordem, o estalado ininterrupto das metralhadoras começou. No primeiro momento foi um massacre unilateral, até que poderosos jatos de água vieram em resposta.

Tyler ficou surpreso com isso, felizmente a cada metro a mais que o jato de água precisava para viajar, ele perdia seu poder. As feras não tinham precisão com as centenas de metros que os separava. Tyler sabia que manter a distância era uma das chaves para vencer.

As metralhadoras serviram muito bem como supressão, mas não adiantou por muito tempo. Meia hora depois uma coluna gigantesca de feras avançou novamente.

“Morteiros!”

Ouvindo as ordens o bombardeio começou.

* Explosão * Explosão *

Grandes clarões de fogo brilhavam fortemente. A terra inteira tremia, cada impacto reverberava no peito de cada um, mesmo com centenas de metros separando ambos os exércitos, estilhaços de queratina choviam.

Tirando os homens que treinaram com Tyler e se formaram no curso de COMANDOS, ninguém ali tinha experiência com essas explosões. Sem contar o fato de que poucos estavam vendo como aquilo acontecia, para a maioria ali, os monstros estavam sendo mortos por um passe de mágica.

Até mesmo as feras entraram em pânico por alguns minutos. Centenas deles morreram e com o pouco entendimento deles, não descobriram a causa disso.

Sob o fogo concentrado de fuzis, metralhadoras e morteiros os homens aguentaram bravamente por quase duas horas.

A música já havia acabado há muito tempo, as armas estavam quentes e os soldados pareciam cansados. Ninguém sabia ao certo quanto cada um tinha matado, todos perderam as contas.

Porém outra onda infindável tomava o lugar dos mortos e avançava em direção aos soldados.

“Retirada!” Tyler gritou. “Metralhadoras e morteiros supressão!” Ele ordenou.

Cada um seguiu o seu papel e mesmo sendo noite os homens seguiram fielmente as ordens.

“Perdemos?” Nº1 perguntou com lágrimas nos olhos.

Ela não conseguia entender, ela estava ciente de que havia uma multidão de feras querendo destruí-los, mas do seu lado ninguém tinha morrido, nem sequer ferido! Então qual era o motivo de partir?

“Não, isso é uma retirada estratégica! Vamos ficar recuando e se reposicionado aos poucos.” Tyler respondeu.

“Retirada estratégica?” Narja franziu o cenho. “Isso existe?”

“Existe e estamos fazendo.” Ele respondeu.

Os homens com os fuzis foram os primeiros a recuar, as poucas centenas deles foram muito fáceis de se transportar na carroceria do caminhão e nos cavalos.

“Vamos agora?” Ela quis saber.

“Não, vamos sair junto com os morteiros.”

Depois de todos os soldados a pé saírem, foi a vez dos homens nas metralhadoras, eles embarcaram nas camionetes e também se foram.

“Agora é a vez de vocês!” Tyler gritou para os últimos homens que operavam os morteiros.

Agora apenas ele e seus poucos loucos o acompanhavam. “Granada!” Tyler chamou Narja.

“Aqui.” Ela ofereceu.

Tyler pegou uma, retirou o pino e lançou.

Bom!

Fogo e estilhaços voaram para todos os lados.

Tyler riu por um instante, se ele tivesse ferramentas à sua disposição, tudo seria muito mais simples. Uma granada dessas tinha custado apenas 4 dólares, um projétil de morteiro 15 dólares. Ele tinha comprado milhares de cada um deles, mas o maior problema é que não havia mais volta, tudo o que ele tinha trazido eventualmente acabaria.

Ainda demoraria vários anos para que ele pudesse produzir essas coisas aqui, então cada batalha tinha que ser pensada individualmente para não haver gastos desnecessários.

“Mais!” Ele apenas esticou a mão.

Em segundos Tyler virou um artilheiro, ele tinha mais força que qualquer outro homem, suas granadas iam até o centro daquela massa.

“Outra.” Ele pediu depois de ter jogado várias.

“Acabou.” Nº1 disse.

“Vamos embora então!” Tyler gritou.

Ele e seus escudeiros foram até o carro e retrocederam até a nova linha de frente.

***

“Vamos retroceder mais uma vez?” Nº1 perguntou.

Já era o terceiro dia de combate e eles estavam na décima linha de fortificações. O embate como um todo tinha diminuído muito a sua intensidade.

“Não, é hora de avançar!” Ele respondeu.

“Como?” Ela quis saber.

“Primeiro temos que ver como estão as coisas lá na praia, e depois vamos bolar um plano.”

“Aquele drone vai até lá?” Narja ficou confusa, eles estavam a quase 10 quilômetros do mar.

“Aquele pequeno não, mas o outro vai!”

Tyler foi até o caminhão e pegou duas enormes caixas protegidas. Ele usaria um drone de vigilância militar agora.

Esse tinha o formato de um pequeno avião e funcionava com um pequeno motor à gasolina, podendo funcionar por até 4 horas seguidas.

“Petrus.” Tyler chamou.

“Senhor.” O homem prestou continência.

“Deixe o mínimo de homens em vigília, comam e descansem. Amanhã as caveiras irão sorrir!”

“Entendido!”

Depois de montar o aparelho ele foi até a maleta de comando, era uma maleta plástica comum com um joystick e uma tela.

Como todo avião, Tyler fez a checagem pré-voo e então decolou.

Em poucos minutos ele tomou ciência de todo o campo de batalha, além de fotografar inúmeras vezes.

Ironicamente, essa era uma guerra muito bem documentada. Tyler e os demais tenentes dos COMANDOS tinham câmeras em seus capacetes, além das várias que ele deixou escondidas em pontos fixos da praia.

“Você deveria ir dormir.” Tyler falou para Nº1.

“Não, meu dever é ficar com o mestre.” Narja rejeitou, mas seus olhos ‘pescando’ a traíram.

“Achei que seu dever fosse me obedecer?”

“Eu posso aguentar mestre.” Ela rejeitou novamente.

“Ok, então sente-se nessa cadeira e me espere.”

Enquanto ele estava concentrado na tela e começou a escutar um sussurro perto dele.

“Esse não sou eu, esse não sou eu. Eu não sou o filho de um senador!” Tyler franziu o cenho e procurou ver de onde estava vindo a voz.

Narja tinha dormido debruçada sobre a mesa.

“Será que eu traumatizei a criança?” Tyler ficou com medo.

Quando ele parou para pensar que tinha levado uma menina de 14 anos para um campo de batalha, ele sentiu a coluna gelar.

Ele até teria divagado mais seus pensamentos se não fosse o que viu na tela.

Na praia onde eles tiveram o primeiro embate, uma gigantesca massa viva girava em torno de um ser monumental.

Os outros caranguejos estavam rodando em volta de outro caranguejo, mas esse era gigante. Devia ter uns 8 metros de altura.

Ele era largo e feroz, tinha uma coloração vermelha viva que se espalhava por todo o seu ser. “Petrus!” Tyler chamou.

Poucos segundos depois o rapaz chegou. “Senhor.” Ele se apresentou.

“Olhe aqui.” Ele virou a tela.

O semblante do tenente caiu. “Isso aconteceu da última vez?” Ele quis saber.

“Quem sabe?” Tyler deu de ombros. “Da última vez tudo o que o exército pôde fazer foi correr e esperar a poeira abaixar.”

“E o que vamos fazer?”

“O que as caveiras fazem?”

“Elas riem da morte.” Petrus afirmou. “O mestre tem um plano?”

“Pelo que eu vi, as feras estão muito espaçadas depois da praia. Podemos entrar rápido com carros até a beira d’água, não tenho certeza, mas acho que esse gigante tem algum controle sobre os outros.”

“Entramos rápido, atiramos e saímos?”

“Sim, entramos, matamos o grandão e saímos.” Tyler assentiu.

“Quais armas vamos usar?”

“Duas camionetes com lança granada, oito com metralhadoras. O caminhão segue atrás com a infantaria, eu e outros 5 vamos de motocicleta.”

“Vai usar a lança-granadas agora?”

Tyler tinha muitos lança-granadas, porém não os usou até agora pois não compensava. Ele tinha uma potência menor que uma granada de mão e não era tão eficiente contra feras tão blindadas quanto essas. “Precisamos abrir um caminho até o monstro bem rápido, também quero usar C-4.”

“Entendo, acho que pode dar certo. E para matar o gigante?”

“RPG.” Tyler riu enquanto pensava no dia seguinte.


Autor: Lion | Editor: Bczeulli | QC: Delongas



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