VM – Capítulo 110 – De volta a Atlantis.



Da primeira vez, só a vinda representou 10 dias de viagem. Agora Tyler conseguiu fazer todo o trajeto de ida e volta em apenas 8 dias.

Ele sentiu sua sorte melhorar quando chegou ao porto, em pouco mais de uma semana Tyler ficou impressionado com o desenvolvimento da obra. Dalin tinha feito um bom trabalho e seguiu corretamente as especificações deixadas por ele.

“Onde está Dalin?” Tyler perguntou para Waz.

“Ele está na pedreira.” Waz respondeu.

“Os sábios já chegaram?”

“Sim, boa parte deles sim.”

“Ótimo.” Tyler ficou bem mais tranquilo, tudo o que ele precisava agora era de pessoas capazes, mão de obra ele tinha aos montes, pessoas capazes de gerir uma obra eram difíceis de achar.

Tyler foi inspecionar a construção. Dalin tinha cavado parte da margem e começado as fundações bem antes da linha d’água, isso garantia uma maior resistência. Sem falar no processo utilizado, Tyler não sabia como, mas Dalin fez a fundação toda com pedras bem grandes, ou seja, a parte que estava em contato direto com o solo lamacento do rio, era bem mais estável.

Seguindo um sanduíche de várias camadas ele foi diminuindo o tamanho das rochas gradualmente até chegar no topo.

“Dalin teve um pouco de dificuldade em quebrar as pedras grandes em menores, o ritmo diminuiu um pouco desde que chegou nesse estágio.” Waz informou.

“Não tem problema, eu posso resolver isso.” Tyler tranquilizou.

“Hã?” Waz não entendeu o que Tyler quis dizer, quando ele iria perguntar mais sobre, foi interrompido por Tyler.

“Eles fizeram certo.” Tyler elogiou.

Longe nas águas do rio, ele viu vários homens andando sobre as águas. Bem, era isso o que parecia quando ele olhava de longe, contudo Tyler sabia exatamente o que estava acontecendo.

Ele tinha ordenado o corte das árvores em todo o entorno da pedreira, contudo a madeira não seria beneficiada lá.

Encher as balsas de transporte com os troncos seria muita perda de tempo, e o motivo era muito simples, elas boiam!

Tyler tinha aprendido essa lição na Amazônia, os madeireiros de lá sabem muito bem como levar os troncos de árvores pelo rio.

Você começa jogando-os na margem e depois vai alinhando eles em fila indiana, depois prega uma argola de metal e transpassa um cabo de aço.

Assim as toras se tornam um grande bloco flutuante, muito coeso e seguro.

É claro que eles poderiam enviar um a um rio abaixo, porém é muito mais perigoso para os operadores e também corre-se o risco de se perder os troncos, caso passem pelo porto sem serem vistos.

Sendo assim, os homens que “andavam” sobre as águas, nada mais eram que os trabalhadores em cima dos troncos.

“Onde podemos comprar cavalos?” Tyler perguntou a Waz.

“Cavalos?”

“Sim, eu vou fazer várias carruagens de carga e preciso de cavalos para puxar.” Ele esclareceu.

“Não seria melhor usar os tanzões?” Waz sugeriu.

“Como assim?”

“Ora, ele é muito mais forte que um cavalo, acho que seria melhor.”

“…” Tyler franziu o cenho, ele ainda não tinha visto o animal que era fonte de renda da cidade. “Me leve para dar uma olhada.” Ele pediu.

“Claro, me acompanhe mestre.”

***

“Eu sou um idiota!” Tyler riu de si mesmo por não ter vindo mais cedo ver esses animais.

Segundo as descrições que Waz deu, Tyler achava que o tanzão era uma espécie de boi e no máximo ele era um pouco maior que um bovino comum.

Que ignorância!

O bicho estava mais perto de ser da família do rinoceronte do que de um boi. Embora Tyler nunca tivesse visto esse animal antes, ele sabia exatamente qual ele era, pois ele também existia na terra. Bom, para ser mais correto, existiu.

O unicórnio siberiano, que tinha um nome em latim o qual Tyler não lembrava, tinha existido na sibéria e foi extinto a cerca de 29 mil anos atrás.

A descrição mais simples do bicho era, um rinoceronte peludo com um único e longo chifre no centro da testa.

Seu pelo era marrom escuro, ao todo ele deveria ter uns 2 metros de altura e uns 4 de comprimento, pesando algo na casa das 3,5 toneladas. Apesar de ser extinto na Terra, vários esqueletos foram encontrados e provaram que eles coexistiram junto com os homens das cavernas.

“Ele é manso?” Tyler perguntou inseguro, aquele bicho impunha respeito.

“Se for criado desde novo, sim.” Waz respondeu.

“Todo o leite e carne que vocês vendem, é desse animal?”

“Sim, eles produzem muito leite e como é grande também rende bastante carne.”

“Já usaram ele para puxar carroças?” Tyler quis saber.

“Uma vez ou outra os usamos para mover coisas grandes, mas é difícil fazer carruagens, selas e arreios para eles e também as cordas arrebentam facilmente quando estamos arrastando coisas pesadas.” Waz esclareceu as dificuldades.

“Vamos resolver isso agora.” Tyler estava animado. “Outra coisa, ele sabe nadar?” Tyler soltou um sorriso travesso.

***

Dalin soube do retorno de Tyler e foi vê-lo.

“Mestre, fico feliz em vê-lo novamente.”

“É bom estar de volta, você fez um bom trabalho.” Tyler elogiou.

“Já era para estar tudo pronto, mas quebrar as pedras até que ficassem pequenas demorou muito.” Dalin se explicou.

“Não se preocupe eu trouxe o equipamento para isso, a partir de agora mande as pedras como quiser que eu as trituro aqui.”

“Certo…” Dalin não sabia como Tyler faria isso, mas estava curioso. “Quando o senhor vai mexer nesses troncos?”

“Vou começar hoje, precisamos de tábuas para concretar o porto.” Tyler respondeu.

“Concretar?” Dalin não sabia o que significava essa palavra.

“Sim, hoje eu vou te mostrar um dos maiores segredos da construção, o concreto!”

“O que é esse tal de concreto?” O sangue anão de Dalin ferveu em excitação.

“Em outras palavras é uma pedra artificial.”

“Como assim?” Ele ainda não tinha pegado o fio da meada.

“Imagine como seria fácil de se construir se eu pudesse transformar a areia em pedra com o formato que eu desejasse?” Tyler perguntou.

“Seria o paraíso…” Dalin tinha os olhos marejados. “Espere, isso é possível?”

“Sim, amanhã eu te mostro.” Tyler o deixou na expectativa.

Dalin não ficou muito satisfeito em esperar, contudo não podia fazer mais nada.

“Thoran vá e chame os sábios que já chegaram.” Tyler pediu.

***

“Boa tarde.” Tyler os recebeu. “Em primeiro lugar eu gostaria de agradecer a todos que se dispuseram a me seguir, nesses primeiros momentos eu tenho apenas trabalho para os sábios que têm experiência com construções e carpintaria, mas daqui a pouco tempo vamos ter muitas outras áreas precisando. Quem quiser ir ajudando ou aprendendo, seja bem-vindo.”

“O que vamos fazer exatamente?” Um senhor de idade perguntou.

“Vamos fazer uma cidade do zero, ou seja, tudo!”

“Mas…” O senhor estava confuso.

“Portos, casas, estradas, oficinas, quartéis, etc.”

“Que tamanho será ela?” Outro perguntou.

“Ela será a próxima capital.” Tyler deixou claro. “Senhores, vamos devagar. Não adianta nada eu encher vocês com muitas informações, hoje eu quero ensinar algumas coisas bem simples.” Tyler acenou.

Dois jovens entraram na sala com grandes caixas nas mãos. “Isso é um presente meu para vocês, é um relógio, uma fita métrica e uma balança. A aula de hoje é horas, pesos e medidas do sistema internacional!” Ele sorriu.

***

“…” Uma multidão estava com os olhos vidrados em cada ação de Tyler.

Das coisas que ele tinha tirado daquelas grandes caixas de metal, essa era uma das mais estranhas. Tyler tinha priorizado as ferramentas de construção e as ferramentas de carpintaria tinham um valor muito especial para ele.

A “coisa” que tinha chamado tanta atenção eram duas serrarias portáteis, Tyler tinha muitas delas a sua disposição, contudo nesse momento ele não tinha operadores.

Essas duas máquinas eram de modelos diferentes. Uma usava uma grande serra em forma de fita, essa fita tinha de 2 a 3 metros e fatiava os troncos em tábuas, ela também poderia fazer barrotes e vigas de qualquer espessura, todavia era mais trabalhoso. Para essa função Tyler preferiu usar a outra máquina, essa usava disco como a maioria das serras comuns, só que sua forma de funcionamento era diferente. Ele cortava tanto na vertical como na horizontal e dessa forma um tronco pode ser cortado em qualquer medida.

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No começo foi meio complicado, o barulho do motor e raspas de madeiras jogadas pelas máquinas assustaram bastante. Contudo não demorou muito até se acostumarem e no final da tarde os homens quase não precisavam mais das dicas de Tyler.

Enquanto a madeira estava sendo cortada Tyler ligou um triturador de rocha, e começou a transformar as pedras grandes em pequenas britas ideais para concreto.

Diferente do imaginado, o triturador não era um martelo gigante, era apenas duas placas em V, uma fixa e outra oscilante. Todas as duas possuem ranhuras que agarram as rochas e em cada oscilação a rocha tende a ir mais fundo no V, como a pedra não pode subir ela se parte devido à pressão constante.

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“Dalin, preste atenção!” Tyler ligou a máquina e os homens começaram a jogar pedras dentro.

“Ahhh…” Dalin estava boquiaberto. “Qual o menor tamanho que ela fica?” Ele perguntou depois de um tempo.

“Tudo depende de como você regula o triturador, mas o mínimo seria igual a uma areia grossa.”

“E para quê serve uma areia assim?”

“Isso na construção é chamado de pó de pedra. Vamos usar muito mais para frente, hoje eu quero que você se concentre em aprender a fazer concreto!” Tyler o instruiu.

“Claro!” Dalin imediatamente virou um bom menino e ficou atento às ações de Tyler.

“Em primeiro lugar vamos definir as paredes do porto com essas tábuas.” Tyler explicou. “Depois colocamos essa malha de ferro para dar um reforço extra na estrutura.”

Até agora o porto não era nada mais que um monte de pedras cercado por paredes de madeira.

“Vamos, comecem a misturar!” Tyler ordenou que os homens jogassem dentro de uma betoneira a areia e as pedras.

Cada uso de concreto tem a sua mistura ideal para o serviço, essa mistura é graduada em uma medida chamada FCK que significa resistência característica do concreto à compressão.

“O segredo disso tudo será isso.” Tyler mostrou um saco de cimento e deu uma tabela para Dalin. “Seguindo essa tabela você vai saber qual a massa mais indicada para os usos e a sua receita. Agora misture o cimento e adicione a água até que ele fique homogéneo.”

Dalin ouviu cada palavra de Tyler e ficou vendo quando ele despejou a massa cinzenta nos moldes de madeira.

A lama entrou em cada fresta das fundações, em cima restou apenas uma fina e nivelada massa.

“Quanto tempo até estar pronto?” Ele quis saber.

“Amanhã você já pode pisar nele, ele vai ficar curando até o vigésimo oitavo dia e depois disso a sua dureza só aumenta com o passar do tempo, outra coisa é que ele sempre deve ser molhado para que não rache, o concreto literalmente seca com água.” Tyler explicou.

“Isso é lindo!” Dalin tinha os olhos marejados.

Tyler não queria comentar de quanto era estranho ver um homem feio e careca chorando e apenas deixou quieto.

Naquele dia ele passou muitas lições para Dalin e os sábios, ele queria desafogar das suas costas essas tarefas mais mundanas.

***

“Senhor, amanhã chegam da capital os soldados que o senhor pediu para vossa majestade.” Thoran avisou Tyler que estava em seu quarto.

“Ótimo, obrigado por me avisar. Vá descansar, amanhã teremos um dia cheio!” Tyler sorriu.

“O senhor já voltou a dormir?” Thoran estava preocupado.

“Não, e não se preocupe eu estou bem. Amanhã vamos começar uma lenda.” Tyler riu e olhou para uma boina negra em cima da mesa.


Autor: Lion | Editor: Bczeulli | QC: Delongas



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