VM – Capítulo 117 – Casa nova, lembranças velhas



 

Para o local da sua futura residência, Tyler reservou um terreno de 20 hectares, hoje esse local era consideravelmente afastado da cidade, contudo Tyler sabia muito bem que era apenas uma questão de tempo até que ela crescesse até ali.

Quanto ao tamanho ele achou que 20 hectares era o suficiente para agora e para o futuro, Tyler se via como um homem de poucas necessidades. Seus planos eram apenas um jardim, um pomar e uma horta, ele sabia que por muito tempo a maior parte desse lugar ficaria vago.

Mas ele pensou que talvez no futuro alguém quisesse fazer algo, e esse alguém era Calie…

Tyler não havia desistido dos seus planos, trazer Calie para cá era uma prioridade a qual ele gastou muita energia. Desde o dia em que o portal se fechou ele procurou pistas em todos os lugares possíveis, mas até agora tinha sido tudo em vão. Os timbiras não lembravam da caverna de suas lendas, e mesmo os sábios não tinham referência alguma de um portal entre os mundos.

Mesmo assim ele não desistiu, nesses poucos meses ele não lembrava de uma única noite que ficou sem pensar nela. Calie tinha dado a Tyler algo que ele procurou por décadas, e mesmo hoje se lhe fosse dada a oportunidade de voltar no tempo e escolher entre ela e aquela merda de portal, ele escolheria ela um milhão de vezes.

De vez em quando ele se lembrava dela em coisas tolas e quando chegava à noite, era pior ainda. Tyler sabia que se ficasse sem fazer nada ele ficaria esperando o sol nascer com Calie em seus pensamentos. Na verdade essa era de longe a maior razão dele dar aulas em todos os horários disponíveis.

Montar a casa foi consideravelmente mais fácil, desde que ela era menor e ele já tinha adquirido certa prática com o instituto.

A cada contêiner encaixado Tyler sentia um peso extra em seu coração. Depois de ter fechado o contrato de compra, a empresa ainda entrou muitas vezes em contato com ele para decidir pequenos ajustes e preferências na decoração.

O problema era que ele estava ocupado na época, e quem cuidou dessa parte foi Calie…

Indiretamente ele viu cada toque pessoal dela na casa, quer fosse em um abajur ou na cor da cortina da sala.

Depois de terminar a casa, Tyler sentiu-se mais sozinho ainda, no calor do momento ele tinha mandado construir uma verdadeira mansão. 11 suítes, academia, cozinha gourmet, ambulatório, escritório, biblioteca, oficina e um laboratório.

Na noite em que ele terminou a montagem, foi de longe a sua pior noite em Aurora. As decorações mais delicadas não vinham postas em seus devidos lugares, pois eram frágeis e poderiam ser danificadas no transporte.

Quando Tyler abriu uma caixa da decoração da sala, ele não pôde conter suas lágrimas.

Sem saber como aquilo veio parar ali, um porta-retratos mostrava três pessoas diferentes. Calie, Tyler e Mel.

A foto foi tirada no dia em que eles foram para a Disney, Calie e Mel exibiam largos sorrisos com orelhas de Mickey na cabeça. A pequena Mel estava radiante segurando Tupã nos braços, até Tyler quem ainda estava em sua velha forma, parecia feliz e completo naquele momento.

“Como eu fui tolo…” Tyler lamentou-se.

“Eu vou te trazer de volta, custe o que custar!” Ele repetiu essa frase, várias e várias vezes naquela noite. Era quase um mantra de autoaceitação.

***

“É aqui.” Tyler falou para Narja quando ele abriu a porta da garagem.

Hoje é o dia em que ele a trouxe para morar com ele, tia e sobrinha tiveram sua despedida e agora ela estava sob a tutoria exclusiva dele.

“Isso abre sozinho?” Narja ficou curiosa.

“Sim, depois eu te falo como funciona.” Tyler desceu do carro e levou a menina para dentro.

Narja era um misto de emoções, Tyler podia ver tudo naquele pequeno rostinho. Alegria, saudade, nervosismo, excitação, medo, etc.

“Essa é a primeira vez que você fica longe da sua tia?” Ele quis saber.

“Sim.”

“Você sabe ler e escrever?”

“Não.” O rosto pálido de Narja ficou levemente rubro de vergonha.

“Não tem problema, eu não já falei que vou te ensinar tudo que eu sei.” Ele a tranquilizou.

Sem falar nada, Narja apenas balançou a cabeça.

“Vou te mostrar o seu quarto.” Tyler a levou escada acima.

Os olhos da menina brilharam quando ela viu o quarto. Uma cama de casal, uma mesa e uma estante vazia, além de um armário de roupas e um banheiro. Não era muito luxuoso, mas sem dúvidas era confortável e acolhedor.

Tyler lhe ensinou a usar o banheiro e principalmente a ter cuidado na hora de abrir a água quente no banho. “Aqui é onde suas roupas serão guardadas.” Tyler mostrou o guarda-roupas para ela.

Narja que humildemente segurava uma pequena sacola de algodão, colocou-a no guarda-roupas.

“Mais alguma coisa?” Tyler ficou com pena, naquela pequena trouxa, não deveria ter nada mais que duas ou três peças de roupas.

“Não.” Ela balançou a cabeça de volta.

Tyler olhou para o seu relógio então falou. “Ainda é cedo, venha comigo.”

Seguindo o seu mestre, Narja andou de volta para a camionete. Tyler levou a menina até o pátio onde os contêineres ficavam armazenados desde que chegavam de Mil. Além dele ter comprado muita roupa com seus próprios recursos, teve ainda o fato dele ter dado um “calote” em alguns supermercados que guardavam parte das suas mercadorias na caverna.

Sendo assim Tyler tinha muita roupa, seja ela masculina, feminina, adulto ou infantil. Ele apenas olhou em uma pequena planilha em um tablet e foi até o contêiner correspondente.

“Venha aqui.” Ele chamou a menina e foi abrindo várias caixas diferentes. “Aqui, vá segurando!” Tyler começou a empilhar muitas peças diferentes nos braços dela.

Camisas simples, de manga comprida, calças, shorts, roupas íntimas, casacos, roupas de academia e calçados em geral. A menina teve que ir e voltar no carro três vezes para levar tudo o que Tyler tinha dado a ela.

“Isso tudo é para mim, mestre?” Ela perguntou emocionada.

“Claro, eu não costumo usar camisetas da hello kitty.” Tyler riu, mas Narja não entendeu a piada.

“Não é muito? Eu nunca tive tantas roupas antes.” Ela confessou.

“Agora você tem, gostou delas?”

“Sim!” Ela estava exultante.

“Que bom, você parece ter crescido rápido, quando essas roupas ficarem apertadas você pode vir pegar mais.”

“Me… mestre.” Ela gaguejou.

“Sim?”

“O mestre me deu algumas moedas outro dia, eu posso levar algumas dessas roupas para a minha tia? Eu vou pagá-las.” Narja tinha um olhar envergonhado.

“Desculpe, foi um erro meu em não notar isso, pegue o tanto que quiser.” Ele autorizou.

“Obrigada, obrigada.” Ela disse alegre.

***

Naquela noite eles levaram roupas novas para a tia da menina e depois voltaram para casa. Narja foi tomar banho enquanto Tyler preparava o jantar, hoje ele inauguraria a cozinha, mesmo que fosse uma simples macarronada, ainda sim era a primeira vez que ele realmente cozinhava desde que se mudou de vez.

“Como foi?” Tyler perguntou para a pequena quando ela desceu.

Narja tinha os cabelos molhados e estava vestindo uma roupa nova.

“É quente…” Ela confessou.

“Eu falei para ter cuidado.” Ele riu.

“É como chuva, mas só dentro do banheiro. Eu gostei.”

Tyler franziu o cenho, ele nunca tinha pensado que o chuveiro era uma chuva artificial. Se bem que o nome é autoexplicativo.

“Vamos comer, ainda hoje vamos estudar um pouco e depois eu vou te passar a sua programação para a semana.”

A menina apenas concordou com a cabeça e obedeceu.

Depois de ambos comerem, Narja perguntou: “Seremos só nós dois?”

“Eu tenho mais 9 quartos sobrando, acho que vou procurar mais 9 pessoas para ensinar. Estava pensando em ter 10 aprendizes diretos, assim como você.” Tyler disse o pensamento que tinha corrido na sua mente por dias.

“Eu sou a primeira?”

“Sim, de agora em diante te chamarei de N°1.” Tyler gargalhou como se fosse uma piada, porém a menina ficou muito feliz em receber o apelido.

“N°1!” Ela repetiu.

“Vamos até a biblioteca, é lá que eu darei suas aulas.”

Narja apenas assentiu e seguiu atrás dele.

Tyler separou uma lousa e alguns materiais escolares e começou o ensino do zero. A primeira parte foi letras e números, ele se preparou para repetir muitas vezes essa parte, mas ,estranhamente, ela pegou tudo em apenas uma hora.

Nesse curto período ela já era capaz de contar de 1 a 100 e dizer todas as letras, maiúsculas e minúsculas, bem como algumas sílabas.

Tyler terminou a noite com alguns vídeos educativos da vila sésamo.

“Que menina interessante.” Ele sussurrou consigo mesmo, durante toda a noite foram raras as vezes que ele repetiu a explicação.

Tyler ficou muito feliz com esse desempenho, em toda a sua vida acadêmica ele nunca tinha visto alguém tão capaz quanto ela, ela era como um diamante bruto que estava fadado a morrer sem brilhar, felizmente ela caiu nas mãos dele.

 


Autor: Lion | Editor: Bczeulli | QC: Delongas



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