VM – Capítulo 112 – Braço forte – Mão amiga.



“Bom…” Tyler suspirou aliviado.

Ele tinha terminado essa sessão de exercícios com os rapazes, e 50 deles foram eliminados. Tyler ficou com pena de quem limparia os obstáculos da pista, mas isso não era problema dele.

Esse era o final da primeira fase, Tyler ainda tinha 150 homens a sua disposição e precisava enxugar mais esse número. Todo o sofrimento que eles tinham passado até agora não significava nada para o curso, era apenas uma forma de descartar a gordura que vinha.

“Esse foi apenas um aquecimento básico, a partir de agora vocês podem realmente se considerar no curso de COMANDOS!”

Tyler levou o restante dos homens para um pátio onde várias outras pessoas os esperavam. Essas pessoas foram ensinadas por ele a usar máquinas de cortar cabelos, e sem nenhuma dó eles rasparam no zero cabelo e barba de todos.

Pode parecer simples e desnecessário, porém é um passo muito importante pois iguala os homens e mostra que ali dentro todos são iguais, é um rito de passagem onde você deixa o velho “EU” e começa uma nova história.

Tyler deu a cada um conjunto novo de roupas e os enviou para um acampamento com grandes barracas militares de campanha.

Por sorte, ele já havia previsto que esse equipamento era muito necessário então comprou o quanto podia delas nas sobras do exército Americano. Essas barracas foram usadas no Iraque e Afeganistão e agora tinham ido servir em outro mundo.

Dessa vez Tyler os alimentou de verdade e os deixou descansar.

Descansar até que a noite chegasse…

***

Tyler foi gerenciar o andamento das construções e ficou bastante satisfeito com os novos galpões, eles ainda não estavam prontos, mas as paredes de hiperadobe já estavam bem adiantadas.

O madeiramento para o telhado e outros serviços já estava pronto e os operadores continuavam fazendo. Todos que viam a serra funcionando ficavam maravilhados, Tyler riu quando vários e vários sábios se sentaram perto da máquina e passaram o dia todo olhando ela funcionar.

Tyler sabia que esse equipamento era uma vantagem muito maior que tudo que ele tinha por aqui, não só a velocidade era superior ao ponto de nem valer a pena comparar, como a qualidade era maior e o desperdício era muito menor.

Nem toda madeira desse mundo era cortada e beneficiada com serrotes, esse tipo de ferramenta é caro, pois é feito de forma artesanal e requer muito trabalho do ferreiro. A solução mais simples para um camponês comum era fazer tábuas com um machado.

A partir daí pode-se imaginar o tanto que se perdia em madeira quando se tentava beneficiar algo para casa.

Todas as ruas da futura Atlantis D.C. estavam delineadas por piquetes e cerca de 200 metros de ruas já eram calçadas com pedras. Tyler tinha dois planos para hoje, começar a instalação da iluminação pública e os banheiros coletivos.

A iluminação pública era muito especial para Tyler, pois tinha sido encomendada por ele em exclusividade. Ele tinha visto que recentemente na África várias ONG’s improvisaram pequenas luzes LED’s em garrafas pet cheias de água.

A água dentro da garrafa serve como uma lupa amplificando a potência da luz, e uma pequena placa solar alimenta o conjunto transformando-o em uma iluminação eficiente e independente.

Tyler tinha encomendado um conjunto mais profissional, feito totalmente sob medida. Para ficar pronto só faltava a estrutura do poste e água, que era adicionada de cloro para que não criasse lodo com o tempo.

Como Tyler era “dono” do projeto e praticamente estava subsidiando a empresa que estava fazendo, a iluminação não saiu por mais que 5 dólares. Salvo algumas que eram bem maiores e mais potentes, cada uma tinha uma luminosidade média equivalente a 100 velas.

Parece muito pouco para o nosso padrão moderno, contudo esse mundo literalmente desaparecia nas trevas quando anoitecia. Qualquer ponto de luz, por menor que seja era quase um farol!

Os banheiros eram uma preocupação de Tyler por dois motivos. O primeiro era garantir a higiene e saúde pública da população, em pouco tempo, milhares de pessoas viriam para cá. E inevitavelmente lixo e fezes seriam jogados no rio e por sua vez contaminaria a água que muita gente bebe. Tyler cortaria o mal antes mesmo dele nascer.

E a segunda razão é que ele precisava de combustível, e um biodigestor daria gás natural para os carros, geradores e forjas.

Tyler saiu pela cidade e foi marcando com um piquete onde queria um poste. Depois ensinou o jeito certo de colocar água no reservatório.

Naturalmente o poste seria de madeira, no começo seriam simples estacas fincadas no chão. Contudo, depois que houvesse uma folga nos trabalhos ele mandaria preparar alguns bem bonitos de madeira torneada.

Tyler também separou um local para fazer uma horta irrigada com núcleos de feras. Ele sabia que por algum motivo a alimentação que saía, era muito mais nutritiva que a comum, na verdade ela até dava uma disposição que ele mesmo não conseguia explicar, sua explicação mais lógica atualmente era magia…

Ele precisava dessa disposição extra para treinar seus soldados além do que era humanamente possível.

***

Às 2:00 AM Tyler terminou seu treino de esgrima, desde que teve aulas com Otaviano, ele começou a treinar todos os dias.

“Vamos bater no ferro enquanto ele ainda está quente.” Tyler riu e foi até o alojamento.

* Explosão *

Tyler acordou todos com fogos de artifícios.

“Boa madrugada a todos, acredito que os senhores tenham descansado, pois agora vamos nadar um pouco!”

Sem entender nada os homens foram acordando um a um. E vestindo um uniforme completo eles chegaram até a beira do rio.

“Cada um de vocês, peguem um bastão desses na mesa.” Tyler gritou.

De forma ordenada eles pegaram um pequeno tubo plástico. “Agora prendam entre as mãos e flexionem como se quisesse quebrá-lo.” Ele deu a instrução.

Conforme cada um dos homens seguia as ordens eles viram um pequeno facho de luz surgir dentro do bastão. “Agora balancem com força!”

Para alguém moderno, não era novidade o que Tyler estava mostrando aos homens, aquilo era simplesmente um bastão de luz química. Mesmo uma pessoa que não é militar ou nunca acampou já viu um desses em festas.

Sendo muito seguros, baratos, descartáveis, não emitindo calor e funcionando em quase todas as condições adversas. Eles são perfeitos para o uso em situações extremas.

“Estão vendo o gancho na ponta?” Ele apontou. “Enganchem nas costas do companheiro ao lado e depois me sigam até a água.”

Cada um deles se certificou de enganchar no companheiro que estava perto. A água gelada definitivamente espantou os últimos resquícios de sono.

“Vamos nadar um pouquinho!” Tyler rio. “Estão animados?” Ele perguntou.

“Senhor, sim, senhor!”

“Então por que não estão rindo? Se vocês querem ser caveiras, se querem ser COMANDOS, aprendam a rir nas piores condições!” Tyler gritou e soltou a risada malévola da caveira. “Iahaha… iahahaha…”

“Iahaha… Iahahahaha…” Os homens riram entrando na água fria.

Tyler, como era esperto, estava em um bote inflável, ele seguia na frente puxando a multidão dentro do rio.

“Você!” Ele apontou para o primeiro homem no pelotão.

“Senhor!” O rapaz respondeu.

“Qual o lema do nosso magnífico exército imperial?” Tyler perguntou.

“Senhor, esse recruta não sabe, senhor!”

“Que diabos de recruta você é?” Tyler rugiu. “Você aí!” Ele seguiu para o próximo. “Qual o lema do nosso exército?”

“Senhor, esse recruta também não sabe, senhor!” O outro respondeu.

Tyler estava jogando com a mente deles, ele sabia que eles nem sabiam o que era um lema. “Para começar, lema é uma frase, norma ou sentença que resume um ideal, um objetivo ou uma ideia!” Ele gritou. “O Nosso poderoso exército tem um lema simples e curto.”

Tyler tomou ar enquanto o clima era estabelecido entre os homens. “Braço forte – Mão amiga!”

Ninguém saudou ou gritou em resposta, tudo era muito novo para eles. “Recruta, o senhor entende o que esse lema quer dizer?” Tyler perguntou ao primeiro.

“Senhor, não, senhor!” Ele respondeu.

“Recruta, você é um animal? Você acha que eu devo mudar a sua comida para um monte de capim?” Tyler rugiu.

“Senhor, não, senhor!” O pobre recruta ficou com medo da ameaça de Tyler se tornar realidade.

“Então não aja igual a uma mula! Pense e me diga para que serve os braços fortes?” Ele quis saber.

“Senhor, os braços fortes servem para proteger, senhor!” O rapaz falou meio inseguro.

“Muito bem recruta, parece que ainda tem salvação para você!” Tyler soltou um pequeno elogio. “E você.” Ele apontou para o seguinte. “Para que serve a mão amiga?”

“Senhor, para ajudar, senhor!” O outro gritou de volta.

“Correto! Homens aprendam uma coisa, nós somos os braços fortes que protegem a nação, nós a defendemos e a mantemos segura a todo custo. A mão amiga é a ajuda que damos em momentos de paz, nosso dever vai muito além de travar guerras e vencer batalhas. Nós somos aqueles que ajudam o próximo.”

As palavras de Tyler eram simples, mas o peso que cada uma carregava era tremendo. Isso era toda uma nova doutrina de comportamento.

“Aprendam uma coisa, vocês não são mais homens comuns, nós militares temos o dever de ficar em segundo plano! Nós morremos e sangramos para que as pessoas possam dormir seguras e tranquilas todas as noites.”

A mensagem começou a entrar na mente de cada um, era difícil largar velhos hábitos, mas era isso que Tyler queria.

“Chega de conversa, vamos cantar um pouco!” Tyler gritou e puxou o coro. “Eu sou um fantasma, eu sou uma caveira!”

“Eu sou um fantasma, eu sou uma caveira!” Eles repetiram.

“Eu bebo teu sangue e da sua pele faço uma bandeira!”

“Não adianta correr, não adianta se esconder!

“Se um caveira te quer, tu vai morrer!”

“Na floresta densa te faço uma armadilha!”

“Na noite escura te armo uma emboscada!”

“Com o meu fuzil, te mato à distância!”

“Com minha faca, arranco sua cabeça!”

“Com minhas mãos. Arranco seu coração!”

“Iahaha… Iahahaha!”

“Iahaha… Iahahaha!”

“Iahaha… Iahahaha!”

Cantando cada música mais terrível que a outra os homens nadaram até um pequeno afluente, em comparação com os outros esse era especial, bom, esse era especial para Tyler.

Aqui era uma região pantanosa, era lamacento e se parecia muito com um ambiente de manguezal.

Poucos sabem, mas o bioma de manguezal é tido como um dos piores do mundo para se treinar, tudo fica atolado na lama e as árvores compostas de raízes aéreas fecham as passagens. Andar aqui de dia já é um suplício… andar aqui de noite era uma viagem para o inferno!

 


Autor: Lion | Editor: Bczeulli | QC: Delongas



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