VM – Capítulo 122 – Lei de Murphy. Parte 3.



 

“É só jogar aqui?” Nº1 perguntou enquanto segurava a lenha.

“Sim.” Tyler respondeu.

Tyler também jogou os últimos pedaços de lenha ao redor da carcaça morta do caranguejo e depois ateou fogo. Como não havia um espeto grande o suficiente ou uma grelha, a opção mais viável era tocar fogo em tudo.

As chamas alaranjadas da lenha logo se espalharam e transformaram aquela fera marinha em um espectro de fogo.

“Como o mestre vai saber se ficou pronto?” Nº1 estava curiosa.

“Não sei.” Tyler deu de ombros. “Normalmente é quando a casca cheira a queimado que o interior está bom.”

“Sério?” Narja não acreditou muito.

“Bom, pelo menos é assim que é com outros animais com carapaças.”

Quando um odor de queimado tomou conta do ambiente Tyler pegou novamente o anzol e fisgou o bicho puxando-o das brasas incandescentes.

Antes o animal tinha uma bela tonalidade branca e amarela, mas agora ele estava todo negro e chamuscado, obviamente a resistente casca não suportou bem o calor das chamas.

“Marreta!” Tyler gritou para o soldado mais próximo.

Sem demora alguém da multidão faminta que o cercava ofereceu uma grande marreta.

Tyler a elevou bem acima da cabeça e golpeou com força!

Crack!

A antes forte concha protetora rachou completamente, linhas como teias de aranha se alastraram por todo o corpo.

“A pata é minha, vocês podem comer o resto.” Tyler gritou novamente, ele não teve pena de ficar com um pedaço tão grande, afinal ele tinha matado essa fera sozinho e também tinha comprado várias ovelhas e bois para alimentar o restante do exército.

Ele nunca achou que apenas um caranguejo desses podia alimentar toda essa gente. Assim como ele, muitos queriam comer esse bicho apenas por curiosidade.

“Eu gostei, e você?” Tyler perguntou a menina enquanto colocava sal e pimenta em um grande pedaço de carne branca.

“É muito macia!” Narja exclamou. Ela tinha a boca e as mãos cheias de gordura.

“Também achei.”

“Podemos dar de comida para cidades inteiras depois que a guerra terminar.”

“Bem, eu não acho que vamos ter tempo para isso, eles vão apodrecer muito antes que as pessoas cheguem aqui.”

“Eu não tinha pensado nisso…” Nº1 ficou triste.

“Não fique assim, daqui a pouco as coisas vão mudar. As pessoas não vão ficar com fome toda hora.”

***

Banhados pela luz branca da lua, centenas de homens acampavam na praia, e os poucos guardas do turno olhavam apreensivos para o mar, e sentados bem distantes estavam um jovem de aparência heroica e uma bela adolescente.

“Mestre eu também quero lutar!” Narja parecia resoluta, ela percebeu que mesmo depois desse grande banquete, muitas pessoas ainda estavam temerosas.

“É, como?” Tyler riu, ele ainda não teve tempo de ensinar ela a atirar, mas aqui estava ela pedindo para ir à batalha.

“De qualquer forma que eu puder.” Ela respondeu. “Me ensine a atirar.”

“Não é algo que você pode aprender em um único dia, eu trouxe você aqui para que experimentasse como se comanda os homens. Ter um aliado despreparado lutando, pode ser mais perigoso do que um inimigo.”

“Eu quero acompanhar o senhor, mestre, por favor não me rejeite!” Narja estava visivelmente emocionada.

“Olhe.” Tyler suspirou. “Acho que você pode ser minha escudeira.” Ele respondeu depois de pensar um pouco.

“E o que isso faz?” Ela perguntou animada.

“De um modo simples, você carrega minhas armas.” Ele esclareceu.

“Eu vou fazer!” Nº1 apertou o punho com força.

Para ser sincero Tyler tinha mais 3 homens que fariam o mesmo serviço que ela, além de mais dois tenentes que estariam armados juntos com ele, formando um pequeno time.

“Certo, então vamos terminar de carregar esses magazines.” Tyler disse levantando uma grande caixa com centenas de munições.

“Vamos.”

Click após click ambos passaram a noite inteira colocando os projéteis nos carregadores. Tyler pensou que a tarefa monótona faria com que a menina desistisse logo.

Porém, mesmo depois dele ver os dedos dela ficarem vermelhos de tanto pressionar as munições, ela ainda sim não desistiu. Ele tinha que elogiar a persistência dela, desde o dia em que ela veio ficar ao seu lado, ela nunca reclamou.

“Cansada?” Ele sondou.

“Não.” Ela negou.

“Deixe-me ver suas mãos.” Ele pediu.

“Não é preciso.” Nº1 balançou a cabeça.

“Me dê suas mãos!” Tyler foi firme.

Mesmo a contragosto a menina obedeceu.

“Me desculpe.” Tyler suspirou ao ver uma pequena bolha no delicado polegar dela.

“Eu posso continuar.” Nº1 pensava que Tyler iria culpá-la por ter esse calo.

“Já fizemos muito por hoje, vamos dormir. Amanhã será um dia muito puxado, não sabemos quando poderemos descansar de novo.”

“Eu entendo.” Narja acenou concordando.

“Eu vou me retirar um pouco, qualquer coisa me chamem.” Tyler avisou para um vigia próximo.

“Sim majestade.” O guarda respondeu.

***

“Ainda dói?” Tyler perguntou, ele tinha passado uma pomada e colocado um pequeno curativo no dedo da menina.

“Não, já estou bem melhor.” Nº1 respondeu. “Eu posso perguntar uma coisa?” A menina quis saber.

Já está perguntando.” Ele brincou. “Vamos lá, pergunte de uma vez.”

O mestre tem confiança em vencer contra essas feras?” Narja estava preocupada, ela tinha visto Tyler derrotar aquele monstro com relativa facilidade, contudo ela também tinha estado ao seu lado quando ele viu o tamanho total da invasão. Era uma multidão muito maior do que ela podia contar, ela não conseguia deixar suas preocupações.

Não se preocupe, vamos vencer a guerra mesmo perdendo todas as batalhas.”

???” Narja não falou nada, mas tinha uma expressão perplexa no rosto, era possível ganhar uma guerra perdendo todas as batalhas?

Vai dar certo, confie em mim.” Ele a tranquilizou.

Sim…”

Durma agora, você vai ter que estar bem-disposta amanhã.”

Narja disse que estava sem sono, mas seguiu as ordens de Tyler e fechou os olhos. Pouco tempo depois ela estava dormindo.

Tyler não saiu do lado dela, ele apenas ficou ali sentado naquele quarto, pensando no que deveria fazer.

A população que era sua maior preocupação já tinha sido evacuada. Tyler tinha que esperar a primeira onda de feras avançar para ter uma ideia aproximada de como agir.

Ele já foi um simples soldado e sabia como era ter que pagar na pele por decisões mal pensadas de generais idiotas.

***

Está pesado?” Tyler perguntou a N°1.

A garota tinha um colete tático recheado de pentes e granadas. “Não.” Ela negou.

Fique sempre por perto, não saia da minha vista.”

Certo.” Narja assentiu obedientemente.

Pouco antes do pôr do sol, os homens começaram a se reunir em suas trincheiras e barreiras.

Petrus, qual a melhor música para a ocasião?” Tyler perguntou quebrando o clima.

Podíamos começar com We Will Rock You e depois Thunderstruck.” Petrus que estava acostumado com o jeito de Tyler lidar com esse tipo de situação, deu logo suas preferências.

Muito bom, acrescente Fortunate Son, Shoot to Thrill, Carry on Wayward Son e Immigrant Song nessa lista e ponha para tocar!”

Depois de ouvir as ordens de Tyler, Petrus abandonou sua posição e foi até uma camionete especialmente preparada.

O som alto e rítmico das batidas e palmas despertaram os homens de semblante caído. Petrus pegou um microfone e gritou. “Hoje mostraremos como os soldados do império ganham suas batalhas! Ave Império!”

Ave Império!” Um brado forte ecoou na praia, e como se tivesse atendido a deixa, o mar se tornou turvo e revolto.


Autor: Lion | Editor: Bczeulli | QC: Delongas



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