VM – Capítulo 119 – Uma mente analítica.



“Nº1.” Tyler falou em tom sério. “Tudo o que você ver e escutar a partir de agora será segredo, não conte a ninguém.”

“Sim mestre.” A menina respondeu obedientemente.

“Você está sabendo de alguma coisa sobre uma invasão de feras que vem do mar?” Ele quis saber.

“Não mestre.”

“Pois bem, parece que em um ciclo de 70 anos, existe um fenômeno onde feras marinhas invadem a terra e destroem tudo em seu caminho.”

“Oh!” N°1 ficou surpresa. “E como o mestre vai derrotá-los?”

“Com a cabeça.” Ele respondeu sorrindo. “Vamos, hoje à tarde eu vou ter uma reunião com algumas pessoas e quero que você venha ver, apenas fique em silêncio e tente aprender.”

“Certo.”

***

Nº1 passou a manhã inteira tendo aulas junto com os outros estudantes enquanto Tyler começava a se organizar.

Ele sabia muito bem que não seria o suficiente juntar uma multidão de homens e armá-los. Isso seria uma idiotice.

Uma guerra é feita de milhares de pequenos fatores diferentes e quem conseguir compreender mais deles ganha, o maior desafio para Tyler era lutar contra um exército de feras. Todo exército tem o seu modus operandi, Ele não sabia se seria uma luta até que o último fique de pé, ou se bastava derrotar o líder para que o resto entrasse em colapso.

Ele fez uma lista de tudo o que achava prioritário, ele precisava estar bem equipado para esse desafio.

Quando deu a hora da reunião, ele mandou alguém pegar Nº1 que ficou quieta em um canto.

“Então o mestre pensa em levar trabalhadores comuns também?” Thoran perguntou depois de olhar a lista de Tyler.

“Está certo, muitos deles já podem operar muitos dos equipamentos que eu quero levar para lá, será muito mais simples levá-los do que treinar novos.”

“Senhor, creio que teremos 400 homens disponíveis.” Petrus que era um dos homens que tinha terminado o curso de COMANDOS e agora estava coordenando o treinamento das tropas regulares informou.

“Ótimo, acho que será o suficiente, vamos arrumar tudo e partir em 4 dias.” Depois de falar disso, Tyler tratou de mais alguns assuntos práticos com escolha de veículos, pessoal, munição e equipamentos.

***

“Mestre por que o senhor deu mais atenção às pessoas de apoio do que aos soldados?” Nº1 perguntou quando os dois estavam a caminho de casa.

“Na guerra é mais importante a infraestrutura do que o combate em si.” Ele respondeu.

“O que isso quer dizer?”

“Imagine que dois exércitos estão lutando, um grande e outro pequeno. Depois do primeiro dia de luta o exército grande gastou todas as suas flechas e lanças, muitos dos seus soldados perderam as espadas e quebraram seus escudos. Por outro lado o exército pequeno conseguiu repor tudo o que perdeu rapidamente. Quem você acha que vai ganhar?”

“O pequeno.”

“Na guerra o mais preparado sempre ganha. No futuro você tem que estar atenta a esses pontos, um soldado precisa de comida, abrigo, remédios, armas e etc. Não é apenas jogar os dados e esperar pela sorte.”

“Eu vou dar o meu melhor!” Nº1 falou com confiança.

Tyler sorriu, ele estava apostando alto com essa menina.

Mais tarde, Tyler estava fazendo o jantar dos dois quando ele percebeu que Narja ficava olhando fixamente para a panela onde as batatas estavam sendo cozidas. “Algum problema?” Ele quis saber.

“Eu aprendi sobre o ciclo da água hoje.”

“É mesmo? Me explique então.” Tyler pediu.

“As águas dos mares, lagos e até das poças de água viram nuvens. Quando as nuvens se juntam elas formam a chuva, e a chuva forma os rios e lagos, os rios correm pro mar e tudo acontece de novo.” A menina explicou.

Ignorando uma coisa e outra Tyler ficou feliz em ver que ela tinha aprendido. “Que bom que você entendeu.” Ele elogiou.

“Mestre, tem algo que eu ainda não entendi.” Nº1 tinha uma expressão complicada enquanto olhava para a panela.

“Fale.” Ele pediu.

“O mestre me disse outro dia que a água só ferve a 100 graus, essa panela está a 100 graus?” Ela quis saber.

“Sim, está.”

“Eu nunca vi uma poça de água ficar tão quente assim, como ela pode virar uma nuvem?” Pela face da menina ele podia ver o tanto que ela estava concentrada em encontrar uma resposta.

Tyler parou o que estava fazendo, ele estava espantado com a pergunta da menina. Não pela dificuldade da questão, afinal a resposta era bem simples, o que realmente lhe deixou de queixo caído foi o grau de observação que uma pessoa tinha para pensar em algo que passava despercebido por milhões de pessoas durante toda as suas vidas.

“Vamos até o escritório.” Ele a chamou. “Lembra de quando eu te falei sobre os átomos e as moléculas?”

“Sim, elas são os blocos de construção de todas as coisas.” Ela respondeu obedientemente.

“Imagine uma poça de água, ela é formada de muitas e muitas moléculas, não é?”

“Sim.”

Tyler desenhou uma poça e várias bolinhas diferentes. “Lembra também quando eu falei sobre os estados da matéria?”

“Hummm…” A menina colocou o dedinho pálido na boca e pensou. “Sólido, líquido e gasoso?” Ela sondou incerta.

“Sim, está correto. Agora qual é a diferença entre eles?”

Ela pensou por muito tempo e não conseguiu responder.

“Vou deixar mais fácil.” Tyler começou a desenhar 3 retângulos diferentes, em um dos potinhos estavam espaçados e velozes, no outro eles pareciam mais juntos e lentos, e no último estavam colados e sem movimento. “Me diga em que estado está cada um deles.”

“Gasoso, líquido e sólido.” Nº1 falou prontamente.

“Agora qual desses tem mais energia?”

“O gás.”

“E como um líquido se torna gás?”

“Aquecendo!”

“Correto, mas para ser mais correto ainda seria dizer que é fornecendo energia. Quando a poça de água está recebendo a energia do sol, nem todas as moléculas estão recebendo a energia de forma ordenada, em algum momento uma delas acumula a energia necessária para virar gás muito mais rápido que as outras, sendo assim ela sai sem ser acompanhada pelas outras. Agora um fator que ajuda é a superfície de contato, quanto maior ela é mais fácil é de uma molécula ganhar energia suficiente.”

“Ahhh, agora eu entendi.” Ela tinha os olhos brilhando.

“Quando sua tia lavava suas roupas e as colocava para secar no varal, quais delas secavam mais rápido as estiradas ou encolhidas?”

“As estiradas.”

“É o mesmo princípio.”

“Sei, é verdade que o mar é salgado?” Narja perguntou.

“Sim, por quê?”

“Eu ouvi hoje, por que ele é salgado?”

“Lembra quando você mesma disse que os rios acabam no mar?”

“Sim, lembro.”

“E o mar vai para onde?”

“Para nenhum lugar mestre.”

“Bom, agora você precisa entender que toda a água dos rios têm sal dentro, embora seja muito pouco. Todo esse sal entra, mas não sai quando a água vira nuvem, depois de muitos e muitos anos com todo esse sal entrando o mar ficou salgado.”

Nº1 balançou a cabeça como se estivesse assimilando tudo o que ouviu de Tyler.

“Você nunca viu o mar não é?” Ele perguntou.

“Não.”

“Então não se preocupe, nós vamos ver o mar muito em breve, ele só não estará em uma época boa para nadar.” Tyler lamentou. “Você sabe nadar?” Ele perguntou depois, desde que Narja tinha vindo morar com ele, ele ainda não tinha perguntado isso ainda.

“Não.” A menina disse corando.

“Bom, a piscina ainda não está pronta, mas eu vou cuidar disso em breve.” Embora Tyler tivesse montado toda a sua casa, ele não tinha montado sua piscina ainda pois estava sem tempo. “Narja eu queria te perguntar outra coisa.”

“Sim mestre.”

“Quando eu te atendi na primeira vez, eu pedi para você pegar sol de manhã e à tarde, você fez isso?”

“Sim mestre.”

“Então por que você continua tão pálida?” Tyler estava preocupado com essa menina, ela não tinha a pele branca, ela era realmente pálida ao extremo, e mesmo que o seu cabelo fosse negro como carvão e os seus olhos incrivelmente verdes dessem a ela um ar muito agradável de se ver. Ela ainda era branca demais.

“Mestre eu segui tudo o que o senhor falou, mas eu fiquei doente depois, minha pele ficou vermelha e doeu muito depois.” Nº1 disse com vergonha.

“Era para você ficar só no início da manhã ou no final da tarde.” Ele explicou.

“Eu fiz como o senhor mandou. Mas mesmo assim fiquei doente.”

“E agora, durante as manhãs você tem corrido comigo, por acaso se sente mal depois?”

“Um pouco, eu me sinto quente e tenho um pouco de dor de cabeça.”

Insolação? A menina realmente ficou com isolação por ficar meia hora no sol de manhã cedo? “Você sempre se sente mal quando anda no sol?”

“Sim.” Ela assentiu.

“Sempre foi assim?” Ele quis saber.

“Quando eu era pequena não, mas piorou depois.”

“Certo, de hoje em diante eu vou te dar roupas especiais que vão ajudar e também um creme que serve para proteger.” Tyler pensou que ela devia ter alguma síndrome ou alguma forma de albinismo, isso até que fazia sentido, pois ela tinha uma pele muito branca e talvez pela falta de melanina ela tivesse uma tolerância baixa em relação ao sol.

Para contornar isso ele daria a ela um bloqueador solar de fator 100 e algumas roupas com proteção UV. Tyler tinha poucas dessa, porém era só para ela mesmo, então não faria falta.


Autor: Lion | Editor: Bczeulli | QC: Delongas



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